Em linguagem plena de simbolismo, várias passagens do Novo
Testamento repetem, de uma forma ou de outra, a mesma frase dita pelo Salvador:
“traziam-lhe até mesmo criancinhas para que as tocasse; vendo aquilo, os
discípulos as repreendiam. Jesus, no entanto, chamou-as (N. do A.: as crianças)
dizendo a todos: ‘deixai virem a mim as criancinhas e não as impeçais, pois é
delas o Reino de Deus. Em verdade vos digo, aquele que não conhecer o Reino de
Deus como uma criancinha, não entrará nele (Lucas 18, 15-17). Textos
semelhantes de outros evangelistas, Marcos 10, 13-16 e Mateus 19, 13-15 também
relatam o episódio.
A passagem estampa as palavras de Cristo e sua intenção de
receber as crianças livremente, e os versículos citados podem ser interpretados
como o desejo de Jesus de que as crianças viessem, com ele, a se encontrar o
Pai, Deus, que lhes era desconhecido. Os Evangelhos demonstram a imagem da
pureza inocente das crianças, e diz mais: que para merecer o reino de Deus cada
um deve sentir-se como um dos pequenos.
Sodoma
Já o Antigo Testamento traz uma visão diferente, em muitas
passagens, como em Gênesis, 19: nenhuma criança salvou-se de Sodoma e Gomorra,
provavelmente significando que os pequenos foram contaminados pelo mal que
soçobrava naquelas cidades sobre as quais a Bíblia judaica diz ter Deus
despejado sua ira, destruindo a tudo e todos com fogo e enxofre. No Salmo 58.3,
lemos que “os ímpios (impuros, incrédulos) se desviam desde o nascimento”.
Entre os judeus de antes de Cristo, a visão sobre as crianças não é tão sublime
quanto a de Cristo contada pelos evangelistas: “Alienam-se os ímpios desde o
nascimento; andam errados desde que nasceram falando mentiras”, diz o mesmo
Salmo.
"Jesus, rei dos judeus"
A pureza da criança está presente já mesmo no nascimento do
Filho de Deus, o Menino Jesus, aquela criança que traria medo ao Império como o
Rei dos Judeus, o que na visão do governo da Judéia representaria uma liderança
ameaçadora ao poder. E o Menino era criança, de criar, de cria mesmo - como
entre os animais, tudo da mesma raiz, essa a imagem que todos nós gostamos de
ver e cultivar, tão ameaçadora para os poderosos, os tiranos e os inimigos do
povo. O Pai é quem cria, é o Criador, dizem as escrituras.
Verdade é que no fundo, no fundinho mesmo, ficamos
apreensivos quando nossos filhos entram na puberdade rumo ao mundo adulto. Todo
aquele frescor, aquela beleza, do sorriso de poucos dentes, as gracinhas, as
birras, as pirraças, a baguncinha que nos fazem fingir de irritados. Só fingir.
Tudo isso torna-se assunto para piadas sobre os nossos próprios filhos, que
contamos com prazer para nossos amigos e amigas, anedotas reais narradas com
orgulho e um sorriso nos lábios – nos dias de hoje, são gracinhas divididas e
multiplicadas até mesmo nas redes sociais. E não é que também fomos todos
crianças, um dia, assim como o foram nossos pais, e o serão nossos netos?
O ciclo da natureza diz que nascemos, crescemos, nos
reproduzimos e... morremos. Porém, não é o caso de se evocar aqui nada triste,
pois o mais triste mesmo acontece em vida, esse curto espaço de tempo entre o
início e o fim do ciclo de cada um, vida cujo lado mais belo é vê-la
reproduzir-se no nascimento e esplendor de mais uma criança, um a mais a
colaborar em nossa missão de povoar este imenso mundo.
Criado, criatura, tudo surgido do latim, de onde também veio
crisma - de “chrisma”-, que significa unção, a confirmação do batismo (no rito
católico). Chico Buarque, com a fina veia poética de sempre, cantou em Minha
História (versão da música e letra de ‘Gesù Bambino’ dos italianos Lucio Dalla
e Palotino): “quando enfim eu nasci minha mãe / enrolou-me num manto / me
vestiu como se eu fosse assim / uma espécie de santo / (...) e não sei bem se
por ironia ou se por amor / resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor”.
