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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

CONFORMISMO, ALIENAÇÃO, HAMLET E O DEBATE

 


Pode gostar de novelas da TV, filmes de caubói, de ação ou sci-fi, mas há horas em que o cidadão deve reservar seu tempo a um item de primeira necessidade. Não é luxo, um debate trata do espírito e da saúde dos necessitados (e dos que “têm fome e sede de justiça”: Mateus, 5, 6); vai de encontro à angústia da classe média, a se perguntar “vou ter emprego ano que vem?”, “vou conseguir honrar minhas dívidas?”, e ainda atiça a ansiedade dos poderosos quanto às suas ações na Bolsa, aplicações financeiras e assets, ativos de todos os gêneros. Claro que a vida é mais fácil para o conformista, outsider alienado, mas nem sempre a tanto: no filme Il Conformista (1970), de Bertolucci, sobre o livro de Alberto Moravia, o cidadão, enamorado de uma moça fascista, conforma-se com o regime de Mussolini, mas termina por aderir a ele, tendo como desafio ir para a França matar seu velho professor, militante antirregime.

Bertold Brecht

Entre exercer opção por alguma causa e alienar-se existe um abismo às profundezas. Alguns, talvez por figuras retóricas caducas, outros quem sabe por modismo ou fanatismo. O conformista do filme – Marcello, interpretado por Jean-Louis Trintignant -, era a persona do que o dramaturgo alemão Bertold Brecht descreveu como O Analfabeto Político: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, (...) do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. (...) É tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política”. Os que abraçam alguma causa que acham justa e os ‘analfabetos’ conformistas estão em extremos opostos, cabendo aos últimos abrir palácios aos poderosos com seu silêncio. Integram a vida na pólis, à imagem e semelhança das cidades-Estados gregas da antiguidade, chamadas poleis, onde, convivendo em sociedade, eram todos espécies de “animais políticos”.  


A vida em sociedade é permeada de política; aliás, alimenta-se dela, justificando sua existência (eis a pólis, de onde metrópole, política!) Os cidadãos, os vizinhos, a turma da sala de aulas, e, noutro microcosmo, a família, tudo são peças do jogo social. Alguém diria: “uns são mais iguais do que os outros”, coisa que sabemos, mas outra coisa é dividir nossa pólis entre dominadores e dominados, exploradores e explorados, uma dicotomia como querem filosofias mal compreendidas, reduzindo os demais estratos a pó. Há bem mais do que isso, e o cerne da política consiste justamente na diversidade - e por que não mesmo nos conflitos, pois é deles que emergem as soluções, diz uma velha e boa filosofia.

A Academia de Platão

A universidade – nossa academia! - não deve se propor a inocular conhecimento nos alunos de forma vertical, prática que os impede de abrir o leque dos questionamentos necessários, de fazer pensar e autocriticar-se. É preciso indagar, pensar em forma de perguntas, para que não se tenha ‘verdades absolutas’ em mãos sedutoras, porém inescrupulosas. A função do professor, mestre ou orientador, a partir de sua experiência e saber, é, ao contrário, provocar. Lembremos a Academia de Platão, criada c. 387 a.C. em Atenas, e a ideia de preparar os cidadãos desde crianças para a missão de serem filósofos-governantes que escolheriam seu próprio rei. (A Academia sobreviveu até o séc. 6, quando o imperador Justiniano, bizantino, a fechou, com o intuito de erradicar a cultura helênica pagã. E, claro, salvaguardar-se no poder).


Abre-se novo ato: em dia recentes, houve entrevistas no maior telejornal da TV. Primeiro, com o candidato Bolsonaro, em 22/08 – aos desavisados: não estava ali o presidente, mas o cidadão que também pleiteia a vaga; no dia 25/08, Lula, seu principal adversário. Não me proponho a analisa-las criticamente, não me lanço a isso mesmo porque quase todo jornalista especializado já o fez no dia seguinte, e com mais propriedade do que eu, mesmo observador atento, o faria. Apenas ressalto que os debates na TV como os que viriam, desde Kennedy x Nixon (1960), nos EUA, e em 1989, no Brasil – quase 30 anos depois -, entre Collor e Lula, na primeira eleição direta pós-ditadura, já são parte do calendário, ajudam o cidadão a equilibrar-se rumo à escolha que achar melhor. Óbvio é que a ausência de um dos dois líderes implicaria talvez na abstenção do outro, esquivando-se de se transformar na “berlinda” – ou “Judas”. E melaria o jogo democrático.

