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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

IRERÊ, SOLTA TEU CANTO, CANTA MAIS, CANTA MAIS!

 


Dia desses
festejaram nas redes os cem anos de “Luar do Sertão”, cançoneta de Catulo da Paixão Cearense, nascido em São Luís em 1863 e falecido no Rio de Janeiro em 1943. (Se alguém quer saber por que um maranhense é chamado “Cearense”, eu explico: não era gentílico ou apelido, mas último sobrenome herdado do pai, Amâncio José Paixão Cearense, ele sim do Ceará). Toada em parceria com João Pernambuco, “Luar” é uma ode ao sertão brasileiro, em toda sua singeleza: “Não há, ó gente / ó não, luar / como este do sertão / (...) Esse luar da cidade tão escuro / não tem aquela saudade / do luar lá do sertão”.

Catulo e Pernambuco

A cantiga é de 1914
, conforme registros no Itaú Cultural, entre vários outros; portanto, em 2021 teria completado 107 anos. Há controvérsias, e não poderiam faltar: na parceria com João Pernambuco, Catulo teria sido autor da letra, e não da melodia. (Pernambuco criou também a obra-prima “Sons de Carrilhão”, hoje repertório mundial do violão, peça instrumental que evoca os sinos das igrejas). Catulo era poeta e autor de peças de teatro, além de compositor bissexto, e vivia do salário de servidor público. Esta opinião sobre a autoria de “Luar” era dividida por Villa-Lobos, Zuza Homem de Mello e Mozart de Araújo, entre outros. Para apimentar a discussão, Pixinguinha disse ter ouvido a melodia tocada no violão por Pernambuco, anos antes. Querelas que permanecem no ar, uma espécie de obra aberta, enigma de Capitu.


“Luar do Sertão”
foi o gancho para entrar no assunto da memória musical cada vez mais distante das novas gerações. Cantava essa toada para meus filhos menores apenas para distraí-los no trajeto de carro para a escola, assim como para embalar minha mais velha, quando ainda no berço, ao lado de “Travessia”, do Milton, e “Gatinha Manhosa”, do Erasmo. Por meio de canções simples e riquíssimas, como “Luar” e “Terezinha de Jesus”, introduzia os pequenos no mundo da música. Gostava do Guia Prático, do Villa-Lobos, uma compilação do que o maestro andara recolhendo em suas viagens pelo interior (publicação parece continuar esgotada. Felizmente, ainda tenho o meu surrado exemplar, de 1932).

Villa-Lobos na escola

O Canto Orfeônico
foi oficializado em 1931 no Distrito Federal com Villa-Lobos à frente, e ampliado para todo o Brasil na Reforma Capanema (1942). Em 7 de maio de 1946, o ministro da Economia e Saúde, Ernesto de Souza Campos, manda publicar no Diário Oficial do dia 14 a Portaria nº 300, que “aprova instruções e unidades didáticas do ensino do Canto Orfeônico nas escolas secundárias”.  Com o presidente Dutra em início de mandato, fora lançada a pedra fundamental, graças à luta de Villa-Lobos, para o ensino da música como disciplina escolar no Brasil. 


O material didático
da disciplina era de autoria do maestro: dois livros de solfejo, dois de Canto Orfeônico propriamente dito e alguns volumes intitulados Guia Prático, para piano e com as compilações das pesquisas de campo: Bela Pastora, Cai cai, Balão, Caranguejo, Capelinha de Melão, Pai Francisco e tantas outras! Os alunos aprendiam solfejo, os hinos Nacional e à Bandeira, em respeito ao nosso país e com discreto lucro político pelos governos – sem “apropriação ilícita dos símbolos da Nação”, expressão usada pelo Dr. Marcelo Válio em oportuno artigo no jornal O Progresso.


Em São Paulo
, em frente à minha casa, na Vila Mariana, havia uma EMEI (onde, aliás meus filhos estudaram). As aulas de canto já não mais existiam. Em seu lugar, um aparelho de CD em torno do qual as crianças, rijas como varapaus, dançavam nas festas juninas, ao som de um sertanejo híbrido mesclado com Jovem Guarda, pop e sei lá o quê. O caipira fora trocado por modismos, e a meninada sequer abria a boca! Nas datas cívicas, ou semanalmente, ao invés de cantarem perfilavam-se como em honra ao aparelho e apenas ouviam o Hino Nacional. Mataram a música nas escolas!