O poeta mostra um menino mais mundano, atual, marginal até,
mas que guarda em si a pureza infantil do Menino Jesus, pleno das qualidades
que desde cedo lhe valeram o santo apelido. Se o mundo que o personagem
buarqueano encontrou é cheio de vícios, “ladrões e amantes, colegas de copo e
de cruz”, por outro lado ele se sente ainda criança em meio à podridão das
nações contaminadas pela injustiça social e desigualdades – como as que o Jesus
real, pobre e vítima, o condenaram desde que nasceu, rebento do ventre de
Maria. Em contraponto, finaliza o personagem da canção, todos de seu mundo
hostil e sujo “me conhecem só pelo meu nome de Menino Jesus”: uma boa criança,
um bom garoto. (Abaixo, gravação histórica para a TV italiana, com Chico, Lucio
Dalla e Toquinho)
Maestro Camargo Guarnieri
Mas o que é mesmo uma criança? Seria a fase entre o
bebê e a puberdade, como querem alguns especialistas, ou seria algo mais
flexível, um estado de espírito? Quem nunca ouviu falar de Baby Pignatari, Baby
do Brasil, Baby Doc? Quem não chama seus filhos, às vezes já pais de seus
netos, de crianças? Não consigo deixar de dizer “vou buscar as crianças” (o
menor de meus quatro tem 16 anos). E quando meu filho Lucas - aliás, Baby
Lucas, hoje morando em Seattle, EUA -, se juntava com Baby Fernando, filho do
flautista da Osesp José Ananias, e Baby Alexandre, filho do violoncelista Bob
Suetholtz, e iam brincar no parquinho do Clube Paulistano enquanto o avô de
Baby Alexandre, o ilustríssimo maestro Camargo Guarnieri, nos permitia absorver
suas palavras inteligentíssimas sobre música, história e vida? Pois serão todos
“babies” para sempre!
Baby Alexandre Camargo Guarnieri Suetholtz
Baby Lucas Dourado
Platão
Platão nos ensinou uma pérola: “podemos perdoar uma criança
que tem medo da escuridão, pois a tragédia reside nos homens que temem a luz”.
A elas (crianças) nos é facultado perdoar, pois que é da natureza delas ver o
mundo de forma sincrética (de visão global, generalizada, mista) e não como
nós, que o vemos sob a impiedosa ótica analítica, armados diante do medo ao
desconhecido, cegos à luz. Segundo o psicólogo e pensador suíço Jean Piaget,
talvez por volta dos sete anos essa metamorfose tem início, com essa idade a
criança igualmente inicia suas descobertas do mundo adulto, mundo que em breve
irá adentrar e desbravar, livre como um pássaro em seu primeiro voo, dono de si
mas abandonando no ninho a casta pureza infantil.
Esse “pé nas nuvens” da infância seduzia o gênio Albert
Einstein (curiosamente, um judeu meio distante de sua crença, e também distante
da criança que David vê em seu Salmo 58). Einstein achava que a verdade e a
beleza são os fatores que nos permitiriam permanecer crianças, mesmo adultos,
até o resto de nossas vidas. (Pois não foi ele mesmo um dos grandes exemplos de
criança? A língua de fora, as excentricidades, os cabelos desgrenhados, as
brincadeiras, as piadas e caretas...).
Jean-Paul Sartre
O existencialista Jean-Paul Sartre, aquele que foi “para não
deixar de ser”, dizia que foi uma criança, “daquelas que os adultos moldam de
acordo com suas mágoas e frustrações”. Porém, esse azedume em forma de
pensamento se explica pelas leituras que fazia com frequência dos textos da
linha do pessimismo (Schoppenhauer), e da negação (niilismo, do latim “nihil”:
nada), que contaminara até Nietzsche,
filósofo alemão do séc. 19).
Hemingway e os peixes
Com outro espírito, Ernst Heminguay, sempre romântico e
amante da liberdade, autor da obra prima “O Velho e o Mar”, belíssima ficção
sobre uma longa, inglória e solitária luta entre um pescador e seu peixe,
jornada que era sua labuta, o alimento salvador. Heminguay achava que as crianças são o
presente mais doce que a natureza dá para a humanidade (talvez tal qual os
peixes, deve ter pensado ele, vivenciando em si seu pescador). Sobre crianças e
peixes também canta Milton Nascimento: “eu vejo esses peixes e vou de coração /
eu vejo essas matas e vou de coração à natureza”. E segue, em seu Milagre dos
Peixes: “telas falam colorindo de crianças coloridas...” Mas há o mal que
espreita e ameaça essa meninada, há o mundo repressor que as envolve (a canção
é dos tempos da ditadura): “eles não falam do mar e dos peixes / nem deixam ver
a moça, a pura canção / nem ver nascer o sol... / eu apenas sou um a mais, um a
mais / a falar dessa dor, a nossa dor”. Tornando-se criança, Milton se agacha
entre os pequenos, protegendo-os, e se mostra apenas um a mais a falar dessa
dor, o sofrimento de todos nós, mulheres e homens! (Abaixo, Milton se supera em
“Milagre dos Peixes”, no Festival de Montreaux, em 1999).
