LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM

Em minha primeira infância não tinha havido ainda o golpe de 64. Veio com meus 11 anos. Na verdade, fora experiências do grêmio escolar, eu só vim a nascer aos 15 anos, como na música “aos 15 anos eu nasci em Gotham City”, do Jards Macalé. Naquele mesmo ano, morria assassinado no restaurante Calabouço o estudante Édson Luís, de 19. Disse à minha mãe que eu iria ao cortejo, e ela até resolveu ir junto. Passando na rua que leva ao cemitério São João Batista, a multidão impressionava. Veio do centro, com o refrão “mataram uma criança, poderia ser seu filho”.
Artistas como Odete Lara, Eva Wilma, Norma Bengell e Ruth Escobar nos 100 mil
No colégio, vi os padres paramentados indo à passeata dos 100 mil, juntando-se a atores, intelectuais, estudantes, religiosos, todos os que se sentiam amordaçados pela censura e pelas graves violações, como prisões sem sentido, torturas e desaparecimentos. Havia muito medo. Meu pai, por ter trabalhado como porta-voz de JK, mais ainda, porque os intelectuais do gabinete estavam sendo presos. E vieram prisões de amigos e conhecidos como Hélio Pellegrino, Ênio Silveira (preso oito vezes) a turma do Pasquim e muitos outros. No colégio, resolvemos fazer um festival de MPB, e até lá enfiaram a censura prévia. Não me cortaram a música, mas uma frase singela: “um grito vivo de verdade”. Por quê? Meu pai, receoso de chegar a sua vez, eliminou livros de casa e pediu que eu sumisse também com minhas leituras teóricas dos filósofos.
A 'Joaninha' e os policiais
Entrando na faculdade, juntei-me ao pessoal mais inteligente, do diretório, e logo vi serem presos Alexandre, que voltou com o peito queimado de cigarros, minha amiga Mônica Tolipan e Luísa. Por quê? Eu e meus irmãos, com meu tio, chegamos a ser parados e espremidos no muro com fuzis, como fôssemos bandidos. Mudei de faculdade, fui para a excelente FEFIERJ, embora sob a intervenção do gen. Jayme Ribeiro da Graça.
À frente do prédio, sempre um fusquinha com um giroflex, as temíveis ‘Joaninhas’, paranoia do povo, com suas revistas nos cabelos e nos livros. Foi recolhida até a Nova História da Música do Carpeaux, de capa vermelha. E valia a instrução policial: dois, ok, prestar atenção, três, podia ser plano, abordar! Nessa altura, meu pai teve a visita de um agente do SNI, que viera em seu encalço. Lá embaixo, deram uma volta e ele ouviu que, quando no Palácio, arrumara um emprego no IAPETEC para a filha do agente. O sujeito disse que iria contornar e que subisse, pois minha mãe devia estar nervosíssima.
Meu pai convidou-me para um chopp a dois. Desvendou quem era meu ídolo de então, Che Guevara, a quem ele havia aturado durante horas fazendo sala para JK. Mais informações, a de que os chefões da guerrilha estavam loucos para cooptar jovens quadros para servirem de bucha de canhão, a exemplo do Gabeira, mais velho do que eu. Aí encerrei minha “carreira”. Foi uma ducha de água fria. Naquela conversa, olhos nos olhos, decidi me afastar da leitura política e me dedicar à minha arte, a música. Estudava muito, tive a sorte de ter grandes professores, como Ladislav Bálek, solista da Sinfônica de Praga. Consegui uma aprovação nos Estados Unidos, e lá fui eu em 1977 para Boston, onde estudei com o grande Edwin Barker e com o compositor McKinley. Casado, já estava me acomodando nos EUA. Fui convidado para ajudar a reorganizar uma antiga grande orquestra no Brasil. “Um belíssimo salário”, disse minha mãe. Recebi, como sempre, uma revista enrolada depois de lida, para eu ficar a par do que se passava no país. Na capa, à frente de uma multidão, como o pôster do filme “Sacco e Vanzetti”, Lula comandava os manifestantes. Eu, ainda com as costas lenhadas pela vida no Brasil, disse para mim mesmo: ‘esses caras estão loucos, morrerão todos!’. Mas eram os novos tempos surgindo.
Em 1982, vim de mala e cuia para o novo emprego. Chegando, nove baús no Cais do Porto, soube que o projeto inteiro ruíra. Como eu estava preparado, não me preocupei muito. Inicialmente, fui para Campinas, onde fiquei 2 anos. Depois, Osesp. Vi o começo do fim da ditadura, com a eleição de Tancredo e a inevitável posse de Sarney. Farsa, mas logo chegaríamos ao voto direto. Essa epopeia durou mais de 20 anos, e não meses como disse Castelo Branco, disfarçando ou não. Sucederam-se, desde 1964, os Atos Institucionais. Oito dias depois do golpe,  o AI-1 simplesmente delegou ao ‘comando’ o poder de alterar a Constituição, entre outros. Foram cortando os poderes, até que aquele fatídico AI-5 acabou com o país.  Não havia mais nada.
Figueiredo e seu bom amigo Abi-Ackel, contrabandista de joias
Os militares – e não as fardas, que prezo muito – enriqueceram, a exemplo do próprio Castelo, cel. Andreazza, autor da ponte Rio-Niterói e da Transamazônica, superfaturando aos montes todas as compras (não havia a lei de licitação de hoje, 8.666 - aliás, como disse o Getúlio, 'a lei, ora, a lei'). Abi-Ackel, homem forte de Figueiredo, tinha um comércio de esmeraldas em Miami. Um preposto, que levava mais uma remessa de joias parta o escritório de Ackel em Miami, foi preso na alfândega americana com o equivalente a 20 milhões de dólares em gemas na época. 

