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sexta-feira, 2 de julho de 2021

VELHO VOCABULÁRIO PARA NOVOS TEMPOS

 


Cada vez mais somos reféns do novo dialeto imposto pela Internet aos acontecimentos políticos, sejam direta ou indiretamente ligados a eles. Quantas vezes não se falou em cortina de fumaça nesses dias! Que fumacê! A exoneração do ministro Salles foi uma cortina de fumaça, dizem, e fumos de lenha grossa, completam os mais ferinos. Mas se por baixo do fumego o imunizante Covaxin jogou lenha em uma fogueira de enormes proporções, claro que não será assoprando que se irá apagá-la. Outros dizem que é fumaceira criada para encobrir fatos, Deus sabe quais, mas fumaça criada, trabalho dobrado. (Até lembrou Leônidas I, rei de Esparta, cinco séculos a.C.: “tanto melhor, combateremos à sombra”).


E haja modernicismos! (mea culpa: criei a palavra, neologizei para não matar de raiva o velho e bom modernismo). Tenho visto cringe, millenials, “geração Z”, coisas que alguma hora, talvez por acidente, vou descobrir o que são. Ou por fonte bem popular, talvez a única da “rapeize” – hoje em dia, galera -, o Google, pelo qual nutro certa aversão, sendo pessoa razoavelmente escolarizada. Conto isso em off, só para velhos amigos; mesmo assim, pessoalmente e sem ninguém por perto! (Diria hoje Tancredo Neves, mestre político e sábio mineiro, “smartphone é para marcar encontro no lugar errado”).


Gosto do discreto charme da velha guarda política, que tinha queda pela música: “Lacerda botou a boca no trombone”, a “Banda de Música da UDN” abafou a discussão, as lideranças estão desafinadas, um autogolpe foi ensaiado sob a batuta do presidente, e Fafá foi a “musa” das diretas já – lembrando que na mitologia grega musas eram divindades ligadas à criação, como Euterpe, da música, e Calíope, da bela voz. E enquanto o deputado fulano segue batendo na mesma tecla, tocando o mesmo bordão, o assessor beltrano foi pego com a boca na botija, que coisa feia: bebendo a manguaça escondido dos outros, diretamente na boca do fole.  Como de praxe, a campanha do impeachment é “orquestrada” pela oposição, o Congresso está “em compasso de espera”, as votações em plenário estão cheias de pianistas. Em tempos mais poéticos, Juscelino era o “pé de valsa”, Jango o “seresteiro”, e o comício na Central do Brasil (foto) seu “canto do cisne”.


Falando em cisne, quantos animais! A condenação fez do assessor um boi de piranha, animal doente ou mais velho que é jogado na água para o banquete selvagem daqueles vorazes peixes carnívoros, enquanto a boiada passa lá atrás no rio. Aliás, uma das frases recentes mais ouvidas e vistas na TV foi proferida pelo ex-ministro Ricardo Salles, em reunião no Alvorada: enquanto o Brasil naufragava de proa na pandemia, ele disse que o negócio era ir “passando a boiada”, o vírus como uma espessa e continental tenda de fumaça escura para encobrir atos nada canônicos, como diria meu pai. Coisa para fazer corar estátua de profeta do Aleijadinho.


Tem sempre alguém para “colocar o bode na sala”, provocar um assunto a fim de desviar a atenção do principal. Ou fazer de fulano um bode expiatório – segundo o Levítico bíblico, um de dois bodes era sacrificado no templo e o outro ficava, tendo sobre a cabeça a mão do sacerdote, para expiar, ou seja, remir os pecados de Israel. Na maçonaria, o bode é um animal especialíssimo, bom de ouvir e guardar segredos. A tradição remonta ao século 3 a.C., mistério revelado pelo apóstolo Paulo. Entre os adeptos de organização maçônica, não é incomum usar o nome do bicho para identificar-se em sigilo para um ‘irmão’ de outra loja, ou ainda para cutucar alguém para saber se é integrante da ordem: se não responder e ficar com cara de paisagem, certamente não é). Animal rebelde e de difícil controle, dele originou-se também “vai dar bode”, bagunça, caca. Já “amarrar o bode”, se conseguir... Pernas pra te que quero, o animal fica bravo! (Jards Macalé, lá por 1970, cantou: “se amarrar algum bode eu mato / se amarrar algum bode eu morro / (...) mas eu volto pra curtir”). E quem sabe o que foi um “pau de arara” não quer mais ouvir falar dele. Tristes trópicos.