Todos os dias são das crianças. Ao levantar, ao ir para a
creche ou para a escola, na hora da pizza ou do sorvete, do game ou da bola de
meia. Mas para que serviria então um dia dedicado a eles? Para lhes demonstrar
toda a nossa atenção e pensamentos, nossos desejos e paixões, de vê-los crescer
felizes e crianças por toda, toda a vida.
Isabela e Pedro, filhos, alguns anos atrás
Blog dedicado aos meus filhos e ao neto que vai nascer inglêsem
2014. Filho de Marta, que como Maria também "escolheu a parte certa". E a todas as crianças de todas as idades do mundo.
“Sei
que vou morrer, não sei o dia / levarei saudades da Maria / sei que vou morrer,
não sei a hora / levarei saudades da Aurora... / Quero morrer numa batucada de
bamba / na cadência bonita do samba”, do lindo samba composto pelo ilustre
Ataulfo Alves (e Paulo Gesta) em 1962. Bom para dançar, para cantar, é samba de
terreiro, de quintal, de pagode (o de verdade, das tendas de lona – chamadas
pagodes, à moda dos telhados chineses - improvisadas nos subúrbios do Rio de
Janeiro). A letra menciona uma palavra muito comum no samba: a cadência. Ela aqui
tem o sentido de movimento rítmico, ginga, o requebro da cabrocha, o suingue do
brasileiro. A “Cadência” do Ataulfo já foi gravada pelo próprio e de Elizete
Cardoso a Cássia Eller. É uma pérola do repertório do samba. (Veja e ouça abaixo com Ataulfo e uma ótima big-band)
A famosa cadência de Joachim
para o concerto para violino de Brahms
Cadência
também pode ser tradução do italiano “cadenza”, da mesma raiz latina: “cadere”,
cair, ceder, agora significando o trecho escrito ou improvisado sobre o qual o
solista demonstra suas habilidades virtuosísticas e musicais com grande
liberdade: “ad libitum” e “a piacere” (em italiano), ou “à volonté” (francês) –
indicando que o instrumentista ou cantor deverá se sentir livre para flutuar no
tempo e reduzir ou estender notas e andamentos da forma que lhe convier, sem as
“amarras” do tempo rígido. Donizetti escreveu várias cadências para o canto
lírico (o ‘bel canto’), assim como seu compatriota Rossini, ambos expoentes da
partitura de ópera. Na música instrumental, Beethoven escreveu uma cadência famosa
no Concerto “Imperador”, para piano e orquestra, enquanto “Sheherazade”, de
Rimsky-Korsakov, impregna o texto musical com várias cadências sensuais nos solos
do violino. Também era comum grandes músicos ou compositores escreverem
cadências para obras de outros autores, como fez Beethoven para o Concerto nº
20 para piano de Mozart e Britten para o Concerto nº 1 para violoncelo de Haydn
(dedicada ao violoncelista Rostropovich), além da famosíssima cadência para o
Concerto para Violino de Brahms, composta por Joseph Joachim, um dos pais da
escola russa do instrumento (acima, imagem à esquerda).
Cadência autêntica: movimento/repouso
Ainda da
mesma origem latina (cadere), temos na teoria musical (harmonia) uma série de
cadências possíveis. No caso, elas podem terminar frases ou mesmo um movimento
ou peça inteira. Mas essas cadências não são improvisos, como nas anteriores –
pelo contrário, são bastante bem definidas e independem do intérprete. A mais
comum delas se chama autêntica: sai de um acorde que tem sentido de movimento (chamado
dominante) para “resolver” na tônica, ou seja, no repouso da tonalidade. Os acordes
construídos sobre cada grau da escala (dó-ré-mi, etc.) têm uma função clara ou
dissimulada de repouso (tônica), movimento (subdominante) e tensão (dominante).
Para simplificar, listarei a seguir as principais cadências, exemplificando-as.