O eng° José Jobim, que trabalhou na Itaipu, revelou que contaria tudo sobre os US 30 bi, superfaturadíssimos, da obra. Eram tempos de Figueiredo, e hoje se sabe que na verdade, como vários outros, Jobim foi 'suicidado' pendurado em  uma árvore, fato recentemente confirmado. À dona de uma farmácia disse que estava sendo sequestrado, em um bilhete no balcão.
Eliezer Batista, “dono” das mineradoras, embora malvisto desde o Jango, teve Castelo que lhe afagou com a Cemig. Eliezer deixou para seu filho Eike uma das maiores fortunas do mundo. Ao gen. Golbery coube a fenomenal Dow Chemical. A corrupção grassava por todos os cantos, mas com Imprensa, Judiciário e Legislativo manietados - quando existiam -, era benevolente com os piores alcaguetes transformados em agentes, achacando, extorquindo, como aconteceu comigo em um acidente de automóvel que teve o azar de ser protagonizado pela filha de 19 anos de um “extra” do SNI. Meu pai, sob ameaça de extorsão, buscou nos cartórios do Fórum, onde trabalhava, o nome do agente. 20 ações de roubo dormindo em uma gaveta. Esse foi o contragolpe. A questão se encerraria em juízo.

[Usei para título o livro do James Joyce, como faço frequentemente até para abrir a mente dos leitores]

sábado, 22 de setembro de 2018

WAGNER E O ANTISSEMITISMO . VERDI E O ELOGIO AO POVO HEBREU: ‘NABUCCO’

Nós já falamos aqui de Richard Wagner (1813-1883). Polêmico, fazia propaganda aberta do antissemitismo, do racismo, do vegetarianismo, do budismo e outros tantos ‘ismos’ ocidentais e orientais. Foi endeusado por muitos e execrado por outros. Ligou-se a alguns revolucionários, como o anarquista Bakunin, mas acima de sua posição ideológica complicada, ninguém pode negar que   

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                Tristão e Isolda foi um verdadeiro estopim para quase tudo o que aconteceu na música do século 20. Wagner chacoalhou e subverteu o conceito de tonalidade, que já fraquejava, fora do tempo, verdadeira revolução que tomara conta da filosofia, da política, dos costumes e de todas as manifestações artísticas.
Zubin Mehta
A comunidade judaica já amargava, há um bom tempo, o abraço do compositor às ideias antissemitas, a um ponto em que Hitler, nascido seis anos após a morte de Wagner, logo viria a escancarar sua admiração pelo compositor e outros antissemitas. Mas nem todos compactuam com esses pontos de vista beligerantes. Há uns bons anos, o maestro indiano Zubin Mehta, convidado a reger a Filarmônica de Israel, resolveu preparar com sua orquestra algumas obras wagnerianas, causando uma controvérsia que agitou o mundo judaico. A polêmica tomou páginas de todos os jornais do mundo. Após a Segunda Guerra, Yehudi Menuhin apresentou-se várias vezes pela Cruz Vermelha em Jerusalém. Repertório: compositores germânicos. Depois de Zubin Mehta, em 1989, e logo após a queda do Muro de Berlim, Menuhin apresentou-se com a Staatskapelle do antigo lado oriental.


