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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

PARA EMPREENDER A GUERRA


Le giorno se n’andava e l’aere bruno / toglieva gli animai che sono in terra / (...) ed io soy uno / m’apparecchiava para sostener la guerra.
O Inferno, por Gustave Doré (1832-1883)
Assim Dante começa La Divina Commedia (Il Inferno, Canto I)*, poemas escritos entre 1308 e 1320. O sol nem raiara, o céu acinzentado cobria os animais sobre a terra (...) e eu me preparava para empreender a guerra. Escrito na primeira pessoa em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso), La Commedia está nos primórdios da literatura italiana e ajudou a consolidar a língua toscana e os padrões do idioma do país. Dante é o personagem que se prepara para a guerra.
O cavalo de Troia, por Giovanni Domenico Tiepolo (c. 1760)
Da Grécia, são famosas as guerras de Troia (1250-1240 a.C.), as Médicas (de Medas, entre gregos e persas, de 499 a 479 a.C.), a do Poloponeso, entre Esparta e Atenas (431-404 a.C.), e as de Alexandre, O Grande (334-323): o cerco a Tiro e as batalhas de Gaugamela, Górdia, Granico, Hispades e Isso, onde o macedônio venceu Dario III, rei dos persas. Entre as guerras romanas, as Samnitas (264-290 a.C.), as três Púnicas (264-146 a.C.), as Macedônicas (215-168 a.C.), a dos Três Reinos da China (220-265 a.C.), a dos oito Príncipes (291-306), a de Gália (58-50 a.C.) e a invasão das Ilhas Britânicas (43 a.C.).
A queda de Acre, derrota final das Cruzadas 
A Era Cristã viveu inúmeras guerras e invasões, como a tomada da Península Ibérica pelos Muçulmanos (711), a da Normanda (1066), a longeva série de Cruzadas (1096-1231), um sem-número de enfrentamentos cujo bordão era o poder: conquista e domínio de riquezas, religiões e raças. Sobre esse poder debruçou-se um dos primeiros teóricos, Niccolò Machiavelli (1469-1527), em “O Príncipe” e “A Arte da Guerra”, sabedoria mais tarde compartilhada por Napoleão Bonaparte (1769-1821) em escritos sobre o florentino e em seu “Manual do Líder”. Mas se prosseguirmos com as guerras napoleônicas (1792-1814) não haverá espaço para o assunto principal. Saltemos ao expansionismo russo via União Soviética e as duas guerras de proporções mundiais, uma de 1914-1918 e a segunda, entre 1939 e 1945, que envolveu quase o mundo inteiro ante o nazifascismo de Hitler e o fascismo corporativista de Mussolini.
Outubro de 1999. Eu lançava, na ADUSP (Associação dos Docentes da USP), um livro sobre a história da música contada de um jeito irreverente, enfastiado que estava com o árido trabalho de doutorado. Ao meu lado, contrastando, o seríssimo argentino Osvaldo Coggiola, professor titular de História, lançava o livro “Imperialismo e Guerra na Iugoslávia - Radiografia do Conflito nos Bálcãs” (SP: Ed. Xamã, 1999), assunto da época. Coggiola buscou fatos que fincam raízes no passado e que nos levam a melhor compreender mesmo outros mais recentes. Ele ponderou muito bem que os conflitos na Península Balcânica, que envolveram 13 países, assemelhavam-se aos tempos que antecederam tanto a primeira quanto a segunda guerras mundiais, sendo os protagonistas decisivos do século EUA, Europa e Rússia. Um elemento precioso: o cenário foram os países mais poderosos na luta pelo domínio do combustível fóssil, o ouro negro: petróleo. Depois da exposição de Coggiola inverti o pensamento: naquela cena, o protagonista era, sim, o óleo - aos EUA, Europa e Rússia cabiam papeis de comprimários naquela ópera do Inferno.
Foto: The Atlantic
Na virada para 2020, Donald Trump mata, entre quatro outros, por pontaria certeira ou por acaso, o general Qassem Suleimani, líder da Força Quds, o segundo homem mais poderoso do Irã, um radical amado pelo seu povo. A morte de Suleimani despertou a ira do Aiatolá supremo, Ali Khamenei, e expôs o mundo a um grande perigo: haverá revide. Diz o estudioso Chales Lister que só não se sabe quando, como e aonde (a exemplo do bombardeio da  embaixada dos EUA em Bagdá e a inédita ordem de remoção das tropas americanas no Iraque). Outro estudioso, Bruce Riedel, ex-agente da CIA especializado em Oriente Médio, é mais pessimista: a guerra que os EUA estão iniciando "será uma guerra maior do que nunca”. Segundo David Sanger, do The New York Times, em 2015 Trump abandonou o acordo nuclear, o que, na calada, deixara o Irã à vontade para retornar ao enriquecimento de urânio e à produção de armas letais de médio e longo alcance.
Tropas americanas no Iraque
No momento em que escrevo, 3.700 soldados norte-americanos estão no olho do furacão, de um total de 70 mil no Oriente Médio. Não se sabe a modalidade da guerra que já assusta, há apenas a bandeira da morte de um radical adorado pelos xiitas cujo cadáver, ainda fresco, desperta manifestações e gritos de “morte aos Estados Unidos”. Mas esse ódio será restrito a uma guerra que afete o país, o Iraque, o Kuwait ou veremos algo de proporções desconhecidas? (Gilberto Gil teve seu pesadelo, em 1967, em Lunik 9: “Guerra diferente das tradicionais / guerra de astronautas nos espaços siderais”).
Senado dos EUA (NY Times)
Observo três vetores no ataque a Bagdá e no inchaço dos contingentes americanos no Oriente Médio: primeiro, o petróleo; segundo, o impeachment de Trump em pauta no Senado - não provável, mas colocar o processo em segundo plano e surgir como herói da causa são parte das intenções do presidente. Alimentado pelo ufanismo e engordado após um século de guerras sangrentas, grande parte do povo deverá estufar o peito em defesa de Trump, lançando areia sobre os olhos de muitos. Last but not least (por fim, mas não por último), o terceiro vetor: este é o ano em que Trump buscará a reeleição. É nesses meses de corrida que ataques costumam vitaminar fortemente a popularidade presidencial. Porém, o que costuma se seguir, ao fim, é uma queda acentuada – e o risco de uma derrota nas urnas. Um salto sem paraquedas espetaculoso no escuro, levando o mundo inteiro.
*ALIGHIERI, Dante. La Divina Commedia. Ostiglia: Ed. Mondatori, 1963. Breves explicações sobre trechos da Commedia me foram resumidas, informalmente, pelo então colega da FFLCH Lorenzo Mami: a simbologia da escrita, o que descreveu Dante, e a arte do florentino. 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

