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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A COCA-COLA E A 'PEGADINHA' DA HONESTIDADE

Como uma mega-empresa encontra uma solução de marketing sem precedentes
A Coca-cola fez uma grande jogada de marketing em Portugal, com absoluto sucesso. Antes do jogo Sporting x Benfica, no Estádio da Luz, em Portugal, a empresa deixou cair propositalmente perto dos guichês da bilheteria várias carteiras de sócios do Sporting Club com um ingresso para o jogo do fim de semana.

Várias câmeras ocultas filmaram as cenas e, pasme, 95% das carteiras foram devolvidas. (Detalhe: para completar, as carteiras foram jogadas no chão com uma carteirinha do clube rival, da outra entrada!) Todo o processo foi filmado desde o ‘achado’ das carteiras à recompensa: ingressos para o jogo no sábado seguinte. Neste sábado, antes do início da partida, o vídeo foi exibido nos telões do Estádio, levantando aplausos de mais de 60 mil pessoas. E a Coca-Cola, em uma jogada fenomenal de marketing, divulgou que “há razões para acreditar em um mundo melhor”. Assista ao vídeo abaixo para ver que o marketing pode não ser tão pernicioso assim como se pensa. E que o povo pode não ser genericamente bandido como muitos falam. Não sou exatamente fã da Coca-Cola, muito pelo contrário, mas a ideia das carteiras ‘perdidas’ e da comprovação de que “pode haver um mundo melhor” com honestidade, essa foi um achado.

Há alguns anos, em São Paulo, a Rádio Eldorado FM promoveu uma brincadeira semelhante – só que os alvos foram soldados da PM em serviço nas ruas. Repórteres paravam seus carros e entregavam a cada PM uma carteira com R$ 50,00 e um cartão de visitas dentro, com nome e telefone. Pediam que fossem entregues a quem de direito e encaminhadas para os proprietários. Pois de 10 carteiras, 9 foram devolvidas intactas após telefonemas recebidos pelos repórteres! Há os nichos, sim, mas não são todos. Os que achacam agem em grupo e sabem onde procurar desvios e propinas.

O Brasil precisa parar com a mania de que ‘todo mundo é bandido’, ‘o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo’... É preciso crer, especialmente neste início deste novo ano, que “há razões para acreditar em um mundo melhor”, como diz a bela peça de marketing montada com muito bom gosto pela Coca-Cola. Veja abaixo

(colaboração de L. A. Galhego Fernandes):

O CONSERVATÓRIO E A CERTIFICAÇÃO DA ETEC*

 [artigo escrito para o jornal O Progresso]

Para melhor compreender o recente acordo Conservatório de Tatuí/Etec (foto à esquerda: Fábio Barros) é fundamental conhecer uma breve história das instituições de ensino das chamadas artes performáticas – teatro, dança, e principalmente música. O primeiro modelo de ensino musical completo remonta a Nápoles, Itália (1537), o mais antigo de todos. Dali, formou-se um paradigma para diversas outras escolas, consolidando-se no modelo do Conservatório de Paris (1795), a que se seguiram os de Bolonha (1804), Milão (1807), Praga (1808), Genebra (1835), São Petersburgo (1862), Moscou (1862),  New England, de Boston (1867), onde estudei, e vários outros com a denominação ‘Conservatório’. (continua)

O CONSERVATÓRIO DE TATUÍ (cont.)

A ideia de uma escola de música com o currículo completo – instrumento, voz, teoria e percepção, harmonia, contraponto e história da música, além de outras, como orquestras – ganhou terreno e espalhou-se pelo mundo. Com esse intuito - formar músicos completos e bem preparados -, e modelado por essa herança universal, foi criado por lei em 1951 em Tatuí um Conservatório, com o intuito de preparar músicos bem forjados na mais sólida formação. Com certeza, não há como ‘reinventar a pólvora’, ou seja, criar algo muito diferente do resto das escolas do gênero mais bem sucedidas do mundo. A novidade ficou apenas por conta da inclusão mais recente da música popular e do jazz na maioria dessas escolas mundo afora.

Os conservatórios de Moscou, Paris e New England adquiriram status superior adequando seus currículos, mas mantendo os cursos preparatórios para o nível básico. O de Genebra somente foi guindado ao status universitário em 2009 – razão pela qual diversos excelentes músicos brasileiros não tiveram seus diplomas de lá reconhecidos no Brasil. (continua)

OS CURSOS SUPERIORES DE MÚSICA NO BRASIL (cont)