Retornando a Wagner, ainda em vida o compositor já havia reacendido a polêmica, não se sabe se por capricho ou penitência, convidando o regente judeu Hermann Levi para conduzir a estreia de sua ópera Parsifal. Bastante menos flexível do que seu compositor predileto, mais adiante Hitler ordenou ao temido Goebbles que evitasse que Erich Kleiber, diretor da Ópera de Viena – ‘aquele judeu’, como dizia – regesse Wagner. Entusiasta da ‘obra de arte total’, em 1933 Hitler contratou o jovem arquiteto Albert Speer para que concebesse a cenografia impecável de flâmulas, refletores, e bandeiras que haveriam de se tornar símbolos do grande poderio nazista. Speer foi um dos pioneiros do marketing cenográfico político, cedendo aos caprichos do ditador, que vislumbrava aquela coisa suntuosa, monumental, digna do Império Romano e palco de sua ópera wagneriana pessoal.
Hans Von Büllow
Wagner foi um gênio especialmente complicado. Embebido no ódio antissemita, foi um crítico impiedoso de Mendelssohn. Wagner separou-se para se unir à jovem Cosima Liszt, que era casada com o grande regente Hans Von Büllow, que ironicamente havia regido algumas de suas óperas. A arte segue a vida: em O Navio Fantasma, Senta busca fugir com o holandês; em Tannhäuser, Isabel passa por drama semelhante; com Marcos, Isolda e Tristão , acontecem loucuras parecidas. Essas loucuras estão por todo lado, a perder de vista. Os céus devem ter estremecido diante da traição e promiscuidade entre deuses, heróis, amantes e mitos.

Preconceitos persistem no presente: nos anos 1980, Vanessa Redgrave foi impedida pelo board of trustees do Symphony Hall de Boston – algo como os antigos ‘Patronos’ do Teatro Municipal de São Paulo – de ser narradora em um evento com a orquestra. Motivo: a atriz havia concedido entrevista declarando-se simpática à causa palestina.

Giuseppe Verdi
Deixando de lado os conflitos de ordem racial ou religiosa dos tempos recentes, voltemos a 1813, do nascimento de Wagner. Naquele mesmo ano, veio ao mundo o italiano Giuseppe Verdi, nascido em uma família de comerciantes. Cedo, aprendeu a manobrar o órgão, e, não muito tempo depois, já substituía o velho organista da Igreja de Roncole. No início, compunha, mas não teve orientação de um professor. Mandado a Milão, ironias da vida, não conseguiu entrar no famoso conservatório. Estudioso e com muito talento, logo Verdi passou a colecionar elogios do meio musical. Um empresário do La Scala, vendo nele um investimento, encomendou-lhe uma ópera. Verdi debruçou-se sobre a partitura de Um Dia de Reinado: sonhava largar a provinciana Parma com a mulher, Margherita, e duas crianças. A estreia redundou em um tremendo desastre.
La Scala, de Milano
Merelli, empresário do La Scala, convenceu seu protegido a escrever mais um título, nascendo assim Nabucco, que compensou com estrondoso sucesso o fracasso anterior. O coro dos hebreus escravizados va pensiero, sull’alle dorate (vá, pensamento, sobre asas douradas) é quase um hino da Itália, e significou também sua libertação. Na época, a Áustria dominava o país e a disputa, além daquela musical, era a ferro e fogo.


Os italianos se identificaram com o povo Hebreu de que falava Nabucco, e Verdi se aproveitou daquele momento político para impor-se como trunfo e glória italianos. O nome do compositor chegou a virar uma espécie de acróstico, ‘Viva V.E.R.D.I’ (Vittorio Emmanuel, Re D’Italia). Famoso, lançou-se na política, conseguiu eleger-se deputado e logo depois senador! A música seduz e envolve, mas o poder inebria e, como disse Henry Kissinger muitos anos depois, é afrodisíaco. (Abaixo, o emocionante coro va pensiero, em um inusitado protesto contra os desmandos de Berlusconi, por Ricardo Muti e o coro da Ópera de Roma)





