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sexta-feira, 1 de abril de 2016

O BRASIL DO CAVIAR, COXINHA, PÃO COM OVO OU MORTADELA



O famoso caviar Petrossian
Para entender o Brasil de hoje, os neologismos políticos e a tendência de rotular pensamentos 
e comportamentos, fui pesquisar o significado de “direita coxinha”, “esquerda caviar” e “pão com ovo”, além de outras denominações. Achei por bem consultar os universitários, como dizia um apresentador de TV, e indaguei minha filha Isabela, aluna da USP, que é o melhor lugar para se pesquisar e criar teorias, mas fértil também nos neologismos e modismos. Cheguei a uma breve Taxonomia do Coxinha, do Caviar e do Pão com Ovo.

Gráfico taxonômico
Taxonomia, segundo o Houaiss, é “ciência que lida com a descrição, identificação e classificação dos organismos”, e no caso brasileiro, serve também para classificar produtos alimentícios animais. Esquerda caviar (gauche caviar) é - claro - expressão francesa dos anos 1980, e se refere aos ‘socialistas’ que desfrutam dos melhores vinhos e iguarias finas nos bistrôs e cafés parisienses.
Assembleia Francesa pré-revolucionária
O conceito histórico de esquerda e direita foi esboçado na Assembleia Francesa pré-revolução: os nobres e a alta aristocracia partidários do Império de Napoleão sentavam-se à direita, para evitar atritos com a ala contrária, progressista e republicana - tal qual nos estádios de futebol hoje se aglomeram torcidas em lados diferentes, para evitar tumultos. Monarquia-República quase 230 anos atrás, Corinthians-Palmeiras hoje.


Disponível gratuitamente em e-books ou download
A definição moderna do termo esquerda consolidou-se com o socialismo “real”. Friedrich Engels (1820-1895) foi um historiador e filósofo marxista e depois um de seus maiores influenciadores. Lênin (1870-1924) escreveu um marco sobre o assunto, “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” (1920), pintando a esquerda como, diriam hoje, ingenuidade “sonhática” – a do sonhador pragmático, outro neologismo recente -, de mãos dadas com a burguesia (o que é isso, companheiro?). Segundo Lênin, os esquerdistas eram obstáculo ao progresso do socialismo e do comunismo – este último, versão do primeiro implantada pela força. Grande maioria dos que hoje se dizem de esquerda por puro modismo ficariam arrepiados ao ouvirem isso.

A III Internacional Comunista
A II Internacional Socialista (1889) isolou os esquerdistas, diagnosticando-os desde então com alguma coisa como a “doença infantil” do comunismo, que Lênin viria expor mais adiante. Enxergavam o chamado “sarampo” nos social-democratas, trabalhistas e liberais. A III Internacional (1919/1943), chamada Comunista (Komintern), definiu quem é quem no movimento e radicalizou posições.

Anarquistas italianos 
Curiosamente, a social-democracia, que já andou de braços com socialistas no passado, é expressão que faz a nova esquerda brasileira ter arrepios, jogando-a na vala comum da “direita coxinha”, essa disputa entre quitutes de frangos e ovas de peixes (no caso, o caviar dos esturjões), classificação que poderíamos dizer político-estruturalista-culinária. Essa “direita coxinha” refere-se aos que não comungam a integridade dos mandamentos, nunca escritos, da nova esquerda. Tutto sociale-democrazia, diriam hoje os anarquistas italianos do passado, jogando a nova esquerda e os coxinhas em um mesmo saco (o que é isso, companheiro?). Já o “esquerdopata”, outro neologismo, teria o perfil do socialismo utópico de certos filósofos e acadêmicos.
O “direita coxinha” é conservador e tem imagem e hábitos burgueses, enquanto a “direita pão com ovo” fica com as migalhas da parca distribuição de riqueza e recente maior acesso aos bens de consumo, mas nunca vai concretizar seus sonhos de ser milionária ou grande empresária capitalista. Bem como a cabrocha em ascensão social do Chico Buarque: “Você era a mais bonita das cabrochas desta ala / você era a favorita onde eu era mestre-sala / hoje a gente nem se fala / mas a festa continua / suas noites são de gala / nosso samba ainda é na rua” (Veja e ouça abaixo).