Fórum na Assembleia Legislativa

No dia 26/09/2003
foi criada a Frente Parlamentar pela Inclusão da Música no Ensino Escolar na Assembleia Legislativa de São Paulo. Tive a honra de ser indicado presidente, formalizando apoio ao PL 793/2003, do deputado Rodolfo Costa e Silva.  Muitas reuniões, debates, encontros com músicos e professores de música na plateia do Plenário, muito esforço dirigido à causa. Se, por um lado, a Frente por si já demandava uma luta desgastante, por outro havia entraves de ordem corporativista: por interesse pessoal, alguns forçavam a exigência do diploma de licenciatura ou conservatório ‘oficializado’ para professores, o que praticamente inviabilizaria o ensino musical nas então 5.500 escolas do estado. Faltariam docentes, além da perda de qualidade e de um contingente enorme de ótimos professores-artistas.


Sonhávamos o sonho de Villa-Lobos
. Segundo publicação da ALESP, eu havia dito que “Há diversos estudos que atestam o poder da música como elemento harmonizador e terapêutico, o que comprova sua importância para criar um ambiente de convivência, sem violência entre os estudantes - e as experiências em curso ratificam este pensamento". Porém, ao invés de se tornar realidade, nossos anseios sucumbiram aos entraves burocráticos, além das pressões corporativistas.

[Em tempo: “Irerê, solta teu canto, canta mais, canta mais!” vem do poema de Manuel Bandeira que é letra do 2º movimento da famosa Bachianas Brasileiras nº 5, para soprano e orquestra de violoncelos, de Heitor Villa-Lobos, a quem muito devem nosso folclore e cultura e musical por sua sobrevivência, mesmo que capenga.]

