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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

CONSERVATÓRIO DE TATUÍ: PERSPECTIVAS

 


Tendo sido diretor do Conservatório
por dez anos, hoje observo alguns desentendimentos ou mal-entendidos sob ótica privilegiada. Achei por bem opinar pela primeira vez após três anos e meio, pois vejo um cenário ainda obscuro. Durante 30 anos dirigi três das melhores escolas de música do país: a Municipal de São Paulo, a Cantareira (superior) e o Conservatório de Tatuí. Considero-me apto a opinar.


Fala-se em certo contraponto a um ensino “antiquado”
em Tatuí (pano de fundo para a cena financeira, como veremos), e exclusivamente da música, só ela. No meu artigo (Modernidade e Eternidade) da semana passada do jornal O Progresso abordei, entre diversas coisas, a ‘modernidade’ em arte, fechando o texto com Drummond: “E como ficou chato ser moderno, agora quero ser eterno”.


Lecionei em Tatuí entre 1984 e 1987
, duas vezes por semana, daí conhecer o Conservatório razoavelmente bem antes de assumir a direção, em 2008. Em algumas das melhores orquestras do mundo alunos tocam junto com seus professores, a exemplo da Sinfônica de Praga e da Filarmônica de Berlim. Nas melhores daquelas escolas, dado o altíssimo nível dos alunos, há orquestras de estudantes que são ainda superiores a muitas profissionais. Prescindem do trabalho com os professores, sistema que encontrei no Conservatório, sua marca d’água.


Aqui, alunos ensaiam e se apresentam ao lado de professores
, trabalham o repertório mais difícil, com solos e passagens intricadas, preparam repertório – por exemplo, sinfonias de Brahms, Beethoven e Mahler. Na capital há várias orquestras onde alunos adiantados podem ter essa prática, incluindo grupos já profissionais, do Centro à Grande São Paulo. Sendo Tatuí uma cidade cem vezes menor (apenas 1% da população da capital!), não há outra opção para esse aprendizado. Em certo momento, o aluno adiantado enfrentará as opções de mudar-se para São Paulo, permanecer amador ou desistir.

New England: Jordan Hall

(Minha formação se deu no Rio e nos EUA, um ano na Berklee e, depois, com bolsa de uma das ‘três grandes’, New England, bacharelei-me. Em 2009, convidado pelo “International Visitors Leadership Program” do US Dept. of State, estive em 27 instituições de música americanas conhecendo seus diretores, currículos, alunos e estruturas. Não me falta experiência para saber o que é ‘moderno’, senão os tradicionais sistemas de ensino do mundo.)

Reunião na Secec (divulgação)

Voltando a Tatuí
, com entreveros políticos evitáveis e pontos de vista divergentes – explícitos ou não – entre a Secretaria de Cultura (Secec), a Sustenidos, OS que gere o Conservatório, professores, muito veladamente, e alunos, nada contribui para um ambiente saudável – como bem ilustra a recente entrevista do maestro da Sinfônica, Edson Beltrami, demitido no dia 1º. Em reunião na Secec com o prefeito de Tatuí, Prof. Miguel, e o presidente da Câmara Municipal, Antonio Marcos (O Progresso de 5/12, pág. 6), o titular da Cultura, Sá Leitão, propôs que fosse criado um Conselho Curador local, mas a diretora da OS mostrou-se refratária à ideia. Talvez a assista certa razão, porque a Sustenidos já tem um Conselho Consultivo, um Conselho Fiscal e um Conselho Administrativo, além da Assembleia Geral, esta última com plenos poderes para até demitir diretores!


Direção e órgãos colegiados do Conservatório
funcionam em São Paulo, e a lei das OS, 846/98, não menciona a modalidade ‘Conselho Curador’. Portanto, ausentes as prerrogativas, a que serviria em Tatuí esse novo órgão sem respaldo de qualquer diploma legal, se a Sustenidos já tem quatro colegiados em SP? E mais: o corpo diretivo da OS propõe 75% do tempo de trabalho para o Guri e 25% para Tatuí (pág. 105 da PTO). Não fosse só isso, a mesma OS ainda assumiu o Theatro Municipal de São Paulo, organismo enorme, complexo e turbulento que conhecemos bem.


