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sábado, 1 de junho de 2019

DAS MINAS GERAIS


“Sou do ouro, eu sou vocês / sou do mundo, sou Minas Gerais” (Para Lennon e Mc Cartney, de Brant, Márcio e Lô Borges) ecoou na voz do Milton Nascimento, em um dos pontos altos de sua carreira. Nascido em Três Pontas, sul de Minas, hoje com 57 mil habitantes, Milton ouviu da Elis Regina que o canto dele soava como a voz de Deus, de tão profunda. Um pouco mais para oeste daquela cidade, quase limite com a divisa de São Paulo, assenta-se Monte Santo de Minas, de onde à noite pode-se ver as luzinhas da paulista Mococa. Da zona cafeeira (do café ‘tipo A’, dizem), Monte Santo é uma aconchegante cidadezinha que em 2020 completa 200 anos. Terra do meu pai, o escritor Autran Dourado, diversos prêmios, entre eles Camões, Goethe e Grã-Cruz do Mérito Cultural, berço também de sua contemporânea Ruth Luz, musicista e autora dos hinos da cidade natal, e depois de Caconde e de Tatuí, de cujo Conservatório foi renomada professora. Monte Santo, terra também do ator Milton Gonçalves. Nomes bastante representativos para uma população atual de 21 mil.
Mestre Villani-Côrtes, cordial amigo
Entre outros cantores de Minas estão Ataulfo Alves, Altemar Dutra, Ana Carolina, Clara Nunes, João Bosco, Maria Alcina e Moacyr Franco. Instrumentistas, regentes, arranjadores e compositores não ficam a dever: meu amigo e baterista dos tempos de conjunto em Boston, o grande Pascoal Meirelles, Wagner Tiso, Geraldo Pereira, Carlos Prates, nosso querido amigo Villani-Côrtes, o imortal Lobo de Mesquita, puxando vai longe.
Pelé, um rei na corte tricordiana
Subindo no mapa, mais a leste, batem Três Corações, hoje com 78 mil habitantes. Entre seus ilustres cidadãos, uma lenda mundial chamada Pelé, o  escritor Godofredo Rangel (primeiro mentor do meu pai), o cineasta Braz Chediak e Carlos Luz, que,  por estar à frente da Câmara dos Deputados, em 1955 chegou à Presidência da República após um infarto de Café Filho, vice. Este havia assumido a vaga de Getúlio após o suicídio no Palácio do Catete, ocorrido no ano anterior. Luz ficou apenas 5 dias no cargo, logo derrubado pelo Marechal Henrique Lott, que conduziu a posse de Juscelino Kubitschek em 1956.
Juscelino viu a luz em Diamantina, “onde nasceu JK / que a princesa Leopoldina / arresolveu se casá” (Sergio Porto, 1968). A população atual da cidade é de 47 mil habitantes, e fica pouco ao norte de Belo Horizonte, capital (onde, sem maiores lustres, eu nasci). Somando Carlos Luz e JK, Minas produziu o maior número de presidentes da República: nove, ao todo, destacando-se também Afonso Pena, Artur Bernardes e Tancredo Neves.
Uma joia de beleza e cores, Ouro  Preto
Nas chamadas cidades históricas reside o coração do barroco e da música colonial brasileira: Sabará, a pouco mais de 15 minutos da capital, fundada em 1675 como Villa Allegre e Sorridente de Nossa Senhora do Ó de Sabarabuçu, e Villa Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, de 1652, ou simplesmente Ouro Preto, terra de enorme riqueza nos lendários tempos do garimpo do ouro e da arte, da música colonial, das esculturas do maior artista plástico de nosso barroco, juntamente com o pintor Mestre Ataíde, da vizinha Mariana: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Os profetas