sábado, 26 de maio de 2018

CHORO, CLÁSSICOS, POPULARES,

CONTEMPORÂNEOS, IMPROVISOS

Villa, mostrando intimidade com cuíca e violão
O choro, apesar de verdadeira amálgama musical, não foi um pacto de união entre os gêneros clássico e popular. Pixinguinha nunca foi ‘erudito’, assim como Villa-Lobos nunca foi um chorão. Verdade que o compositor escondia um violão debaixo da cama para, sorrateiro, cair na gandaia à noite, nas rodas de choronas dos botequins – sem falar no piano nos fundos de um bordel, cuja cafetina lhe permitia usar. Já Ernesto Nazareth (1864-1934), autor das célebres Odeon e Apanhei-te, Cavaquinho, apaixonou-se pelo gênero, e encheu de ginga brasileira seus tangos, marchas, polca-tangos e outros.
Página manuscrita do Guia, com "Escravos de Job"
Villa bebia direto no popular, em suas pesquisas de campo e nas músicas publicadas no Guia Prático - que deveria adotado em nosso ensino fundamental! Percebo algumas parecenças entre as melodias de O Trenzinho do Caipira, da Bachianas n° 2, e uma das melodias do cancioneiro popular que Villa publicou no Guia. Parece que o ritmo e as notas da melodia dessa obra lembram a canção que traz essa pérola de letra: “Sempre sentava na rede / pra ver meu canário cantar / agora sento na rede / pra ver meu canário penar / Meu canário está doente / doença de inflamação / mandei chamar o doutor / pra fazer a operação / Na primeira lancetada, o meu canarinho tremeu / na segunda lancetada, o meu canarinho morreu”, história assaz trágica. Benéfica é a intromissão das raízes brasileiras na obra dos compositores ‘clássicos’, como queria Mário de Andrade!
Vinicius e Baden-Powell
Villa também mescla influências do mestre alemão em outra das Bachianas (a de n°4), onde se respira o prelúdio da Suíte 3 para violoncelo, de Bach – aliás compositor homenageado nessa linda série do brasileiro. Tanto o alemão quanto Villa parecem ter influenciado também Baden Powell, em flerte do com a Suíte 3 de Bach já no título dado por Vinicius, Samba em Prelúdio (1963): “Eu sem você / não tenho porque / porque sem você / não sei nem chorar”. Através dos tempos, as influências são tão sadias que um dia fiz uma piada brincando com Lavoisier, o ‘pai da química’: Em música nada cria, nada se perde, tudo se copia.
Altamiro Carrilho e Pixinguinha
Pensando nos que veem o choro mais clássico, lembro que o flautista Altamiro Carrilho (1924-2012) chegou a gravar em disco uma versão chorona de alguns ‘hits’ de Beethoven, Mozart e Bach. Apesar de ter um som encorpado, Carrilho era da ‘escola intuitiva’, aprendeu a tocar sozinho em uma flauta de bambu.
O mestre Severino Dias de Oliveira 
E por falar em talento nato, há muito tempo um rapazinho albino procurou o grande maestro Guerra-Peixe (1914-1993) para pedir-lhe aulas de música. Chapéu de couro e usando alpercatas nos pés, mais parecia um cangaceiro. O maestro petropolitano, que fazia arranjos para a Rádio Tamandaré do Recife, deu-lhe algumas lições, mas o jovem logo sumiu. Reapareceu cinco anos depois na TV, tocando o dificílimo Moto Perpétuo, de Paganini, em passo de virtuose na sanfona. Antes que eu me esqueça, o apelido desse garoto albino era Sivuca (1930-2006), um gênio.
Villa e Pixinguinha
Quem, ao contrário, gostava de exibir intuição de músico popular era o próprio Villa-Lobos. Em Boston, onde certa vez proferia uma palestra, alvejado por perguntas técnicas inoportunas, para escapar Villa fez de sua formação musical uma anedota: disse que havia se graduado na “Universidade de Cascadura”, com os mestres Donga e Pixinguinha.
Ran Blake e Gunther Schuller
A música contemporânea – falo daquela de concerto escrita nos dias de hoje – mostra semelhanças com a música popular de vanguarda quando cede ao experimentalismo. Seja com sinais exóticos nas partituras, deixando ao músico a tarefa de ‘recompô-las’, ou sem papel, só sons. Como na Third Stream, ou Terceira Corrente: nem clássica nem popular, um pouco de tudo. Foi outra via criada por Gunther Schuller, há décadas herdada por Ran Blake, com quem tive um ano de aulas, mostrando-me o caminho para aproveitar mais os ouvidos do que as notas das partituras. O resultado tinha a ver com a moderníssima música popular, pois integrantes de ambas as correntes se dedicam a uma mesma meta: criar novos sons.
O Ensemble Intercontemporain regido por Boulez
Os tipos que se entregam às vanguardas costumam ser pitorescos em todas as nacionalidades. Em 1995 recebemos, na Escola Municipal de Música de SP, o Ensemble Intercontemporain, conjunto fundado pelo famoso maestro Pierre Boulez (1925-2016) em Paris (os franceses adoram conservar vanguardas, divirto-me). Pois assim que cheguei na escola, eles já estavam lá. O clarinetista cumprimentou-me com o cotovelo, pois devorava uma pera com as duas mãos. A cantora, esfomeada, já havia detonado sozinha quase a metade dos lanches feitos para o grupo. O da tuba isolou-se em uma pequena sala, e fechou as janelas para evitar a invasão dos sons de outros instrumentos. À frente de uns quinze alunos, falava sobre improvisos usando técnicas microtonais – frações de tom como entre um dó e um ré. A temperatura, com janelas fechadas e aquele monte de tubistas respirando e soprando, devia estar acima dos 40 graus, naquele verão.
O contrabaixista do grupo, quase pisei no sujeito. É que ao entrar pela porta de minha sala topei com ele simplesmente esticado no chão. Assustado, perguntei se estava tudo bem, e ele respondeu apenas oui, oui. Estava  relaxando. Depois, conduzimos o músico para a sala onde deveria fazer sua exposição. Embora espaço amplo, ele reclamou, concordando que sim, era mais do que suficiente para tocar - mas não para que ele pudesse dançar. Tous complètement fous! (todos completamente loucos). E que dia exaustivo e pleno de improvisos em todos os sentidos!