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sábado, 23 de abril de 2022

O HOMEM E SEUS SIGNOS

 

Olavo Bilac

Símbolos Pátrios são a Bandeira Nacional, as Armas (ou Brasão), o Selo e o Hino Nacional - em cujo início, na segunda parte da letra, há uma menção literal à ideia: “Brasil, de amor eterno seja símbolo / o lábaro que ostentas estrelado” (música de Francisco Manuel da Silva, 1831, e letra de Osório Duque Estrada, oficializada há apenas 100 anos, em 1922). No Hino à Bandeira a palavra aparece cinco vezes, desde o princípio: “Salve lindo pendão da esperança / salve símbolo augusto da paz”. A letra é de Olavo Bilac e a música de Francisco Braga.


Existem os logotipos
, logomarcas ou simplesmente logos, que identificam uma marca, um produto, uma empresa. Servem à rápida comunicação visual e identificação do objeto ou coisa que simbolizam. Toda boa empresa tem o seu nos papeis, na fachada do prédio, nas propagandas. Criancinhas de colo reconhecem facilmente os logos das empresas que vendem seus lanches e refrigerantes favoritos, sem precisar ler o que está escrito.


Muitos anos atrás
, uma experiência nos EUA trocou em alguns trechos um dos 24 quadros pelo logo de conhecida marca de refrigerante. Sequência que compõe cada segundo de um filme, a 24 quadros por segundo não há uma percepção objetiva, apenas subliminar, ou seja, que não se chega ao limiar da consciência. Um perigo? pensaria o leitor. Sim, com certeza, haja vista que após aquela sessão de cinema houve uma corrida ao estande do refrigerante cujo logo passou na fita por uma fração de segundo algumas vezes, sem ser notado.


Logos políticos
são marcas dos poderosos. A Swaztika (suástica) nazista, inspirada em um símbolo religioso muito antigo da Eurásia, representava divindades. Trazia as pontas ‘girando’ para a esquerda, e até 1930 era chamada Sauaztika.  Com o nazi-fascismo, o ‘giro’ mudou para a direita, passando a chamar-se Swaztika. Um arremedo de suástica foi o emprego da letra grega sigma, uma espécie de “E” quebrado no meio, enquanto o líder do Integralismo brasileiro, Plínio Salgado (1895-1975), bradava “anauê”, saudação do grupo, mais alinhado com o fascismo italiano do que o nazismo alemão. Mas a foice e o martelo são um símbolo sem dubiedades: a primeira representava o campesinato e o segundo a classe operária urbana, supostamente os trabalhadores da construção de um socialismo utópico a ser conquistado pela força – ideia hoje bem descaracterizada.


Há signos corporais
, como esticar o braço direito levemente acima do ângulo reto, gesto-símbolo do nazismo; seu equivalente fascista era o braço direito erguido para o alto. Os brasileiros integralistas o faziam de maneira parecida, mas com o braço levemente dobrado. Aos dedos: a mão fechada com o mínimo e indicador erguidos é própria do heavy metal, mas na superstição é a “mão carnuda”, que traz coisas boas, facilita engravidar. Indicador e médio em “V” para cima simbolizam vitória; de lado, surgiu nos movimentos da contracultura dos anos 1960 como sinal de paz, mas nos dias de hoje é um singelo “joinha”. O punho cerrado com braço erguido significa luta e resistência, como entre os negros americanos; já um “o” feito com as pontas do indicador e do polegar, nos EUA é sinal de ‘OK’ – ou dos supremacistas brancos -, mas no Brasil não é nada bem-vindo. A mão fechada com o polegar entre indicador e médio é a figa, atrai boa sorte, já o dedo médio esticado é ofensa em qualquer lugar. (Mãos fechadas e em linha, esquerda à frente, com os indicadores retos e polegares erguidos, apontando para baixo, simulam a posição de uso de armas pesadas e de grosso calibre, gesto armamentista característico da nova extrema direita brasileira).