Já
falamos da cadência autêntica, que encontramos em grande parte do repertório
popular e clássico, que sai do acorde de tensão (dominante) para o de repouso
(tônica). A cadência dita completa vem de uma sequência mais longa, mas pode
terminar como a autêntica. Já a cadência plagal (ou “clausula”, por ter sido
comum na música religiosa do passado) vem do movimento (subdominante) para
afinal resolver no repouso (tônica). A chamada imperfeita deixa o ouvinte em
suspenso, pois termina com um acorde de tensão (dominante) no ar, sem
resolvê-lo no repouso (tônica). Por fim, entre algumas outras, temos uma
cadência chamada deceptiva, por frustrar o ouvinte, que aguarda o repouso, e o lança
sobre um acorde inesperado, que substitui o acorde de tônica.
O
Brasil assistiu durante longos meses ao maior e mais longo julgamento de uma
ação penal (AP 470) de sua história. Nunca, nunca tanto se discutiu, se falou e
se comentou sobre um julgamento pleno de citações, doutrinas, jurisprudências, hermenêutica,
súmulas, direito greco-romano ou anglo-saxônico, tratados como os da Costa
Rica, Declaração dos Direitos Humanos e tudo o mais com que a “tropa de elite”
dos melhores criminalistas do país tentam driblar os julgadores. “O que será
que será / que andam suspirando pelas alcovas / que andam sussurrando em versos
e trovas / que andam combinando no breu das tocas / que anda nas cabeças, anda
nas bocas / que andam acendendo velas nos becos / que estão falando alto pelos
botecos...”, diz a linda música de Chico Buarque.
O país, dizem, tem
200 milhões de técnicos de futebol, e hoje alguns milhões de magistrados
formados na escola da vida, a maioria em tempos recentes. Expressões antes desconhecidas do grande público
passaram a adentrar lares, bares e clubes: acórdãos, embargos de declaração ou infringentes,
revisão penal, data vênia, domínio do fato e tudo o mais que a lei oferece ao cidadão muito bem abastado que
pode pagar honorários de sete ou oito dígitos para fundamentar sua brilhante defesa nos debates que câmaras e cortes julgarem mais corretas.
Umberto Eco: Obra Aberta
Sobre o título deste
artigo, proponho à reflexão o conceito musical que acabo de expor: a AP 470
termina em cadência autêntica, a mais esperada, na plagal, de movimento para o
repouso, ou a deceptiva? Não tenho a resposta. Considere este texto como uma
“obra aberta”, conceito delineado pelo filósofo e escritor italiano Umberto Eco
(1932), expressão-título de uma
publicação que analisa certa tendência da época, na arte moderna, que consiste
em não concluir a obra de arte, mas deixar a decisão para o livre arbítrio (o
liberum arbitrium) do leitor ou ouvinte. Se quiser comentar neste blog, para fazermos uma pequena "enquete", também será uma contribuição. E a sinfonia continua.
Em
princípio, penso ser difícil explicar em curtas linhas, talvez apenas ajude a entender
a palavra, que vem dos tempos de antanho até os dias de hoje. Vejo três
aspectos na questão: histórico-culturais, físico-acústicos (que tentam
organizar e justificar os primeiros), e o mais relevante: a questão do gosto
pessoal por onde pretendo terminar este breve texto. Dirijo-me tanto ao estudante
que pode estar lendo sobre o já sabido – mas não custa acrescentar mais alguma
coisa aqui e acolá - quanto ao leigo. Quem é estranho ao meio musical costuma
ser muito mal orientado pela TV, que mais uma vez presta um desserviço à
classe, com seus “especialistas” de concurso de cantores e programas de
auditório a dizer: “você semitonou”. (Do saudoso Flávio Cavalcanti até Raul Gil).
Semitom é a metade de um tom e fica, por exemplo, entre um dó e um ré, enorme espaço
entre as duas notas. Portanto, semitonar não é desafinar, é errar as notas
mesmo.
Vamos à Grécia antiga do político, físico, poeta e
músico Pitágoras (580/572- 500/490 a.C.) cujas experiências consolidaram os
princípios da acústica, parte de nosso limitado conhecimento humano. Pitágoras usava
um artefato chamado monocórdio para demonstrar suas teorias. Como o nome diz, o
artefato de uma só corda podia ser “tocado” com uma espécie de palheta ou
vareta enquanto algum objeto, como uma pedra, era deslocado ao longo da corda
para produzir sons. Com isso, ele conseguiu estabelecer relações matemáticas
entre os sons de sua primitiva escala – por exemplo, a relação de um Lá para um
outro Lá, imediatamente mais agudo, é de 1:2, ou seja, o segundo Lá tem o dobro
da frequência do primeiro.