Na reunião, a Secec informou que há 2.174 alunos
em Tatuí (pág. 6 do jornal), mas a Proposta Técnica e Orçamentária da OS gestora prevê um número bastante inferior (pág. 23): 1.700 estudantes, incluindo os do Polo de São José do Rio Pardo; por conseguinte, a cota discente de Tatuí ficaria em cerca de 1.400. A proposta da OS é explícita (pág. 24 da PTO): “redução das 496 vagas”.


A Proposta também deixa claro o viés financeiro
de tais reduções: “...percebemos que não há outra forma de equilibrar receitas e despesas a não ser realizar o ajuste sugerido”. Isto nos leva ao projeto do governo (663/21) para a Lei do Orçamento Anual (LOA) 2022, em tramitação na ALESP. O montante proposto pelo governador para o Conservatório, de R$ 26.599.037,00, será submetido à votação plenária após 23.810 (grifo) propostas genéricas de emendas parlamentares. Há outras formas de ‘engordar’ o orçamento, mesmo que seja aprovado o valor proposto, além de alguma emenda à LOA: o Crédito Suplementar - transferência entre secretarias por ato do governador -, ou internamente à Secec, este em valores diminutos haja vista o baixo orçamento da pasta. Mesmo aprovados os 26,6 mi propostos, o orçamento ainda ficará muito aquém da LOA de 2008, ano em que aqui cheguei: R$ 22,25 milhões nominais - que, corrigidos pelo IPCA até janeiro de 2021, equivaleriam hoje a R$ 45,40 mi; somando-se a inflação deste ano, acima de 10%, chega-se a 50 milhões, quase o dobro!


Ao leitor pode parecer um tanto confuso
, e mesmo eu, com toda a minha experiência, ainda tenho dúvidas sobre as perspectivas que só o futuro poderá dirimir. Ah, um aviso: aposentado pelo INSS e pelo estado, não almejo cargo algum em órgão qualquer, nem sou candidato a nada.

 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

MODERNIDADE E ETERNIDADE

 


Bach (1685-1750) estudou em Eisenach
, tal como Lutero dois séculos antes. Ali, frequentou classes de alemão, latim, grego, prosódia e disciplinas musicais como harmonia e contraponto. Compôs 3 oratórios, 7 corais vocais-instrumentais, duas longas Paixões, 5 motetes, 190 cantatas, salmos, 371 corais a 4 vozes e um sem-número de concertos para cravo, violino e muitas peças para órgão e teclado, entre tantas outras. Dominava o contraponto de Palestrina (1525-1594), de século e meio antes, fundamentando seus estudos seguintes. Foi gênio na harmonia, dominando-a e chegando a Stravinsky e o dodecafonismo de Schönberg.

Flaubert

As regras ele mesmo, volta e meia, transgredia
, em submissão ao processo criativo, nada muito diferente do que disse Flaubert (1821-1880) - em tradução de meus pais, Maria Lúcia e Autran Dourado: “O escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramáticas que regem a língua, e que as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia”. Pois se Bach às vezes subvertia, o fazia com plena consciência, sem perder o prumo em toda a sua obra.

Série de 12 sons não repetidos

Se dermos um salto para Arnold Schönberg
(1874-1951), ‘pai’ da Segunda Escola de Viena e criador do sistema dodecafônico, encontraremos um sistema bem mais rígido do que o de Bach: séries de doze sons não-repetidos e seus retrógrados (escritos de trás para a frente), inversões, pura matemática. Nos EUA, estudei as chamadas harmonias funcional e tradicional – curioso: esta, segundo o método tradicionalíssimo do ‘revolucionário’ Schönberg, que foi “moderno” parte da primeira metade do século 20. (Tive o privilégio de ter estudado a ‘harmonia tradicional’ do mestre com um ex-aluno dele, Di Domenica; no Rio, outro contemporâneo de Schönberg, Hindemith, em seu método tradicional). Conheci o microtonalismo (divisões de sons que estariam entre as teclas pretas e brancas do piano), e o que foi ‘vanguarda’ no século 20. Bem “moderno”, estudei Microtonalismo com Joe Maneri, ex-aluno de Alban Berg, por sua vez discípulo do mesmo Schönberg. Mas sempre pés na terra firme com Bach, desde a polifonia de Palestrina, do século 16.


