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sábado, 24 de agosto de 2019

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DEFLORES

“Tamba-tajá me faz feliz / que o meu amor me queira bem / que seu amor seja só meu, de mais ninguém”. É uma canção sobre lenda indígena (registrada pelo paraense Waldemar Henrique), que na voz dengosa e merencória da Fafá de Belém, lançou-a em 1976. Da cultura tupi-guarani, que triste história! Um valoroso índio Macuxi e uma linda moça da tribo se enamoraram e amavam-se profundamente, casando-se conforme os rituais. Um dia, o infortúnio: ela adoeceu, nem andar conseguia. Para mantê-la junto de si, por onde quer que andasse o índio a carregava em uma espécie de rede nas costas. O fardo pesava demais quando ele percebeu que sua cara-metade havia morrido. Arrasado, enterrou-se junto com ela à beira de um riacho. Tempo passou e um dia nasceu ali uma frondosa planta, Tambatajá. Parte do ano ela descansa, para depois renascer plena de vida, espalhando colorido pelos bosques e florestas: verde, vermelho, roxo e às vezes prata.
Tambatajá: o renascer na Sagração da Primavera.

(Eu também achava que minha Tambatajá havia morrido, mas de triste deixei o vaso no lugar. Pois renasceu, viveu e hibernou de novo. Agora, com a partida do inverno, já ressurge da terra, lindas folhas em pares grande-pequena, simbolizando casais.)
Tambatajá dormindo, plantei uma Ráfia (Raphia Farinifera) de pequenas mas generosas copas de folhas compridas. Das três dezenas de espécies, há uma africana que pode chegar a 10m de altura. Se jovem, usam-na trançada; velha, serve para fazer uma espécie de cera; e sendo vinífera, dos frutos pode-se fazer licor. As domésticas, meninotas de apenas 2m de altura como a minha, são ornamentais e vicejam o ano inteiro.
O jardim de inverno já encorpava, melhor partir para o quintal: Ixora, uma das mais de 300 espécies de rubiáceas conhecidas. Dezenas, vermelhas e amarelas para compor com o arredor. Do sânscrito, Ishvara tem seus significados, e para a maioria dos hindus é Shiva (‘o auspicioso’), uma das divindades. Seus pequenos buquês de minúsculas flores também podem deixar de brotar, mas voltam a florir quando o clima favorece.
Completei o jardim da frente com uma espécie de palmeira, o Salgueiro Jerivá (Syagrus Romanzoffiana), uma das inúmeras espécies brasileiras, entre as folhagens de um enorme Chorão (S. Babylonica)  e seis Podocarpos (Podocarpus Macrophyllus) junto à casa. O Jerivá chega a 5m, pouco mais, e quando adulto se orna de coquinhos adocicados que fazem a festa de passarinhos, maritacas e papagaios.
Papiro Ebers
O salgueiro era conhecido pelos egípcios há mais de 3.500 anos, conforme o papiro de Ebers. O ácido salicílico de sua casca servia para alijar dores e ferimentos, mas se ingerido, ai da flora intestinal e do estômago! Em 1897, o laboratório alemão Bayer formulou o ácido acetilsalicílico, reduzindo os efeitos colaterais: AAS, Aspirina e, claro, Bayaspirina, entre outras).
Para graça do meu pequeno jardim interno, plantei Lírios da Paz (Stathiphyllum Wallisi). Em pouco tempo surgiram lindas flores, branquíssimas, entre folhagens verdes misteriosamente brilhantes. Na Síria, diz-se que a planta absorve os maus espíritos, que se transmutam em bons eflúvios como lindas flores, alvas como leite. Chegou aqui trazida da América Central, onde era cultivada para trazer perfume às moradas.
Dracenas
Agreguei uma Dracena (Dracaena Terminalis), de folhagens arroxeadas, e, par com ela, Crótons Vermelhos (Codiaeum Variegatum). Suspenso e também combinando, um Lambari Roxo (Tradescantia Zebrina), fora uma Samambaia (Polypodium Persicifolium). Ah, e as pequenas Suculentas (belas variações ornamentais de cactos).
Cróton: em floração