sábado, 15 de setembro de 2018

A LISTA DE LISZT


Da vida do húngaro Franz Liszt (1811-1886), farta em sortilégios de todos os tipos, da infância até cruzar rumos com Wagner, poderia ser elaborada uma enorme lista de fatos e causos. Aos que se surpreendem com o marketing musical da vida do compositor, como as moçoilas da plateia afagadas com uns trocos para se emocionarem nos recitais, é fato que nada mudou nos dias mais recentes. Eu mesmo testemunhei, no início da década de 1970, participando em uma gravação do programa Som Livre Exportação, da Globo, o diretor Walter Lacet acomodar meninas junto ao piano do ainda pouco conhecido Ivan Lins. Para fazer jus às gorjetas, elas tinham de fazer caras e bocas, quiçá chorar. Os Rolling Stones dão um ‘por fora’ para atitudes extravagantes de nudes e topless que invadem o palco, e até grupos contratados que provocam brigas, como a que culminou com a tragédia de Altamond, em 1969, pelos Hell’s Angels: uma morte cruel.
O Czar Nicolau
A vida de Liszt era cheia de coisas absurdas e exóticas, naturais ao gênio do pianista e regente. Uma vez, pau para toda obra que era, ele se apresentava para o Czar Nicolau, dado a festanças mas não versado nas sutilezas da boa música. Nicolau conversava animadamente com seus convivas até que Liszt, cada vez mais irritado, parou e simplesmente fechou o teclado do piano. O Czar demorou um pouco para perceber que a música havia sumido e, virando-se para Liszt, perguntou-lhe por que parara. Ouviu como resposta que quando um Imperador fala todos ficam em silêncio.
Condessa Marie D'Agoult
Em outra ocasião, Liszt tocava ao piano a Ave-Maria de Schubert para a princesa, que se pôs a tossir já logo no segundo compasso. O compositor aguentou com discrição até lá pelas tantas, quando resolveu interromper o recital. Prova da pouca educação da nobreza da época, a princesa desandou a gargalhar, achando tudo engraçado. Liszt, por sua vez, abriu um vinho e desandou a beber. Do lado namorador, ressaltam-se duas grandes paixões: a aluna Caroline e um longo affair com a condessa Marie D’Agoult. Fugiu com a primeira, correndo do marido dela, e fez o mesmo, dez anos depois, com D’Agoult. Mesmo à distância de Caroline, Liszt cedeu às fortes convicções religiosas da moça, até resolver-se pelo sacerdócio – tarde demais, dada a vida pregressa do músico, na mais pura gandaia.
Liszt e a filha, já Cosima Wagner
Em 1835 ele se tornou pai de Cosima, seu segundo rebento, nascida na Itália. Como que prevendo os rumos que a música compartilharia com os de sua família, o destino fez com que Cosima se casasse com ninguém menos do que Richard Wagner (1813-1883), o grande nome da ópera. E essa ligação musical e familiar era tão forte que Liszt passou a conduzir as obras de seu genro com grande frequência. Em 1886, doente, padeceu por ter sido impedido, por falta de condições de saúde, de reger a estreia da histórica Tristão e Isolda. E foi a partir daí que Liszt, autor de obras virtuosísticas para o piano e também de grandes poemas sinfônicos como Fausto, Prometeu e Hamlet, viu seu genro chegar à criação de Tristão, a grande reviravolta na música ocidental, divisor das tendências entre os seguidores de Brahms e os da nova era, a dos wagnerianos.
Wagner (à esquerda) e Liszt, ao piano
Mas Liszt não pôde viver a grande revolução de Wagner, que abriria as portas para tudo o que viria a partir dele, no final do século 19 e já entrado o 20: morreu em 1886, entregue aos braços de sua filha Cosima, em Bayreuth, onde se realizam até hoje os grandes festivais de óperas do alemão. Wagner assumiu a liderança do cenário musical e, adepto da chamada Obra de Arte Total, compôs Os Mestres Cantores de Nürnberg, cuja apresentação completa leva quase cinco horas e meia. (Mas longe de ostentar o recorde, alcançado pela sinfonia ‘Victory at Sea’, do americano Richard Rodgers, com arranjos de Russel Bennett para a NBC de NY, cuja duração é de aproximadas treze longas horas).
O Judaísmo na Música
Ironias da vida, Wagner cedo havia sido desenganado à frente de seus pais pelos professores Numann, de piano, e Robert Sitt, violino, que informaram aos responsáveis que Wagner era inteligente, poderia fazer outras coisas e abraçar qualquer profissão, mas nunca a de músico (decepção não rara na infância e adolescência de inúmeros grandes talentos). Não podiam prever que o menino haveria de ser o grande marco da história da ópera e o revolucionário musical que transformou o século. Mais ainda, quase tudo o que sucederia sua obra traria vestígios de seu talento. Wagner ainda foi um literato e crítico de mão cheia, à parte obras de cunho antissemita e panfletário como Das Judentum in der Musik (O Judaísmo na Música) e suas perseguições a compositores como Felix Mendelssohn, judeu mais tarde convertido ao cristianismo.
Wagner e Liszt, em ilustração
Wagner, parada final da enorme lista do sogro Liszt em seus anos derradeiros, merece um artigo à parte, após os caminhos cruzados entre os dois na música e na vida, tendo Cosima, amada do alemão, como ponto de união desse abraço musical, marco indelével da história de nossa arte e civilização.