Jung e seus discípulos 

A ideia deste artigo
surgiu do livro do psicanalista Carl Jung publicado em 1964 com o título Man and His Symbols (O Homem e Seus Símbolos), escrito pouco antes de sua morte, em 1961. Jung escreveu a primeira parte e seus orientandos as quatro outras, após sua morte: Chegando ao Inconsciente (Jung), Os Mitos Antigos e o Homem Moderno (Henderson), O Processo de Individualização (Franz), O Simbolismo nas Artes Plásticas (Jaffé) e Simbolismo em Uma Análise Individual (Jacobi).


Há no livro pensamentos magníficos
, como “Apesar de reivindicarmos orgulhosamente termos dominado a natureza, ainda somos suas vítimas porque não aprendemos a dominar a nós mesmos”. São essenciais as imersões nas teorias junguianas sobre os sonhos, a psique (mente, espírito) e os arquétipos (modelos ou paradigmas).


O ser humano se comunica por símbolos
: a fala, idiomas, sons, sinais e gestos, como o leve erguer da mão direita da Rainha Elizabeth e a bênção do Papa. Há o aceno de adeus e o ‘vem cá’, flexionando os dedos para dentro. O polegar para cima diz ‘positivo’, e para baixo, como fazia César, seria indicativo de que na arena o cidadão deveria ser morto. O indicador faz o j’accuse (eu acuso), ou aponta ‘este aqui’, exibindo uma suposta certeza.


Símbolos, signos e sinais
dividem suas origens latinas e formas de comunicação humana, mas delas talvez a escrita seja a ferramenta mais significativa. Dos grandes mestres, aprende-se em silêncio, numa generosa proximidade com o exercício da sabedoria, em sua doce plenitude de imersão. A escrita persiste enquanto o material empregado resistir ao tempo, sejam hieróglifos, aramaico, árabe, cirílico, celta, hebraico e outros. É escrevendo que o ser humano se comunica com o futuro, e ao chegar à literatura transcende o agora. Diz o provérbio latino verba volant scripta manent: palavras voam, a escrita permanece.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O QUE VOCÊS FIZERAM NAQUELE 6 DE JANEIRO?

 


O que teria acontecido nos EUA naquele dia de 2021?
Um fenômeno de massas desencadeado de forma nunca vista no país enquanto república democrática! O que levou as pessoas ao descontrole, àquele ponto? São perguntas que historiadores e cientistas sociais ainda não conseguiram responder a contento – afinal, fenômenos de massa não são palpáveis, geralmente nem é possível contabilizá-los pela absoluta falta de meios. Porém, um caso isolado pode servir de amostra exemplar do todo pela parte, peças que refletem como pequenos espelhos o quadro geral do acontecido.

A denúncia contra Bancroft

Uma amostra poderia ser Dawn Bancroft
, pacata eleitora republicana da Pensilvânia, proprietária de um estabelecimento de fitness que por impulso resolveu viajar até Washington, D. C., capital do país, seguindo afoita o brado de Donald Trump, derrotado nas eleições presidenciais americanas: “lutem com todas as suas forças!” Junto com uma amiga, chegou à Constitution Ave., e tendo a pressão da massa ensandecida como elemento contaminador de seus instintos mais reprimidos, com ela atravessou uma vidraça espatifada e invadiu o Capitólio, sede das casas legislativas do país. Segundo o The Economist (7/01/22), elas estavam “à caça” de Nancy Pelosi, então líder do partido Democrata e presidente da Câmara dos Representantes após a posse de Joe Biden, "para meter uma bala na cabeça dela, mas não a encontramos”. Saldo: 5 mortos e mais de 100 policiais feridos.