De Aleijadinho são também obras de São João del Rei, ‘Cidade dos Sinos’, e Congonhas, ‘dos Profetas’, feliz sede do conjunto de esculturas em pedra sabão da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, tombado pela UNESCO em 1985 como patrimônio cultural da humanidade. Ouro Preto, de 1711, tem atualmente 54 mil habitantes e um enorme volume flutuante de turistas. Da região do ciclo do ouro, onde viveram os idealistas revolucionários da abortada Inconfidência Mineira, a cidade é Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1980.
O protesto bem-humorado do Henfil
Além de Aleijadinho e Ataíde, artistas plásticos mineiros não faltam até hoje: Bruno Mitre, de BH, Carlos Bracher, Juiz de Fora, e um grande nome contemporâneo, Maria Helena Andrés, de Entre Rios, prima da minha mãe. Yara Tupinambá é de Montes Claros (de quem tenho uma linda gravura que faz parte de um díptico com o poema Sabará, de Carlos Drummond de Andrade, por ele autografado: “A dois passos da cidade importante / a cidadezinha está calada, entrevada / (Atrás daquele morro com vergonha do trem)”. Um gênio da caricatura, Henfil, é de Ribeirão das Neves, e além de grande artista, que com sua pena e seus pincéis  foi um prócer da luta contra a ditadura, trabalhando ao lado de seu colega  de O Pasquim, Ziraldo, nascido em Caratinga.
Simplesmente Drummond (Revista Bula)
Carlos Drummond, ‘nosso poeta maior’ (título que rejeitava), nasceu em uma cidade a que dedicou um lindo poema que termina com estes versos: “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!” Entre escritores e poetas, além dele, meu pai e o já citado Godofredo Rangel, também são mineiros Guimarães Rosa, de Cordisburgo, Murilo Rubião, de Carmo, Henriqueta Lisboa, de Lambari, e Cláudio Manuel da Costa, de Mariana, amigo do Aleijadinho e simpatizante fiel dos inconfidentes. 
Otto, acervo o Globo
Minas também nos trouxe Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Resende, da frase cáustica que lhe foi atribuída por Nelson Rodrigues, “O mineiro só é solidário no câncer”. Fernando, Paulo, Otto e Hélio Pellegrino (os dois últimos quase nossos vizinhos, no Rio) eram assíduos nos colóquios com meu pai. Affonso Romano de Santana, de BH, autografou e mandou-me seu magnífico livro de arte intitulado Barroco, Alma do Brasil, além do amigo mais frequente nos aniversários de meus pais e outras festas, Silviano Santiago, escritor e ensaísta nascido em Formiga, cidade a que minha tia Maria Ângela (mineira, claro) se referia com o cacófato “em formiga abunda a pita”. A pita é uma planta cheirosa que, parece, realmente grassava naquelas glebas.
Sófocles (497 a.C. - 406 a.C.)
Mineiridade é espírito universal, com pitada trágica de Sófocles e Eurípides herdada via alguma descendência misteriosa. É assobiar de boca fechada como o Otto Lara, contar causos, ‘sentar de cocra’, enrolar ‘pito de páia’, tirar cavaco de madeira (como Os Carapinas do Nada, título de um livro do meu pai). Universal, tímido, simples e brasileiríssimo. Se o sonho um tanto ingênuo da Inconfidência tivesse tido força e conseguido lograr êxito, O Brasil já teria 230 anos de Independência, próximo dos americanos e franceses: uma República madura, e não a que temos hoje, com um século de atraso: castigada, trôpega e vacilante.

