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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

SEM AÇÚCAR, SEM AFETO

 


Chico Buarque tem muitas canções e letras dedicadas a mulheres
, algumas para serem por elas cantadas. Em 1966, compôs para Nara Leão: “Com açúcar, com afeto / fiz seu doce predileto / pra você parar em casa”. Palavras de esposa submissa, como era costume no passado – aliás, realidade que teima em sobreviver até hoje: a mulher subserviente. Era a primeira música em que o compositor assumia sua porção mulher, cantando como se tal fosse. Nara havia dito que gostava de canções “em que a mulher fica em casa, chorosa, enquanto o marido fica na rua, farreando” (HOMEM, Wagner. Chico Buarque. SP: Ed. Leya, 2009). Nem o doce favorito pôde fazê-lo abrir mão da boemia: entra em um bar a cada esquina, chega em casa quando quer.


Chico repete o tema muitas vezes
, como em Cotidiano (1971): “todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã / me sorri um sorriso pontual / e me beija com a boca de hortelã”, rotina servil do dia a dia. Em Feijoada Completa (1977), ele manda a esposa fazer comida ‘pra um batalhão’: “...bota a mesa no chão que o chão tá posto / e prepare a bebida e o tira-gosto” (...) / “Aproveite a gordura da frigideira pra melhor temperar a couve mineira” - assim, comandaria a sonhada festa de anistia para quando os exilados retornassem ao Brasil (op. cit.).


Em Mulheres de Atenas, fala em nome dos homens
: “Mirem-se no exemplo / daquelas mulheres de Atenas / Vivem pros seus maridos / orgulho e raça de Atenas”. A veia poética do autor foi buscar na antiguidade grega o retrato em que as mulheres de hoje se espelhariam. Chico, machista da pior laia? Para quem o conheceu, claro que nunca. É sangue do poeta como que cantando o sofrimento da mulher no dia a dia: manda-a servir a mesa para os amigos se esbaldarem de feijoada e cachaça, ou se servem ao homem que retorna a Atenas após a batalha. Realidade que não é a dele, Chico, um gentleman, tímido que só. Mas é o que acontece, como foi no passado e ainda hoje insiste em rondar as páginas dos jornais – mulheres exploradas, seviciadas e até assassinadas. E como ainda há disso nesses brasis!


Mas de onde este assunto?
Chico declarou em um documentário sobre Nara Leão que não mais cantará Com Açúcar, com Afeto, dizendo-a uma canção machista, embora há décadas fora de seu repertório. Ou se arrependeu de cantar como se fosse uma mulher? Não proibiu a canção, nem haveria como, mas provocou um escarcéu.


Nosso cancioneiro estaria ceifado pela metade segundo a lógica pós-moderna
, a tal ‘politicamente correta’. E seriam proscritas tantas músicas, como as que os carnavais cantaram: “Olha a cabeleira do Zezé / será que ele é / será que ele é?”  (J. R. Kelly e Roberto Faissal, 1964). Homofóbica ao extremo, diriam hoje. Também politicamente incorreta, do “misampli a ferro e fogo / não desmancha nem na areia” e “nega do cabelo duro / qual é o pente que te penteia?” - com essa deliciosa aliteração percussiva, “tiquití” (R. Soares e David Nasser, 1942, ano de Amélia, do Ataulfo e Mário Lago). Homofóbica e racista, diriam hoje de uma e outra, com certeza.

Navio Negreiro (Rugendas, 1803)

O francês Debret (1768-1848) e o alemão Rugendas (1802-1858)
, pintores que viveram no Brasil e retrataram negros tratados como fossem animais de carga e recebendo chibatadas, deveriam ser esquecidos por mostrarem a dura realidade daquele tempo? E O Navio Negreiro (1868), do grande poeta Castro Alves, obra-prima de nossa literatura, falando dos negros sendo arrastados à força da África para serem trazidos em um navio a fim de servirem de escravos aos senhorios? Seria esse poema para ser esquecido? Mais: Cleo Monteiro Lobato, neta do escritor, trocou" a boa negra deu uma risada gostosa, com a beiçaria inteira", por "Nastácia deu uma risada gostosa").