Em 2005 criei um curso superior em música (Faculdade Cantareira), com um time de campeões no corpo docente. Em dois anos, cansei de trabalhar com os grilhões do MEC pesando nos pés e mãos (foto do prédio do MEC no Rio). É difícil formar músicos em um curso superior, no país. Como professor da USP desde 1988 (hoje em afastamento), compreendi o porquê de alguns colegas, desde aquela época, já frustrados e desanimados, dizerem que música no Brasil era para conservatórios, e a universidade, amarrada e emperrada, era para musicólogos e pesquisadores. Um curso superior de música não é como os de medicina, engenharia ou direito, em que se pressupõe que o aluno ingressante nunca– ou raramente - tem  o mínimo conhecimento na área. Não se forma um músico em 4 anos -  por isso, com maior flexibilidade curricular, os cursos de violino ou piano, nos conservatórios, podem chegar aos 12 anos de duração e as demais especialidades oscilam entre 6 e 8 anos. Na universidade, ao ingressar despreparado e defrontando-se com enormes dificuldades de organização didática e burocracia, é tarefa inglória formar o músico de que o país precisa - até o dia em que o Governo Federal modificar radicalmente as estruturas - e as universidades, por sua vez, suas normas. Mas não parece de longe ser essa a vontade política do MEC, nem parece que se pretenda mudar a inércia corporativa atual. (continua)

“HARVARD, QUEM DIRIA, FOI PARAR NO IRAJÁ” (cont.)

Já que tocamos no assunto ensino de música em nível superior no Brasil, cabe lembrar um artigo publicado há alguns anos na revista Veja por Claudio de Moura Castro (mestre em Economia pela Universidade de Yale, especialista em educação), intitulado “Harvard foi parar no Irajá”, brincando com uma peça de teatro - “Greta Garbo, quem diria...”, de Fernando Mello (1973). Em tom de anedota, Castro conta que Mr. Larry Summers, então presidente da renomadíssima Harvard University (ver foto do alojamento de alunos ao lado), teria ido ao Rio de Janeiro assistir ao desfile das escolas de samba, e... apaixonou-se. Logo quis criar uma ‘Harvard brasileira’, e para isso injetou uma fortuna em busca de excelentes espaços, bibliotecas e os melhores professores. O resultado, segundo Castro, foi (ou teria sido) que em 6 meses o MEC fechou a ‘Harvard brasileira’.  E não é engraçado, é triste! (continua)

O DIÁLOGO COMPETENTE DA ETEC (cont.)

Abrir um curso técnico de música via MEC é tarefa estafante e de perspectivas nada interessantes, em termos de qualidade - haja vista a experiência vivida (e felizmente abortada) pela Escola Municipal de Música de São Paulo. Por essas diferenças, ao sair da esfera do MEC, os estudos feitos pelo Conservatório em parceria com o Centro Paula Souza, do Governo do Estado de São Paulo, levaram apenas dois anos para serem concluídos, aproveitando nosso currículo e possibilitando ao aluno selecionado um certificado do Conservatório e um diploma técnico Etec-CDMCC.  O acordo não mexe uma vírgula na grade curricular do Conservatório, mas mediante a aprovação de apenas 4 disciplinas na Etec, no final do curso, o aluno que concluir a grade ajustada com o CEETPS receberá seu diploma técnico.  A dimensão dessa conquista somente será compreendida em sua amplitude real daqui a alguns anos, após formadas as primeiras turmas.

Um possível curso superior de música por aqui, dadas as dificuldades burocráticas impostas pelo MEC, tem sido por ora uma ideia na gaveta. Porém, diante do sucesso da parceria com a Etec do Centro Paula Souza, há horizontes para sonharmos algo à parte do Conservatório - mas dentro dele - em nível superior de música.  Só o tempo dirá, e, quem viver e quiser ver, verá.

(foto: instalações da Etec-Tatuí. Foto: CPS)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

ROSA-ROCHEL: DUO DE VIOLÕES 'LEVA' 1o. LUGAR NO PRÉ-ESTREIA

ROSA-ROCHEL (OU PAULO-MARCELLY)
Grandes vencedores do concurso Pré-Estreia
(Foto: Kazuo Watanabe)

Como não podia deixar de ser, domingo passado (11/12), às 16h, pudemos curtir à vontade o programa “Pré-Estreia”, da TV Cultura, talvez o maior, mais completo e mais diversificado concurso de música clássica já criado no Brasil. A final foi vista por músicos de todo o país.

Uma das novidades é que o concurso foi feito para TV, o que exige muito da presença no palco, fora estar sendo visto e filmado por diversos ângulos. Outra, é que havia duas categorias: solista e música de câmera – no qual se encaixa nosso duo de violões. Marcelly Rosa, nascida em São Paulo, tem apenas 16 anos e reside em Tatuí há sete anos. Paulo Rochel, 20 anos, é de Angatuba e estuda na FATEC de Tatuí. Ambos são alunos do Conservatório, nas classes de Edson Lopes e Marcia Braga, a quem parabenizamos de coração.

O setor de violão clássico é um dos que mais tem crescido no Conservatório. Há mais de um ano com instalações adequadas, conforto, sala de ensaios e aquele silêncio que o instrumento exige, tem trazido rendimento cada vez melhor e diversos prêmios para os alunos.

O Duo mudou o repertório a ser apresentado na grande final, o que causa sempre alguma ansiedade; no entanto, foi talvez por esse desprendimento e por essa vontade de vencer que uma transcrição de um sexteto para cordas de Brahms (Op. 18) feita pelo virtuose inglês John Willimas, bastante difícil, tenha convencido os jurados – creio que por unanimidade – a entregá-los o polpudo prêmio de R$ 35.000,00, mais propostas de recitais, etc.