[Este segundo ato foi encerrado tendo nos imbróglios da cena final uma cavalgata. Se cada um tivesse dado a melhor contribuição para seus esclarecimentos – rebatendo com dignidade os ataques, atingindo pontos fracos com elegância, desvendando mentiras com verdades ou até exaltando virtudes alheias sobranceiras, teria sido admirável missão, embora quase impossível].


Contudo, também não baixou o espírito de Macbeth (c. 1603), tragédia do dramaturgo inglês William Shakespeare cujo papel-título é um general pronto para matar o rei da Escócia: “Porque o tempo se volta contra mim / devo apressar meus planos cruéis (...) / A todos, matarei pelo fio da espada”.  O suposto Macbeth desta trama não desembainhou sua adaga matando quem estivesse ao redor:   digladiaram-se vários, e o temor da degola não matou o rei Duncan, apenas o enervou. A pior tragédia possível desta encenação seria desaguar em um desastre para o país. O ato do debate é parte essencial de um drama moderno e grandioso, mesmo que por tortuosos caminhos: a democracia.

 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

ACADEMIA DE PLATÃO E CENSURA NAS REDES SOCIAIS

 


Tempos de ditadura, certa marchinha de Miguel Gustavo atiçava o povo na copa de 1970 - “Noventa milhões em ação / pra frente, Brasil / salve a Seleção”. Nelson Rodrigues dizia “a Seleção é a pátria de chuteiras”, o ufanismo era massificador e o governo excludente: “ame-o ou deixe-o”. Outra frase, que pelo estilo pode ser também do Nelson, atualizada pelo censo demográfico: “O Brasil tem 214 milhões de técnicos de futebol”. Claro, é na rua, no estádio ou na mesa do bar que todo brasileiro diz como fulano deveria batido aquele pênalti; olha, sicrano deixou entrar; não foi mão na bola, foi bola na mão (volta e meia gritaria e não raro safanões). Coisas do Brasil, como na Argentina, porém muito menos violentas do que os Hooligans ingleses - Hooligan seria o sobrenome de um irlandês violento, do gênero “João Valentão é brigão / pra dar bofetão” (Caymmi). Sejamos todos técnicos, há espaço para todos!

Justicialistas

Quando o assunto é política não difere muito do futebol, haja vista a enorme dissensão polarizada nesta já buliçosa pré-campanha eleitoral. Comparando à Argentina, discute-se não como os barulhentos peronistas do partido Justicialista, com seus tambores e gritos, nem como os quase sempre comportados ingleses. Nos quatro cantos do Brasil, paralelamente às discussões - quer sobre futebol, quer sobre política -, é comum investir um troco nas certezas de cada um: vale apostar dinheiro, quem sabe uma rodada ou um engradado de cerveja em quem vai fazer o gol da vitória. Na política, quem será o presidente, o governador e, frequentemente, o prefeito – no interior, os cidadãos são mais simpáticos à política local, que os afeta diretamente.


Mas não é só no futebol e na política que tantos milhões de brasileiros militam em debates com a verve de especialistas, mesmo que com pouco tempo de bancos colegiais, bem mais nas escolas da vida. Ler jornal? Um grupo mais seleto, talvez, pois a TV é bastante mais deglutível. Assistindo a novelas, comenta-se – frequentemente durante um intervalo ou mesmo alguma cena – sobre as pernas da atriz tal, aqueloutro e seus olhos, com invariáveis elogios ou palpites críticos: “como ela está bem neste papel”, ou “ele não tem cara de vilão, não acha?”, avaliações que no fim das contas acabam flutuando no ambiente, familiar ou não, transformado em plateia. Sim, a tendência é assistir em grupo, pois o pulsar e a respiração de cada espectador têm o efeito de reverberar no clima da audiência.


E como não bastassem o futebol, a política e o fazer artístico, também se discute economia. Claro, sem a erudição de um PHD da Harvard, são aqueles economistas forjados na própria condição de vida, nas dificuldades do dia a dia, na inflação galopante, no crédito impossível, no estouro do cartão, no preço exorbitante da gasolina e do diesel, do tomate, da carne, tudo o que o sufoca. Afinal, as finanças, segundo Kenneth Galbraith, em seu didático A Era da Incerteza1, já andavam a passos largos quando um campesino trocava cabras por um boi, e daí até o surgimento da moeda – versátil e mais fácil de se levar (1 em livro, há versão em português, e na internet uma ótima série em vídeo).