Retrata-se o mundo tal como ele é ou era, coisas atuais, vivíssimas, ou de época. Pois se existiu - e de alguma forma ainda existe -, é como retrata Drummond, em Confidências de um Itabirano: “Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói!” A dura realidade do negro, da mulher, do índio, dos homossexuais e minorias ainda perdura, como no recente sacrifício do congolês Moïse Mugenyi Kabagamba, 24, em um quiosque da Barra da Tijuca chamado Tropicália, por cobrar duas diárias que lhe eram devidas como empregado (Caetano disse que chorou quando viu o nome do movimento que incluía Gil, Gal, Mutantes, Capinam e vários outros, além dele, e “sobretudo Hélio Oiticica, que criou o termo”, associado ao episódio).


Voltemos ao Chico
, que afirmou em um documentário sobre Nara Leão, para satisfazer as feministas, que não mais cantaria aquela faixa, (BBC News, 2/02). Mas foi mais razoável à revista Realidade, em 1972, quando disse que tem “controle limitado sobre o que compõe” – ou seja, podem cantar, fazer o quê? Mas ele não mais canta por apelo das feministas? Claro que explorar psicologicamente esse filão dá ‘pano pra manga’, é rosca sem-fim. Chico não precisa de autopromoção, mas o que o levou a declarar que não mais cantará uma música fora de seu repertório há mais de cinco décadas? E as tantas outras que falam da submissão e da exploração da mulher? Segundo Andreia Oliveira, a música “pode ser entendida como um modelo de relação de gêneros a não ser seguido” (UFRJ: Dissertação de mestrado, 2018). Nas redes sociais, mulheres que se declaram feministas afirmam que não veem nela a defesa da submissão da mulher

Enigmas o gesto do Chico, o lado feminino do homem, o machismo, o racismo e outros ‘ismos’ que nunca serão totalmente decifrados.



sexta-feira, 16 de julho de 2021

UM FUTURO PARA O HAITI

 

Jovenel Moïse (The Guardian)

Jovenel Moïse, presidente do Haiti, foi brutalmente assassinado aos 53 anos no dia 7 de julho em Porto Príncipe com ao menos uma dúzia de tiros, segundo o oficial Carl Destin, que o encontrou em decúbito ventral no quarto do escritório, o aposento saqueado e depredado. Com ele, a primeira dama, Martine Moïse, que foi severamente atingida e hospitalizada. As causas do ato de barbárie ainda serão apuradas, sob o jargão de sempre, “com o maior rigor”.

Port au Prince

O crime gerou revolta entre policiais, exército e milícias, mergulhando o país no mais absoluto caos. Houve vinte e três prisões, entre elas as de um juiz e uma agente da polícia. Um tiroteio cruzado matou quatro suspeitos, outros dois foram detidos e três oficiais que haviam sido feitos reféns libertados, segundo o The Guardian. Para incendiar o caos, em plena pandemia, o aeroporto da capital foi fechado e todos os cidadãos obrigados a permanecer em casa, nas piores condições. Especulações sobre os motivos do crime dão asas a toda sorte de teorias conspiratórias e revivem a paranoia que já acompanha a vida dos haitianos há séculos. Independente do jugo francês desde 1 de janeiro de 1804 - de onde se explica, entre tantas coisas, o nome da capital, Port au Prince -, o Haiti somente teve sua liberdade reconhecida 21 anos depois, em 1825, obrigado a pagar uma dívida arrasadora aos antigos dominadores.


O dialeto local, créole, coteja com o francês em geral utilizado na escrita, embora apenas 42% do povo o domine; há, ainda, um pouco de espanhol, desde o autoexílio do herói latino-americano Simón Bolívar, em 1815. Acossado pelos escravizadores de Cristóvão Colombo desde 1492, ano da descoberta da América, o Haiti viu muitos de seus nativos dizimados. Sofreu com a invasão francesa, com um terremoto que em 2010 matou perto de 300 mil pessoas em um país de apenas 12 milhões de habitantes. O povo se divide entre duas religiões ou as mescla: uma formal, a católica, e outra, que anda pelas sombras, o vodu (voodoo).

