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sábado, 4 de novembro de 2017

O PODER DA MÚSICA - PARTE III

Eloise Mental Hospital
Em 1875, o psiquiatra francês Dr. Chonet reportou casos de cura pela música, como o de uma jovem epilética. Em 1936, o Dr. Altschuller do Eloise Mental Hospital, de Detroit, EUA, iniciou estudos sobre reabilitação de enfermos com música, e em 1944, o sueco Aleks Pontvik criou o Instituto de Terapia Musical, reportando curas que vão da asma à hipertensão. René de Castro, no Diário de São Paulo de 1° de novembro de 1951, chega a dividir a ideia em categorias: violino para os deprimidos, flauta para os tuberculosos, Beethoven para reumáticos e Mozart para cardíacos.
Hal Lingerman publicou As Energias Curativas da Música, em que sugere, baseado em suas pesquisas, obras para as mais diversas horas do dia. Seu texto aconselha, para os que se levantam, alguma música calma, que prepare o primeiro contato com a dura realidade do dia a dia; para os que apenas acordam mas querem tirar mais uma soneca, algo como os concertos para flauta de Vivaldi ou o Concerto para Clarineta de Mozart. No acompanhamento musical de um jantar, para boa digestão, alerta que convém evitar percussão pesada, como tímpanos e tambores diversos, além de metais como trombones e trompetes. E sugere para os bons repastos o Concerto para Piano nº 1 de Chopin, além, claro, da Música para Refeições, de Telemann.

Após um dia estafante de trabalho, ainda segundo Lingerman, coisas alegres e suaves, como o Canon de Pachelbel ou o Clair de Lune, de Debussy. Finalmente, como recurso para combater um dos males que afligem parte da humanidade, a insônia, subproduto do ritmo de vida neurótico e barulhento das metrópoles, Lingerman recomenda o Prelúdio à Tarde de Um Fauno, de Debussy, ou o Acalanto de Brahms. Mas tiro e queda mesmo, diz, seria a Ária da Corda Sol, de Bach - garantia de um sono verdadeira­mente relaxante. Diante desses argumentos, alguém pode concluir que a felicidade do dia parece caber em um simples e único CD de áudio.
Gênio da física apaixonado por música, Albert Einstein, criador da Teoria da Relatividade e um dos mais poderosos cérebros já nascidos neste planeta, adora­va seu violino, que costumava tocar para relaxar (ao ouvir Yehudi Menuhin pela primeira vez, Einstein disse que passou a ter convicção ainda mais profunda de que Deus existe). Tocava seu violino enquanto maquinava cálculos e teorias tão abstratos quanto inalcançáveis para os pobres mortais. Revolucionou a física e o pensa­mento científico modernos, e não era um músico medíocre, a se depreender das raríssimas gravações disponíveis, como uma performance ao violino com acompanhamento de piano, bastante musical. Parece que só não foi um ótimo violinista porque a dedicação à física não lhe dava o tempo de praticar o mínimo, que na arte musical não é pouco. Prova de que inteligência e talento musical não estão neces­sariamente divorciados, até pelo contrário, costumam caminhar de mãos dadas.

Josquin des Prés
Um dos primeiros compositores que souberam aproveitar seus dotes artísticos para arrancar dinheiro de reis, papas e nobres, ao mesmo tempo em que produzia grande número de encomendas para particulares, foi o renascentista Josquin des Prés (1440-1521), da Picardia francesa, que viveu na Itália. Josquin chegou a receber encomendas de outros países da Europa para as mais diversas ocasiões e finalidades. Temperamental, mesmo solicitado frequentemente, não se descuidava do lazer, compondo apenas quando dava na telha, descumprindo caprichosamente boa parte dos prazos.