No Brasil, o dodecafonismo surgiu
, temporão, com o alemão Hans-Joachim Koellreutter (1905-2015), casado com uma judia, que aqui chegou fugindo da Gestapo em 1937, e depois de algumas viagens para cá retornou em 1975. A técnica dos ‘doze sons’ de que falei antes, quando chegou já era obsoleta na Europa, mas seduziu muitos alunos de composição, a ponto de os nacionalistas, liderados pelo tieteense Camargo Guarnieri, armarem uma “cruzada” contra o movimento. (Como era sedutora aquela técnica de se criar com enorme facilidade, quase sem pensar, apesar do resultado sonoro invariavelmente ruim! As minhas composições dodecafônicas valeram como treino, nada mais, e as considero obras tão ruins que nem sei se ainda guardo alguma).


Koellreutter foi diretor do Conservatório de Tatuí
por pouco tempo, não deu certo e como compositor seu ‘novo’ já era velho. Guardo comigo um livro de harmonia funcional e outro, “A Estética do Paradoxal e do Imprevisível”, que faz incursões intelectuais sobre o aleatório – de “alea”, dado, em grego: sorte, acaso. Santoro, Edino Krieger e Guerra-Peixe, entre outros ex-alunos dele, não demoraram muito para reencontrar seu prumo musical fora da ‘modernidade’ do alemão – com quem estive, aliás, algumas vezes.

Teclado em microtons: projeto

Na música, assim como na literatura
– vide a citação a Flaubert, que fiz no início deste artigo – e outras artes, a transgressão ‘moderna’ serve para sacudir a poeira do que parece estático. Mas tudo são conceitos vagos, às vezes ficam só no discurso. A mesma harmonia funcional “pasteurizada” da Berklee, de Boston, onde também estudei, não diferia muito da de Koellreutter, exceto pela grafia dos acordes e análise muito bem organizadas. Os demais exercícios de ‘modernidade’ tive no New England, onde obtive meu bacharelado, com o já citado Joe Maneri. Coisa acadêmica, como se fosse aula de história. No estudo, porém, nos socorríamos sempre em Bach, de tabela degustando o velho Palestrina, meio milênio atrás.

Cifra e análise: Berklee

Godofredo Rangel

A literatura portuguesa
consolidou-se com Camões, e a italiana com Dante, que praticamente fixaram as bases de seus idiomas. Meu pai, ainda garoto, escrevia seus contos, mas seguiu os conselhos um escritor mineiro, Godofredo Rangel: deu uma meia-volta às origens, fixando-se na leitura dos grandes mestres, como Machado de Assis e Faulkner, fazendo da leitura a âncora onde lastrear seu trabalho. Aliás, o pai dizia que em arte, filosoficamente, não há progresso, que é quando se supera: houve ‘progresso’ de  Michelangelo e Paul Klee? Dizia que era grande o risco de, levado pelo “canto da sereia”, o artista reinventar a pólvora.

Estátua de Drummond (créd. UOL)

Além das escolas de música brasileiras e estrangeiras
que já conhecia, em 2009 fui aos EUA, a convite do US Dept. of State, para o “International Leadership Visitors Program”. Estive com professores e diretores de 27 instituições de música americanas, fora as que eu já conhecia, e as afamadas Juilliard e Curtis, ou ainda onde também estudei, New England. O que ensinam até hoje, fora instrumentos? Harmonia, contraponto... Via métodos tradicionais de Hindemith e Schönberg - a mesma que Bach aprendeu, tradição que continuará a ser ensinada enquanto a música ocidental existir - aqui, nos EUA ou nos países da Europa. Posso concluir com Drummond: “E como ficou chato ser moderno / agora quero ser eterno”.

 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

MATHEUS 19, BERTOLD BRECHT E ORÇAMENTO SECRETO

 

 


“Então lhe trouxeram algumas crianças para que lhes impusesse as mãos, e orasse; mas os discípulos os repreenderam. Jesus, porém, disse: deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque dos tais é o reino dos céus”. (Matheus, 19:13-15; trad. J. F. D'Almeida, 1681: foto).


Diversas organizações ao redor do mundo
dedicam-se a crianças desnutridas e doentes cujas figuras esquálidas se assemelham nos mais diversos países, como Etiópia, Haiti, ou entre nossos Yanomamis. Difícil é não se emocionar e até não sentir-se fraco quando, na TV, uma ONG chamada Médicos sem Fronteiras ou a WFP (World Food Program) expõem crianças que não têm pátria, sua nacionalidade é o mundo. Distribuem sachês de complemento alimentar fazendo de refeição, medem-lhes os perímetros dos braços como escalas de desnutrição, pesam-nas em espécies de gangorras – já não suportam o próprio peso de pé, nem de suas protendidas barrigas. É o preço da desigualdade, da guerra, da violência, do racismo, do desinteresse dos poderosos. A nacionalidade deles é a miséria, não conhecem outra.