sábado, 1 de setembro de 2018

ANEDOTA E TRAGÉDIA NA MÚSICA

Contada por um maestro argentino: certo dia, cruzaram-se em um bosque um coelhinho e uma cobra. A serpente, cega, perguntou quem ele era. Brincalhão e também cego, desafiou: adivinha! A cobra, roçando nele, disse bom, você é peludo, orelhas grandes, dentões...você é um coelho! Viva, saudou o dentuço, e por sua vez falou deixe adivinhar, você é liso, não tem ouvidos, o sangue é frio. Você é um maestro! (É sempre mais divertido quando um regente conta).
Humor mais azedo, um músico bate à porta do teatro para ensaiar e pede ao zelador para abri-la. O empregado, semblante triste, disse não haveria ensaio, o senhor não sabe que o maestro faleceu? O músico baixa a cabeça e vai-se embora, mas logo volta. O zelador pergunta já não te disse que o maestro morreu? O músico se desculpou e foi embora. Dia seguinte, o mesmo. Atende à porta o encarregado, desta vez já enfurecido, e grita já é a terceira vez que você vem e já chega! O músico desculpou-se e murmurou é que você não sabe como me agrada ouvir isso! A acidez dessa anedota foi compensada pela gargalhada do próprio maestro piadista.
O veneno dos músicos não vê limites, procura logo atingir a capacidade auditiva do regente. Durante um ensaio, certo maestro não conseguia amainar a balbúrdia da orquestra. Na baderna, um percussionista arremeteu com força sua baqueta contra o enorme bumbo, causando um estrondo. Queimou o pavio do maestro, que gritou: ninguém saia daqui até que me apontem o músico e o instrumento que fez isso!
Berlioz, de quem já falamos, trouxe à sua vida trágica a anedota real. Morreu sofrendo, mas não poupou anedotas de despedida. Foi enterrado junto às suas duas esposas. E ainda conseguiu dizer que o mundo, finalmente, teria motivo para ouvir suas músicas. E tinha pressa: em seus funerais, cavalos e carruagem que transportavam o esquife dispararam em desabalada pelas vielas do cemitério. Compositor, Berlioz nunca dominou qualquer instrumento - o que não é condição sine qua non para compor ou reger -, apenas arranhava seu violão e gostava dos tímpanos, mas tocar a vera, nada.
Franz Liszt, por  Von Herkomer
O compositor, maestro e exímio pianista Franz Liszt (1811-1886) entrou para a história como um mago de seu instrumento. Aos nove, já se apresentara como prodígio na corte do príncipe Esterházy. Aos onze, enorme honra para um garoto superdotado, viu o gigante da música Beethoven subir ao palco para cumprimenta-lo após uma audição.
Liszt é falado também como o criador do recital, apresentação solo sobre um palco de concertos. Compôs proficuamente, editou, dirigiu, regeu e tornou-se um literato com igual habilidade. Era chamado ‘o Paganini do piano’, tamanhas as diabruras que fazia com os dedos nas teclas. Os seus Estudos Transcendentais esbarram nos limites da técnica, o que não lhe era problema. Brilhante improvisador, um dia tocava um concerto e na apresentação divagou tanto na cadência – trecho em que o solista, com a orquestra pausada, mostra sua destreza muitas vezes em improviso - que quando resolveu voltar ao tutti (toda orquestra), dando prosseguimento à apresentação, sinalizou ao regente uma, duas, três vezes, e o maestro não retomou a orquestra. Anedota real, fez uma pausa, e perguntou-lhe: qual é mesmo o concerto?
A interpretação e a técnica de Liszt eram assombrosas, e, como ‘parte de seu show’, chegava a dar uma gorjeta para moçoilas da plateia fazerem beicinhos e chorarem de emoção durante suas apresentações, serviço pelo qual, consta, pagava fielmente. Nada a dever às claques dos nossos programas de TV. Armava seu circo, que terminava sempre em espetáculo de glória e exaustivos aplausos.
Já que falamos do apelido de Liszt (‘o Paganini do piano’), o genovês Niccolò Paganini (1782-1840) foi o suprassumo do virtuosismo musical. Segundo estudos mais recentes, teria nascido com a síndrome de Marfan, má-formação que faz a carreira de muitos contorcionistas de picadeiro, descoberta e estudada apenas meio século depois. Consta ainda que aquele violinista de feições cadavéricas, dedos e nariz avantajados, ficou preso por anos, acusado de matar três de suas ex-amantes. Na cadeia, tocava seu violino durante boa parte do tempo. Uma corda arrebentou, mas prosseguiu com três e depois duas. Enfim, restou-lhe uma, apenas a quarta delas, a mais grave (talvez a razão de ter escrito suas Variações sobre um Tema de Moisés no Egito, de Rossini, sobre uma corda só). Personificava o músico que teria feito pacto com o demo.

