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sábado, 23 de junho de 2018

ERROS E DEFEITOS NO MODO DE CANTAR O HINO NACIONAL


MAS POR QUE O TITE NÃO CANTA?
Martin Braunwieser, um trunfo brasileiro
Martin Braunwieser nasceu em 1901 na Salzburg de Mozart, sendo filho de um Mestre de Capela. Após estudos e cargos na Europa chegou ao Brasil em 1928. Dono de inteligência e cultura ímpares, foi professor e músico atuante em São Paulo. Começou a trabalhar, anos depois, na Prefeitura, a convite de Mário de Andrade. Pesquisou o folclore brasileiro, compôs e regeu, e veio a falecer em 1991 - estive na casa dele e sua filha Renata acho que por volta de 1986.
Martin Braunwieser foi Professor de Canto Orfeônico dos Parques Infantis Paulistanos, e observou, além de horrores ao ouvir o Hino Nacional, a quase impossibilidade de a criançada canta-lo corretamente. Caprichoso, resolveu anotar as inúmeras falhas recorrentes tanto na música quanto na letra. Seu livrinho Erros e Defeitos no Modo de Cantar o Hino Nacional, a que devo o título deste artigo, foi publicado pelo Arquivo Municipal e é hoje avis rara, fui encontra-lo garimpando em alguns sebos.
As semicolcheias preguiçosas
O maestro compilou absurdos que podem passar despercebidos aos leigos, mas que não conferem nem com a partitura nem com o que normatiza a legislação sobre o assunto (sobre a qual falaremos mais adiante), tanto do lado rítmico-melódico, a composição de Francisco Manuel da Silva, quanto da letra, de Osório Duque Estrada. Constatou erros graves nas acentuações, desde já no primeiro compasso: ‘Ouviram’, pesando fortemente o Ou, quando na verdade o acento deveria recair sobre o vi, sílaba seguinte. E observou que nunca cantavam como estão escritos os grupos, com enérgicas notas pontuadas já desde o primeiro verso,  'arredondavam' o ritmo por instinto (ver ilustração acima) - Mário de Andrade falava da 'índole preguiçosa do povo brasileiro’.
O maestro coletou pérolas como “Ipinanga”, “Ipi-ianga”, “heróito”,  “heróisto” e por aí vai, atentados como “do que a terra margarida”, “em teus seios ó liberdade” (ora, são dois, devem ter pensado os infantes), ao todo 130 principais erros! Quanto à parte melódica, essa parecia missão impossível, já que a música fora escrita como Marcha Triunfal, para banda, em 1822 (hino vem da tradição do anthem luterano, que deu origem ao anglicano Deus Salve a Rainha, assim como o Star Spangled Banner americano). Depois, foi-lhe adaptada uma letra em 1831, celebrando a data da abdicação. Tornou-se o Hino ao Sete de Abril (“Os bronzes da tirania / já no Brasil não rouquejam”), e atravessou décadas até ser ungido Hino Nacional por Deodoro, em decisão nada canônica: quem havia 'levado' o concurso fora Leopoldo Miguez, com uma bela letra de Medeiros e Albuquerque: “Liberdade, Liberdade / abre as asas sobre nós! / Das lutas na tempestade / Dá que ouçamos a tua voz!” Este Hino chegou a ser publicado no Diário Oficial, mas Deodoro convocou um concurso - que teve como vencedor o mesmo Miguez. O marechal-presidente, parece que “ouvindo o clamor deste povo”, entregou o primeiro lugar a Francisco, e recompensou Miguez, como consolação, com o cargo de diretor do Instituto Nacional de Música. E ficamos com a Marcha Triunfal repaginada.
A letra só foi oficializada via decreto de Epitácio Pessoa em 1922, ano marcado pela Semana de Arte Moderna de poetas como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia. A letra de Osório é escrita em ordem inversa, característica do parnasianismo do século anterior, o que dificulta a compreensão. “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico”, seria o primeiro verso em ordem direta, só para servir de exemplo. (E pasme! Os integrantes do Coral do Parque do Ipiranga, bem ali ao lado do riacho, não sabiam onde fora proclamada a Independência!)
O Obelisco, em foto de Petria Chaves
Um depoimento pessoal: há muitos anos, depois de um programa na Rádio Band em que eu falava da música e o prof. Pasquale Cipro Neto da letra do Hino, levaram-me em uma van da Band para um ponto bem movimentado, o Obelisco do Ibirapuera. Ali, irradiaram que os que cantassem o Hino corretamente levariam dez computadores. Pararam quase três dezenas de carros, mas em vão, ninguém acertava. Com o passar do tempo os patrocinadores pediram que pelo amor de Deus fossem dados os prêmios. Bom, passei a dar os parabéns a um a cada dois ou três ‘competidores’. Com certa tristeza, sim, mas era o trato: entregar os dez computadores.
Francisco Manuel (Arquivo FBN)
Vamos à Lei 5.700, dos símbolos pátrios, e leis e decretos subsequentes, que trataram de normatizar tanto a Bandeira Nacional quanto o Brasão de Armas, o Selo e, claro, o Hino Nacional, que deve ser executado em Si bemol maior ou Fá maior, a depender da solenidade e ocasião, e a pulsação sempre a 120 b.p.m (batidas por minuto, ou seja, duas por segundo). Dada a característica instrumental, a despeito da beleza da música de Francisco Manuel, que estudou com Neukomm, ex-aluno de Haydn, compreende-se a dificuldade de se cantar o Hino, originário da Marcha Triunfal de 1822, composta para ser executada apenas por instrumentos. Resumindo, marcha é uma coisa e hino é outra, mas vale a intenção e a beleza melódico-harmônica.
A versão em Fá maior é cantada duas vezes, a primeira começando por “Ouviram do Ipiranga” e a segunda “Deitado eternamente”. Agora, cuidado! a versão instrumental, em Si bemol maior, deve ser executada apenas uma vez, ou seja, a primeira parte (em que se cantaria 'Ouviram'), e sem o canto! Por isso, se nos jogos da Copa você pensou que o Tite não sabe cantar – eu nunca ouvi nem sei se o faz bem ou mal -, seguramente sabe como se portar, sendo ele o único a proceder corretamente, ao lado dos jogadores com sua ‘mímica labial’. E olhando para a frente, para o futuro, como civis, e não para a bandeira, tradição cerimonial de respeito dos militares, por favor.



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