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sexta-feira, 25 de junho de 2021

MUDANÇA DE HÁBITO

 


Sob o título “A pandemia fez alguns americanos repensarem o banho diário”, Maria Cramer, do The New York Times (Estadão, 17 de junho) escreveu sobre Robin Harper, da aprazível Martha’s Vineyard de Massachusetts, que apesar de ter crescido com o hábito do banho diário, na pandemia reduziu o costume para apenas uma vez por semana, coisa já comum no país. Daí se especula: aproveita-se da máscara alheia em seu favor? Preguiça? Diz ela que não: “Sou mãe, trabalho em horário integral, e é menos uma coisa que preciso fazer”. Frio? Lá é pleno verão, de onde se conclui que banhar-se passou a ser um ato dominical de relaxamento. Mas quantos hábitos e, vou além, vícios e sestros não surgiram ou mudaram com a vida nesses tempos?


Creio que com a máscara acontecem alguns. Se observarmos bem uma sessão da CPI da Covid, por exemplo, entre o presidente, senadores e inquiridos certo tipo de sestro passou a ser incorporado. Ora empurrando a máscara para cima do nariz, sem pensar, como o comendador da novela da TV faz com as pontas dos bigodes, ora ajustando-a no rosto desnecessariamente: um novo TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), como vários outros. Nada a dever aos gestos do fumante, a terapia do manusear um cigarro para ocupar as mãos - mesmo que sem o glamour do cachimbo e o charme de prepará-lo, culminando com a arte da baforada. Um dos meus TOCs é alternar as máscaras N95 e PFF2 no mancebo do quarto na hora em que chego em casa: a usada vai para baixo, a segunda sobe ao primeiro lugar para o dia seguinte, e daí em diante.

(Portal Multiplix)

Bom hábito é evitar a aproximação de quem está sem máscara e só entrar em locais onde o uso do apetrecho é mandatório. Abusar do álcool em gel em estabelecimentos pode ser outro vício: reapertar o sifão do potinho várias vezes em minutos sem motivo aparente e, pior, ainda fazê-lo sem máscara ou no popular estilo “nariz exposé”, um contrassenso: o vírus penetra no corpo basicamente pelas vias respiratórias, axioma científico sobre o qual ninguém com juízo levanta dúvidas.

(defatoonline)

O número de mudanças no comportamento das pessoas, quando for objeto de estudos profundos e abalizados, pode assustar, se incluídos os hábitos não-visíveis, como pensamentos que confabulam nas cucas das pessoas, que cada vez falam menos. Devido ao isolamento, a comunicação oral teve redução considerável em boa parte da população. A maioria prefere apps em que se escreve quase em código; quando se grava, a conversa é truncada, é um de cada vez, falso diálogo sem interferências e apartes. E são vários softwares, como o WhatsApp e o Telegram, este último ilimitado e sem controle, parece que feito sob medida para os que frequentam os posts do chamado “gabinete do ódio”, dos milicianos e dos militantes das teclas que comandam manifestações e até arregimentam greves como a dos caminhoneiros – com a próxima já anunciada.

Fiocruz (EBC)

Como se não bastasse, entre os que contraíram o vírus tais sequelas são mais contundentes: no dia 18 de junho, seguinte àquele do artigo sobre o banho, o Estadão publicou matéria sob o título “Pela primeira vez, cientistas brasileiros descrevem como o coronavírus danifica as células do cérebro”, objeto de pesquisa realizada pela UFRJ, Fiocruz e Instituto D’Or sobre os danos do Sars-CoV-2 aos neurônios dos infectados. Pesquisas deverão mostrar como são as sequelas psiquiátricas e neurológicas e a resposta inflamatória sistêmica ao vírus. Nada, nada animador.

(Escola Educação)

O ato de se alimentar passou, para muitos, de necessidade fisiológica – e do prazer hedonista de degustar - para o vício de comer em excesso e beliscar fora de hora, descontroladamente, convite masoquista ao sobrepeso. Além dessa ansiedade, há a angústia agregada pelo momento político atual: a comunicação passou a ser mais lacônica e agressiva, produto das elucubrações da “cabeça vazia, oficina do diabo”. Fala-se menos, escreve-se menos, estuda-se menos, lê-se menos, e seria duvidar do óbvio ou discutir o sexo dos anjos negar que teremos uma geração mais despreparada – com as exceções de praxe, os ‘escolhidos’ que traçam seu caminho pelo mundo com enorme esforço, suas próprias réguas e compassos. A se projetar tal cenário muitas gerações para a frente, podemos imaginar, como em um filme de sci-fi, humanos com crânios atrofiados e polegares avantajados, seguindo a máxima de Lamarck (1744-1829): “o uso desenvolve, o desuso atrofia”. São games, controles, apps, tudo o que se manobra com dois dedos e muito pouca massa cinzenta, ou seja, quase sem pensar.