Livre da prisão, Paganini apresentou suas vinte variações chamadas Le Streghe (As Bruxas). Um crítico, perturbado pelo que vira, descreveu-o como um sujeito alucinado com chifres, roupas vermelhas e um longo rabo (à semelhança do capeta!), tocando seu violino como um bruxo demoníaco. Por essas e outras, o músico, já no leito de morte, viu o arcebispo de Nice negar-lhe a extrema-unção. Após os funerais, Paganini continuou sendo alvo de curiosidade geral. Exumado algumas vezes, em uma delas seu corpo ficara exposto, protegido por um vidro, para que a sanha mórbida e a curiosidade popular fossem saciadas. Um empresário francês chegou a oferecer a bela soma, para a época, de 30 mil francos - coisa de R$ 500 mil atuais - pelo direito de exibir os restos mortais. Em 1845 Paganini foi desenterrado pela última vez. Mesmo defunto, desfrutava de grande fama, coisa que em vida cultivava de forma espetaculosa, qualidade que soube muito bem vender, assim como sua imagem e suas concorridas apresentações.

sábado, 25 de agosto de 2018

ROMÂNTICOS, DAS MALUQUICES À LOUCURA

Aurore Dupin, aliás, George Sand

Frédérik Chopin (1810-1847), virtuose polonês do piano, compôs praticamente apenas para seu próprio instrumento: mazurcas, noturnos e polonaises, dois belos concertos cuja parte orquestral não agrada gregos e troianos e outras obras. A conduta exótica de Chopin gerava interpretações das mais diversas, pois apaixonou-se por Aurore Dupin, escritora mais conhecida como George Sand, que se vestia como homem, terno e chapéu. Sobre ela, o próprio Chopin teria dito que parecia um rapaz – já Liszt a teria descrito como uma viril amazona. O estranho relacionamento surgiu após trocas de bilhetes seguidas de vaivéns de cartas, e as recebidas por Sand em sua maioria rasgadas.
Robert Schumann
Bem mais turbulenta foi a vida do alemão Robert Schumann (1810-1856), que desde cedo despertava a atenção para seus transtornos emocionais e de personalidade. Foi músico, literato e crítico, e pensava em dois autores fictícios, Florestan e Eusébius – o primeiro, sonhador exaltado e louco, o segundo, o introvertido e racional.  Para alguns, sinal de um pé firme na esquizofrenia. Seu lado Florestan apaixonou-se doentiamente por Clara Wieck, filha de seu professor e já uma virtuose nas teclas. Ela tinha apenas doze anos e Robert era passado dos vinte, tiveram de aguardar na Justiça autorização para o casamento. Com Clara já aos vinte e um, finalmente puderam realizar seu enlace. Papai Wieck desistira de um recurso judicial em que alegava que o noivo era um perturbado boêmio.

Pequeno artefato para exercício do dedo  anelar
Robert Schumann tornou-se um dos mais importantes compositores de música vocal (Lieder, canções) e pianística, além de suas quatro sinfonias e outras peças. No desespero de ser um grande virtuose, não se conformava com os movimentos mais limitados dos dedos anelares. Ignorando lições de anatomia, passou a forçá-los no afã de liberta-los do jugo dos tendões. Amarrava os dedos a cordões que passavam por uma alça no teto, tendo na ponta um contrapeso. O abuso daquelas engenhocas por pouco não foi mais trágico, mas encerrou-lhe a desejada carreira de solista. Passou a entregar-se com afinco à composição para o resto da vida.
Local do Reno onde Schumann se atirou às águas
Como líder de orquestra, Schumann também usou invencionices como certo apetrecho, espécie de ‘cinto de segurança’ que não deixava a batuta cair-lhe da mão. Tido como regente fraco, deve ter passado por situações vexatórias à frente de orquestras. Era do tipo que se perdia pelas ruas com facilidade, e volta e meia deixava cair o que carregava, o que só acirrava os ânimos dos maldosos. Nas crises, falava sozinho, dizia que se comunicava com os espíritos e frequentemente caía em desespero. Entregue à doença, jogou-se nas águas do rio Reno, mas foi resgatado contra sua vontade. Em 1854, pediu para ser internado, tão grave era o mal que o afligia, e deu entrada no manicômio de Endenich. Até o alívio que lhe trouxera a morte, Schumann tornou-se imprestável, mal reconhecia a mulher que tanto amou, mas foi justo ela que levou adiante seu nome e obra, executando-a por toda a Europa, partituras embebidas na ideia de que dor e prazer, assim como outros sentimentos antagônicos - coisas de Florestan e Eusébius - estão intimamente ligados.

