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sábado, 11 de janeiro de 2014

E O BREGA VENCEU O MEDO

Wando
Com a morte do cantor Wando (1945-2012), no ano passado, a breguice voltou a ser assunto. Rei dos shows em subúrbios e cidades de todos os estados do país, foi orgulhoso possuidor de quase 20 mil calcinhas, jogadas no palco por suas exageradas fãs. Compunha música de dor de cotovelo, paixões enlouquecidas (“Vulgar e comum é não morrer de amor”), pitadas eróticas (“Obsceno” e “Tenda dos prazeres”). Era o brega-pop, com um pouco de cada gênero, da jovem-guarda a Nelson Gonçalves, da balada americana a Cauby Peixoto.

Francisco Petrônio
Esses astros do vozeirão eram imbatíveis mesmo para os ídolos da MPB. Tanto é que Caetano, ao gravar com Nelson Gonçalves, pediu para o menestrel que subisse um pouco o tom, já que para ele, Caetano, estava um pouco baixo (grave) demais. Respondeu Nelson: “vai falando, como faz o João Gilberto...” Desses vozeirões lembro-me bem do Carlos Galhardo, dos versos deslumbrantes: “num salão grená / paira pelo ar / nota esmaecida / o perfume teu / resto da canção / que foi minha vida” (essa foi trilha de uma peça de teatro, no Rio, em que atuei como músico). E tinha Francisco Petrônio (1923-2007). 25 LPs de baladas, boleros, canções, deixando sua voz de peito junto às vitrolas dos saudosistas (que ainda guardam essas engenhocas giradoras).

Mas o que vem, exatamente, a ser brega? Diz o Houaiss: “que ou quem não tem finura de maneiras; cafona”. Os mais finos podem usar a palavra Kitsch, que em alemão designa “objeto inútil”, muito em voga na Bauhaus (escola e tendência de arquitetura e design da primeira metade do século 20), mas que também queria dizer o que chamamos cafona. O símbolo do Kitsch seria o pinguim de geladeira – mas o bichinho, a depender do ambiente, pode ser até chique, como em uma casa modernamente decorada de uma dama da alta sociedade. E pode virar, diria a socialite, "conversation piece", puxador de assunto: "querida, que ideia genial! Esse pinguim ficou ultra-pop em cima do teu piano. Chique!" Pois então, o brega dependeria do ambiente em que está e de quem usa ou canta? Afirmo que sim.

Pois a Jovem Guarda era brega, malvista pelos conservadores da bossa/MPB por incluir guitarras elétricas em seu instrumental, mas foi guindada a cult pela mescla de influências de todos os lados, com Gil e Caetano, Mutantes, guitarras e plumagem pop. Então Roberto subiu ao trono. Pelas mãos dos tropicalistas, também transformaram em “cult” um dos suprassumos do brega, o Chacrinha.

Disco de telefone na barriga saliente, buzina para calouros, calças listradas. E com seu discurso único e sua vestimenta brega foi louvado pela ‘baianidad’. Cantou Gilberto Gil: “Chacrinha continua balançando a pança / e buzinando a moça e comandando a massa / e continua dando as ordens no terreiro / alô, alô, seu Chacrinha / velho guerreiro”.

Milhões cultuaram a cafonice americana, desde Elvis Presley (de vozeirão sedutor) até Madonna, de poucos dotes, além de alguns novos pequenos tipos, como Justin Bieber e Miley Cyrus. A riqueza se confundiu com a breguice nos estados americanos mais ricos, nos quais picapes superluxo com chifres de touro no teto e rifle pendurado atrás são o luxo e a beleza artificial aliados ao poder comprá-la e exibi-la.  Ser brega nunca foi pecado nos EUA, é luxo.

Cauby Peixoto: insuperável
Quem não se lembra do Cauby Peixoto (1931) de “Conceição”? Pois há muitos, muitos anos, precisando de uns trocos, surgiu-me um convite para tocar no Tijuca Tênis Club (se não me engano). Seria um grande show, paga boa. Mulheres à beira de um ataque de nervos, balzaquianas e pós-balzaquianas, o canhão de luz rodando em busca do Cauby, até que uma voz de locutor levanta os aplausos: “senhoras e senhores, Cauby Peixoto”. Muito simpático, beijou (sem tocá-las, como manda a etiqueta) as mãos de todas as madames desesperadas da primeira fila e outras mais atiradonas. Blazer bordado em flores, cabelo “afro”, sombrancelha feita, pancake, recebeu pedidos escritos em papeizinhos que eram colocados em uma cesta. Ia de Beatles a Aznavour, árias de ópera a Nico Fidenco, Ataulfo Alves a Jobim. Ouvido absoluto, dramático de arrebatar lágrimas, uma memória gigante... e está por aí, para quem quiser vê-lo, ouvir e aproveitar.

Há alguns dias, faleceu Nelson Ned, mineiro de Ubá (1947-2014), cantor e compositor, autor de “Tudo Passará”, talvez o maior sucesso de sua carreira – canção que mereceu 40 regravações na voz de outros cantores. Era portador de deficiência (nanismo), distúrbios neurológicos que foram se agravando com o tempo, até o início do mal de Alzheimer e a paraplegia. Superou de verdade, o resto dos que vendem falso sofrimento são puro marketing. Sofreu, amargou tantas doenças, abria o jogo sobre sua vida particular sem precisar de biografia: tormentos pelo vício em drogas, alcoolismo, depressão profunda, infidelidade... nada ele escondia, tudo era parte de sua imagem. Só não se conformava em ter muito dinheiro e se achar no fundo do poço. Vendeu 48 milhões de discos, a maior parte no mercado latino do exterior.

Em Boston, aliás na vasta região da New England (e, com certeza, na Flórida e Califórnia), o nome de Ned era muito conhecido. Basta dizer que em qualquer mercadinho de produtos latinos comprava-se feijão preto, Ypioca, Goiabada Cica, torresmo, carne seca, guaraná, comida e pimenta mexicana (jalapeños) e malagueta – na saída, junto ao caixa, um estande de discos: Roberto Carlos e Nelson Ned. E Ned vendia.

Um subproduto bem brasileiro, a doença maior que Nelson Ned não conseguiu superar, foi o preconceito: era brega porque cantava romântico, invejado porque tinha um vozeirão, e como Nelson Gonçalves, Cauby e Petrônio, objeto de ciúme dos que fazem (ou tentam) sucesso com suas vozinhas diminutas. Deixou uma lição em seus versos: “Mas tudo passa, tudo passará / e nada fica, nada ficará / só se encontra a felicidade / quando se entrega o coração”.




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