Contribuir para essas instituições
e inúmeros voluntários é como ajudar seus próprios filhos ou netos (sinta-os como seus). Uma colaboradora francesa do Médicos sem Fronteiras foi quem acompanhou o triste final do haitiano Jean Gerald, oboísta que havia chegado ao Brasil para estudar no Conservatório de Tatuí. Depois de desaparecer da cidade e terminar em Port-au-Prince, capital do Haiti, foi ela quem, em meio a seus afazeres humanitários, deu a terrível notícia: Jean havia sido morto em um incêndio suspeito no quarto do casebre em que dormia. Os colaboradores dessas organizações estão nos locais que lhes foram designados para o que der e vier - acima dos serviços médicos ou de enfermagem, tornam-se bons samaritanos pela natureza de sua missão.


O dramaturgo alemão Bertold Brecht
(1898-1956) fez uma breve e histórica incursão na alienação social: “O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que de sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado...” Sim, Brecht chama a atenção para o fato de a alienação ser cúmplice, portanto também culpada, pelo que há de ruim no mundo, e parece não ter fim. O alienado finge não ver miséria e desigualdade; se não, pior, fecha os olhos, tornando-se cada vez mais insensível e cruel. Transforma-se, sem se dar conta, de passivo a ativo na miséria de tantas crianças, neste mundo tão desigual em que vivemos.


Mais ativo ainda
é o mundo da corrupção pública. Este é o campo em que são semeadas ilusões para colheita de votos, dos votos o poder, e dele o dinheiro, e mais poder, assim por diante. A distribuição de emendas de relator, na roleta dos mais altos escalões, são especialmente pródigas em ralos de dinheiros públicos para a obtenção de favores. A fim de tornar essa “distribuição amigável” de riqueza invisível aos olhos de todos – contra a moralidade e a publicidade que são impostos pela Constituição no trato com a coisa pública -, tentaram o malfadado ‘Orçamento Secreto’, que recebeu uma definição surpreendentemente bastante clara do vice-presidente Hamilton Mourão: “é manobra que beneficia apoiadores do governo” (O Globo, 17/11). Contribui-se, assim, para as pautas mais escusas e obscuras no Congresso, confabuladas nos celulares e na intimidade dos gabinetes. No dia 5/11, a ministra do STF Rosa Weber decidiu pela suspensão “integral e imediata da prática”. No dia 10, a malfadada conduta recebeu 8 votos a zero no plenário do STF, com duas divergências: o neófito Nunes Marques e Gilmar Mendes. Mais uma vez, Mourão saiu em campo, declarando que a interferência do STF foi oportuna.


Um volume enorme de recursos
(20,1 bi em 2020) vai como ‘agrado’ para votos dos parlamentares em questões de interesse palaciano, como o chamado "tratoraço": distribuição de tratores como fossem gorjetas. Além da transição atabalhoada do Bolsa Família para Auxílio Brasil – e houve problemas desde o app do celular ao montante sacado pelos contemplados mesmo após longas filas nas agências da Caixa. Ah, a culpa de tudo é a falta do ‘orçamento secreto’, que impediu os nebulosos repasses aos interessados nos valores prometidos! Enquanto a farra, antes, continuava na distribuição de ‘favores’ a altíssimo custo, agora os culpados passam a ser a moralidade e a publicidade escamoteadas da vista de todos, longe do mesmo povo que sofre e precisa do auxílio financeiro.


Não menos deprimentes
do que as cenas referidas no princípio deste texto, crianças desnutridas e morrendo no Haiti, Madagascar ou Etiópia, são os depoimentos na TV sobre a ‘nossa’ fome infantil: a mãe que não se alimenta todos os dias para que os filhos tenham um mínimo para comer, ou a que faz de uma carcaça de geladeira carrinho de mão para trabalhar como catadora – reprovada pela cooperativa -, tudo isso é culpa direta não apenas de muitos agentes públicos, mas indiretamente também de nossos ‘analfabetos’, os que ignoram o bom exercício político – que exige honestidade, raciocínio e espírito humanitário (do outro lado, os que o atacam negativamente com palavras e atos cegos, fanatizados).