MEMÓRIAS DE UM TENENTE DE MILÍCIAS

Coronel Juquinha, à direita
Minha mãe não escondia sua aversão ao assunto. Nas vezes em que puxei conversa, ficou brava e mal continha a emoção. Há uns anos, já bem doente, mas ainda lúcida, reagiu a uma foto de meu avô, seu pai, que encontrei dentro de um livro. Todo garboso em sua farda, perfilado a alguns companheiros.

Maria Lúcia, minha mãe, um ano de idade
Minha mãe fez para si mesma uma pergunta, sem esperar resposta, “por que será que ele foi se meter nisso, perder anos de sua vida? Por causa de um ideal?” Quando Vovô Juquinha foi preso e exilado, minha mãe tinha algo como três anos de idade - e vieram outros em sua vida, duros tempos de criança em que se viu afastada do pai, vendo sua mãe, Lilia, a cuidar dos cinco filhos sozinha, com escasso dinheiro.



Getúlio Vargas
O ódio a Getúlio, eufemisticamente chamado “o pai dos pobres”, talvez a ajudasse a destilar o que chamava 'obsessão' de meu avô, pensando como viria a dizer o Geraldo Vandré, “morrer pela Pátria e viver sem razão”. Juquinha, aliás, José Carlos Campos Cristo, era um legalista, defensor das instituições, moldado no caldeirão de ideais que ferviam em seu sangue desde cedo (filho que era do Cel. Vieira Christo, meu bisavô, também perseguido pela ditadura Vargas e legalista desde sempre). Minha mãe, Maria Lucia, contava que Getúlio, com seu ranço populista, mandava preparar crianças e adolescentes de escolas públicas para que fossem saudá-lo em desfile. Imagine seu ódio ao ver aquilo, a meninada bajulando o homem que lhe tirara o pai, um golpista com máscara de líder popular que bebera do veneno de Mussolini.

