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sábado, 12 de setembro de 2020

MÁSCARAS

 


Bela marcha carnavalesca com letra de Pereira Matos e música de Zé Keti, “Máscara Negra” alterna um andamento moderado lamentoso em tom menor com a alegria agitada em tom maior: “...a mesma máscara negra / que esconde teu rosto / eu quero matar a saudade” – e emendando, em tempo corrido,  “vou beijar-te agora / não me leve a mal...”.



Nada a ver com este sucesso de todos os carnavais, o “Máscara negra” (Black mask) é um dos vilões arqui-inimigos do Batman, o homem-morcego, que por sua vez é um mascarado que esconde o multimilionário Bruce Wayne nas suas missões como herói de Gotham City.


A máscara do Zorro pouco esconde, além do redor dos olhos, mas a do Homem Aranha é um modelo que encobre até as feições. O também americano Clark Kent é um tímido repórter que ao se transformar, em suas missões heroicas, dispensa o uso de máscara: basta vestir o uniforme azul e tirar os óculos para não ser reconhecido como Super-Homem. E, como todo super-herói quando à paisana, Stanley Ipkiss é um pacato rapaz que se transforma em “O máscara” ao cobrir seu rosto com a peça encontrada no oceano que teria sido de Loki, um deus escandinavo.


Do lado real, nos tempos de Luís XIV, na França, o “Máscara de ferro” foi um misterioso prisioneiro que terminou morto em 1703. Ninguém sabia a identidade daquele preso que usava uma máscara de ferro negro a encobrir-lhe o rosto, razão pela qual sua identidade ainda permanece um mistério - abrindo espaço para especulações, teorias, vários livros e filmes, como The Iron Mask, de 1929, com Douglas Fairbanks no papel principal. A fita é baseada em uma novela de 1850 de Alexandre Dumas, “O visconde de Bragelonne”, da saga de D’Artagnan.


Um ballo in maschera (1859) é o título de uma ópera de Giuseppe Verdi cuja trama alude ao assassinato do rei Gustav III, da Suécia, vítima de uma conspiração em 1792 - ano em que era proclamada a 1ª República Francesa, que já   alimentava movimentos sociais e políticos em todo o mundo. O baile de mascarados é a cena em que os papeis operísticos protagonizam traições, tramas, intrigas palacianas, vinganças, magias. E a morte do rei.      


Há tradições no mundo que certos regimes fundamentalistas muçulmanos impõem, como a burca, supostamente como sendo imposição divina às mulheres, apesar de a veste, que cobre até a abertura dos olhos com uma pequena tela, não estar prevista no livro sagrado, o Corão. Por motivos diversos, incluindo segurança, países como França, Bélgica, Holanda e Itália proibiram o uso até mesmo das que cobrem o corpo inteiro mas deixam os olhos livres.


As máscaras de oxigênio hospitalar foram criadas em 1917 para salvar vidas, ao passo que em 1944, perto do final da Segunda Guerra, Arthur Bulbulian inventou um modelo que levava um pequeno reservatório do gás preso a um tubo. Usadas pelos pilotos de caça americanos para conseguir voar a grandes altitudes, possibilitou ataques incisivos, cirúrgicos e mais eficientes.


Máscaras lindamente decoradas podem ser vistas no Carnaval de Veneza (foto), surgido no século 12 e similar ao que acontece anualmente no Brasil. Cores, prateados e dourados em profusão embelezam os participantes em um desfile riquíssimo de fantasias, com ao menos oito tipos principais de máscaras e seus personagens. Sem a alegria dessas, muito simples e tristes são as máscaras mortuárias, feitas em gesso, argila ou cera, um costume cuja origem remonta ao Egito dos faraós, quando era usada para lembrar as feições dos mortos que iam ser mumificados.


Vi a máscara fúnebre de Beethoven em um museu (foto), mas para minha decepção o gênio de Bonn não tinha aquela beleza que pintam nos quadros ou se vê frequentemente nos pequenos bustos do compositor sobre o piano: não era aquela beleza de galã. Já a chamada “máscara de olhos abertos”, para pessoas vivas, foi inventada em 1958 pelo cirurgião-dentista brasileiro Ernesto Ferreira de Morais como fôrma para modelar trabalhos artísticos. As máscaras de embelezamento (beauty masks), que deixam a pele feminina mais limpa e macia, vem a surgir como tratamento estético uma década depois.    


O ser humano convive com máscaras há pelo menos 5.000 anos. Seja por motivos religiosos, de festas e folguedos, guerra ou paz, de embelezamento e vaidade, seja como peça fundamental da indumentária dos heróis de ficção; outras servem à memória dos defuntos ou dos vivos, para salvar e até matar. Mas há as máscaras que preservam, protegem, servem de escudo contra ataques e males.


Hoje, mais do que nunca, a principal delas serve para evitar o contágio por vírus nesta pandemia avassaladora, que tem potencial para destruir e matar de forma, se não a pior, ao menos diferente de tudo o que já se viu. Usar máscara por completo, e não no queixo ou com o nariz a descoberto, não serve apenas, pensando egoisticamente, à proteção individual enquanto perdurar a contaminação maciça e suas nefastas consequências. Deve-se usar principalmente em nome da saúde do próximo, dos que com ele estão e estarão, e de todos os que com esses últimos tiverem contato e assim por diante, uma espécie de corrente que não gera um só centavo mas tem  custado muitas vidas ante um mal de tentáculos multiplicáveis.


É urgente que haja estímulo ao uso de máscaras por parte de todos os formadores de opinião, imbuídos do mais profundo sentimento humanitário. E os que não as usam e até, pelo contrário, estimulam, sendo autoridades, a abstenção do hábito, que ponham as mãos nas suas consciências para sentir o peso de suas atitudes.   



 

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