É preciso estancar a corrupção
 de qualquer que seja a forma que ela surgir travestida; quem sofre primeiro são os pequenos, que mais dependem de ajuda. Que logrem sobreviver a esta dura jornada com suas famílias: deixai irem a elas as suas criancinhas, e dai-lhes um Natal sem fome.

 

 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O BAILE DA ILHA FISCAL E A REPÚBLICA


Era o ano de 1889
, seguinte ao da Lei Áurea da princesa Isabel, que chancelou o que já acontecia de fato: após as leis dos sexagenários (1871) e do ventre livre (1885), os escravos estavam quase todos aquilombados ou libertos. A história – fato tão frequente no país... – conta que a turma revolucionária se reunia com assiduidade no Clube Militar, tramando o golpe republicano que feriria de morte o Império. O Visconde de Ouro Preto, chefe do Conselho de Ministros e bajulador-mor do monarca, foi quem concebeu a festa, um bem-bolado entre os 54 anos de Império sob D. Pedro II e as Bodas de Prata do Conde D’Eu e a Princesa Isabel. Ampliou ainda mais a festança, ou bacanal, a recepção ao navio chileno Almirante Cochrane, que, aliás, já havia aportado dias antes – homenagem ao país amigo, aliado do Império. Marcada para 19 de outubro, com a morte do rei de Portugal e sobrinho de Pedro II, D. Luís, a fuzarca foi adiada para o dia 9 de novembro. O baile demonstraria o poder imperial e a robustez da monarquia brasileira.


Temendo os revolucionários
, avaliando a segurança de possíveis locais para o baile, como o Palácio Imperial de Petrópolis, decidiu-se pela Ilha Fiscal, uma enorme construção na Baía de Guanabara, arquitetura de influência francesa – comme il faut. Disse o imperador: “é um delicado estojo, digno de um brilhante” (coroa e cetro na mão, devia estar pensando em si mesmo). A Marinha de Guerra, única das Armas que restava aliada fervorosa da monarquia, cedeu a Ilha para hospedar a festança. O Visconde de Ouro Preto não mediu esforços e sangrou  a verba do Ministério de Viação e Obras Públicas destinada aos flagelados da seca no Ceará (ninguém se importará, pois a seca é um flagelo permanente, e o Baile será uma ostentação única, deve ter imaginado). Para o rega-bofe, foram adquiridas mais de 4.500 garrafas de vinho, 12 mil litros de cerveja, 1.900 garrafas de champanhe e um bocado de conhaque, licores e outras bebidas. Quase 5.000 convidados foram lautamente servidos com faisão, caviar, salmão e outras iguarias finas.


Chegado o dia do baile
, D. Pedro, 64, subia, imponente, as enormes escadarias, vislumbrando um palácio sob cujos degraus os convivas se curvaram para recebê-lo. Acometido por um mal-estar, o monarca fraquejou e foi ao chão, sendo acudido daqui e dali. (Ao se recuperar, se já houvesse aquele samba genial do Paulo Vanzolini, de 1962, teria ouvido: “reconhece a queda / e não desanima / levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”). No silêncio, entre muitos ‘ohs’, D. Pedro, após recompor-se do tombo, deu de proferir uma daquelas frases lapidares, que deve ter matutado após seu breve fanique: “cai o imperador, mas não cai o Império!” Sendo a política, especialmente em tempos de turbulência, feita de gestos e frases, houve quem tenha pensado em pura encenação para enchanter la noblesse (em francês, já que o menu e a carte des vins, crème de la crème, também o eram). A célebre frase do imperador foi um vaticínio adverso: seis dias depois, 15 de novembro, caiu o Império, sob o golpe republicano de Deodoro.


Na manhã seguinte
, após terminada a farra, relatórios da serventia encarregada da limpeza fizeram o rol das peças de roupas e objetos largados no pomposo castelo: numerosas cintas-ligas, corpetes e coletes de senhoras, além de quase 30 chapéus e cartolas masculinas, sem falar em discretos canudinhos e bandejas de prata com vestígios de um alcaloide muito apreciado pela sociedade da época, proibido no Brasil apenas em 1921: o cloridrato de cocaína.

