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sábado, 5 de agosto de 2017

CRIMINALIZANDO O FUNK – PARTE II (Final)


George Clinton


Prosseguindo com a discussão sobre a criminalização do funk abordada no penúltimo blog, repito que sou isento e imparcial para falar do gênero, pois confesso que nunca fui fã da versão brasileira (a Parte I pode ser lida clicando no link à direita, no título da ‘postagem em destaque’). O que não quer dizer que não lhe devo respeito, como a toda e qualquer manifestação artística. É um ritmo que fala com o corpo, como disse George Clinton, do Funkadelic: free your mind and your ass will follow - literalmente, “libere sua mente e seu traseiro a acompanhará”. Para tanto, as letras são curtas e diretas, de contestação à ordem social, à repressão, e falam de drogas, sexo e polícia, enquanto o ritmo embala o corpo: sacudido, dançado, chacoalhado, signo de uma tribo que tem seus costumes particulares e seu próprio jargão para falar, contando a dura realidade das periferias. Esse ‘funk brasileiro’ é uma coisa à parte, tem quase nada a ver com o ritmo americano. Caetano Veloso, em entrevista recente à BBC, disse que “o funk no Brasil hoje é uma coisa totalmente brasileira. E as letras, que às vezes são muito obscenas, ou ligadas ao narcotráfico e à bandidagem, ficaram cada vez mais criativas. Os efeitos sonoros também”.
Earth, Wind & Fire
Nos anos 1970 pude assistir ao vivo, no Radio City de NY, ao fantástico Sly and the Family Stone, grupo com muita dança, metais, saxes e vocais admiráveis, na esteira do sucesso no Festival de Woodstock, de 1969. E ainda curto na Internet a beleza dos espetáculos do Earth, Wind & Fire, um grupo especial, as vozes em falsete cantando letras de amor, show de dança perfeita, muita técnica, de prender a respiração.
Dick Bogarde, brilhante em Morte em Veneza
Querer simplesmente tornar crime um gênero musical, jogando a Constituição no lixo e ferindo de morte a livre manifestação artística é um arroubo de pequeno segmento radical, ora em franca ascensão no Brasil, reflexo de uma meia-volta ao passado no mundo inteiro, em nome de uma pureza e castidade inexistentes. (E não é um fenômeno nosso, é mundial: a Rússia de Putin acaba de proibir uma encenação de Morte em Veneza no famoso Bolshoi – como o filme a que assisti, com Dick Bogarde vivendo uma platônica, distante paixão homossexual). Tornar crime um gênero musical não é insensatez, é insano mesmo, historicamente desconexo. O blues, em seu início no Sul dos EUA e principalmente em New Orleans, brotava no submundo das drogas, lenocínio e outras práticas não aceitas pela sociedade, mas era o meio em que os artistas viviam. A música acontece em todos os ambientes, e não é a responsável por eles - quando muito lhes é consequência: violência, falta de acesso a um bom ensino, pobreza, péssimas condições de moradia e saúde pública quase inexistentes. (A Folha de 17 de julho traz, na capa do caderno Cotidiano, a matéria: “Baleados crescem 61% em hospital do Rio”. Isso, no primeiro semestre - e nada a ver com o Funk).
Umbigada
Nunca é demais lembrar que o samba também foi hostilizado em suas origens (“coisa de negro”), que remontam às danças angolanas e congolesas e surgiu nos submundos considerados menos castos até ser assimilado pela sociedade, assim como outros gêneros oriundos da África, como a Umbigada. E foi via choro, mistura de schottishes e mazurcas com samba, que se abriu caminho para mais de um século de música popular brasileira. Podemos dizer que tudo o que temos de melhor devemos ao samba.
Baile da Ilha Fiscal
Após outro baile, o da Ilha Fiscal, em 6 novembro de 1889, a seis dias da queda do Império e da Proclamação da República, a limpeza encontrou, entre outros, “8 raminhos de corpete,  3 coletes de senhoras e 17 cintas-ligas”. Fotografias foram convenientemente inutilizadas. Fontes não oficiais falavam de bandejas e canudinhos de prata, para o consumo do mesmo cloridato usado nos atuais bailes Funk. Festa do Imperador, da nobreza e das classes mais abastadas!
Periferia paulistana
Pois se os arautos da atual onda de falsa pureza alegam que nos bailes do gênero funk cometem-se crimes, como uso e tráfico de drogas, prostituição, sexo exposto e envolvimento de menores de idade, acaso criminalizar o gênero vai extinguir os crimes por eles alegados? Já não estão todos tipificados no Código Penal? O crime, onde quer que ocorra, deve ser visto sob pontos de vista de diversas ordens. Se menores vão a esses bailes, o criminoso é o funk? Por que adolescentes frequentam bailes de madrugada? E a Educação, dever precípuo do Estado, por onde anda? O que acontece nesses bailes nada mais é do que um espelho da vida nas casas, barracos e muquifos onde as mesmas práticas acontecem, não é exclusividade do embalo, é o cotidiano da vida na periferia.
Boate em SP
O projeto que corre no Senado é o suprassumo da violência censória e da repressão e retrato, em outra ponta, da cegueira social, como no “Ensaio” de Saramago. Por que não veem crimes em boates finíssimas da zona sul paulistana onde homens da classe branca mais rica e poderosa escolhem moças “de fino trato”, à espera de freguesia, e nos quartos é frequente a cocaína? A sociedade faz vista grossa porque são “finos”, e em sociedade fina tudo se pode. As “soluções” radicais podem agradar a certo tipo de político e adeptos de alguma seita. Será que uma simples lei acabaria com as chagas das periferias?