Caricatura da orquestra de Berlioz por Grandville (1846)
O excêntrico francês Hector Berlioz (1803-1869) também foi, além de compositor de obras grandiosas, crítico e literato, habilidades de escrita frequentes entre seus pares na época. Versátil na partitura e nas letras, costumava receber para longos bate-papos a nata dos melhores artistas da época: Mendelssohn, Chopin, Paganini e Liszt, além de escritores como Victor Hugo, o que dá uma ideia da riqueza de suas tertúlias e saraus. Habituou-se a compor sobre formas complexas, que orquestrava de maneira exacerbada, a exemplo do seu Réquiem, escrito para um conjunto de quatro orquestras, que tentara vender para várias famílias de defuntos. Um crítico disse que Berlioz tinha mania de compor para 500 músicos, e levou uma ironia como resposta: nem sempre, às vezes me contento com 450. A bem da verdade, grandes números não foram invenção dele, já que em 1628 Orazio Benevoli já havia escrito uma missa para cinco orquestras, dois coros duplos, contínuo e solistas.
Greve de músicos da Sinfônica de Detroit (EUA)
Na Sinfonia Fantástica, Berlioz se inspira em um músico que, perturbado pelo desespero de uma decepção amorosa, envenena-se com ópio. Como a dose foi insuficiente, o candidato a suicida não logrou seu intento, mas o efeito do narcótico passou a atormenta-lo com visões - como a da amada que se transubstanciava em divina melodia. Para traduzir suas ideias em música, o instrumento de Berlioz sempre foi a orquestra. Pouco arranhava o violão, às vezes tentava os tímpanos, sem que tenha chegado a tocar ‘a vera’ qualquer um deles. Foi um grande artista na música e na vida: enlouquecido pela noiva que o abandonou por outro pretendente, tal qual o personagem de sua própria Fantástica, Berlioz planejou disfarçar-se de criado para assassinar o rival. Dono de um gênio extravagante, o compositor tinha frequentes problemas, em especial com os músicos: durante uma apresentação da Fantástica, parte da orquestra parou à meia-noite - os músicos franceses sempre foram militantes incansáveis, e em respeito às novas determinações das guildas passaram a empacotar seus instrumentos e sair. Berlioz ignorou-os e prosseguiu com pompa arrogante e triunfal, embora tenha concluído o concerto com apenas uma parte do conjunto. A apresentação terminou em um rotundo fracasso por causa dos rebeldes paredistas. E nem havia central sindical naquela época!