Político dissidente expurgado de um partido vai amarrar o cavalo em outra freguesia, e se andar por linhas tortas pode dele cair. Por essas e outras, deve estar sempre com o cavalo encilhado. Os alienados, que não gostam de política, podem tirar o cavalinho da chuva: o grande castigo deles é que serão governados pelos que gostam dela (frase creditada a vários autores, e cuja origem pode estar no velho Platão). E um favor entre certos figurões costuma ter pilantragem oculta, pois a cavalo dado não se olha os dentes. E se a coisa vai mal, o sujeito pode ter de passar de cavalo a burro, coitado do animal que tem opinião própria, só anda por caminho aprendido ou para onde quer. Portanto, melhor seguir o troar do pai de santo: levanta teu cavalo!


Quanto aos modernicismos, havia dito no começo que iria pesquisar, mas o repórter Gilberto Amendola, do Estadão, o fez por mim na edição de 25 de junho: “A nova controvérsia (N.: “cringe”) nada mais é do que uma geração chamando a outra de antiquada” (em inglês, é “adular servilmente”, curvar-se). “Os millenials, ou geração Y, nasceram entre 1981 e 1996”. Por fim, fala da geração Z, que “domina a Internet e aponta alguns gostos ‘datados’ nos antecessores, como a série Friends, Harry Potter e desenhos da Disney”. De onde se conclui serem Y e Z alienados, nada a ver com política: São apenas ultramoderninhos que serão governados por quem gosta dela.

domingo, 27 de janeiro de 2019

SUPERSTIÇÕES, CRENDICES E DITOS POPULARES III (FIM)