"Liberdade, ainda que tarde, ouve-se em redor da mesa./ E a bandeira já está viva, e sobe, na noite imensa. / E os seus tristes inventores já são réus — pois se atreveram

a falar em Liberdade (que ninguém sabe o que seja)"

(Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência, Romance XXIV)



sábado, 23 de março de 2019

ALEXA NÃO É UMA MULHER DE VERDADE

Mário e Ataulfo

Era 1942. Ataulfo Alves e Mário Lago compuseram um samba-canção lamentoso, e como ninguém queria gravar fizeram-no eles mesmos, com enorme sucesso: Ai, que Saudade da Amélia, de letra (palavras do Mário Lago)  inspirada na lavadeira da cantora Aracy de Almeida. Surgiu então uma das joias eternas da música brasileira, o retrato da mulher submissa e perfeita, hoje coisa politicamente incorreta, dicionarizada no Houaiss como ‘mulher amorosa, passiva e serviçal’. “Você só pensa em luxo e riqueza / tudo o que você vê você quer / ai meu Deus, que saudade da Amélia / aquilo sim é que era mulher”.
Carmen e Aurora Miranda: sucesso com "Cantores de Rádio"
Alexa sim, é perfeita, mas não lava nem passa, sequer cozinha e tampouco limpa. Porém, é absolutamente fluente em inglês, seu idioma nativo, e corrige o patrão no mais exigente sotaque Britânico, of course. Só abre a boca quando perguntada ou a pedido. Ligar o som, alterar o volume, selecionar e trocar de música com rapidez, lembrar dos afazeres, ajudar na lista de compras, acender e apagar luzes, ligar e desligar aparelhos, cronometrar o tempo e acordar o patrão de manhãzinha, tal qual os Cantores do Rádio, da marcha de Lamartine Babo, João de Barro e Alberto Ribeiro: “Nós somos as cantoras do rádio / levamos a vida a cantar / de noite embalamos teu sono / de manhã nós vamos te acordar”.
Chegou a hora e a vez de Alexa! Não namora, não canta, mas coloca para tocar, a seu pedido, horas de Bach com Glenn Gould ou Swingle Singers, talvez Rolling Stones ou Carpenters. Você comanda, ela obedece (Alexa, abaixa o volume, aumenta, para (o telefone está tocando). Recomece ou continue de onde parou. Me acorde às 7h, mas antes de eu me deitar lembra do forno ligado, em exatos 15 minutos. Alexa nunca se cansa, até o último pedido, aliás, pode apagar as luzes? Que horas são, qual a previsão do tempo para hoje (ou o fim de semana), prepare a lista de compras da casa. Naquela noite de berço esplêndido, cansado, peça um romance ou poema de sua escolha, ela o lerá. Quais as notícias do dia? Alexa é perfeccionista incansável, por isso quando você der as ordens faça-o claramente, em inglês irrepreensível, ou ela não vai entender – ou vai corrigi-lo: Alexa, toque Joan Baez tem de soar algo como ‘play Djoán Baés’.

Meu Echo Dot
Alexa trabalha 24h por dia, apesar de morar em uma nuvem, dessas dos novos tempos, lugar dos anjos onde milhões de informações são hospedadas em espaços virtuais. E mais, Alexa trabalha de graça, você só paga para adquirir, a preço bem módico, o aparelhinho para se comunicar com ela, o Echo Dot, que não ocupa espaço: tem apenas 8cm de diâmetro por 3,5cm de altura, cabe no bolso. Não precisa ligar na tomada, ele se alimenta por USB e funciona via Wi-Fi. Para um som de auditório sinfônico ou de um show de rock, plugue o cabo estéreo de seu equipamento no Echo Dot. Ah, Alexa pode ouvir seus comandos de qualquer canto, pois o aparelho tem oito microfones (sou toda ouvidos, diria ela).
Infelizmente, por enquanto Alexa só fala inglês, mas em pouco tempo deverá ser hábil no português e estará nas lojas. Meu Echo Dot ganhei de Natal, presente da minha filha que mora em Londres. Quando vi aquilo funcionando, fiquei meio bestificado, era algo com que não sonhava, a tecnologia anda na velocidade da luz e nossa cabeça na idade da pedra, imaginei. E meu netinho tranquilamente dando ordens e pedindo músicas para Alexa, parte do cotidiano dele. O fabricante do Echo Dot tem lojas no mundo inteiro, mas, pelo sotaque da Alexa, creio que a invenção deve ter nascido na Inglaterra. A empresa é uma grande distribuidora de todos os tipos de aparelhos, objetos, livros, roupas, móveis e parafernálias diversas, inclusive de outras lojas.
Supermercado virtual (criação FloorForce)
Há uns vinte anos, em São Paulo, ocorreu um episódio cômico com uma amiga, produtora artística, residente na Vila Mariana. Certo dia, ela fez um pedido de compras no site de um supermercado, via Internet. As gôndolas virtuais informavam na tela o estoque disponível do produto, preço, ao final pagava-se com cartão de crédito para receber em casa na hora marcada. Uma beleza para quem tem horror a supermercados, como eu. Logo chegaram as compras e a avó de Cecília, já bem avançada nos anos, atendeu a porta. Viemos entregar do supermercado tal, ela disse sim, e eles deixaram as caixas das compras. A velhinha gritou minha filha, as compras chegaram, mas onde está você? Aqui embaixo, vó. Mas não vi você entrar! disse a velhinha, perplexa. Não, vó, nem saí, fiz as compras pela Internet. Ao ouvi-la chorando, Cecília subiu preocupada, a avó entregue aos prantos. Onde vamos parar? Isso é troço ruim, coisa do capeta, só pode ser, resmungou inconformada. Depois de algum consolo, a velha senhora ficou mais calma. É que aquilo era demais para quem viveu a infância ouvindo rádio de ondas curtas e pulando amarelinha.