Heinrich Hertz
Passaram-se
séculos, e um físico alemão, Heinrich Hertz (1857-1894), definiu as relações de
frequência, cuja unidade de medida leva seu nome. Quando se diz que o piano ou
a orquestra afinam em 440 Hertz, refere-se às unidades de frequência
classificadas pelo alemão. Aquela forquilhazinha metálica que os músicos batem
e colocam no ouvido produzem um Lá 440 Hz para orientar a afinação de seu
instrumento.
O círculo (ou ciclo) de quintas
Complicado?
Não, mais simples do que um jogo de damas. Acontece que, voltando a Pitágoras e
Hertz, foi-se descobrindo que essas relações não se “casam”com o ouvido humano:
tanto as do alemão quanto as do grego. Ou seja, por incrível que pareça, a
física teima em não obedecer aos nossos ouvidos (e vice-versa): o ciclo de
quintas de Pitágoras, faz a escala terminar com uma sobrazinha nada pequena: ao
final, se começamos o ciclo em um Dó, onde deveríamos encontrar um Dó mais
agudo, já não é nota de mesmo nome, é outra.
Manuscrito: "Cravo Bem Temperado"
Difícil
entender? Vamos seguir: essa diferença final se chama “coma pitagórica” (homenagem
ao ilustre grego), e para resolvê-la e adaptá-la aos instrumentos o homem
tentou várias formas de afinação, ajustes que possibilitassem aos músicos tocarem
e cantarem em conjunto. Inventou-se, assim, um certo “meantone”,
meio forçado, que possibilitava aos músicos tocarem juntos em duas tonalidades
– imagine, apenas duas dentre as 24 utilizadas, sem falar nas modais, que são
outra história. No período barroco usou-se um certo "temperamento desigual”, sistema adotado
por Bach (daí o “Cravo Bem Temperado”, de 1722, série de peças em que o Mestre
de Capela demonstra ser possível tocar seu “Cravo” e os Prelúdios e Fugas em 24
tonalidades maiores e menores) e Pachelbel (1653-1706), que também fez suas incursões
no sistema. Por fim, veio o "temperamento igual", que acabou sendo adotado em todo o mundo ocidental até os dias de hoje. Mas cuidado: na
Índia e outros países do Oriente e Oriente Médio existem escalas diferentes,
microtonais – como o nome diz, com partículas menores do que as de nosso
sistema (mas isso é assunto para um tratado em vários volumes, não um artigo). Mais
tarde, surge um novo sistema, o “temperamento igual”, que permanece até hoje.
Afinador eletrônico ("tuner")
A
história não resolveu de vez o conflito entre nosso ouvido “pitagórico” e o
sistema proposto pela física acústica. Hoje, qualquer celular pode baixar um
aplicativozinho para afinação de instrumentos (os “tuners”). Resolvido? Não,
nunca. Pode até servir para orientar o estudante ou o músico, mas abre espaço
para uma verdadeira confusão. É que o maldito aparelho trabalha medindo
frequências, como nas ondas de Hertz, sempre nas proporções físicas de 1:2,
para a oitava de Lá a Lá ou Dó a Dó, 2:3 para Dó ao Sol logo acima deste, e daí
por diante.
Pode
até ser útil para o afinador de piano guiar-se no início, mas da metade do
teclado em diante, para cima e para baixo, ele tem de confiar em seu ouvido de
perito, fazendo ajustes sem o aparelho, para que, ao terminar, os agudos não
soem horrivelmente desafinados para baixo e os graves igualmente para cima.
Conclusão? A física não explica nem resolve a questão do ouvido humano, apenas explica
o fenômeno físico. (Lembro-me de uma frase de efeito, se não me engano, do
comentarista de economia Joelmir Betting: “a única coisa que sobe igual ao
índice de inflação é o índice de inflação”).
"La Callas"
Finalizo
na questão do gosto pessoal, como afirmei no início. Violinistas e cantores,
entre outros, “desafinam”, especialmente em determinadas notas da escala que
são “atraídas” por outras, o que agrega um “tempero” agradabilíssimo às suas
interpretações. Os mitos Jasha Heifetz, Maria Callas e Pablo Casals “desafinavam”
com extremo bom gosto, parte que era de suas performances memoráveis. Na música
popular, ninguém desafinou tão bem como Bob Dylan, Mick Jagger, Janis Joplin,
Billie Holiday... e por aqui Cazuza, Maria Bethânia - e Tom Jobim, mestre
maior. O bom gosto antes de tudo.