Whoopi Goldberg

No filme “Mudança de Hábito”, que dá título a este artigo (Sister Act, de 1992), a atriz e apresentadora Whoopi Goldberg é a protagonista: uma crooner de cassino que viu um assassinato, como medida de proteção à testemunha vestiu-se de freira para, escondendo-se, aprontar mil entre as colegas de convento e a madre superiora, fazendo o público desatar a rir. A crooner-sister é a personagem da Whoopi, que, profissional, observa 'de fora' a trama acontecendo com seu aguçado espírito crítico. Uma diferença entre o plot do filme e as mudanças de hábitos na pandemia é que no segundo caso tudo acontece sem a consciência dos atores – 25% vítimas de sequelas físicas, além das citadas mentais -, turbilhão neurológico e psiquiátrico ainda longe de ser qualificado e quantificado significativamente. Outra diferença é o sentido da palavra hábito: neste artigo, falo de uso e costume; no filme, é veste religiosa. Ambos hábitos que podem ser mudados e trocados, sem fazer o monge.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

O GOLPE BINÁRIO DO SÉCULO 21

 


Saldo de uma vil mistura de má-fé com falta do que fazer, ou de desemprego com a índole nata do brasileiro para a qual não há outra vacina senão educação, a cada dia que passa estamos e continuaremos vítimas de tentativas de fraudes e golpes. Não aquela moedinha e tampinhas de refrigerante sobre um caixote na Praça da Sé, truques de prestidigitação para lograr os incautos ou a autovitimização trapaceira para mendigar e roubar, os golpistas de hoje utilizam ferramentas mais poderosas: bits, linguagens binárias, extensões falsas e afins. Com uma vantagem: podem fazê-lo a partir da Romênia, da Rússia ou da Coréia, tudo sem sair do Brasil!


As queixas se avolumam, e não há delegacia especializada que dê conta dos crimes. As DPs civis não são dotadas de equipamento e pessoal para lidar com os cybercriminosos. Limitam-se ao possível, o Boletim de Ocorrência de autoria desconhecida. Isso, fora os novos punguistas das filas de banco – que não surrupiam carteiras, mas seu cartão e sua senha -, os clonadores com truques nas maquininhas, larápios com novas tecnologias, ladrões do Pix e dos cartões de crédito por aproximação.


No dia 2 de junho comprei uma boa máscara de proteção, a PFF2 da 3M, por meio de uma empresa de comércio eletrônico criada na Argentina e bastante popular do Brasil. O preço era convidativo e a proteção eu sabia excelente, poderia revezar com as duas N95 que já tenho. São máscaras de alta tecnologia e não-laváveis por serem eletrizadas, o que garante a destruição de possíveis vírus nelas    acampados. Finalmente, no dia 8 de junho chegou a encomenda pelo correio. Alegria! Formato concha, selos do Inmetro e da Anvisa, numeração especial indicada contra poeiras, névoas e fumos, uma beleza! Ou quase.


Para meu espanto, na aba inferior, que cobre o queixo, dava para ler “Mendes”, escrito grosseiramente a esferográfica, nome provável do usuário anterior. Reclamei, o vendedor Reis disse que o fornecedor marcava assim seus produtos. E que eu poderia devolver de graça e ter o valor estornado. Ora, ora, devolver? Que tipo de fornecedor chinfrim é esse? Devolver? Para ser revendida para algum incauto? Máscaras boas vêm em embalagens esterilizadas, lacradas, com todas as informações.


Há uns anos, havia o golpe da Loteria Espanhola, que paga os tubos em prêmios. Recebi por e-mail, e aceitei, para brincar, perguntando o que fazer. Estava em espanhol, mas fui respondido via Bélgica. Mais algumas questões, reenviei e a informação e desta feita o retorno veio ainda outro país. Ou seja, os fraudadores vão singrando entre provedores para impossibilitar sua localização. Mas o que queriam? Na ponta final, o gato apareceu: pediram uma boa cópia da página que traz foto (mais assinatura e informações...) do passaporte, além de uma conta bancária para que pudessem fazer o vultoso depósito. Não vou reproduzir o que escrevi em respeito ao leitor. Acabou a brincadeira, ou poderia ter dito o popular “a casa caiu”. (Lembrei-me da velha história americana do charuteiro ambulante que passava de porta em porta e recebia uma resposta que virou uma popular negativa para tudo há muitas décadas: sorry, but no cigar - “desculpe, mas sem charuto”. Por aqui, “perdeu, playboy”). Coisa do passado, a ladroagem progrediu!!! 


Tenho lido sobre modalidades de golpes nas redes sociais e matérias na imprensa. Criativos, aparelhados, os meliantes poderiam oferecer conhecimento e destreza a serviço da sociedade. (Os mais arrojados vendem-se caro a círculos nada canônicos do poder, que acabam atingindo um universo muito maior de pessoas: a massa de contribuintes, o povo).




Não bastassem os milicianos digitais, há os hackers do submundo político, os invasores institucionais, os criadores de fake news e os pilotos de máquinas de fazer mentiras. Ou, simplesmente, os propagadores de falsas informações com montagens grosseiras e textos mal redigidos. Em 2022, tudo indica, teremos à nossa disposição o poderoso 5G, que alçará a Internet a patamares até então desconhecidos, um novo mundo de informações em tempo quase real, o chamado “real-time”. Um alerta: os fraudadores, que antes lidavam com vírus bobos e hoje usam golpes comerciais e de espionagem com bugs de RNA ultramodernos como os phishings, galgarão rapidamente os degraus da nova tecnologia, tornando-se bandidos superpoderosos. Empresas serão aparelhadas para combatê-los e venderão seus escudos e antídotos – rapidamente neutralizados pelos criminosos, em uma roda-viva.