terça-feira, 14 de agosto de 2018

MÚSICA E SURDEZ


Foi padecendo da perda daquilo que lhe era mais caro que Ludwig Van Beethoven compôs, já em quase oclusão dos ouvidos, alguns dos seus melhores quartetos de cordas, sui generis e abstratos. Se soam modernos para a época, pura consequência do que lhe ocorria na mente. Ludwig passou a usar artefatos e espécies de cornetas de diversos tamanhos, no desespero de ouvir seu arredor. Fez encomendas especiais ao construtor e inventor Maelzel, o mesmo que criara o metrônomo, aquela pequena pirâmide cujo pêndulo oscila de um lado para o outro, alternadamente, para marcar o tempo.
Em 1812, já assinava cartas de modo inusitado: ‘de seu fidelíssimo amigo surdo’. Notas, acordes e frases de seu ouvido interno passaram a lhe atordoar, mas deixavam-no mais livre ante as normas rígidas do classicismo, dos invejosos e da crítica. À parte a surdez que torturava seu espírito, a fama lhe era perversa, não sabia lidar com ela. Na primeira audição de sua nona sinfonia, talvez a mais importante obra sinfônica de todos os tempos, Ludwig, já totalmente surdo, após encerrado o último acorde demorou a voltar-se para a plateia. Tinha medo de vaias e um fracasso tremendo, mas ao virar-se para o público só viu aplausos efusivos.
Helen Keller ouve Caruso
Se é possível um surdo criar música, que dirá dos que querem curtir lindas melodias? Helen Keller (1880-1968), ativista cega, surda e muda formada em Radcliffe (EUA), bem o mostrou. Sentia vibrações, e delas fazia o seu ouvido pessoal. ‘Ouvia’ cantores a seu modo, e do seu jeito manifestava sua opinião com sorrisos.
Apresentaram-na ao mito Caruso, o tenor maior, e este pôs-se a cantar-lhe uma ária. Com os dedos tocando os lábios do tenor, sorria como se comentasse cada frase. Assim, seu ouvido interno sentia pelo tato sons de beleza tão grande que a inebriavam.
Beethoven: máscara mortuária
Mas a surdez de Beethoven não era como a de Keller, nascida sem os principais sentidos. A vida do compositor parece ter sido melancólica, suas feições marcadas pelo sofrimento. Os retratos feitos pelos bons artistas destoam daquele vulgarizado, longos cabelos cuidadosamente revoltos como um modelo de passarela, a exemplo dos pequenos bustos comuns de se ver encimando pianos domésticos. Vi a máscara mortuária dele, e não era o rosto de um boa-pinta, consoante os retratos romantizados, só retratavam sofrimento e amargor. 
John Kamitsuka
Apesar da aparência malcuidada e desleixo, o gênio de Bonn parecia agradar os corações das mulheres. Seria a compaixão feminina pelo sofrimento dele um charme a mais? As investidas amorosas de Ludwig eram discretas, volta e meia sobre suas alunas. (O pianista John Kamitsuka lembra que o piano a quatro mãos, tocado por duas pessoas sentadas lado a lado no mesmo instrumento, foi criado tanto para facultar a audição doméstica de peças como sinfonias - já que não havia meios de registra-las em discos e afins - quanto para aproximar o professor de suas pupilas).
Condessa Giulietta Guicciardi
Levando adiante as simpatias femininas de Beethoven, as discussões intermináveis sobre quem teria sido a ‘amada imortal’ do compositor, já especularam que talvez a cunhada Johanna, como quer a ilação do cineasta Bernard Rose. Quem sabe Teresa de Brunswik ou a condessa Giulietta Guicciardi, ambas suas alunas? Em algumas cartas para sua misteriosa amada, Beethoven refere-se a um lugar chamado ‘K’. Seria referência ao balneário de Karlsbad? Ou Korompa, onde a família Brunswik teria propriedade? Bernard Rose (de Immortal Beloved) perdeu a oportunidade de fazer um filme interativo, em que os espectadores escolhem a resposta, versão a ser apresentada no final.
Helen Keller: laureada
Entre Beethoven e Keller, contrastam duas formas de se conviver com a surdez. Enquanto o primeiro se deixava levar pelos malefícios da perda de audição e problemas mentais, a segunda superou os obstáculos à ausência de três dos sentidos, escalou graus acadêmicos e alcançou notoriedade com seus estudos sobre o socialismo.
Em Beethoven, a surdez fora progressiva, em Keller de nascença. A do primeiro pode ter sido consequência de alguma outra moléstia ou a convivência com o epicentro da orquestra em alto volume, a PAIR (Perda Auditiva por Indução de Ruído). Esta, irreversível, pode acometer músicos e plateias - vide o caso de shows de rock, funk e outros, em volume pornográfico. Sirva isso de alerta para um exemplo cotidiano: a poluição sonora e o absurdo volume dos sons automotivos. Matam aos poucos nossos ouvidos.
Nos EUA: proteção auditiva exigida acima de 85 dB
Que ninguém amaldiçoe, buscando vingança, os donos dessas máquinas de fazer doido, pensando que logo terão uma perda auditiva, porque aos poucos elevarão o volume para continuarem ouvindo alto, daí mais surdez, e tome mais volume e assim vai, círculo vicioso até a perda total ou quase. Os cidadãos que se resignem a compartilhar à revelia a doença deles! Poluição sonora não é 'frescura de ambientalista', ela é cruel e selvagem. O limite de ruído para os humanos é de 90 dB (decibel, medida de volume) por 8 horas, segundo o Departamento de Trabalho dos EUA, mas um acréscimo de apenas 5 dB reduz esse tempo máximo de resistência para a metade da jornada, quatro horas. A 100 dB, o dano começa em 15 minutos, e a 112 dB, apenas um minuto. A 140 dB, a perda neurossensorial tem início imediatamente. Para se ter uma ideia, um escritório fechado, em silêncio e sem condicionador de ar ligado, registra entre 40 e 60 dB de ruído local externo ou vizinho (existem apps gratuitos para a medição em celulares, são os decibelímetros ou sound meters).
O guitarrista Mark Goffney, nascido sem os braços
É possível deficientes físicos, surdos, cegos ou mudos tocarem algum instrumento, cantarem? Sim, claro, observadas as condições de cada caso, a escolha e objetivos ao fazê-lo. Novas tecnologias ajudam, como os metrônomos com luz piscante para surdos. Esses ‘ouvem’ a música no seu instrumento, pela vibração em seu corpo ou ainda pelo chão.
A música, além de confortar os que perderam ou nasceram sem algum dos sentidos ou movimentos do corpo, é alimento do espírito e recompensa da vida.