Os girassóis da paixão de Van Gogh
Os incas já conheciam as propriedades dos Girassóis: mascavam as sementes, extraíam óleo e admiravam sua  reverência ao astro-rei: as flores movimentam-se de acordo com a luz solar, por isso são ditas heliotrópicas, vivem pelo astro que os guia, tal qual os planetas de nosso sistema o gravitam, em deferência. Thomas, meu neto de cinco anos que nasceu e mora em um lugar onde se estimula o gosto por plantas, flores e natureza – Londres é 40% área verde! -, ganhou em uma festa sementes de Girassol e aqui as plantou em um vaso. No começo, cuidados extremos, muita água todos os dias, tarefa da qual me encarrego e aproveito para fotografar, enviando ao pequeno jardineiro londrino imagens de seus ‘bebês’, crescendo a cada dia.
O título deste artigo se deve a ele ser o único sobre plantas que escrevi; nele, de carona, vai uma homenagem ao compositor Geraldo Vandré, a quem conheci em 1989. Termino evocando o lindo coral Jesu bleibet meine Freude (Jesus, minha eterna alegria) da Cantata 147, composta por Bach sobre melodia de Johann Schop. Música que inspirou o Rancho das Flores (1961) do Vinicius de Morais, cantada ora em compasso ternário composto, como em Bach (9/8), ora em um quaternário meio forçado, fazendo-a espécie de marcha-rancho. Uma ode às flores que dão vida a nossas vidas: “Olhem bem para a Rosa, não há mais formosa/ é a flor dos amantes, é a rosa-mulher/ que em perfume e nobreza vem antes do cravo/ e do lírio e da hortênsia/ e da dália e do bom crisântemo/ e até mesmo do puro e gentil mal-me-quer”. “Satisfeita da vida/ vem a Margarida dos que têm paixão/ e agora é a vez da Papoula vermelha/ que dá tanto mel pras abelhas/ e alegra este mundo tão triste/ com a cor que é a do meu coração”. E assim passeia o ‘Poetinha’, desfilando seu rosário de pétalas, cada uma com suas virtudes. (Ouça abaixo, o Rancho das Flores)

[O leitor deve ter percebido que escrevi os nomes das plantas com iniciais maiúsculas. Como pessoas, com elas se conversa, mas não carece de coisa falada, bastam coração e pensamento].

sábado, 3 de junho de 2017

QUAL O IDIOMA DA MÚSICA?

Grupo Na Ponta do Dedo
O chorão toca seu bandolim, criado no século 18 a partir da bandola italiana. Usa uma palheta (como o plectrum do antigo cravo). No grupo, o cavaquinho, também conhecido como Braguinha, veio da Braga lusitana, onde se chamava viola braguesa; o violão descende do alaúde (al-ud) e seus parentes, introduzido pelos mouros durante a ocupação da Península Ibérica (711-1453). Pode ter seis ou sete cordas, e faz a ‘baixaria’. O pandeiro, saído do adufe árabe, cuida do ritmo, enquanto a flauta (do francês flûte, encontrada até em osso na pré-história) leva a melodia, às vezes seguida também pelo banjo, introduzido na África pelos árabes no séc. 17. O choro é música que nasceu da mistura do schottish - escocês, claro -, da polca polonesa e do samba (de semba, em dialeto de Luanda), por sua vez mesclado com maxixe, mistura de vários gêneros.

O guitarrista trabalha seus licks, trechos curtos em progressão, e riffs, padrões rítmico-melódicos. Costuma usar pedais como o sustain e o wah-wah (o som lembra o da surdina de trompetes nas velhas big bands), entre outros. Os grupos procuram gigs (do inglês) ou cachês (do francês cachet) para serviços em clubes ou boates (do francês boîte, caixa, pequeno ambiente), para depois se divertirem em uma jam-session, brincadeira de músicos (J.A.M.: jazz after midnight), quando o trabalho já terminou. Os acordes são escritos em cifras no mundo inteiro: “Cmaj7”, dó maior com sétima maior (major) e “Dmin7”, ré menor com sétima menor (minor), ambas em inglês).