Não uso cartões de crédito por aproximação, pois que podem ser traiçoeiros e até, acredite, debitar valores em sua conta pela simples proximidade de uma maquininha com sua carteira no bolso. Não passo informações sobre nada pessoal, pesquiso a vida de cada candidato a “amigo” nas redes sociais: o que pensa, amizades comuns, principalmente, suas opiniões políticas e publicações – quando as há. Em suma, nada de desconhecidos ou que não tenham como recomendação tácita a afinidade com alguns amigos meus de boa reputação. Já tive meu perfil invadido supostamente da França, e diversos europeus passaram a ciscar no meu quintal. Foi o diabo para me livrar daquela disgrâce, mas passei a receber e-mails dizendo que tinham uma de minhas senhas - e a mostraram.


Se Gil compôs Lunik 9 em um longínquo 1967, “guerra diferente das tradicionais / guerra de astronautas nos espaços siderais”, o que será dos combates ora em diante? Como serão a disputa política em 5G, as fake news, e, pior ainda, tudo isso tendo em vista um previsível futuro 6G?

 

 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

"NADA A FAZER, SENÃO ESQUECER O MEDO"

 

O Grito, de Munch

Ao dicionário. Tenho o Houaiss on-line sempre aberto, forma rápida de consultar uma palavra, sua origem, etimologia, suas acepções e significados. Medo é o nome de um monte em Média, região da Ásia hoje parte do Irã. Ou "o monte de areia que o vento forma junto ao mar”, a duna. Na psicologia, é o “estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência”, ou ainda “temor, ansiedade irracional ou fundamentada”. A ‘ansiedade irracional’ leva à síndrome do pânico, distúrbio tão poderoso que faz o acometido ter medo de sentir medo, como parece representado no célebre “O Grito”, de Edvard Munch. De um assalto, de cair, de enfartar, não necessariamente apenas um deles. Uma boa viagem por essa doença foi narrada por William Styron, ele mesmo uma vítima (também autor de “A Escolha de Sofia”), em seu Darkness Visible, ou “Escuridão Visível” (em tradução infeliz, publicado como “Perto das Trevas“).


Quando jovens, não temos medo, somos eternos, sensação que vai se dissipando à medida que o tempo passa. A idade do juízo, que penso estar entre os 30 e 50 anos, coloca a indestrutibilidade super-humana do jovem em xeque: sim, todos deveremos morrer. À medida que avançamos na idade, o medo pode ocupar menos espaço, nossas mentes se dirigindo para um porto seguro, afastando-nos do que é ruim (ilações nada rígidas, é tudo peculiar a cada ser humano). Quem é da minha geração, mesmo na fase do super-homem, que situei entre a adolescência e a juventude, sabe como se dá essa transição.

Hélio Oiticica

Pois eu, talvez nós, leitor, éramos crianças quando do golpe militar de 1964, e adolescentes no AI-5, o golpe dentro do golpe. Certa rebeldia criativa dos artistas era convenientemente tolerada, desde que sob estrito controle e sem questionamentos ao regime, alvos de censura. O que levou Caetano a compor “É proibido proibir” em 1968, enquanto Gilberto Gil alertava contra o conformismo de muitos com “é preciso estar atento e forte / não temos tempo de temer a morte”.

Nietzsche

Friedrich Nietzsche, filósofo prussiano do século 19, lançou o conceito de super-homem (Übermensch), o homem superior, que seria o paradigma de uma nova humanidade – mas não toda, apenas os escolhidos, sabe-se lá por quem e porquê. Influenciou de Richard Strauss (“Assim falou Zaratustra”) ao gênio alemão da ópera Richard Wagner, aguerrido antissemita que perseguiu compositores judeus como Felix Mendelssohn. Claro, tudo isso vestiu como uma luva nas mãos de Hitler, apologista da “raça perfeita” em seu arianismo.

Marie Curie

Não há criatura que resista ao medo lancinante da tortura ou da morte. Então fomos uma geração excepcional, a que na idade do destemor da juventude teve medo, sim, mas soube esquecê-lo para sobreviver. Cabe lembrar a cientista francesa de origem polaca Marie Curie (1867-1934): nada deve ser temido, e sim compreendido: são tempos de sabermos mais, para que temamos menos. Repete-se a máxima “o homem tem medo daquilo que não conhece” - quanto mais conhecemos, mais afastamos os temores.


Na cultura popular, o medo é transmitido oralmente, e quase sempre se espelha em incidente passado: do gato preto, de passar debaixo de uma escada, de sair do banho quente e tomar uma lufada de vento. Se há peixe e carne bovina à mesa, deve-se servir primeiro da carne, porque “se quer que a morte o deixe, coma a carne, e então o peixe”. Essas tradições podem ter começado com um fato verdadeiro sem nexo causal, talvez já perdido no tempo: alguém deve ter morrido por algum mal qualquer após a ingestão de peixe seguido de carne, daí o ditado.

