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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

CONSERVATÓRIO DE TATUÍ: PERSPECTIVAS

 


Tendo sido diretor do Conservatório
por dez anos, hoje observo alguns desentendimentos ou mal-entendidos sob ótica privilegiada. Achei por bem opinar pela primeira vez após três anos e meio, pois vejo um cenário ainda obscuro. Durante 30 anos dirigi três das melhores escolas de música do país: a Municipal de São Paulo, a Cantareira (superior) e o Conservatório de Tatuí. Considero-me apto a opinar.


Fala-se em certo contraponto a um ensino “antiquado”
em Tatuí (pano de fundo para a cena financeira, como veremos), e exclusivamente da música, só ela. No meu artigo (Modernidade e Eternidade) da semana passada do jornal O Progresso abordei, entre diversas coisas, a ‘modernidade’ em arte, fechando o texto com Drummond: “E como ficou chato ser moderno, agora quero ser eterno”.


Lecionei em Tatuí entre 1984 e 1987
, duas vezes por semana, daí conhecer o Conservatório razoavelmente bem antes de assumir a direção, em 2008. Em algumas das melhores orquestras do mundo alunos tocam junto com seus professores, a exemplo da Sinfônica de Praga e da Filarmônica de Berlim. Nas melhores daquelas escolas, dado o altíssimo nível dos alunos, há orquestras de estudantes que são ainda superiores a muitas profissionais. Prescindem do trabalho com os professores, sistema que encontrei no Conservatório, sua marca d’água.


Aqui, alunos ensaiam e se apresentam ao lado de professores
, trabalham o repertório mais difícil, com solos e passagens intricadas, preparam repertório – por exemplo, sinfonias de Brahms, Beethoven e Mahler. Na capital há várias orquestras onde alunos adiantados podem ter essa prática, incluindo grupos já profissionais, do Centro à Grande São Paulo. Sendo Tatuí uma cidade cem vezes menor (apenas 1% da população da capital!), não há outra opção para esse aprendizado. Em certo momento, o aluno adiantado enfrentará as opções de mudar-se para São Paulo, permanecer amador ou desistir.

New England: Jordan Hall

(Minha formação se deu no Rio e nos EUA, um ano na Berklee e, depois, com bolsa de uma das ‘três grandes’, New England, bacharelei-me. Em 2009, convidado pelo “International Visitors Leadership Program” do US Dept. of State, estive em 27 instituições de música americanas conhecendo seus diretores, currículos, alunos e estruturas. Não me falta experiência para saber o que é ‘moderno’, senão os tradicionais sistemas de ensino do mundo.)

Reunião na Secec (divulgação)

Voltando a Tatuí
, com entreveros políticos evitáveis e pontos de vista divergentes – explícitos ou não – entre a Secretaria de Cultura (Secec), a Sustenidos, OS que gere o Conservatório, professores, muito veladamente, e alunos, nada contribui para um ambiente saudável – como bem ilustra a recente entrevista do maestro da Sinfônica, Edson Beltrami, demitido no dia 1º. Em reunião na Secec com o prefeito de Tatuí, Prof. Miguel, e o presidente da Câmara Municipal, Antonio Marcos (O Progresso de 5/12, pág. 6), o titular da Cultura, Sá Leitão, propôs que fosse criado um Conselho Curador local, mas a diretora da OS mostrou-se refratária à ideia. Talvez a assista certa razão, porque a Sustenidos já tem um Conselho Consultivo, um Conselho Fiscal e um Conselho Administrativo, além da Assembleia Geral, esta última com plenos poderes para até demitir diretores!


Direção e órgãos colegiados do Conservatório
funcionam em São Paulo, e a lei das OS, 846/98, não menciona a modalidade ‘Conselho Curador’. Portanto, ausentes as prerrogativas, a que serviria em Tatuí esse novo órgão sem respaldo de qualquer diploma legal, se a Sustenidos já tem quatro colegiados em SP? E mais: o corpo diretivo da OS propõe 75% do tempo de trabalho para o Guri e 25% para Tatuí (pág. 105 da PTO). Não fosse só isso, a mesma OS ainda assumiu o Theatro Municipal de São Paulo, organismo enorme, complexo e turbulento que conhecemos bem.