O XX Congresso do Partido Comunista da URSS
O Brasil seguiu a reboque das tendências da III Internacional e acompanhou o “racha” do XX Congresso do Partido Comunista da URSS. Aqui, partidos socialistas e comunistas dividiram-se, e cada parte subdividiu-se em tendências. Porém, com a redemocratização e a legalização dos partidos proscritos, o comunismo perdeu seu sentido histórico: o socialismo implantado pela ditadura do proletariado (classe operária), o fim do poder econômico, a implantação de um partido único e a propriedade coletiva dos meios de produção. Comunismo e fascismo, goste você ou não de qualquer um deles (ou ambos), não são designações superficiais, vagas nem adjetivos. São filosofias baseadas em vasta literatura e estudos, tratados, discussões, e não tendências dispersas e self-service como simplesmente dizer-se (ou de alguém) “de esquerda” ou “de direita”.
Marx e Engels, autores do Manifesto Comunista
Uma vez registrados na Justiça Eleitoral como partidos legais, disputam pelo voto cargos eletivos e aceitam ou pleiteiam até mesmo posições de confiança em governos à sua direita. Do comunismo ficou apenas o nome e a grife, venceu-o o interesse pelo poder de seus filiados e partidos, esquecidos os ideais de Marx, Engels e Lênin. 


É oportuno reiterar: o comunismo nunca ameaçou de verdade o Brasil, e isso a história e documentos liberados recentemente (aos milhares) pelos EUA revelam: ele foi um “fantasma” exportado para apavorar a família brasileira e suas Forças Armadas, um ‘Gasparzinho do mal’ criado e alimentado pelo exterior e propagado no Brasil por meio de cooperações sociais e estudantis não muito "canônicas" (como a Aliança para o Progresso e o MEC-Usaid). Jango e sua pueril aproximação com o sindicalismo, brincadeira se comparada nos dias de hoje com alguns partidos e as centrais sindicais, não ameaçava coisa alguma e nem sabia o que era comunismo. Seu fatídico e histórico Comício da Central do Brasil hoje seria algo light, coisa cotidianaNem o singelo e naïve (se comparado aos dos dias de hoje) discurso do deputado Márcio Moreira Alves poderia ser usado como estopim para a derrubada da democracia, ao lado do comício de Jango. Foi uma questão tática, como foi a informação vazada sobre a "derrama", para o início da derrocada da Inconfidência Mineira - "hoje é o dia do meu batizado", foi a senha dos inconfidentes.

Trama do golpe: Carlos Lacerda, Gen. Cordeiro de Farias
o US Gen. Vernon Walters, frequentador da casa
de Castelo Branco antes, durante e depois de 1964
Nos anos pré-1964 houve forte presença de militares (Gen. Vernon Walters, adido militar no Brasil, vice-presidente da CIA) e diplomatas americanos (Lincoln Gordon, embaixador, um dos articuladores do golpe e implantador da "Aliança"). Recentemente, documentos sobre os anos 1970 liberados pelos EUA e entregues à Casa Civil da Presidência e à Comissão da Verdade mostram que a "inteligência" e o governo norte-americanos eram informados sobre os desaparecidos e mortos pela repressão - coisa que no Brasil era uma incógnita devido à censura total. Os EUA buscavam o controle tático da América Latina na guerra fria contra a URSS. E foi Lincoln Gordon, no Salão Oval da Casa Branca, quem recebeu US$ 8 milhões (uma fortuna, há mais de 50 anos: U$ 62 mi, ou R$ 224.000.000) e o aval para dar luz verde aos militares brasileiros para desencadear o golpe, em 1964. Com a promessa de que a Casa Branca reconheceria o novo regime no dia seguinte. (Tudo documentado nos papéis entregues há dias - era julho de 2015 - ao governo brasileiro por ordem de Barak Obama). 

Goulash
Por fim, a criatividade política brasileira abre caminho para desdobrar-se até em novas culinárias. Não preciso dizer que não compartilho desses rótulos e acho infantis e ridículas as interpretações depreciativas de esquerda e direita de que se servem à mesa: “caviar”, “coxinha” e “pão com ovo”. Não fosse a enorme diferença de preço entre as mercadorias, seria algum meio termo político uma mistura dessas iguarias? Isso, sem falar no mais recente "pão com mortadela", o manifestante profissional ou de cabresto, que vai às ruas a troco de uma ajuda de custo mais um lanche de pão com mortadela. 

Pizza de frango com Catupiry 
Afinal, em um país onde se come pizza de frango com Catupiry até em bons restaurantes (perdono, vecchia Italia), poderia haver até coxinha com caviar e ovo. Um pot-pourri, ola odrida, goulash (misturada de panela)! O grande Jackson do Pandeiro já cantava: “...chicletes eu misturo com banana / e o meu samba vai ficar assim”. (Veja e ouça abaixo)

Um comentário:

  1. Excelente reflexão. Daria uma boa aula de História ou Atualidades. Gostei muito! parabéns!

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