Salvo-conduto de meu avô,
para exílio em Portugal

Milton Nascimento, em “Caçador de Mim” (1981), de Magrão e Luís Carlos Sá, desabafou: “Nada a temer senão o correr da luta / nada a fazer senão esquecer o medo / abrir o peito à força numa procura / fugir às armadilhas da mata escura”.  Ruy Guerra escreveu: “nasci com a minha morte / dela não vou abrir mão”: a única certeza infalível do pensamento humano. (Nasci também com o DNA de golpes e ditaduras herdado de meus pais, que viveram duas delas, e meu avô materno, preso e deportado pelo Estado Novo em 1932, o meu bisavô...)



O Brasil passa por um período de angústia pré-medo, nem tanto para quem não viveu um ditadura ou viveu em lugar afastado dela, alienado. E com certeza, o medo é bom para quem o destila em seu veneno intimidador.  Motivos para o temor há de sobra: a pandemia, flagelo que mata mais do que guerras e hecatombes e que sofre com o descaso de quem mais deveria dela cuidar. Uma economia em frangalhos, os juros se preparando para a escalada contra uma inflação que, se não é real nos dígitos, certamente o é nas feiras e supermercados.  Não há mágica para que uma economia em crise abissal seja controlada tão cedo: a nau está sem rumo! (Não em uma calmaria que nos levará a um descobrimento, mas a uma grande borrasca que poderá arrastar boa parte dos vivos para junto dos que já se foram). Na tragédia, Desdêmona bradava “precisamos enterrar os nossos mortos”; Cristo (Lucas, 9:60) ensinava a seguirmos em frente: “deixa aos mortos enterrar os próprios mortos”.

gal. Vernon Walters, da CIA, com
Castelo Branco, no pré-golpe

Se em 1964 houve um conluio com os EUA, com participação “in loco” do embaixador Lincoln Gordon e do gal. Vernon Walters, da CIA, poderosas indústrias como a IBM, AT&T, Dow Chemical e muitos dólares, hoje há uma liderança ensandecida pela vaidade, uma classe militar em grande parte de boa índole, mas com uns tantos aboletados em privilégios sob a manipulação de um poder individual que parece crescer a cada dia. Nada a fazer senão esquecer o medo!                                                                        

 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

BREVE GLOSSÁRIO DE NOMES E SOBRENOMES

 

Eduardo, O Confessor

Iair (iair), em hebraico “a luz de Deus que desperta”, foi nome de um guerreiro da tribo de Judá em Gileade, admirado por seu poder e riqueza. Em não muito tempo, Iair galgou os degraus do poder e foi juiz dos hebreus por 22 anos! Eadweard, entre os anglo-saxônicos, significava ‘o guardador da riqueza’, e deu nome a onze reis, só na Inglaterra. Edward, ambicioso soberano do século 11 e dos últimos anglo-saxônicos no trono, teve curto reinado: apenas 18 anos. Não exatamente por virtudes caras à Igreja Católica, mas pela sua ascendência na Casa de Essex e o exercício discricionário do poder, apesar de nem tanto cristão foi canonizado pelo Papa Alexandre III com o epíteto Eduardus Confessor.

São Carlos Borromeo

Flavius
, de origem latina, remete a “cor de ouro”. Entre os romanos do ocidente, no séc. 5, foi um imperador conhecido não exatamente pela piedade, como seu antecessor. Pelo contrário, tinha lá seu “saco de maldades” e gostava de ostentar a imagem de homem rico e poderoso. E Cárolus tem origem no germânico Karal, “o tal”, “o cara”, nome que em suas variações se refere a bom número de reis franceses, portugueses, ingleses, suecos, húngaros e espanhóis. Devem ter vivido muitos Cárolus, das piores maldades, e talvez por exceção um deles teve a alcunha de “O Bom”: o conde de Flandres no séc. 11, canonizado São Carlos Borromeo, que por sua menor envergadura não chegou a voo de maior alcance.  

Laila Andersson,
como Micaela

(Há ainda o bonachão Charles, príncipe de Wales, cuja maior fortuna foi ter se casado com a bela Diana - na mitologia romana, deusa da caça, e na grega, Artêmis, filha de Zeus e irmã de Apolo: o poder aliado à beleza).  Micaela deve sua origem ao hebraico: Michael (de Mikha, quem, e El, Deus: “quem é Deus”?) Uma recatada senhora, canonizada pelo Sumo Pontífice, ficou conhecida como Santa Maria Micaela, cuja data passou a ser celebrada todos os dias 24 de agosto. (Na belíssima ópera Carmen, de Bizet, Micaela era a loira que tinha queda pelo soldado Don José. É dona de uma linda ária que só não chega à altura daquela do papel-título Carmen, esfuziante em sua habanera. Micaela não era de grandes virtudes, seu papel e discrição não a permitiam, queria ter Don José mas não era do bas-fond como Carmen).

Omar Kayyámm

Do latim vem Mourus, de onde Mouro, Moro e outras variações, referindo-se a mourisco. Em Portugal é comum o sobrenome Mourão, e reza um agouro que, ao se tirar um dente de leite podre de uma criança deve-se jogá-lo no telhado e dizer três vezes: “Mourão, Mourão, me leva este podre e me traz outro bão”). Os mouros ocuparam a Península Ibérica de 711 a 1453, mais de dois séculos da vida do Brasil pós-descoberta de hoje! Omar, do árabe (âmara, vida longa), foi nome de diversos califas e um grande poeta e orador persa, O. Khayyámm, que viveu no séc. 11. (Omar Sharif, grande ator egípcio-americano falecido em 2015, entrou para a história do cinema com Lawrence da Arábia).