Na reunião, a Secec informou que há 2.174 alunos
em Tatuí (pág. 6 do jornal), mas a Proposta Técnica e Orçamentária da OS gestora prevê um número bastante inferior (pág. 23): 1.700 estudantes, incluindo os do Polo de São José do Rio Pardo; por conseguinte, a cota discente de Tatuí ficaria em cerca de 1.400. A proposta da OS é explícita (pág. 24 da PTO): “redução das 496 vagas”.


A Proposta também deixa claro o viés financeiro
de tais reduções: “...percebemos que não há outra forma de equilibrar receitas e despesas a não ser realizar o ajuste sugerido”. Isto nos leva ao projeto do governo (663/21) para a Lei do Orçamento Anual (LOA) 2022, em tramitação na ALESP. O montante proposto pelo governador para o Conservatório, de R$ 26.599.037,00, será submetido à votação plenária após 23.810 (grifo) propostas genéricas de emendas parlamentares. Há outras formas de ‘engordar’ o orçamento, mesmo que seja aprovado o valor proposto, além de alguma emenda à LOA: o Crédito Suplementar - transferência entre secretarias por ato do governador -, ou internamente à Secec, este em valores diminutos haja vista o baixo orçamento da pasta. Mesmo aprovados os 26,6 mi propostos, o orçamento ainda ficará muito aquém da LOA de 2008, ano em que aqui cheguei: R$ 22,25 milhões nominais - que, corrigidos pelo IPCA até janeiro de 2021, equivaleriam hoje a R$ 45,40 mi; somando-se a inflação deste ano, acima de 10%, chega-se a 50 milhões, quase o dobro!


Ao leitor pode parecer um tanto confuso
, e mesmo eu, com toda a minha experiência, ainda tenho dúvidas sobre as perspectivas que só o futuro poderá dirimir. Ah, um aviso: aposentado pelo INSS e pelo estado, não almejo cargo algum em órgão qualquer, nem sou candidato a nada.

 