(Desfrute abaixo do grande
e inconfundível Jobim: Ana Luiza)
Quem
vai a um concerto, a uma apresentação de balé, ou, ainda, uma partida de
futebol, geralmente desconhece o quanto custou chegar àquela hora ou hora e
meia de espetáculo. Não conhece as rotinas diárias de artistas e atletas. Um
pianista, músico de orquestra ou banda passa várias horas diárias com seu
instrumento, entre escalas, arpejos, métodos, estudos longos e repetitivos, e
só depois passa ao estudo de uma obra, prática que se baseia na repetição de
trechos, frases ou uma ou duas notas. (Uma grande violinista japonesa usa dois
pequenos potes, um vazio e outro com 20 feijões. A cada repetição satisfatória de
um trecho, um grão é retirado e colocado no pote vazio, até terminarem. Daí,
passa à próxima frase).
A
bailarina passa muitas horas por dia em exercícios na barra, fazendo movimentos
repetitivos, que muitas vezes a levam a precisar de um bom massagista. O jogador
de futebol, ao entrar em campo para enfrentar os 90 minutos, passou a semana,
todos os dias, horas por dia, a correr levantando a perna, fazendo polichinelo,
flexões, nada que aparentemente se assemelha a uma partida de futebol. Os
estudos dos músicos, os exercícios corporais da bailarina e a rotina de treinos
do jogador em tudo se assemelham em busca de uma boa apresentação. “A gente
trabalha / o ano inteiro / por um momento de sonho / pra fazer a fantasia / de
rei, ou de pirata ou jardineira / pra tudo se acabar na quarta-feira” (“A Felicidade”,
de Tom e Vinicius).
Uma ótima Rainha da Noite
E
a cantora, que entra em palco para apresentar uma bela ária, como a “Rainha da
Noite”, de Mozart (“um inferno vingador bate em meu coração”), ou a trágica
morte de Violetta, na Traviata de Verdi? (aquela em que, tísica e moribunda, ela
se despede de sua paixão: “Amami, Alfredo!”). Pois todos os dias, todos os
meses, todos os anos, e há muitos anos, a diva trabalhou seus vocalises exaustivamente.
Mão sobre o teclado do piano, tocando uma vez um acorde fixo, para guiar a
tonalidade, ela repete, arpejando: moa-moa-moa-moa-moo-oo-ah... Sobe meio tom,
e repete: moa-moa-moa-moa-moo-oo-ah... Mais meio tom, e assim por diante, até a
nota mais aguda que ela suportar. E recomeça tudo, da nota mais grave de seu
registro (algo como o tipo de timbre de voz), desta vez mudando a sílaba:
ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri... e depois com outra sílaba, até
concluir o longo aquecimento. (Veja e ouça abaixo a virtuosíssima Diana Damrau
como a Rainha da Noite da Flauta Mágica de Mozart, com Sir Colin Davis à frente
da Royal Opera House).
Diana Damrau
O canto final de Violetta: "Amami, Alfredo!"
Ah,
sim, cantora pronta, depois de bons estudos, encarna sua Violetta - um pigarro de
leve antes, para não arranhar a garganta -, para cantar sua súplica de amor
para Alfredo, em “La Traviata” (...) “de alegria em alegria / escorrendo sobre
a superfície / do destino da vida da maneira que eu quero. / Quando o dia nasce
/ ou quando o dia morre / com alegria me volto para novos deleites / que fazem
meu espírito se elevar” (trad. livre).
Não,
Violetta, você não está pronta! Repita frase por frase, o trecho inteiro várias
vezes, corrigindo-se! Ao terminar, passe para a próxima ária, e não se esqueça
de parecer tuberculosa ao implorar, moribunda: “Amami, Alfredo!!!” Não,
Violetta, precisa ser mais dramática, diria repreendendo o métteur-em-scène,
diretor da ópera. Você tem que estar perfeita, convincente, divina, e morrer
lentamente, fazer o público derramar lágrimas! (Não posso me furtar de contar
uma anedota real: estava o grande regente Sir Thomas Beecham (desenho acima) ensaiando este
trecho, quando, logo após uma pausa, o tenor dirige-se a ele para reclamar que aquela
Violetta demorava demais para morrer, roubando-lhe a cena. O maestro: “Sir,
nenhum cantor morre tão rápido quanto eu gostaria”. Piadinha maldosa típica do
maestro, autor de dezenas delas). (Veja e ouça abaixo a dramática morte de
Violetta, gravada pela incrível Monserrat Caballé em 1965).