Ernest Renan

Ronan, de origem bretã, tem suas variantes Renan e Renano, de rena - pequena foca. Deu sobrenome ao francês Ernest Renan, eloquente orador e filósofo do séc. 19, intelectual do gênero l’homme universel, tantos os assuntos que dominava. De origem inglesa medieval é Randolph, de rim - shield, máscara de proteção - e wolf, lobo. Um dos grandes personagens da história com este nome talvez tenha sido Randolph Churchill, filho do estadista.  Político, escritor e jornalista celebradíssimo por sua sagacidade em tempos de guerra ou fora dela, arguto e articulador, fez jus ao sobrenome do pai, William Churchill.

Dimas, "O bom ladrão"

Há muitos coadjuvantes neste glossário. Dimas, por exemplo, pode ter cometido seus erros em vida, e foi crucificado à direita de Jesus, com Gestas à esquerda do Senhor. Arrependeu-se de seus pecadilhos e foi absolvido pelo Senhor, segundo o evangelho de Lucas, 23:43: “em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”, tornando-se conhecido como “o bom ladrão”. Confessou, foi desculpado e canonizado, exemplo símbolo da força do arrependimento e da bênção do perdão divino. Figura dos bastidores deste glossário é Olavo, nome vindo do anglo-saxão Oslaf, “o filho dos deuses”. Chamaram-se Oslaf seis monarcas da Noruega, dois da Dinamarca e um rei da Suécia. De vida aparentemente apagada, este último, Olof Sköttkonung (séc. 11), mantinha um domínio inebriante sobre seus súditos, que a ele se tornavam subservientes e crédulos, fosse nas verdades ou nas mentiras.

O rei Arthur (tapeçaria)

De grande poder e notável articulação foi Roderico, do alemão Hrodrik, de hrod, glória, e rik, senhor, por conseguinte “senhor da glória”, nome que em português é o popular Rodrigo. Na Espanha, do latim veio Roderichus, nome do último rei visigodo; espanhóis, como ele, foram o poderoso conde Rodrigo de Castela e, mais apagado, Queiroga, do galego “urze (uma erva) pequena”. Arthur tem origem celta (art, urso, e ur, grande), e foi soberano tão habilidoso que gerou diversas lendas, às vezes difícil é distinguir o real do imaginário. Era tão versado nas armas quanto no lidar com as palavras – assim, mostrava-se sábio e induzia todos a crerem em suas convicções com um discurso muito bem articulado.

Este texto não se pretende uma coleção de genealogias, mas um passeio ao redor de nomes de personagens a quem por algum motivo o leitor pode ter feito suas associações. Se não, que mal importa, ao menos fez comigo uma promenade em assunto no qual não sou especialista, só estudioso por paixão: a origem dos nomes e sobrenomes.



sábado, 29 de maio de 2021

A POESIA BEM TEMPERADA

 


Are you coming to Scarborough Fair? / Parsley, sage, rosemary and thyme (“Você está vindo à feira de Scarborough?”) Canção folclórica inglesa de origem celta, fez grande sucesso com a dupla Simon & Garfunkel em álbum que leva o nome da feira. Vozes suaves, sintonia perfeita com a letra, falam de temperos: salsinha, sálvia, alecrim e tomilho, ervas que, além de sua finalidade primeira, trazem um certo ar místico, shakespeariano, misterioso como um sonho de uma noite de verão, qual devaneios de um amor nunca alcançado. Tanto Mar, do Chico Buarque, homenageia a Revolução dos Cravos, que derrubou 41 anos de ditadura de António Salazar em Portugal: cravos vermelhos eram inseridos pelos manifestantes nos canos dos fuzis dos soldados. A flor seca do craveiro, iguaria de perfume intenso e sabor levemente picante, é usada como tempero ou aromatizante de cigarros. Disse o bardo carioca, invejoso de Portugal, que reconquistara sua liberdade antes de nós: “Canta a primavera, pá / cá estou carente / manda novamente / algum cheirinho de alecrim”. Em festa de temperos e cheiros, do forte cravo e do perfumado alecrim, Chico homenageou a queda do regime do país irmão com graça bem temperada. 


Especiarias inspiraram Jorge Amado em Gabriela, Cravo e Canela”, que em 1975 virou canção na voz dengosa de outro baiano, Caymmi. A musa, linda morena temperada no cravo e da cor de canela, retirada da casca da árvore do mesmo nome, é ao mesmo tempo doce e picante, e rica em propriedades medicinais e estimulantes. Sobre o mesmo binômio - cravo e canela - perguntou Milton Nascimento em 1972: “Ê, morena, quem temperou / cigana quem temperou / o cheiro do cravo / Ê, morena, quem temperou (...) / a cor de canela”, enaltecendo fragrância e cor muito bem mescladas na pele da baiana. Zé Rodrix e Tavito, em 1972, deram de bandeja para Elis Regina sua “Casa no Campo”: “eu quero plantar e colher com as mãos / a pimenta e o sal”.