No primeiro artigo desta série falamos sobre passar sob uma escada, do gato preto, do porco e da porca, do melhor amigo do homem e várias outras superstições, crendices e ditos, entremeados com frases e ideias cuja origem por vezes mal se sabe. No segundo texto, predominaram as frases, a exemplo de ‘o que é do homem o bicho não come’, ‘procurar chifre em cabeça de cavalo’, ditos já incorporados à nossa língua de forma tão natural que se ensina e se aprende escutando e passando adiante ‘de ouvido’ (vale um trocadilho: por transmissão ‘aural’). E há coisas que por vezes nasceram das Sagradas Escrituras, mas isso quem sabe?
Neste terceiro artigo, comecemos com o ‘bode expiatório’, que é quem ‘paga o pato’. Mas de onde veio isso? Levíticos, 16. Encurtando, dois bodes foram levados ao templo, em Jerusalém. Um deles foi sacrificado e o outro deixado vivo, a fim de expiar os pecados do povo judeu. E quanto a ‘dar um bode’? Ah, é problema feio. Jards Macalé, ícone da contracultura dos anos 70: “se amarrar algum bode eu mato / se amarrar algum bode eu morro / mas eu volto pra curtir”. ‘Amarrar o bode’ é ficar bravo, enfezado, porque se alguém amarra o bicho na cerca ou em um tronco ele se torna insuportável, pois berra, geme, grita, vira o diabo, é melhor soltá-lo ou ir para bem longe.
Imagem: Freemasonry Watch
O bode na antiguidade era um animal sagrado. Também se faz presente na maçonaria, o que induz alguns leigos às vezes a associarem erroneamente os ritos maçons com coisas do diabo. Mas falar do bicho pode ser apenas uma forma de um ‘irmão’ revelar-se maçom para outro ‘irmão’. Nada com o baixo-além, mesmo porque bode não fala, não conta nada, preceito fundamental para manutenção das confidências das sociedades maçons, nas quais segredo é regra de ouro.
A cabra, por sua vez – mulher do bode, diz-se - é vista como coisa ruim, com uma tinta de machismo: a saliva do bicho seria venenosa, de ‘secar pimenteira’, o bafo de dar enjoo, e, como seu marido, Sr. Bode, também teria coisa com o Demo, pois dificultaria os partos, entre outras maldades. Mas a necessidade  é vil, leite de cabra é forte que só ele, e por mais que digam que a cabra é do capeta, é boa ‘doadora’ do melhor leite.
Certa vez, perguntei ao célebre maestro cearense Eleazar de Carvalho onde ele conseguia tanta disposição para fazer um ensaio pela manhã em Porto Alegre, um concerto de Natal conosco à tarde em SP (OSESP) e um outro à noite, com a Sinfônica da Paraíba. É que eu fui criado com leite de cabra, bradou, como bom ‘Severino’. E queijo de cabra nem se fala, é bom ‘pra mais de metro’, muito apreciado na Europa, a exemplo dos tipos finos, como camembert, bûche ou feta. ‘Cabra da peste’ ou ‘da moléstia’ é o sujeito corajoso, viril, que luta como um animal e suporta as agruras do sertão nordestino. ‘Fulano é cabra macho’!
Não desanimeis, animais, brincava meu pai. Veja o boi, calmo e gentil. Cuidado: na Índia, a vaca é um animal sagrado. Por aqui, não dá bom churrasco, daí que ‘boi na terra dos outros vira vaca’, animal que não tem qualidade para corte e é mais utilizado para ordenha e procriação, sua carne não é tão saborosa e macia quanto a do boi. Em nossa cultura, o universo do boi veio dos árabes com os lusitanos, depois de mais de 700 anos de ocupação da Península, enriquecer nossas danças e folguedos, como o bumba-meu-boi maranhense, o boi-barroso dos Pampas, o boi-bumbá da região Norte, o boi-calemba recifense e o boi de jacá paulista, eventos cheios de danças, lendas e  fantasias.
O boi também está em uma lenda quase mítica da história do Brasil dos tempos do príncipe Maurício de Nassau (séc. 17), na época das Invasões Holandesas. Nassau queria fazer uma ponte sobre o rio Capibaribe, no Recife, mas a Holanda disse que a verba, ‘só no dia que boi voar’. Ironizando a ‘matriz’, Nassau pagou a madeira e a obra do seu bolso, e no dia da inauguração fez um boi empalhado atravessar o rio pendurado em uma roldana sobre uma corda, fazendo de bondinho. Foi baseado nessa quase-lenda que Chico Buarque e o cineasta Ruy Guerra, em parceria, compuseram para a peça Calabar: “O boi ainda dá bode / qual é a do boi que revoa / boi realmente não pode / voar à toa”.  
Superstições, crendices, frases e expressões populares são parte de nossa cultura e como tal devem ser preservadas. Não se deve tomá-las como lei, tampouco desdenhá-las. Não são interpretações malucas de coisas reais, algumas que retroagem na história, contra a ciência, contra tudo e contra todos. Parece que nos tempos de retrocesso global de hoje abriu-se espaço para o obscurantismo de séculos atrás: crer que a Terra é plana, que é o centro do Universo ou do sistema solar e outras coisas há muito tempo enterradas.
Autran Dourado (O Globo)
Meu pai dizia para nós, crianças: “Meia-noite / o sol nascia / um homem nu com a mão no bolso / sentado num banco de pedra feito de pau / calado dizia: / O mundo é uma bola quadrada / que gira parada / antes morrer do que perder a vida”, motivo para risadas e pedidos para que ele repetisse, e o fazia com muito humor. É surrealista mas tão atual, essa ‘bola quadrada que gira parada’... Autran Dourado teria completado 93 anos no dia 18 de janeiro e carregava tudo aquilo, do seu interior mineiro, bom capiau que era, sem que fantasias se imiscuíssem na sua percepção da realidade e dos fatos. Conceitos há muito abandonados andam virando modismos, há quem os creia verdadeiros. Recorro a Einstein: a ciência, sem religião, é manca. E a religião, sem ciência, é cega. (Fim)
"A experiência cósmica religiosa é a mais poderosa e nobre força impulsionadora da pesquisa científica"