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domingo, 6 de novembro de 2016

BOB DYLAN: CANTO FALADO, PALAVRA CANTADA

Está aberta a sessão do repente. Quem é do canto falado, da palavra cantada, que se apresente na roda.
O som da voz, luz criada por Deus de presente aos homens e animais, veio no princípio, mas logo depois do Verbo, servia para os seres se comunicarem, fazer amigos ou apavorar inimigos e maus espíritos, além de conquistar terras e fêmeas, é a mais antiga e completa forma de expressão. 

Safo

Haja polêmica pela indicação de Bob Dylan para o Nobel de Literatura! Sem adentrar uma discussão que nunca será resolvida, acho  que Dylan às vezes quase que “declama” seus poemas, mais do que canta. (E algumas vezes, letra caudalosa, como a original de Like a Rolling Stone, com 10 páginas. Lembra-me a poetisa grega Safo (© 650 a.C.), e o épico Homero (© 850 a.C.), que meio que declamavam e meio que cantavam, assim como o bardo inglês Shakespeare (1568-1616). Todos adeptos da palavra cantada. Bob tem um pé na onda do "Talking Blues" a exemplo da gravação de Bouchillon (1926), ou das músicas de Woody Guthrie, Mean Talking Blues. Ouça abaixo: 

Canto Gregoriano
O canto gregoriano, meio falado (ad occasum laudabile nomen Domini), usava melismas que traduziam dúvida, súplica e elevava ao estado de contemplação, com longos vaivéns tricotados em poucas sílabas sobre os sons. O responsório da missa católica romana resistiu meio cantado em belíssimo latim, até tempos recentes. Dominus vobiscum; (resp): et cum spiritu tuum.  
Encenação do Pierrot Lunaire
Schönberg, liquidificando a palavra, revelou-a em sua fase abstrata, mas traduziu para a língua de Goethe o texto escrito por Albert Giraud originalmente em francês. Os pontilhismos do Sprechgesang do Pierrô Lunar, de 1912: J'ai les vers luisants pour fortune / Je vis en tirant, comme toi / ma langue saignante(“Tenho os versos brilhantes por sorte / eu vivo mostrando, como você / minha língua cáustica...”)
B´Boying
Esse canto falado e a palavra cantada, de antes da época de nossos vovôs, é desconhecido das gangues b-boying e MC de N.York e da molecada do Vidigal carioca ou Capão Redondo paulistano. Adotam o rap (Rythm And Poetry, “Ritmo E Poesia”), hoje "musiscigenado" até mesmo entre os rappers brasileiros sem conhecer-lhe significado e raízes. Gêneros similares sempre existiram.


Caymmi (Ag. JB)
O rap americano não usa mais do que duas ou três notas. Já o suposto criador do rap que alguns creditam ao Jair Rodrigues “deixem que digam, que pensem, que falem”, é uma balela - depois da introdução segue uma elaborada melodia, que desfila quase uma escala inteira (sem falar no fato de que os autores eram Alberto Paz e Wilson Menezes. É assim mesmo, Jair era o "canário", daí...Virou "dono" da música, outro vício brasileiro). Até “Águas de Março”, do Jobim, também teria sido precursora do rap, ou o divertido Caymmi do “João Valentão é brigão / pra dar bofetão / não presta atenção...”
E os brados populares, como aquele depois da vitória contra a Inglaterra, Copa de 1970? ? (“é canja, é canja, é canja de galinha / a nossa seleção...” – cujo final me abstenho de reproduzir). Ou o marketing político de “Getúlio, Getúlio, Getúlio e João Pessoa”, quem sabe ainda o mais recente “o povo unido jamais será vencido” e afins? Tecem loas até para o rap branco de classe média alta do Gabriel Pensador:  “Existem mulheres que são uma beleza / mas quando abrem a boca (...) Lôrabúrra!”. Aquilo é poesia mesmo, e bem construída.
Kid Morengueira
Moreira da Silva, o Kid Morengueira, frequentador contumaz do bas-fond da Lapa Carioca, era rei da palavra, da métrica perfeita, e contava estórias faladas entremeando partes cantadas em seus sambas de breque. Em “Olha o Padilha” (1952), Kid lembra o delegado carioca “caçador de playboys”. Prenderam o Kid, e, levado de camburão à chefatura, um barbeiro o aguardava. Ordem do “delega” Padilha: “raspa o cabelo desta fera”, humilhação mortal para o malandro “Chico cabeleira”. Para a música e ele entra com o breque: “Ah, ele quer ver minha caveira. Eu, hein? Se eu não me desguio a tempo ele me raspa até as axilas. O homi é de morte”.


Ilustração para L'Histoire du Soldat
Sublimes são os Rezitativ das “Paixões” (João e Mateus, entre 1724 e 1727) de Bach, narrados por um tenor. Canto falado é “A História do Soldado” (1918), de Stravinsky, com texto de Charles Ramuz. Um Fausto travestido de soldado entrega seu violino mágico para o capeta, tudo com direito a princesa, embalado em marchas, tango e ragtime, com tempero de folclore russo.
Aqui no Brasil, temos baiano, que mineiro diz que fala cantando, e temos mineiro, que baiano diz que fala cantando. E os cantadores, os repentistas que cantam falando e falam cantando: “triste ô feliz é o cantadô / qu’eu apanhá prá dá o castigo” (Elomar).
Sly and the Family Stone
E o “funk carioca”, modismo que nada tem a ver com o funk verdadeiro, como o do histórico Sly and the Family Stone? A dança dos piores bailes cariocas é pura catarse, com raras ou quase nenhuma nota, um vomitar de palavras no jargão das gangues de bandidos e traficantes, como no “Tchu Tchuca” do Bonde do Tigrão ("vem aqui com seu tigrão / vou (...) te dar muita pressão"). E há o “proibidão”, linha dos MCs Catra e Sabrina, de apologia à droga, ao crime e ao sexo versão XXX. MC, para quem não sabe, rapaziada, quer dizer Master of Ceremony: made in USA, Yes, Sir!

É hábito brasileiro “criar verdades” a partir de ilações. Essas, como dizia Goebbels, repetidas muitas vezes tornam-se reais para quem as comprar. Essas “verdades” não têm prazo de validade, infelizmente. Uma das mais curiosas delas fala do forró. Afirmam firme e forte que seriam bailes dos gringos, na Base Aérea de Natal, festas aberta para todos – os for all, de onde teria surgido o termo forró, garantem. É? Mas muito antes disso Chiquinha Gonzaga compôs seu “Forrobodó”, palavra que desde a segunda metade do século XIX dividia com forrobodança o nome dos bailes de maxixe (de “sô macho, ixe”), os forrós.  

Meu povo, estamos “à vontademente” redimidos. Em música nada se cria, nada se rejeita, derrepentemente tudo se aproveita. E termina aqui esse desafio de repentista, para que o Congresso Nacional, “no uso das atribuições e atribulações”, decrete, revogadas disposições em contrário:  “fica abolido a partir desta data, a bem público da péssima saúde mental do imaginário nacional, o rigor científico da nossa lorotada musical”.  Estão encerrados desafio e sessão e, concordando ou não, salve o jeito que sempre cantou e falou o bardo Bob Dylan.

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