Na música clássica, acontece o tempo todo: desde “sonata” (it.) peça tocada, ao invés de “cantata”, cantada. Sonata depois passou a designar uma forma-padrão de movimentos; “sinfonia” (do grego) é o agrupamento de vozes, sons, depois também uma forma composicional definida. Pavana vem do francês pavane, dança palaciana. O pianista pode tocar um “impromptu” (do latim, improviso), uma “balada” (do francês ballade), canção de espírito narrativo, ou uma polonaise (polonesa, em francês) como em obras de Chopin. Pode-se tocar uma passagem em piano, suave, quem sabe mezzo-forte (em italiano); cantar com voix de poitrine (voz de peito, em francês), ou boca chiusa (boca fechada), como na Bachianas 5, de Villa-Lobos.

Os instrumentos de arco podem ser tocados de centenas de formas: legato, sem interrupção no som, spiccato (do italiano spicare, separar), com o arco saltando, jeté, ‘atirado’, sul tasto, executado próximo ao tasto, peça de ébano sobre a qual os dedos da mão esquerda pressionam as cordas. Talvez um detaché, ‘destacado’, em francês, col legno, ‘com a madeira’, em italiano, percutindo a vareta do arco na corda, portato (do italiano), sequência de notas levemente separadas, articuladas em uma mesma direção, e tantas outras. Há várias formas de se tocar cada um desses ‘golpes’, a depender da escola estilística e da época. E há os termos mistos, que juntam dois ou até três idiomas, como em col legno gestrichen (italiano-alemão), um movimento em que a vareta do arco é ‘raspada’ sobre a corda, juntamente com a crina, e detaché off-string (francês-inglês), destacado, com o arco carregado fora da corda, sem nela repousar.

A harpa, de cordas dedilhadas, pode tocar près de la table (do francês, ‘perto da mesa’, o tampo harmônico, caixa de ressonância do instrumento. O profissional que constrói ou repara instrumentos de cordas é o luthier ou liutaio, em francês e italiano, respectivamente (de luth, alaúde, que vem do árabe al’ud). As madeiras do violino também levam nomes estrangeiros, principalmente italiano, como accero e abeto.
Eu poderia discorrer sobre o assunto ad libitum, expressão latina que em música significa que o instrumentista ou cantor deve executar sua parte com liberdade, sem mensurar o tempo. No meu Dicionário de Termos e Expressões da Música (SP: Ed. 34, 2004), coletei mais de 10.270 verbetes em diversos idiomas, mas sem incluir biografias para “engordar” o texto: são apenas termos e expressões. Mas será que todos os músicos são versados nessa babel de termos? Claro que não!
Os que fazem a música pura, a linda música de raiz, do baião ao xaxado, do cururu à moda de viola, do vaneirão à guarânia, do desafio ao samba de partido alto e o pagode - aquele de verdade, a tenda montada no quintal lembrando um pagode chinês, e não o modismo da TV, bem diferente.

(Oscar Pereira da Silva)
Todos usam instrumentos cuja origem para eles não importa realmente, e fazem sua arte por herança oral (diria até “aural”), coisa de pai para filho. Usam a viola caipira (ou um de seus outros 12 nomes) afinada em cebolinha, cebolão, rio abaixo, rio acima, conforme a região e o estilo. Pegam no ‘pinho’, sua viola de arame, e com incrível habilidade avançam na técnica chegando mesmo ao virtuosismo, simplesmente pela prática. No samba, podem tocar surdo de 1ª ou de 2ª (o tempo mais forte), e às vezes instrumentos que sabem apenas ser de origem africana, como afoxé e agogô, e isso lhes basta.


Esses artistas sabem que sua música sai do coração, tocam quase sempre por prazer e dedicação de devoto, não pensam em ser “sertanejos pop” e ficarem ricos. Sua arte é para sua comunidade, seus amigos, em quintais e bares, para quem quiser ouvir. Não pedem cachê, basta-lhes uma cervejinha barata ou uma 'manguaça' para abrir a garganta. Fazem desse amor à arte profissão de vida. E não carecem de quem os ensine teoria e afins: se ensinarem, estraga.