A Igreja muito utilizou as cativantes propriedades espirituais da Música. Ouça um bom canto gregoriano, do século VI, vozes graves e sinuosos melismas (arabescos melódicos ornamentais). Esses cantos tinham a singular propriedade de prender a atenção dos fiéis durante o culto, elevando seus espíritos à comunhão com Deus. Também chamado cantochão, o canto gre­goriano  remonta à época do Papa Gregório I, que normatizou a música religiosa. Nada a ver com outro Papa Gregório, o XIII, que por sua vez decretou novo calendário, escamoteando para isso 11 dias de nossa História e fazendo conta de chegada com o ano bissexto. A música, antes subjugada ao poder da religião, passou a progredir fora da Igreja durante o classicismo, quando na pressa cega de escapar das amarras eclesiásticas infelizmente foi caindo nas malhas de governantes de vários matizes e ambiciosos empresários.

Banda de rock de padres, em Milwaukee
Não é à toa que muitas igrejas que agora proliferam no mundo, a reboque da propaganda e da mídia, utilizam teclados, guitarras, baterias e canções de louvor para cativar seus jovens frequentadores, antigo privilégio quase exclusivo de certos segmentos evangélicos, desde Lutero e os grandes compositores protestantes, como Bach. Já um padre chamado Marcelo Rossi, astro carismático de quase dois metros de altura, vendeu milhões de cópias de CDs com as músicas cantadas e dançadas em seus shows­-missas (e como se trata de certo tipo de modismo, um astro tanto pode ser seduzido por alguma TV de olho em seu sucesso quanto ter caído no esquecimento em algum tempo, destino frequente de estrelas de rápida ascensão).

Juca Chaves disse que uma coisa pode ser igual à outra: após um show em Salvador, em 1999, um fã perguntou-lhe por que ele não havia feito qualquer piada sobre o todo-poderoso senador baiano Antonio Carlos Magalhães. Juca respondeu que só contava anedotas sobre política, nunca sobre religião. Por fim, rendendo-se à TV e à mídia eletrônica, a música foi perdendo qualidade e se transvestindo, passando a moldar o gosto do povo. (Continua na próxima edição)

sábado, 16 de setembro de 2017

PARA MÚSICOS E AMANTES DA MÚSICA – PARTE I

O Aurélio acha que tudo deve ser história com agá, mas prefiro reforçar o caráter do texto com estória mesmo. Já o Houaiss identifica estória como “narrativa de cunho popular e tradicional.” (Os ingleses, corretamente, não abriram mão de story, que é bem diferente de history). Posso justificar essa escolha. A ideia de escrever este texto vinha sendo acalentada há tempos, e quase que partiu do título. Desde o início da minha carreira, seja nos conjuntos de Música Popular e orquestras, e mesmo durante os muitos anos de estudo, pude somar experiências, estórias e situações inusitadas, tão particulares do músico. Com o passar dos anos, passei a temer que essas informações pudessem se perder, pois amontoaram-se em minha memória e, por falta de espaço, muita coisa já estava sendo deletada (ah, esses neologismos de hoje).

Músicos senegaleses em bate-papo 
Conversar fiado sempre foi uma das atividades favoritas dos músicos, quando longe de seus instrumentos. O bate-papo nos bastidores, camarins ou esquinas, além de divertir servia também para saber de algum disco recente, o estilo de alguma estrela do jazz ou da regência, a performance de algum colega ou mesmo técnicas para execução de uma ou outra passagem musical. Esses assuntos, apesar de informais, com o passar do tempo acabam por se fundir, com naturalidade, no panelão da História (com agá) da Música, com seus aspectos mais insólitos e pitorescos.

Aproveitando essa interação entre formalidade e informalidade, aviso aos navegantes que grafo Música e Cultura com a inicial maiúscula ao invés de minúscula. Conforme o caso, prefiro música e cultura, assim mesmo, e por igual razão escrevo maestro ou Maestro, a depender do regente (essa última, por sua vez, é uma palavra que para mim implica em mero gerúndio, aquele que está regendo. Um Maestro é um Mestre).
PDQ Bach (fictício)
Para melhor esclarecer essas peculiaridades do texto, deve-se lembrar do inesgotável repertório de anedotas sobre a classe. Mesmo sabendo que boa parte foi extraída de casos reais, mas acabou inserida nesse verdadeiro folclore pelas mãos mágicas do tempo. Por isso neste texto qualquer semelhança entre a história e fatos ou pessoas verdadeiras na maioria das vezes não é mera coincidência.