Palácio Imperial de Petrópolis

E veio a República
- do latim res-publica, ‘coisa pública’. Ainda que tarde, um século após a queda da Bastilha, na Revolução Francesa (1789), e a revolução americana (1791), o Brasil ingressaria no seleto clube republicano, dando fim ao regime monárquico. Na época, o país imaginou estar encerrando o ciclo de farras às custas das secas, das locupletações da ‘coisa pública’, das fartas mordomias, da cobrança do ‘quinto’. Mas até hoje alguns luxos ainda sobrevivem: todos os negócios imobiliários em Petrópolis, RJ, ainda pagam o laudêmio, um imposto devido à enfiteuse, “direito real em contrato perpétuo, alienável e transmissível para os herdeiros”, que reverte para os dez membros sobreviventes da realeza: um afago de mais de R$ 6 milhões, todos os anos.


No último dia 15 de novembro
a Proclamação da República foi celebrada pela 132ª vez. Mas os gastos palacianos com luxúrias, hoje, não vão longe daqueles do Baile da Ilha Fiscal, guardadas as devidas proporções: lagostas, camarões, caviar e champanhe às pencas. Assim como os gastos ministeriais, as mordomias da caserna cresceram, tal qual as benesses para as classes militares e policiais, as promoções nas carreiras e até casas próprias subsidiadas pelo Poder Público. “Não!”, alertou com a perspicácia de sempre o respeitado general Villas Boas, ex-Comandante do Exército,  genuíno democrata, e prosseguiu: os militares não estão no poder, só resta assegurar que a política não chegue aos quartéis. Em vista dos recentes imbróglios sobre orçamento secreto e teto de gastos, um vez derrocado o primeiro, que não seja a responsabilidade fiscal um novo baile palaciano, sem ilha nem navio chileno. Mantenha-se o espírito republicano!



 


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

COVID-19: "FILHOS...FILHOS? MELHOR NÃO TÊ-LOS"

 

(Infomoney)

No dia 2/11, o Estadão informou que o FDA
(Food and Drug Administration) e o CDC (Center for Disease Control) liberaram a vacinação de 28 milhões de crianças de 5 a 11 anos, dando aval para que sejam imunizadas com duas doses em intervalo de três semanas, com apenas um terço do conteúdo da vacina dos adultos. Nos EUA, foram 1,9 milhão de casos de Covid infantil e 8.300 hospitalizações. Com 90,7% de eficácia, a vacina da Covid infantil traz outros dois benefícios: a volta segura às aulas e a diminuição da transmissão da doença para os familiares das crianças, com reflexos na população como um todo.


A Inglaterra adotou medidas específicas para escolas
: faz testes nas crianças e, semanalmente, nos pais. Minha filha, residente em Londres, recebe também, pelo correio, um kit com “swab” – aqui, ‘cotonete’ –, usado para colher material do filho, que deve ser devolvido ao próprio carteiro. Tudo de graça, pelo NHS, claro. As crianças nas escolas são separadas em grupos chamados ‘bolhas’, para que, em caso de infecção, não haja perda de controle e transmissão do vírus entre todos os alunos. Cada grupo de pais pertence à sua ‘bolha de proteção’, e não há contato pessoal entre os membros dos grupos.  Na eventualidade de uma infecção, não será necessário fechar a escola inteira, as medidas de controle ficam restritas às daquela ‘bolha’ específica. Meu neto Thomas, 7, passa pelos testes de “swab” e o convívio com essas medidas sanitárias com tranquilidade.

(Metrópoles)

Enquanto isso, no Brasil
, a sanha dos militantes negacionistas não conhece limites. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) revelou ter recebido duas ameaças eletrônicas, inclusive de morte, contra “servidores, diretores, funcionários terceirizados e seus familiares”, caso seja aprovada a vacina contra a Covid-19 em crianças, embora ainda não conste oficialmente o pedido da fabricante (UOL, 3/11/21). No dia 5/11, a Agência, após uma terceira ameaça, pede proteção policial para seus membros. As coações seriam uma reação ao anúncio da Pfizer de que vai pedir à Anvisa autorização para vacinação na faixa de 5 a 11 anos, como nos EUA. A documentação será entregue pela empresa ainda no mês de novembro.