Montserrat Caballè
Quem
vai se casar com uma cantora, um instrumentista, casa-se também com uma rotina de
estudos diários, escalas, arpejos, vocalises, passagens repetidas – como se diz
em música, “ad aeternum” (pela eternidade). Muitos músicos se casam com
músicos, às vezes de uma mesma orquestra. Ou de outra área, mas mantendo a
cumplicidade nos estudos. Em casa, cada um em seu canto (e quando possível em
seu próprio estúdio), usa de sua introspecção para se abstrair do parceiro
músico. Quando ele ou ela não é do ramo musical, fica mais difícil, mas o convívio
e a abstração vêm com a experiência de fazer outra coisa, como escrever textos,
conferir a contabilidade da empresa ou simplesmente distrair-se.
Como
fui casado com musicista, e entre meus quatro filhos uma é violoncelista, assim
como o caçula, e a penúltima é um belo talento para flauta, conheço bem essa
vida. Quantas vezes não dormi ouvindo duas pessoas estudando em quartos
diferentes! O barulho de uma motocicleta me incomoda, mas a música... ela me
embala. (“Nós somos os cantores do rádio / levamos a vida a cantar / de noite
embalamos teu sono / de manhã nós vamos te acordar”, diz a letra dessa
obra-prima de Braguinha, Lamartine Babo e Alberto Ribeiro). (Veja e ouça
abaixo, uma recriação divertida do sucesso de Carmen a Aurora Miranda com Chico, Nara Leão e Bethânia, em cena do filme Quando o Carnaval Chegar).
É
por necessidade que o músico chega cedo no palco para aquecer dedos, braços ou
embocadura, além de aclimatar seu instrumento – sob refletores, a cada 10 graus
Celsius a afinação das cordas cai um terço de tom e a dos sopros sobe outro
tanto. É preciso se preparar, e quando todos já estão ouvindo a si próprios,
abstraindo-se do som dos colegas e em perfeita introspecção – virtude dos bons
artistas e dos bem preparados para ouvir música -, é nesse exato momento que se
desenvolve - para os que já se acomodaram na plateia ou estão entrando - uma
música diferente, sem forma ou tonalidade, apenas sons difusos. Agora, silêncio,
por favor! Vai começar o concerto!
Monte Santo de Minas é uma cidade de 20 mil habitantes
situada no sul do estado, pequeno círculo de onde à noite se avista iluminada Mococa,
na fronteira paulista. Como acontece com frequência no interior, especialmente em
Minas, o nome da cidade se refere a uma paróquia – no caso, a Paróquia de São
Francisco de Paulo do Monte Santo (paróquia era um pré-requisito rumo ao status
de município). Parece um nome caudaloso, mas perde para Sabará de Minas: Paróquia
da Vila Alegre e Sorridente de Nossa Senhora do Ó de Sabarabuçu.
Ciclo do ouro em Minas: selo comemorativo
Pois Monte Santo, da bateia do ciclo do ouro, terra de bom
café – a cidade toma o “b” e exporta o “a”, eu prefiro mesmo o tipo “b” -, tem
um fenômeno natural: a população decresce com os anos. Enquanto os rapazes, ao
terminar o “grupo” (a escola de antigamente), saíam em busca de estudo ou
trabalho em cidades maiores como São Sebastião do Paraíso, São Paulo, Belo
Horizonte ou Rio, as moçoilas ficavam sob as vistas de suas mamães, dedicadas às
inevitáveis prendas domésticas. Desnecessário dizer que, para os rapazes que
ficavam, havia moças bonitas de sobra, braços dados em grupo, costume do
passado que os tempos modernos roubaram.
Autran Dourado, escritor
Muitos nomes importantes saíram de Monte Santo de Minas. Do
popular Milionário, da dupla sertaneja de raiz, par de Zé Rico; meu avô, juiz
de direito que lá começou a longa carreira até desembargador (foi homenageado com
seu nome encimando o Foro da cidade: “Telêmaco Autran Dourado”). Meu pai, o
escritor Autran Dourado, foi
celebrado cidadão montessantense com uma bela festa e recepção em toda a cidade.