Santuário de sincretismo cristão e Vodu

Duas passagens marcaram-me na vida o nome do país caribenho. Uma, quando era diretor do Conservatório de Tatuí: um jovem haitiano de pouco mais de 20 anos veio para o Brasil para estudar, incentivado por ótimos músicos. Aqui, teve início uma sucessão de articulações que chegou ao Ministério das Relações Exteriores, para obtermos para ele um visto especial. Fui a uma loja na Praça da Matriz e comprei do bolso o enxoval para Jean Gerald – esse o nome dele. Cobertores, roupa de cama, travesseiro, sabonete, tudo para que ele pudesse se acomodar no alojamento. Talentosíssimo, teve um belo oboé cedido sob minha tutela pelo titular da 6ª Vara da Justiça Federal, Fausto de Sanctis, após busca e apreensão nos golpes de uma socialite de São Paulo. Todos torcíamos por Jean, mas a mente dele se dividia entre nosso país e seus familiares, seu apego à escola Holy Trinity (SSmª. Trindade) e...O vodu, que apenas agora revelo mais abertamente. Entre divindades como Agwe, Gédé, Bosou e Kalfou, em um dado momento Jean pareceu estar surtando. Com o oboé – comprado e cedido em comodato sob minha responsabilidade pela Justiça Federal - e a roupa do corpo, foi parar no Acre, porta de saída para o Peru, de onde tentaria voltar para o Haiti.

(Foto: Letícia Moreira - Folhapress)

Sumiu, fizemos o devido BO de desparecimento de pessoa e, junto, um de objeto, o oboé. Com a ajuda de dois franceses, um de São Paulo e uma voluntária do Médicos sem Fronteiras (Médicins sans Frontières) de Porto Príncipe, Jean foi localizado no Acre e convencido a voltar a SP, desatar os nós legais e voltar à sua terra: ser preso na fronteira seria o pior dos mundos. Veio, apresentou-se, foi lavrado BO de reaparecido e deixou o oboé. Alguma força o fazia retornar ao Haiti. Era lá a terra dele, um ‘chamado’, parecia dizer-lhe, já meio fora deste mundo. Por nossa conexão francesa, soubemos que Jean viera a falecer em um incêndio criminoso em seu quarto na capital: sucumbira à punição macabra do vodu contra um ‘desertor’ a caminho de vencer na vida.


Anos depois, fui homenageado na Assembleia Legislativa pelos Boinas Azuis, das Forças Internacionais de Paz da ONU. As FIP brasileiras já comandavam havia mais de dez anos as tropas da paz no Haiti, arriscando-se e levando víveres, remédios e algum conforto ao povo da ilha. Em 19 de dezembro de 2014, o Boina Azul Walter Mello de Vargas, presidente da ABFIP-ONU, entregou-me faixa, carteira de couro azul com o documento de associado e um carinhoso diploma que mencionava “atuação meritória” pela paz e a Cultura. Sem palavras.


Certo dia, peguei um carro da casa de minha mãe, no Rio, para o Aeroporto Santos Dumont. Conversa vai e vem, caímos no assunto Haiti e o motorista desatou a contar histórias de quando era paraquedista das FIP-ONU naquele país: em voo rasante de helicóptero, tinha de saltar de frente, arriscando-se, caindo em pé de pouca altura. Ao fechar o sinal de uma rua, mostrei-lhe minha carteira de identidade com o brasão da ONU. Olhos arregalados, pediu licença, encostou o carro, leu aquilo e emocionou-se. No Aeroporto, quis que eu ficasse no carro enquanto ele mesmo abria a porta e me recebia com uma continência.

O que será daquele país, pelo qual tantos de nós, sabe-se lá o porquê, temos uma estranha afeição? Penso que, por muito tempo, continuará a longa sucessão de invasões, ditaduras sangrentas como a de Papa Doc Duvalier, guerras, saques, terremotos, epidemias de cólera, magia negra e assassinatos como o de Jovenel Moïse e Jean Gerald.  

Não há futuro para o Haiti.