Lembro-me de alguém já ter cogitado proibir porta-malas nos automóveis para evitar sequestros, uma vez que é ali que os criminosos prendem suas vítimas. A proposta de criminalizar um gênero musical para acabar com crimes já tipificados é surreal, perniciosa e absolutamente hipócrita. Por essa lógica, que proíbam antes a venda de isqueiros, para acabar com o uso do crack.


(Escrito a partir do meu artigo para a Veja de 13 de julho)

sábado, 11 de fevereiro de 2017

INFLUÊNCIA DO JAZZ

New Orleans foi o berço de tudo. O caldeirão onde todas as coisas e pessoas se misturavam, como sintetiza o relato de James Creecy (que lembra música do Caymmi), após visitar a cidade: “Você já esteve em New Orleans? Se não, melhor ir”. “Franceses, espanhóis, indianos, créoles (mestiços descendentes dos colonizadores franceses), mulatos, ianques, gente de Kentucky, Tennessee. (...) Navios, arcas, barcos a vapor, ladrões, piratas, jacarés (...). Gigolôs, prostitutas, pessoas inferiores e toda sorte de gente suja...”
Antonín Dvorak
Nesse ambiente cresceu o jazz, nascido no mundo que desde sempre o embalou. Um turista francês comentou que no inverno eles dançam para se aquecer, e no verão para se refrescarem, dando a dizer que a cidade era uma eterna festa. Antonín Dvorak mudou-se para os EUA, para dirigir o Conservatório Nacional de Música, em 1892, e queria conhecer o que andavam tocando na América. Bebeu do jazz e do folclore dos EUA na Sinfonia nº 9, chamada “Do Novo Mundo”, e chegou a Stravinsky.
Os Oito Batutas
No Brasil, entre outros, era presente em Pixinguinha com seus Oito Batutas, choro com formação à maneira de Dixieland (o nome vem da música Dixie, de Daniel Emmet), gênero de jazz na verdade iniciado por brancos mas abraçado por todos em combos, pequenos conjuntos.
Mardi Gras
Em New Orleans, até hoje existe o tradicionalíssimo Carnaval (Mardi-Gras, terça-feira gorda), trazido pelos franceses, que tomou contornos únicos na cidade, uma atração turística e tanto. As bandas de Dixie tocavam em bailes, casamentos e até funerais. Quando Louis Armstrong cantou o hino gospel “Quando os Santos vão caminhando” (When the Saints go Marchin’ in), emocionou o mundo:
Louis Armstrong
“Ó Senhor, eu quero fazer parte desta multidão / quando o sol começa a brilhar / Ó Senhor / eu quero fazer parte dessa multidão” (trad. livre do A.), música gravada em inúmeros estilos por incontáveis artistas). Havia orquestras como a de Buddy Bolden e bandas como a de Papa Jack Laine no início do século 20. Jelly Roll Morton também foi um dos bambas desse início.
O Ragtime (de ragged time, lit. tempo rasgado) surgiu no final do séc. 19 e consolidou-se com Scott Joplin, sendo o gênero um dos grandes alicerces do jazz.
Eagle Band, 1916
Sidney Bechet, The Eagle Band, Woodland Band, nomes proliferavam na cidade que era efervescência pura, tudo com inspiração nos escravos negros sulinos das plantações de algodão e seus blues: “Tempo de Verão (Summertime), e sua vida é fácil / os peixes saltam/ e o algodão se ergue alto / Seu papai está rico e sua mamãe é bonita / então corra, bebezinho, você sabe, não chore”.
Duke Ellington Orchestra
A partir daí, o gênero se espalhou: na Chicago dos anos 1920, palco do crime organizado, predominava o jazz tradicional, como o de Morton e Armstrong, mas depois de certa decadência, reavivou-o o Dixieland, por volta de 1940. Vieram orquestras, como as de Benny Goodman, Count Basie e Duke Ellington, ao estilo swing, e nomes como Art Tatum, Coleman Hawkins e as divas do blues, Billie Holiday e Bessie Smith.
Bill Evans
O impressionismo francês, como o de Debussy, passou a influenciar o jazz branco de David Brubeck e o grande pianista Bill Evans, do chamado cool jazz. Evans esteve no Brasil e, no Antonio’s, no Leblon carioca, conseguiu atrair os grandes da bossa, como João Donato e Tom Jobim, em uma grande “canja”. Mas o gênero jazz não acabava mais, houve o bebop, o cool, o latin jazz, o jazz fusion - fusão com o pop ou rock - e por aí vai.