Manuscrito de um prelúdio do Cravo

Já O Cravo Bem Temperado (Das wohltemperierte Klavier), de Bach, pai de todos e mestre absoluto do barroco alemão, trouxe sob este título, em 1722, uma coleção de prelúdios e fugas nas 24 tonalidades maiores e menores - “para a juventude musical desejosa de aprender e especialmente como passatempo dos que já são versados neste estudo”. Em português, um feliz trocadilho sobre a obra: Bach não falava de Nelke, a flor, mas Klavier, o instrumento de teclados entre nós chamado cravo, como a flor. O temperamento é técnica de afinação que veio revolucionar a confusa vida dos instrumentistas, possibilitando-os executar peças em todas as 24 tonalidades do sistema ocidental. Além de obra-prima, o Klavier é um verdadeiro marco histórico.

[A fim de estudar temperos e cheiros, seria necessário mergulhar na história, na arte, nas superstições e nas suas origens, as mais variadas, com fontes que divergem com frequência. Mas...]

O "pequeno desvio" de Cabral

Em tempos de D. Manuel I, a descoberta da rota marítima para as Índias (1497/98) por Vasco da Gama abriu novo caminho para as especiarias tão cobiçadas pelos europeus. A própria viagem de Pedro Álvares Cabral, em 1500, que, diz a história oficial, teria como destino as Índias, teve vultoso financiamento de dois florentinos, Girolamo Sernige e Bartolomeo Marchionni, poderosos banqueiros e negociantes de especiarias - razão pela qual pode-se auferir que Cabral tinha certamente bons motivos para a desculpa surrada de uma ‘monumental calmaria’, para aqui chegar por acidente de percurso e ‘descobrir’ este torrão. Aproveitou-se dos abastados italianos das especiarias, e cumpriu as vontades e ambições expansionistas lusitanas.


Das nove especiarias citadas neste texto, temos a salsinha, que, reza a superstição, não deve crescer espalhada pela casa, pois fará mal aos que nela residem. O alecrim é cheiroso e alegre, mas, se murchar, a saúde de seu dono estará em perigo. O tomilho, ou timo, é bom para os pulmões e os intestinos, traz saúde e bons agouros. O cravo da Índia teve origem na Indonésia e é usado em doces e tabaco, além de suas propriedades medicinais. O óleo do cravo era empregado pelos dentistas para aliviar dores de dentes. (Na época do Descobrimento do Brasil, um quilo do produto valia sete quilos de ouro! Não espanta o interesse dos banqueiros florentinos pelas especiarias das Índias). Por fim, a canela (do latim cannella, pequena canna) é morena como a tez de Gabriela, e nome genérico para mais de uma dúzia de variantes da espécie. 


A American Heart Association (Associação Americana do Coração) fez vários estudos sobre as propriedades antioxidantes e redutoras de ateromas da canela. Em um experimento publicado em revista com ratos sob dietas com gordura excessiva registraram após três meses, entre a dúzia que também ingeriu canna, menor peso, menos gordura abdominal e níveis mais baixos de açúcar no sangue. Os outros doze – o ‘grupo de controle negativo’ -, ficaram obesos, portando ateromas e com níveis mais altos de glicemia no sangue, entre outras mazelas. A pimenta, chamada ‘tempero do amor’, é afrodisíaca, absorve mau-olhado e traz boa sorte, enquanto o sal de ervas tem propriedades mágicas e medicinais.


Plantas podem curar, já sabiam nossos longínquos antepassados, mas como toda medicação devemos conhecer-lhes os estudos científicos. Porque muito do que se toma sem embasamento ou não é indicado para uma doença específica – e sem a aprovação das autoridades sanitárias - pode não curar e mostrar-se um redondo engodo, trazendo riscos à saúde e à vida.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

O CONTO DO VIGÁRIO

 



Se é lenda ou história, tanto faz, é fato. No século 18 houve, em Ouro Preto (MG), uma contenda entre as paróquias de N. Sra. do Pilar e N. Sra. da Conceição, sobre a posse de uma imagem da Virgem Maria. Para encerrar a querela, os párocos acordaram em colocar um jumento a igual distância das duas igrejas, e aquela em cuja direção o animal rumasse ficaria com a santa. Como o dono do jumento era o vigário de Pilar, para lá o animal se dirigiu, claro. A palavra vigarista teria surgido, assim, de uma ‘ideia de jerico’. Mas quem ‘pagou o pato’ foi o ‘cabeça de bagre’.


Um século depois, em Portugal contava-se que uma dupla de andarilhos, trapaceiros contumazes, chegava nas pousadas com um baú trancado dizendo-o cheio de dinheiro, e que eles estavam a serviço do vigário. Como o malão era pesado, pediam para deixá-lo escondido, para empreender uma curta viagem, ao fim da qual retornariam. Mas, por segurança, o baú não deveria ser destrancado. E pediam algum dinheiro emprestado para seguir caminho. O donos das pousadas, honrados pela deferência, entregavam-lhes alguns mil réis. Mas os gaiatos nunca mais voltavam. Daí, viria, pois, ‘o conto do vigário’. (Fonte: Brasil Escola)