Disse o jornal que, diante do juiz Emmert Sullivan
, Bancroft reconheceu sua culpa na invasão. O magistrado suscitou uma questão estarrecedora: o que faz gente de bem, que nunca teve problemas com a lei, de repente transformar-se em terrorista? (Lembra o título da obra Pergunta sem Resposta - Unanswered Question -, do norte-americano Charles Ives composta em 1908). Todas as atitudes coletivas podem ser bem analisadas, mas nunca esclarecidas; no campo psíquico podem ser investigadas à luz de Carl Jung (1875-1961), ligado a Freud, que via dois segmentos no inconsciente: o pessoal e o coletivo. Este último seria o “conjunto de imagens primordiais, representações coletivas que são heranças de geração e que constitui os traços coletivos verificados no interior do psiquismo de cada indivíduo (...), imagens a que deu o nome de arquétipos (...), que não são jamais conscientes e não proveem de uma experiência pessoal do indivíduo”. Esses arquétipos são sempre inconscientes, “exprimem-se por símbolos que chegam ao consciente e podem invadir os sonhos ou se traduzir em mitos” (in Apoio às Disciplinas, USP).


A pergunta do juiz Sullivan
no caso Bancroft continuará sem resposta, mas as explicações de Jung sobre o inconsciente coletivo esclarecem até para nós, leigos no assunto, onde se encontra o cerne da questão, e se não trazem respostas ao menos lançam uma luz clara sobre o inconsciente coletivo no comportamento das massas: “esses arquétipos chegam ao consciente e podem invadir os sonhos ou se traduzir em mitos”. (O excelente dramaturgo e frasista Nélson Rodrigues, assumidamente de direita, proferiu uma lapidar: “a massa é ignara”).

Corpos de Benito e Clara

O inconsciente coletivo
pode levar a grandes convulsões, distúrbios de massa como o linchamento de Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci, que terminaram pendurados pela turba de cabeça para baixo em uma viga de um posto de gasolina, como fossem bois abatidos em um açougue. Na famosa música Devoção ao Demônio (Sympathy for the Devil), dos Rolling Stones - que Mick Jagger diz ser um “samba” influenciado pelo Candomblé da Bahia, onde o grupo ficou por semanas -, ilustraram com o demônio esses arquétipos humanos: “Eu estava lá, em São Petersburgo / quando vi que era hora para mudança / Matei o Czar e seus ministros / Anastasia gritou em vão / (...) Eu gritei: quem matou os Kennedys? / Quando afinal fomos eu e vocês”.

O monstro do Lago Ness

O inconsciente coletivo potencializa forças
, destila o ódio nas veias ou, como me disse um velho russo: faz a urina subir à cabeça. E há sempre o fanatismo e a ocasião para acionar o detonador no momento propício para agir: elas precisam ouvir algo como uma voz ecoando na revolta trancada na profundeza de suas mentes: “lutem com todas as suas forças!”, brado de Trump, estopim que incendiou as supostas fraudes nas urnas de votação – foi o estímulo que apontou evidências inexistentes de manipulação, tentativa frustrada de alcançar a vitória “na marra”. O que queria o então presidente, conclamando aquela invasão ensandecida e abilolada, sabendo que poderia desencadear um morticínio sem proporções? Outra vez uma incógnita, pois os desígnios de extremistas descontrolados são impenetráveis. Sabe-se também que é necessária uma liderança com energia suficiente para fazer emergir, tal como o monstro do Lago Ness, o intangível, o quase sobrenatural, que satisfaça sua volúpia e abra espaço para seus sonhos e pesadelos: é fundamental criar o caos, grande aliado no erguimento de um Estado de fanáticos.


CNN, 10/12/2021
: “Eleitores que acham que Trump venceu são os mais entusiasmados para votar em 2022” (para o Senado). “Por uma vantagem de 74% contra 25%, republicanos e independentes com tendência republicana dizem que Joe Biden não obteve votos suficientes para vencer a eleição de 2020 legitimamente”. A ocasião, a arma e os motivos – ainda que falsos – deverão estar presentes outra vez na eleição presidencial de 2024, e a decantada democracia americana será colocada de novo à prova, servindo de exemplo para o mundo.