Sobre a expertise de um cidadão acerca de determinado assunto, lembro-me de ter conhecido o respeitadíssimo comentarista de economia Joelmir Betting, falecido há dez anos, em um churrasco do maestro Eleazar de Carvalho em Interlagos, na capital de SP. Para puxar assunto, ironizei sobre ele ter chegado em um Dodge Dart, beberrão à época nada bem quisto por conta do alto consumo e dos preços nas bombas. Brinquei, e logo com ele, um economista... Pegou a caneta e um guardanapo e foi fazendo as contas diante de mim, aluno embasbacado. “Vocês compram carro popular para economizar gasolina, eu compro um “gastão” e pago a metade. Daí vocês financiam e pagam em até 5 anos, eu quito à vista e parcelas só pago cada vez que encho o tanque. Na hora de vender o carro vocês perdem dinheiro, têm dificuldade em transferir o financiamento, eu não”. Agradeci a aula e nos fartamos no lauto almoço.  Foi somente depois desse episódio que descobri: Joelmir nunca fora economista, era um jornalista formado em Ciências Sociais na turma da Ruth Cardoso!

Academia de Platão

Todas as noites, após os telejornais, gosto de assistir aos programas de opiniões e debates com empresários, médicos, filósofos, apresentadores de TV, professores, cientistas, sociólogos, enfim, pessoas de credibilidade com formações diversas, no melhor estilo da Academia de Platão, lá atrás na Grécia antiga, primórdio da universidade (~387 a.C.): discutem ou expõem suas opiniões sobre diversos assuntos. Enriquecedor, ainda mais quando eventual discordância traz à luz novos elementos, um lado elegantemente acedendo ao outro: um sim com a cabeça, um sorriso ou um piscar de olhos. A diversificação e mesmo o conflito dão rumo ao conhecimento e à raiz do verdadeiro saber. A apologia do nada é bandeira da ignorância.

Novos tempos. Com o advento das redes sociais, alguns internautas postam críticas genéricas, toscas e depreciativas à exposição de ideias e conhecimento – textos negativistas geralmente copiados de um terceiro e colados digitalmente. Sinal dos tempos, compartilham uma espécie de censura, novo estilo de mordaça, sabedoria do nada saber e da “raiva de quem sabe”; ingenuamente, pensam que “lacraram”, como diz a gíria, com a aquiescência dos mais ignorantes do que eles.  Encerro parafraseando Nelson Rodrigues: “toda censura será castigada”.





domingo, 10 de fevereiro de 2019

UNIVERSIDADE OU FACULDADE?

A Academia de Platão (Rafael Sanzio, 1.510)