Como diz o título do programa – Pré-Estreia -, Marcelly e Paulo agora já estão na estreia da carreira de solistas profissionais. O Brasil é pródigo em grandes nomes do violão, como os Irmãos Assad, Sergio Abreu e Fábio Zanon; no popular, Laurindo de Almeida, Yamandu Costa e Baden Powell. O violão talvez só perde o lugar de instrumento favorito para nossas dezenas de pianistas premiados no exterior.

Vamos guardar o nome desses dois jovens e acompanhá-los -  há uma luta longa e inglória que eles deverão prosseguir, não vai ser nada fácil e eles sabem. Mas parece que ambos nasceram com aquela “estrela na testa” que só os vencedores têm. Obrigado, meninos!

FRANK BATTISTI MANDA SEU CARINHO

FRANK BATTISTI E AS IMPRESSÕES DE TATUÍ
Regente descreve visita e concerto

Maestro norte-americano, que será assunto de longa matéria na revista Ensaio, agradece em e-mail:

“A visita ao Conservatório foi uma experiência maravilhosa e completa para mim. Os músicos da Banda Sinfônica foram excelentes para se trabalhar, assim como todo o pessoal do Conservatório que me ajudou e à minha esposa. Nós nunca tivemos, em todas as viagens para tantas partes do mundo onde regi ou lecionei, visto tamanha hospitalidade. Foi magnífico!!! Obrigado pelo convite para reger a Banda. Charlotte e eu estendemos nossos melhores votos para que você e o Conservatório para um sempre crescente sucesso.

Feliz Natal e Boas Festas!”

Frank Battisti.

MÚSICA PARA OUVIR NO NATAL

O que existe para ser ouvido em todos os gêneros


As emissoras de TV preparam os mesmos shows de sempre, as mesmas vinhetas e jingles, só mudam os atores sorridentes e artificialmente alegres (façamos justiça: há uma bonita canção de um anúncio da Varig). Você é obrigado a ouvir péssimas adaptações das chamadas Christmas carols (canções de Natal) americanas, muitas delas de uma pobreza de tradução claudicante. “Toca o sino, pequenino / sino de Belém...” (Jingle bells) e não dá para esquecer aquela história famosa em que um jogador de futebol desce no aeroporto da capital do Pará, declarando estar “muito contente por conhecer a terra onde Jesus (sic) nasceu”. Velhinhos de barba postiça sofrem com o calor do verão brasileiro, vestindo túnica e gorro vermelho e branco, esperando as renas que não existem por aqui, a neve que aqui não cai e a árvore chamada “maple”, que só cresce em clima temperado - mas aqui pode ser substituída por pinheirinhos).

Muitos esbanjam, competem na decoração da casa, esnobam roupas caras, comem gulosamente, empanturram-se e se embriagam, trocando presentes e ‘amigos secretos’ – que nada mais são do que uma invenção da classe média para baratear os custos dos antigos e generosos Natais. No meio da farra, que nada difere daquela do réveillon ou de um churrasco de fim de ano na empresa, não param um segundo sequer para pensar que a data comemora o nascimento do Salvador – para os que crêm ou não (o sofrimento do filho de Deus foi para todos), o símbolo, o anúncio da Paz que um dia virá.

Penso que a grande maioria não conhece, ou apenas acha familiar alguns dos grandes clássicos natalinos. Para quem gosta do ‘pop’ de bom gosto, há o Merry Christmas, CD com linda interpretação de Mariah Carey, os CDs de Elvis Presley, com a antológica Blue Christmas, ou ainda John Lennon, com Merry Christmas (com subtítulo “a guerra acabou”, celebrando o final do conflito do Vietnã): “Então é Natal / e o que você fez? / um ano a mais / e um ano novo / acabou de começar / Então é Natal / espero que você se alegre / e  ao próximo e aos queridos / o velho e o novo / um feliz, feliz Natal / e um feliz ano novo / que seja um bom ano / sem medo algum” (trad. livre).  Tem também um lindo álbum inteiro do Bob Dylan, Christmas in the heart (Natal no coração) – apesar de ser judeu, Dylan sempre comemorou o Natal.

(No link abaixo, Elvis canta Blue Christmas, de 1968)



MEU NATAL BRASILEIRO...

Na tradição natalina popular brasileira pouco se criou em música. A maior parte do que se canta (se é que ainda se canta) são versões dos carols americanos. Há exemplos que me abstenho de comentar, como uma música do Carlinhos Brown e Xuxa. É esse tipo de coisa que se toca. Mas todos se esquecem de “Presente de Natal”, de Alvarenga e Ranchinho, “Meu Natal”, de Ary Barroso, “Papai Noel esqueceu”, de Nasser e Herivelto, “Dia de Natal”, de Hervé Cordovil, e “Boas Festas”, de Assis Valente. Por serem da terra, são esquecidas. Perde o país.

(No link acima, “Meu Natal”, do Ary Barroso, por Jamelão).