Não se sabe o que norteia as ações dessa militância fanatizada
, nem seu potencial. Sabe-se apenas que ela afina perfeitamente com muitos outros ataques contra o progresso da campanha. É sempre bom lembrar o que foram as vacinas Salk e Sabin contra a Polio: o que teria sido do nosso país sem as vacinações em massa e até compulsórias para crianças em idade escolar? Uma população com grande número de crianças e adultos paralíticos, tragédia sem fim. O mote “vacina mata” dos aguerridos negativistas é um estúpido resquício de preconceitos obscuros do passado que devem ser eliminados. Segundo o UOL, EUA, Camboja, Cuba, China, Israel e Emirados Árabes já estão em franco processo de vacinação infantil. Outros estão em fase de liberação após análises técnicas mas...Países como o Brasil ainda protelam, sendo que as forças mais retrógradas, a começar pelo chefe da Nação, ainda apelam contra máscaras e vacinas.

Fake sobre vacina e Aids

Em sua live do dia 21/10
, o presidente da República afirmou, baseado em um suposto relatório publicado no Reino Unido, que “indivíduos totalmente imunizados estão desenvolvendo mais facilmente a Aids”. A publicação britânica era fake, mas caiu como uma luva na cruzada antivacina presidencial, que aliás está sendo investigada. Não foi apenas o uso irresponsável de uma notícia sem que ao menos fosse checada a veracidade da informação - muito além disso, estimulou-se mais uma crença absurda contra a inoculação.


O que é um ano em nossas vidas?
Para os adultos, no mais das vezes é apenas um, passa como um jato no céu, como este ano que já se vai. Porém, na idade de 5 a 11, é quando se dá a formação do indivíduo, sua socialização com seus pares, a consolidação da leitura e da escrita, o desenvolvimento das habilidades motoras e do raciocínio. Mais ainda, é por volta dos sete anos que, segundo Piaget, na segunda e terceira fases do desenvolvimento cognitivo é que se dá uma transformação fundamental para as crianças: a passagem da visão sincrética do mundo e das coisas para outra, a analítica, quando elas começam e pensar mais objetiva e criticamente. Este é o ponto. A perda do aprendizado regular e do convívio social traz prejuízo aos pequenos, e a vacinação da faixa 5-11 uma segurança enorme para o convívio escolar.


Se o obscurantismo dos ‘arautos do contra’
, dos apóstolos da mentira, dos desagregadores da sociedade, é uma arma perigosa - como aliás todas as outras -, cercear o acesso das crianças às aulas é uma grave ameaça armada. Entre as camadas mais carentes de informação, a investida negacionista é como outra doença – conheço dois casos de não-vacinação ou desistência da segunda dose por causa da ignorância estimulada por maldades como esta mais recente, que virou, trocando em miúdos, “vacina da Covid dá Aids”.

(soma.org.br)

“Filhos...Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / como sabê-los?”, filosofou Vinicius de Moraes em seu “Poema enjoadinho”. Preferi tê-los, e até hoje, já grandinhos, cuido para merecê-los. Não estão mais na idade do desenvolvimento cognitivo de que falou Piaget, e cada um toca a vida a seu modo: à americana, à inglesa ou aqui, com toda assepsia no laboratório ou em home-office. Mas, seguramente, se fossem pequenos, correria a vaciná-los, rumo à oficina de bons cidadãos, que tanta falta faz: a escola!

 


sábado, 6 de novembro de 2021

PANDEMIA: A PARANOIA NECESSÁRIA E A RAZOABILIDADE


Sou leitor compulsivo de jornais
. Pela manhã, dois nacionais, além de passar os olhos no The Guardian, NY Times, Le Monde – fora, claro, quando há edição de O Progresso, de Tatuí. Assim, procuro me informar acerca do que acontece aqui, no país e na cena internacional, e como o Brasil se insere nela. Ano e meio para cá, um olho na Pandemia, o que não me faz um especialista, a área não é da minha formação de doutor: sou mero pesquisador de outro campo - mas com o mesmo rigor - em busca de notícias e pesquisas abalizadas de publicações como a Science, a Lancet e o New England Journal of Medicine. A doença avançou, e por conta do descaso negativista, muito além do que deveria - mas a ciência corre em velocidade inédita na pesquisa e produção de vacinas.

Fapesp

Como muitos, protejo-me, isolo-me
, prefiro o delivery e uso máscara sempre que vou à rua; uso o álcool em gel, evito aglomerações e mantenho o distanciamento recomendado conforme o figurino, ou seja, a OMS e as determinações do estado de São Paulo, fui vacinado duas vezes e aguardo o reforço. E tenho ajuda familiar: minha filha Isabela, 26, é pesquisadora em química/biomédica pela Fapesp-USP, e na dúvida a ela recorro.