Disse ele que (mesmo com todas as glórias da carreira literária, observo eu), foi a mais emocionante
de todas as honrarias que recebeu. Estive nos dois eventos, fiquei deliciado com a recepção.
Em uma birosca comprei dois mimos para meus filhos, dois
brinquedos que há algum tempo perderam para os celulares e games: um pião e um
bilboquê de madeira para cada um. (Difícil foi ouvi-los dizer, quando entreguei
os presentes, “o que é isso?”. Pois eu mesmo tive de reaprender, para ensinar).
Ah, trouxe também bolas de gude, para jogar “bola ou búlica”, coisa assim. Claro,
também em vão.
Profª Maria Ruth Luz, autora do hino
Monte Santo, terra de boas famílias, daquelas tradicionais.
Uma delas, bastante conhecida na cidade, é a dos Cerqueira Luz, que possui um elo
curioso com Tatuí. Paulo de Cerqueira Luz, falecido em Tatuí em 1978, e Maria
Ruth Luz, professora de educação artística e musicista, falecida também na
cidade (2010), eram montessantenses da gema.
O Casarão dos Guedes, em foto da época
Recentemente, Ruth foi homenageada com uma creche municipal em
Tatuí que ostenta seu nome na fachada. Paulo e Ruth formavam um casal
respeitado, e enquanto ela dava aulas no recém instalado Conservatório de Tatuí
(1954), inicialmente no hoje combalido Casarão dos Guedes, alugado pelo governo
da época para abrigar as aulas, ele trabalhava como negociante. Pois Maria Ruth
Luz participou desde a primeira reunião do Conservatório, naquele ano, no dia
16 de agosto (temos a ata!). Em 1960, foi eleita para o Conselho Técnico
Administrativo, junto com Yolanda Rigonelli e o maestro Spartaco Rossi, entre
outros. Ruth e seu marido Paulo, também pintor e músico amador, faziam um belo
par artístico: juntos, em 1961, tiveram oficializado como Hino da
cidade pela Câmara Municipal a obra “Tatuí, cidade Ternura”.
A aprazível Caconde, SP
O casal estabeleceu-se de vez e deixou sementes plantadas
para o futuro: muitos músicos importantes e cidadãos de Tatuí passaram pelas
mãos da professora Ruth, tida como um doce de pessoa mas uma instrutora severa.
(Eu, particularmente, não vejo como formar bons músicos sem muita exigência,
disciplina rígida e dedicação. Não conheço bom músico formado só no “muito bem,
muito bom, parabéns”). Ela ainda se dedicou à composição com interesse especial,
e entre suas obras está também o hino de Caconde, sempre em parceria com o
companheiro de vida, Paulo de Cerqueira Luz.
Antiga estação ferroviária de Monte Santo de Minas
Meu pai, criado em Monte Santo até os 17 anos (quando meu
avô foi transferido para a capital), nasceu em 1926, sendo portanto apenas dois
anos mais velho do que Ruth Luz. Seus irmãos, todos também realizados
profissionalmente na capital mineira ou no Rio de Janeiro, e minha tia
Francisca, que, pela idade, seguramente deve ter tido algum convívio com Ruth
Luz seja na escola, nas festas, folguedos, passeios de mãos dadas... Infelizmente,
com meu pai já em outro destino, assim como todos os irmãos dele (exceto minha
tia), resta-me apenas a ilação de uma possível convivência, ou ao menos um
possível conhecimento da família Luz. Foi lá, em Monte Santo, que meu pai se
inspirou para criar sua cidade mítica, Duas Pontes, que perpassa toda sua longa
obra literária. Foi também de Monte Santo de Minas que ele trouxe o jeitão
mineiro, interiorano e circunspecto, retrato do artesão da palavra escrita que
entrou para a história.
Teatro Procópio Ferreira: Conservatório de Tatuí
Não sei se acredito em acaso, e nem interessa muito, porque
não acrescentará nada ao mundo minha crença particular nisso ou naquilo, além
de minha fé própria, que é do meu arbítrio. Mas acredito muito em destino, em
predestinação, seja pela vontade de cada um ou por algum tipo de interferência superior
– longe de mim querer compreendê-la, apenas a sei existir. Pois quis esse destino
levar um filho de montessantense, pequenina cidade de Minas, a ser o diretor da
mesma escola onde uma outra cidadã de Monte Santo fez sua vida e carreira. E me
sinto muito bem sabendo desse laço oculto. Cumplicidade de mineiro.