De meu avô, lembro-me de suas estórias (friso: com “e”) de aventuras, fugas, prisões, exílio. Em uma cadeira de balanço, ao lado de um rádio de ondas curtas, desfilava tramas com jeito de contador de histórias, aquela voz suave e monocórdica que, hoje, as crianças imaginariam ser memórias de um Indiana Jones. 

O jovem Mark Twain
Era como filmes que se desenrolavam à minha frente, cabia como luva uma frase de Mark Twain: “Quando pequeno, lembrava-me de tudo: do que realmente aconteceu e do que nunca acontecera. Porém, minha capacidade está decaindo, e logo vou lembrar-me apenas do que nunca acontecera”. Assim era com minhas “viagens” pelo mundo das aventuras de vovô Juquinha, naquela época já um coronel reformado. Em tempo: o título deste artigo tomei emprestado do escritor Manuel Antonio de Almeida (1831-1861), autor de “Memórias de um sargento de milícias”. Nada com o texto, pura licença de escrita, vício recorrente meu.

(Acervo pessoal do autor: Lloyd brasileiro)
Meu tio José Carlos Campos Christo, cirurgião renomado e filho de Juquinha, nascera após o retorno de meu avô do exílio, e foi quem teve o esmero de recentemente compilar documentos, fotos, publicação que me enviou há uns poucos dias, a colocar meus devaneios infantis e meu Indiana Jones particular mais com os pés no chão. Com precisão cirúrgica, meticuloso, estabeleceu ordem cronológica aos fatos e documentos, datou-os e nos fez um depoimento tão encantador quanto assustador, brasileiros vítimas de tantas ditaduras que somos. É sempre fiel às fontes, sem deixar de ser uma leitura fácil e sedutora. Publicou-o em forma de livro em edição reservada, que levou o título “Reminiscências de um exilado de 1932”, sobre o qual passo a refletir, em entreato da minha emoção e a de minha mãe.

Documento de exilado da Polícia de Portugal
O envolvimento de meu avô com a política começou cedo, jovem militar deslocado para o Rio, capital da República, para trabalhar no gabinete do Setembrino de Carvalho, Ministro da Guerra. (Na defesa da legalidade, após a revolução de 32 terminou deportado e exilado em Portugal aos 31 anos, ainda bem jovem, sofrendo a humilhação de se ver expulso de seu país). Em 1924, quando da “revolta paulista”, lá estava Juquinha no Rio, aos 22 anos de idade, a trocar informações sobre os deslocamentos das tropas legalistas fieis ao presidente Arthur Bernardes e ao presidente do estado de São Paulo, Dr. Carlos de Campos, que sofrera um ataque dos revoltosos no Palácio dos Campos Elísios, na capital paulista, e ergueu seu gabinete de crise na estação (então da EFCB) de Vila Matilde, cercado pelas tropas legalistas federais, que o defendiam.

Carlos de Campos
Carlos de Campos, homem de fibra, era também um exímio músico. Compôs até algumas óperas, e foi o responsável pelo projeto, em 1925, de uma estação da Sorocabana, que depois se chamaria Júlio Prestes, no bairro da Luz, centro – hoje a suntuosa Sala São Paulo, templo da música no país. Quis o destino que eu, neto do Juquinha que ajudara a defender Campos, fosse, décadas depois, empossado como diretor do Conservatório de Tatuí, aliás CDMCC, oficializado em 1954: Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos. Coisas que o destino faz e ninguém explica.


Claro que entendia o trauma de minha mãe pela lembrança dos tempos difíceis por que passou, mas o lado heroico do meu avô é emoção pura. Em sua dedicatória, personalista, meu tio José Carlos, organizador das “Reminiscências”, o chama carinhosamente "meu herói". Talvez porque o lado mito de Juquinha lhe tenha sobrevivido com o tempo, cicatrizado o sofrimento dos idos passados. Sobressai-lhe a figura do pai-herói (e meu avô-herói). Antes tivéssemos muitos como ele, os tempos seriam outros. Ficamos entre a emoção e a razão, eu e minha mãe com a primeira, em pontas opostas, e tio José Carlos, mais empenhado na verdade documental. Tudo se unindo como em Dante, na Divina Comédia: m’apparecchiava para sostener la guerra, sì del camino, sì dela pietate (camino simbolizando o chão, a razão, e pietate, o coração).