O jovem Carlos Lyra (Divulgação)
“Influência do jazz”, de Carlos Lyra, foi uma música que marcou época ao falar brincando das críticas ao suposto “excesso” de jazz em nossa bossa-nova – que, aliás, já nasceu cool, nos apartamentos da zona Sul Carioca: “Pobre samba meu / foi se misturando, se modernizando e se perdeu / (...) mudou de repente / influência do jazz / quase que morreu”. Mas a mistura nem era nova, só mudaram conceitos, harmonia, improvisação e outros elementos. O famoso concerto de estreia da Bossa no Carnegie Hall, em NY em 1962, passou a atrair toda a música popular americana, a exemplo de Stan Getz e Charlie Byrd. 
Carnegie Hall, 1962: Bossa-Nova para os americanos
No aeroporto, os bossanovistas foram recepcionados por alguns grandes nomes do jazz. No concerto, estrelaram Jobim, João Gilberto, Menescal, Bonfá e trupe, enquanto mitos como Tony Bennet, Miles Davis, Gerry Mulligan, The Modern Jazz Quartet e Cannonball Adderley sentavam-se entre as 3 mil pessoas que lotavam a plateia.
Villa-Lobos
Verdade que a música francesa da virada do séc. 19 para 20 foi decisiva para a formação de Jobim, além de Villa-Lobos, seu “norte”. Os franceses incrementaram suas harmonias, acordes complexos, dissonantes, com notas agregadas, inversões, tudo o que a modernidade europeia da virada do século 19 para 20 trouxe, mas o espírito do jazz prevaleceu na bossa-nova (Noel Rosa cantou, em 1930, “...e outras bossas / são coisas nossas” - parece que preconizando o que estava por vir e mudar nossa música de vez).
Vinicius e Tom Jobim
“Chega de Saudade” é tida como o grande marco inicial. Letra de Vinicius e música sublime de Jobim, começa em Ré menor, tonalidade lamentosa, e fala “Vai, minha tristeza”. Passa para um alegre Ré maior, quando desperta felicidade no compositor: “Mas, se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca...”. Tudo adornado com acordes fora das tríades (três notas) tradicionais, e carregados com 4 ou 5 sons, sem falar nos 15 acordes diferentes apenas na primeira estrofe.
O samba continua, a bossa continua, a MPB vem, traz o Tropicalismo, e nossa boa música sobrevive até a aventuras e modismos de péssimo gosto para fazer dinheiro. Salve a grande música brasileira!
Influência do Jazz, de Carlos Lyra