O anedotárío sobre músicos é parte integrante do dia a dia dos profissionais, e cada orquestra tem seu piadista de plantão - como o violinista Rastelli, da Sinfônica de Campinas. Era no mínimo uma nova por dia (impossível conhecer tantas, devia inventar). Certo dia, durante um intervalo entre ensaios, no City Bar – então bar de média categoria e hoje point  e must em frente ao Centro de Convivência -, Rastelli, cercado por colegas junto ao balcão, disse: "Hoje vou contar uma de português". Do outro lado o antigo dono do bar, exclamou, irritado: "Pois não estás a ver que sou português?' Rapidamente, Rastelli retrucou: "Não tem problema, se não entenderes eu conto de novo".

O irreverente grande maestro e piadista Hans Von Büllow
Deixando de lado por enquanto o anedotárío, o conhecimento de fatos pitorescos da vida de instrumentistas, regentes e compositores é parte da vida do músico, costume que não vem de pouco tempo: talvez finque raízes em épocas tão remotas quanto as das manifestações artísticas mais primitivas (o grande Maestro Hans von Büllow costumava dizer: “No princípio era o ritmo").

Inicialmente, para este texto, passei a registrar as estórias de forma mais ou menos aleatória, do jeito que emergiam à lembrança, esperando que alguma hora eu pudesse concatená-las sem o risco de privá-las da naturalidade com que foram surgindo. Quando esses fatos, causos e anedotas começaram a se encadear, esboçaram-se tamanhas semelhanças entre eles que o texto passou a tomar corpo de forma natural, agrupando-os em frases, parágrafos e capítulos, como em uma composição musical: entretela de temas, variações, desenvolvimentos, recapitulações, seções e finalmente movimentos. As ideias foram se sucedendo, em improviso, tecendo aqui e ali verdadeiras cadências musicais.

Muito embora minhas reflexões tentem respeitar certa cronologia, torna-se necessário com frequência preterir o tempo em favor do sentido universal que empresto ao texto. Colaboram para quebrar a sequência histórica a interferência de fatos recentes nas descrições de acontecimentos do passado longínquo e vice-versa. Posso dizer que o verdadeiro Leitmotiv do livro é a personalidade ímpar dos músicos, nem tanto sua história ou sua obra.
Gossips - Rockwell 1944
Outra característica importante a ressaltar é o aspecto da transmissão oral (gosto de dizer: aural, de aura) de boa parte dessas informações. Muitos fatos e situações narrados - seja por simples lembrança ou complementados por pesquisa - surgiram do registro de relatos ouvidos e vividos, de uma forma ou de outra também passados adiante em corrente e gravados na memória de uma verdadeira teia de interlocutores.

Consciente de que interpretava fatos que pertencem tanto a vivências pessoais quanto ao patrimônio tombado da música universal, uma vez que o trabalho tomou corpo surgiu uma natural preocupação com os personagens que surgiam em cena. Situações passam a tomar um colorido especial, dando lugar à imaginação de quem as descreve - pois isso não é interpretar? Preocupava-me, entretanto, o fato de que as estórias narradas - sujeitas, é claro, a versões - traziam frequentemente nomes de pessoas vivas e situações reais. Explico: a natureza dos causos chega, às vezes, ao absurdo, e não raro desnuda situações francamente vexatórias, surrealistas ou até mesmo pornográficas. Essas últimas, por vício corporativista e preservando certo decoro da classe, tratarei de mascarar e deixarei de pormenorizar.

[Continua na próxima edição]