Para não nos alongarmos voltando a Platão (387 a.C.) e todo o longo caminho percorrido até hoje, vale recorrer ao Houaiss, muito confiável para breves consultas. Diz o verbete universidade: “Instituição de ensino e pesquisa constituída por um conjunto de faculdades”. E sobre faculdade, esclarece: “Instituição de ensino superior (isolada ou integrante de uma universidade”). A exemplo, na USP há quase trinta Faculdades, Escolas e Institutos, cada um com número considerável de cursos.
Mais de uma vez ouvi referências a alguma ‘universidade de música’. Trata-se de algo inexistente, pois por definição vimos que uma universidade engloba diversas áreas do conhecimento. Faculdades às vezes agrupam mais de uma área, e parecem sonhar a ampliação rumo a um patamar maior, a universidade. Exemplo é um curso de música que criei e dirigi em SP, trabalho extenuante iniciado em 2005, hoje referência entre as particulares. Essa faculdade também congrega cursos de agronomia, direito e administração.
exame.abril.com
Criar um curso com o aval do MEC é como um trabalho de Hércules. Mínimo de doutores, mestres e, enfim, bacharéis, as classes seguindo um modelo padrão para todas as áreas e a pouca compreensão do ministério sobre a especificidade musical. Há entraves como aulas individuais de instrumento em um quadro de classes e horários a ser preenchido dentro de certas regras fixas; faz-se de conta que todos os alunos do curso terão aulas sozinhos na mesma hora. Após a formatura da 1ª turma, outra visita do MEC autorizará ou não o curso – no caso mencionado, foi nota máxima.
Universidade de São Paulo (Jorge Maruta/USP imagens)
Na esfera pública, conheço os meandros da USP, da qual me aposento em breve,  onde há uma ligeiramente maior autonomia. Mas a Fuvest... Bom, a adequação da Música às regras da Fuvest teve, na medida do possível, algumas poucas melhoras, mas é nonsense pensar a música inserida em um universo tão multifacetado e hermético. O problema maior hoje ainda não é só o do ingresso de alunos, mas o de professores. Eu havia chegado com um diploma de peso dos EUA, mas após poucos tempo houve uma publicação da reitoria no Diário Oficial, em nome do ‘interesse acadêmico’, dando-me prazo para fazer o mestrado.
Prof. Emérito Sábato Magaldi (arquivo pessoal)
Mas qual mestrado? Não havia tal curso em música! Como alguns colegas, pensei, escolhi e fui aceito em Artes Plásticas. Confesso que aproveitei, mas quando o Departamento de Música emplacou seus três doutores e abriu o curso de mestrado foi lá que eu concluí o título. O mesmo se deu com o doutorado: não havia ainda tal curso em música. Lá fui eu me preparar, recuperar o francês (o inglês já tinha sido o idioma no mestrado), e a sorte de ter como orientador o saudoso e imortal da ABL Sábato Magaldi. Quando chegou a vez do doutorado, foi como a forma musical ‘variações sobre um tema’: repeti a dose do mestrado, e quando o curso foi estabelecido no Departamento de Música mudei-me outra vez para lá.
(Fondazione Stauffer)
Hoje, o título de doutor é pré-requisito para ingresso nas públicas. Isso traz maior peso aos Departamentos, mas tolhe o ingresso de alguns dos melhores profissionais das Artes: sequer poderiam se inscrever estrelas internacionais como Nelson Freire e Antonio Meneses, só para citar dois nomes reverenciados internacionalmente, sem falar em tantos excelentes músicos brasileiros ou estrangeiros que residem aqui. Um hipotético aluno, ‘encadeando’ diplomas, mesmo sem ter feito apresentações de porte ou tocado em orquestra de primeira no currículo, logo se torna apto a disputar uma vaga. Essa rotina de títulos é desconhecida no exterior: meu professor de instrumento mal se formou bacharel e já era o orientador mais procurado, como solista do naipe na Sinfônica de Boston. Isso, aos 23 anos de idade.
Eleazar de Carvalho com Marguerite Long: Légion d'Honneur
Eleazar de Carvalho, nosso maestro maior, foi titular da famosa Yale University tendo apenas um bacharelado. Recebido com todas as honras e a presença do presidente brasileiro, chegou agraciado com sua cátedra e o título de doutor honoris causa da própria Yale.  

Harvard University
O renomado educador Caio Moura Castro publicou na Veja (fev. 2005) “Harvard, quem diria, Acabou no Irajá”, parodiando a peça “Greta Garbo, quem diria...”, de Fernando Melo. Disse ele que certo dia Larry Summers, presidente de Harvard University, teria assistido a um desfile da Beija-Flor e se apaixonado. Logo trouxe mala e cuia, comprou casa em Nilópolis, convidou os melhores professores, criou ali uma Harvard tropical. Mas o MEC, ao inspecionar, acabou com o curso por estar em desacordo com as ‘regras’. Essa alegoria de Moura Castro não é cômica, é trágica.

Prova escrita da Fuvest
Agora, o pior de tudo: nas escolas superiores dos EUA - conheço mais de 30 delas -, a prova maior, decisiva, não é uma Fuvest, e sim tocar para uma banca. No Brasil, ao equiparar um vestibular de Música ao de Engenharia, perde a primeira: ao contrário dos candidatos aos outros cursos, que quase nada sabem de suas profissões almejadas, alunos de música devem chegar prontos, ou seja, tocando bem. Não se faz um violinista ou um pianista em quatro anos, a universidade apenas lapida o aluno que já tem bom desempenho. Daí a necessidade dos bons conservatórios, escolas de música ou ótimas escolas preparatórias, como as de algumas instituições americanas.
Jordan Hall, New England Conservatory
As melhores escolas superiores de música dos EUA têm 250 (Curtis), 800 (New England) ou 1.000 alunos, às vezes um pouco mais. E cômputo geral são muitas, de todos os níveis. A diferença se sente na hora da duríssima competição, que tem princípio com o ingresso no curso até uma boa colocação como músico profissional. Aos jovens músicos brasileiros, digo sempre que devem escolher bem seu professor, e uma boa universidade ou faculdade. Diploma só pelo diploma serve para começar a galgar etapas para um dia chegar a doutor e prestar concurso para lecionar em uma boa universidade. Ou para ter direito a prisão especial.