FioCruz

A Drª Margareth Dalcomo
, profª adjunta da PUC-RJ e pesquisadora da Fiocruz com várias especializações, resumiu o momento atual em um recente programa jornalístico na TV: “Cada vez está mais demostrado que transmissão da Sars-Cov-2, o vírus da Covid-19, (...) é de natureza respiratória, (...) é ambiental”. “De modo que limpar sacolinhas, embalagens, superfícies, (...) perdeu a sua importância. “...e muito menos sola de sapato”, acrescentou. “O importante é saber que a contaminação está ligada ao meio ambiente”. No início da pandemia, famílias deixavam os sapatos do lado de fora da casa, outros passavam álcool em gel nos saquinhos de compras de supermercado. Com as novas conclusões – que não são apenas da Drª Dalcomo, mas também dos centros mundiais de pesquisa -, mudou a concentração do estudo da Covid: o foco é nos tratos respiratórios, especialmente o inferior: traqueia, brônquios, bronquíolos, alvéolos e pulmões (com a devida vênia dos Srs. médicos, apenas resumi o que pude depreender dos textos das pesquisas).

Aerossois

Sendo o trato respiratório o meio de contágio
, segundo os cientistas especializados há duas espécies de ‘ataques’ pelas vias aéreas: as gotículas (‘gotas minúsculas’) e os aerossóis, "suspensão de partículas (...) freq. líquidas, num meio gasoso como o ar” (Houaiss). As gotículas têm ‘voo de galinha’, e caem a pouca distância de uma pessoa por serem mais pesadas do que o ar; com o distanciamento e uso comum de máscaras, tornam-se quase inócuas – exceto alguma secreção via tosse, espirro ou saliva da fala lançados diretamente no rosto a descoberto de alguém. Já os aerossóis, invisíveis a olho nu, são o grande perigo: em locais fechados como banheiros públicos e ambientes mal ventilados, ficam em suspensão no ar durante um bom tempo, sem que o cidadão saiba que os está inalando. Assim, alguns tabus caíram por terra, e, mantendo-se a assepsia, o distanciamento e com boas máscaras vedadas cobrindo do nariz ao queixo, o risco se configura muito menor.


Se me refiro à paranoia necessária
é porque, no início da pandemia, aqueles exageros dignos de filmes de ficção científica realmente eram uma forma de precaução compatível com a informação que o mundo tinha sobre a doença. Certos cuidados – boas máscaras, distanciamento, limpeza das mãos – continuam altamente recomendáveis, e devem ser mantidos. Mas, inequivocamente, os exageros iniciais foram necessários.


Um colega professor da USP,
Jacyr Pasternak (alguma ligação com a conhecida Dr.ª Natália Pasternak, com certeza), pesquisador que em meados dos anos 80 passou a se especializar em outro vírus letal, o HIV, esteve em alguns departamentos para fazer palestras sobre os cuidados para se evitar o contágio. Era tudo assustador, o pânico era tanto que no clube que eu frequentava havia um cartaz explicando que o vírus não era transmitido por copos, xícaras, talheres e objetos. Voltando ao Pasternak e à paranoia necessária, em um café depois da palestra ele disse que nem todo tipo de relação sexual transmitiria o vírus. Surpreso, perguntei-lhe o porquê de não ter explicado isso também, ao que ele perguntou: e você acha que daria certo? Melhor manter o medo, porque em uma relação pode sempre haver excessos e, com eles, riscos, disse.


Segundo a FioCruz
(Estadão, 21 de outubro), a transmissão da Covid-19 segue em visível queda no Brasil, fato que é constatável pelos números diários do Consórcio de Imprensa, formado ante a ausência de dados confiáveis do governo. 25 estados e 23 capitais já estariam fora da chamada ‘zona de alerta’, mas cientistas explicam que “a epidemia não está definitivamente controlada”, e que “a impressão de que já vencemos a pandemia é enganosa, sendo imperioso, nesse momento, continuar vigilante” (sic). São Paulo, mesmo após o esperado controle da pandemia, estuda continuar a exigir máscaras para ingresso em lugares como hospitais.

De posse dessas informações mais recentes, é necessário prosseguir com as cautelas que a ciência exige, mas, agora, dentro de critérios seguros de razoabilidade. Sem a paranoia do início da pandemia e menos ainda a liberalidade descontrolada – vale a razoabilidade. Diria meu pai: nem tanto ao mar, nem tanto à terra.


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