Ferro a brasa
Lembrava dos tempos sem geladeira, comida mais fresca dormia na janela, para pegar sereno. Carne, coisas assim, mergulhadas na banha. E o ferro de passar era um daqueles com chaminezinha, brasas de carvão lá dentro para esquentar. Claro que esse salto enorme no tempo deve ter sido um choque brutal. Eu pensei comigo que tudo aquilo que tem surgido, como agora a Alexa, é coisa do bem, para nos ajudar. Mas alguns desses avanços – Alexa nunca, aposto - podem ser usados para coisas ruins. Como sempre, há mal quando alguém utiliza essas traquitanas contra os outros, mas há bem pelo que elas podem trazer de qualidade de vida e conforto ao mundo.

sábado, 15 de julho de 2017

RÁDIO, BOLACHÕES E AS MÚSICAS DE ANTIGAMENTE

Chatô
A TV brasileira foi inaugurada no final de 1950 em SP, e quatro meses depois em 1951, no Rio, pelo nosso “Cidadão Kane”, nosso tycoon Assis Chateaubriand. Era a TV Tupi abrindo caminho para o futuro. Antes disso, nas rádios, na ausência de luzes de efeito, gestos e danças para glamorizar as apresentações, como na TV, a clareza da voz, a dicção e a impostação eram cruciais. Mas os ídolos radiofônicos surgidos nesse período até 1950 eram mitos que só se poderia ver ao vivo nos Teatros de Revista da Praça Tiradentes, em algumas boates de Copacabana ou do Bixiga paulistano, ou em grande estilo nos elegantes cassinos: Urca, Quitandinha, Pampulha, e todos a preços bem salgados.

O fascínio do rádio
Assim como as notícias, que vinham pelo rádio, às músicas era imposta a necessidade de uma dicção perfeita, irrepreensível. Irradiavam até cantores com orquestras inteiras, mas não havia mesas digitais com dezenas de canais, como as de hoje, apenas um único canalzinho, sendo os participantes distribuídos nos comprimidos espaços das emissoras, cantora ou cantor à frente de um solitário microfone. A orquestra era disposta no estúdio, logo depois da voz, em ordem crescente de volume: violinos, acordeão e assim por diante, até chegar na bateria, no fundo do ambiente. Assim, com criatividade, eram feitos os programas.