Deonísio da Silva, linguista conhecido meu de alguns anos, cita outras fontes, como José Augusto Dias Jr., em Os Contos e os Vigários: a História das Trapaças no Brasil, e fala de Os Ladrões no Rio (1904), de um tal Vicente Reis, então delegado de Polícia, sobre um falso pároco espanhol. E não é que o genial Fernando Pessoa interessou-se pelo tema e escreveu que tudo surgira de um embusteiro português chamado Manuel Peres Vigário? O dicionarista e professor da USP Francisco Bueno credita a expressão ao “espírito irreverente dos ouvintes”, ao escutar os religiosos contarem aos incrédulos “da outra vida e da intercessão milagrosa dos santos”.  Calote, do francês culotte, um quase sinônimo que, também segundo Deonísio, no jogo de dominó se refere às pedras ‘que o parceiro não conseguiu colocar em jogo’. ‘Trocando em miúdos’, ‘calote’ serve bem quando o sujeito que fica devendo, ‘dá o cano’.


Mas vamos ‘tirar o bode da sala’, pois o tema da vigarice seria interminável se pesquisado a fundo, e ‘quem nasceu pra tatu morre cavando’. No Brasil, a prática da trapaça remonta ao Descobrimento - desde as trocas de espelhinhos pelas esmeraldas de índios deslumbrados até as Capitanias Hereditárias,  o Brasil Colônia, chegando triunfalmente à República. No século 20, já sobrava embusteiro: Chico Buarque bem os definiu, em Homenagem ao Malandro: “Agora já não é normal / o que dá de malandro regular, profissional / malandro com aparato de malandro oficial / malandro candidato a malandro federal / (...) malandro com contrato, com gravata e capital / que nunca se dá mal”. Ode ao pilantra moderno, que vive ‘a cantar de galo’ ou o chapa-branca, aboletado em cargo público e ‘mamando nas tetas’ do poder.

Hoje, o caloteiro passou a empregar truque mais poderoso, a informática. Hackers e seus trojans e phishings (o vernáculo da boa literatura que dava tanto gosto perdeu para um idioma à parte, em inglês ou algo parecido, ou ainda um dialeto cifrado, de sílabas truncadas). Quantos já adquiriram produtos que não há de sites de lojas que não existem? Quantos foram achacados via WhatsApp, SMS ou mesmo pelo hoje claudicante e-mail? “Sua conta será encerrada, por favor entre em contato conosco em ‘venha@caianessa.com’ – que o levará a uma espécie de autocombustão computacional e financeira. “Sua conta no ‘Tolobank’ foi bloqueada. Para recuperá-la, insira seu login e senha nos campos apropriados do link acima”, tendo ao fundo o logotipo perfeito da instituição. Se ‘cair feito um patinho’, não adianta ‘tirar leite de vaca morta’. Ah, e as compras em seu nome feitas via Internet, aquele programa ou app que você esqueceu no computador que vendeu e que ainda são cobradas no seu cartão sem que você autorize? Ou a renovação automática de um sistema operacional caríssimo que você não mais vai usar? Com sorte, você poderá reaver o prejuízo, cancelando a compra e recebendo novo cartão de crédito, driblando essas formas modernosas e elegantes de ‘dar um boné’. Que fale a sabedoria popular: antes ‘ficar com a pulga atrás da orelha’ que ‘montar um porco’ depois do ‘leite derramado’. 

Fernando Pessoa (Revista Bula)

Retornando ao ‘vigarista’ da memória popular, teorias acerca de sua origem vieram com frequência de Portugal via literatura, provérbios ou folclore, sem um rigor científico que carimbe um ponto de partida oficial para as versões usando o título dos reverendíssimos vigários. Data venia, prefiro acatar o Fernando Pessoa, poeta e prosador lusitano da mais alta estirpe que contou sobre o comerciante Manuel Peres Vigário. Acossado por um farsante, Manuel foi levado a repassar notas falsas de 100 mil réis, retendo de cada uma 20 mil para si no final. Em uma estalagem, embriagado de vinho, negociou com o proprietário, pedindo-lhe um recibo de ‘apenas’ 50 mil - o que o salvou, haja vista que o caso foi parar na Polícia. Escapou do xilindró e entrou na cultura popular em O Conto de Réis do Manuel Vigário (publicado sob o título O Grande Português e disponível na Internet, um texto delicioso de Pessoa que merece ser lido). Para concluir, apoio a tese do poeta lisboense e coloco o ‘vigarista’ na conta do ribatejano Manuel, dono do sobrenome Vigário. Façamos justiça e penitência aos párocos ordenados e paramentados, sempre a conduzir, como bons pastores, seus rebanhos de fiéis.



sexta-feira, 14 de maio de 2021

UM FURACÃO CHAMADO PAULO GUSTAVO

 


Confesso que antes pouco dele sabia, só que era da TV, do cinema, dos anúncios, e uma figuraça. Não dava para não rir com a Dona Hermínia, sua personagem mais conhecida, sátira às mulheres do gênero, ao seu estilo mais irreverente. Fazia um escrachado retrato da classe média, melhor comediante do que os talk-showmen da moda –poderíamos chamar, lembrando a vanguarda do cinema do fim dos anos 1950, de nouvelle humour. Tinha uma verve cênica personalíssima e uma presença impagável, um physique du rôle (o físico do papel, como se diz em teatro) que seduzia o Brasil além do cômico. Comecei a prestar mais atenção no Paulo, para mim alguém novo despontando nas ribaltas, enquanto ele já escalava o pico de uma bela carreira com perspectiva de ir muito mais longe: uma investida internacional já se lhe esboçava naturalmente. Mas quem era Paulo Gustavo?