sábado, 11 de julho de 2020

UM PERSONAGEM EM BUSCA DE SEUS DIPLOMAS

Fefierj, na Praia do Flamengo

No início dos anos 1970, cursei Licenciatura em Música na Fefierj (Uni-Rio). A escolha se deveu à oportunidade de estudar com Hélio Senna e Silvio Mehry, ambos formados pelo Conservatório de Moscou, e Marlene França, ex-aluna de Ginastera. Também tive liberdade para escolher o professor de instrumento de minha preferência. Certo dia, uma porta se abriu para mim nos EUA, e corri para Boston.
New England Conservatory
Estudei por um ano no Berklee College, enquanto me preparava para ingressar em minha opção primeira, o New England Conservatory, conhecido como uma das três melhores instituições dos EUA. (Berklee ajudou-me na parte de escrita e arranjos para jazz, foi uma grande vivência). Preparei-me ao máximo, e obtive por prova um Financial Aid Award do New England, fundamental à minha sobrevivência. Lá, estudei contrabaixo por poucos meses com William Rhein, até o encontrarem morto em circunstâncias sinistras - mas previsíveis. Fiz prova para ingressar em uma das três vagas na classe especial de Edwin Barker, solista da Sinfônica de Boston, e passei a estudar ainda mais.
Formei-me após um pré-recital com banca e um recital público externo. Surgiu então um convite para trabalhar no Brasil em uma organização sob a liderança de um grande nome, proposta irrecusável. Decidi-me e comecei a organizar a papelada. Em uma viagem ao Brasil estive no MEC, no Rio, e a funcionária responsável pela revalidação de diplomas do exterior me fez uma série de exigências, como um documento, à parte do diploma com a assinatura do presidente da entidade, no qual deveria constar uma confirmação da autenticidade do título (pelo mesmo presidente que assinara o diploma anexado!) Ambos deveriam ser colados com um selo inviolável com a marca d’água da instituição e outra de um “notary public” – o correspondente a um tabelião, prática inexistente nos EUA. Sem resistir, o presidente do NEC deixou escapar: “o país da fitinha vermelha”.
(Foto: qconcursos)
Retornando ao Brasil, segui as instruções do MEC e da burocracia. A papelada teve tradução juramentada, carimbos e selos de acordo com as normas do Ministério. Para encurtar os dois ou mais anos previstos, protocolei o pedido de revalidação na Unicamp, fugindo do MEC. Um professor visitante da Universidade de Indiana, Mel Carey, chamado para atestar a qualidade do curso, resumiu: “fabulous!” Não tardou a burocracia apontar que faltava em meu currículo escolar um semestre de Problemas Brasileiros, que a ditadura, já agonizante, havia travestido da velha Educação Moral e Cívica. Inscrevi-me, fiz o paper  final da disciplina e, após quase três anos de via crucis burocrática, em 1985 recebi a chancela final, assinada pelo reitor da Unicamp, então Aristodemo Pinotti, número devidamente carimbado.
USP (jornal.usp.br)
Ingressei como professor na USP em 1988: tal qual os outros, eu só tinha um diploma superior. Logo, a Reitoria publicou no Diário Oficial o meu ingresso na carreira, dando-me até seis anos para apresentar o diploma de mestre. Fiz duas disciplinas de pós-graduação como aluno especial que foram aproveitadas no curso. Ingressei oficialmente na área de Artes Plásticas, uma vez que ainda não havia mestrado em música na USP. Preparação de dissertação, o temível exame de qualificação e finalmente a defesa pública – ambas perante uma banca já no Departamento de Música, com mestrado na área já oficializado. Concluí o curso em Artes Plásticas: sete disciplinas de três horas semanais cada - o tal “superdoutorado”, enquanto um candidato a doutor tinha o ‘privilégio’ de concentrar-se a fundo no trinômio pesquisa-tese-defesa e a exigência de apenas quatro disciplinas.
Após breve recesso, vi que teria de enfrentar o doutorado, desta vez em Artes Cênicas. ainda não existia o curso na Música. Disciplinas, muitas horas de trabalho e um projeto de pesquisa bem mais amplo, com mais exigências e bem mais  árduo: muita bibliografia, correspondências, entrevistas, idas a bibliotecas, procuras por fontes, etc. Tudo isso para um certo dia, material pronto, submeter-me à decisiva banca de qualificação. Um semestre depois, preparando a oratória e estudando com muito afinco, imprimi os dez exemplares, cada um com quase trezentas páginas, e fui à banca em audiência pública com a participação de convidados estranhos ao corpo docente da Universidade. Foi uma longa sessão de perguntas, questionamentos, olhares clínicos e pequenas armadilhas, mas estava preparado para a ocasião.
Vinte e um anos depois da expedição do diploma de doutorado, sempre lendo e pesquisando, achei que talvez fosse hora de um grande alto, o pós-doutorado, ou simplesmente pós-doc. A ideia me fascinou, mesmo sabendo do trabalho árduo que teria pela frente: informações sobre minha atuação profissional e acadêmica, publicações, tudo desde o início da carreira até os dias de hoje, qualificado e quantificado. Softwares para contabilidade de citações de meus trabalhos em livros e produções acadêmicas, detalhes de toda uma vida. E um projeto em que se privilegia a pesquisa no mais alto nível, algo que possa ser útil ao país, à comunidade acadêmica e à pesquisa em geral.
Adicionar legenda
A obtenção de títulos verdadeiros e reconhecidos no Brasil não é brincadeira. Não é um pendurar de papeis sem lastro e emoldurados na parede e o decorar do currículo com títulos para fazer bonito. Como dizia meu professor nos EUA, nada é feito para ser fácil, muito pelo contrário. Mas há um caminho a ser evitado: falsear e plagiar são habilidades fúteis e traiçoeiras: é como armar uma bomba-relógio que um dia lá na frente vai estourar na sua mão.
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Para todos os programas: youtube.com/autrandourado
Livro (encomenda): Memórias de Isolamento - Saudosos velhos Amigos: memoriasdeisolamento@gmail.com