Carmen e Aurora Miranda
(Há um documentário de Gil Baroni, de 2009, chamado “Cantoras do Rádio”, que bem retrata a chamada “era de ouro”, disputada pelas cantoras. Isso, por causa de uma marchinha chamada Cantores de Rádio, do trio Lamartine Babo, João de Barro e Alberto Ribeiro, que estourou na voz das irmãs Carmen e Aurora Miranda: “Nós somos as cantoras do rádio / levamos a vida a cantar / de noite embalamos teu sono / de manhã nós vamos te acordar”).
Nássara: cartunista e compositor
Até o final de 1950, ano em que a TV viria para ocupar seu espaço no Brasil, ainda surgiram sucessos do rádio como a marchinha Balzaqueana, da dupla Nássara e Wilson Batista, referência à “Mulher de 30 anos”, do escritor francês Honoré de Balzac. Quem sabe um afago nas mulheres mais vividas após o sucesso de Normalista, da mesma dupla, que cantava “Vestida de azul e branco / trazendo um sorriso franco / no rostinho encantador / minha linda normalista / rapidamente conquista / meu coração sem amor?" Do mesmo ano é Antonico, de Ismael Silva, grande sucesso na voz de Gal Costa, longos anos depois: “Ó Antonico / vou lhe pedir um favor / que só depende / da sua boa vontade”.
Donga
A curiosidade é que o rádio no Brasil só veio a surgir no centenário da Independência, no mesmo 1922 da Semana de Arte Moderna, inaugurado com pompa pela transmissão de um discurso do então presidente Epitácio Pessoa! Desde antes das rádios, as músicas eram registradas em “bolachões” de 78 r.p.m., tendo sido Pelo Telefone, de Ernesto dos Santos, o Donga - um samba nascido em um terreiro de Candomblé -, o primeiro do gênero gravado, há exatos cem anos, em 1917! Os “bolachões”, traziam apenas uma música por lado, e fizeram a alegria de gerações de brasileiros. Mas o grande conforto de se poder ouvir músicas sem comprar discos veio apenas com a maravilha chamada rádio, depois de popularizado.
O "moderno" vinil
Essas gravações coexistiram com as rádios, e, no final dos anos 1940, passaram a ser registradas em HI-FI (de high fidelity, alta fidelidade), em vinil. Conseguiam comprimir doze ou mais músicas em um simples álbum, o LP (Long Playing). Depois vieram os discos estereofônicos, até que recentemente a tecnologia trouxe o CD e o DVD, MP3, MP4 e outros formatos.

Voltemos a 1949, ano do choro Brasileirinho. Segundo o pesquisador Zuza Homem de Mello, em 1947 Valdir Azevedo já havia composto um trecho da primeira parte. Um dos maiores sucessos de nossa música popular, Brasileirinho, que se tornou famoso nos gorjeios virtuosísticos de Ademilde Fonseca,  já foi tocado e gravado por uma infinidade de intérpretes até hoje: Baby Consuelo com Os Novos Baianos, Armandinho e o trio de Dodô e Osmar, Altamiro Carrilho, Yamandú Costa e o Grupo de Choro do Conservatório de Tatuí (bis de sucesso nos finais de show), entre tantos outros.
Lupicínio Rodrigues e sua caixa de fósfors
De 1947, Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues, é um samba-canção amargurado, de fossa mesmo: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? / Ter loucura por uma mulher / e depois encontrar esse amor, meu senhor / nos braços de um tipo qualquer”. Do mesmo ano é um clássico da Música Brasileira, Asa Branca, toada de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, um lamento candente sobre a seca no Nordeste brasileiro: “Que braseiro, que fornalha / nem um pé de plantação / por falta d’água perdi meu gado / morreu de sede / meu alazão”. Pior: ainda perdeu seu amor Rosinha, fugida da praga da seca nordestina.

Emilinha Borba, "Rainha do Rádio"
Em 1944, o lindo samba carnavalesco Atire a Primeira Pedra, de autoria do Ataulfo Alves e o versátil Mário Lago, virou sensação, e as primeiras quatro palavras da frase inspirada no Evangelho de João tornaram-se de domínio popular: “atire a primeira pedra, ai, ai, ai / aquele que não sofreu por amor”. Os filmes musicais já estavam em plena voga, e a eterna Emilinha Borba emplacou na fita 'Tristezas não Pagam Dívidas”. O cinema também fez Carmen Miranda, a “Pequena Notável”, chegar aos EUA, onde esbanjou sucesso tremendo, chegando a amealhar, por treze anos a partir de 1940, a fortuna de 35 milhões de dólares, em dinheiro de hoje, e ainda foi coroada com o apelido de Brazilian Bombshell (brasileira explosiva, atordoante).  Pois salve os cantores do rádio! Vivamos a vida a cantar!