Um niteroiense que logo, como tantos, atravessaria a Ponte para o Rio, ou, lembrando a música: “só mesmo vendo como é que dói / (...) trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói”.  Pois logo aventurou-se em uma seara desafiadora, o monólogo, gênero em que o personagem deve interagir consigo mesmo, preenchendo a cena de per si, e superava-se. Assim foi com Minha Mãe é Uma Peça (2013), trocadilho bem carioca de peça, como sinônimo de “figura” e uma encenação teatral. Foi seu primeiro grande sucesso, que puxou um livro homônimo, e logo um filme e as versões 2 e 3 da “Mãe”. Em 2020 estreou 220 Volts, na TV Globo, em substituição ao programa Profissão Repórter. Crescia na plateia e nos bastidores ressuscitando um humor irreverente, sadio, algo como as chanchadas da Atlântida de Oscarito, Zé Trindade e Grande Otelo. Homérico era o pastiche da dona de casa com bobes no cabelo, as pernas longilíneas, atuação sempre espontânea e bem improvisada. Foi um ator de si próprio, e bem lhe cabia um predicado antigo: era uma pândega. E chegou a recordista de bilheteria do cinema brasileiro com Minha Mãe é Uma Peça 3: incríveis 11,5 milhões de pagantes!


Nascido Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros, manteve, sem artifícios, o duplo prenome, e, mesmo aspirando à fama, não buscou o modismo do falso charme diferenciador, ou a ajuda de algum numerólogo para ungir-se artisticamente Paullo, Gusttavo ou ambos. Gay assumidíssimo, encontrou sua cara metade no dermatologista Thales Bretas, formalizando a união em 2015. Sonhando uma vida de casal para chamar de sua, a dupla teve, por meio de barrigas de aluguel, dois lindos bebês, Gael e Romeu. Materializava-se ali o sonho da típica mãe de classe média suburbana brasileira, a incrível Dona Hermínia.


No dia 4 de maio, Paulo deixou público e família, caindo vitimado pela Covid-19 após longa e inglória batalha, abraçado simbolicamente a uma torcida em seu favor que impressionava não apenas pelos números, mas também pelas demonstrações de carinho. Em seu legado, além e acima de tudo, grandes surpresas, como um lado até então praticamente desconhecido: naquele mesmo dia, o Padre Júlio Lancelotti, conhecido por sua bandeira Pastoral do Povo da Rua, da Arquidioceses de SP, revelou que recebera de Paulo R$ 1,5 milhão para que fosse construído um hospital especializado no tratamento de câncer. Por tudo isso e muito mais, Paulo recebe e continuará angariando em retorno uma enorme admiração póstuma de fãs e personalidades brasileiras, torcida que continua a crescer em proporção impressionante. Sem os narizes torcidos dos homófobos de plantão, calados pela simpatia e carinho.

Copastar (divulgação)

O ator tinha dinheiro suficiente não apenas para doar – como fazia no anonimato - vultosas quantias de dinheiro a instituições beneméritas. Por isso, pôde internar-se para tratamento da doença no Hospital Copa Star. Recebeu o melhor em tudo, e até, última esperança, o chamado ECMO (sigla em inglês para Oxigenação por Membrana Extracorpórea), ou ‘respiração artificial’. Com o oxímetro em queda livre, o aparelho trabalhava diuturnamente na oxigenação sanguínea do ator. Mas não bastaram a melhor tecnologia, não foram suficientes as incontáveis preces, homenagens e mensagens nas redes sociais, e as declarações e juras eternas de seu companheiro Thales. Quis o destino levá-lo antes que fosse alçado a uma consagração ímpar, rara em nosso cenário artístico.



Um aspecto chama a atenção sobremaneira: Paulo e Thales, nascidos homens mas declaradamente bissexuais desde adolescentes, com seus lindos bebês a quem dedicavam carinho parental, ao menos não sofreram ataques dos carniceiros homófobos a querer-lhes os fígados ou dos que odeiam declaradamente aqueles que fazem uma opção diferente da sua, por motivo que não cabe aqui discutir para não cair no lugar comum. Nem os palavrões de praxe, as piadas, as ilações grosseiras sobre a intimidade do casal, a alcova. Pelo contrário, um desfile de celebridades mostrou simpatia irrestrita, de Ludmilla a Caetano, de Marcelo Adnet a Elza Soares. O país já vem se acostumando a uma realidade muito antiga, que agora ‘sai do armário’: gente famosa como Lulu Santos, Nanda Costa e Daniela Mercury, por exemplo, que assume suas relações afetivas tal qual casais héteros.  A questão que se coloca agora é a comoção causada pela partida do ator, sua generosidade como ser humano, o carinho demonstrado pelas pessoas e um afeto geral por sua mãe, consubstanciada na hilária Dona Hermínia, inspirada em Dona Déa, adorável caricatura brega das mães da classe média e média alta brasileiras, retrato das amadas mães de todos nós.