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sexta-feira, 26 de junho de 2020

O INVERNO DE SARA WINTER

Baroness Von Altenburg

Sarah Domville-Taylor nasceu em Ludlow, Inglaterra, em 1870. Filha de um coronel britânico, foi criada em Londres por uma tutora, a baronesa Von Altenburg. Desde a adolescência aprendeu com ela o que de pior havia na Alemanha da época: ideias fascistas e antissemitas. Não tardou para Sarah ingressar na BUF (União Britânica de Fascistas), e militar no grupo.
Sarah Domville-Taylor
Bela e sedutora, a jovem Sarah casou-se aos 20 anos com Robert Winter, de 22, jovem de família abastada, adotando o sobrenome do marido. O casal teve um filho, Arthur Trevor Winter, que depois rejeitaria a mãe e suas ideias. Sarah admirava Ormonde Winter, um militante fascista como ela, primo de seu marido e protegé do príncipe de York, futuro Rei George VI, coroado em 1936.
Com a morte do esposo, Sarah, então com 28 anos, passou a dedicar-se a instituições de caridade e envolveu-se com o rico entourage do falecido. Organizava recepções, bailes e reuniões sociais muito comentadas na alta grã-finagem.
Áustria, ocupada por Hitler (Anchluss, 12 de março de 1938)
Apesar de socialite, Sarah continuou fascista, apenas depois da Primeira Guerra passaria a aderir à causa nazista. Em 1935, ingressou na Sociedade Anglo-Germânica, que apoiava o Partido Nazista alemão. Quando da anexação da Áustria por Hitler, em 1938, mandou hastear bandeiras com suásticas em suas propriedades.
Winston Churchil
Sarah nunca foi presa, ao contrário de outros companheiros pró-nazismo, pois tinha bom trânsito com figuras graúdas no Reino Unido – incluindo o todo-poderoso Winston Churchill, primeiro-ministro e ícone da luta dos aliados contra o Eixo.
Worcestershire Cemetery
Winter foi acusada de atos de espionagem contra o Reino Unido mas, como sempre, protegida pelo crème de la crème  britânico - milionários, banqueiros e habitués da realeza -, escapou. Permanecia livre, amada por poucos e odiada por muitos. Um ano antes da derrota do Eixo para os aliados, na Segunda Guerra, Sarah tinha fé na vitória de Hitler, que já conquistara boa parte da Europa. Mas deixou o mundo em 1944 sem ver o naufrágio da aventura nazista. Foi sepultada em Worcestershire, condado de West Midlands.
Sara: Veja (Abril)
Sara Fernanda Giromina nasceu na São Carlos paulista em 1992 e, desde cedo, deixou-se influenciar por estereótipos feministas internacionais. Aos 19 anos, fundou uma vertente brasileira do grupo ativista Femen, cuja principal forma de chamar atenção para seu ideário político eram manifestações topless, com seus lemas e reivindicações pintados nos peitos nus em locais de grande visibilidade, com certa mise em scène  em suas prisões.
A ucraniana Inna Shevchenko
Viajou para a Ucrânia para conhecer Inna Shevchenko, 29, uma das líderes internacionais do Femen, de quem recebeu orientações. Mais adiante, por afastar-se das bandeiras do movimento, foi obrigada a retirar a ‘marca’ Femen de seu grupo por outra líder, a ucraniana Olexandra Shevchenko. Mas não tardou a criar seu próprio clã, o BastardXs.
Aos 23 anos, após o nascimento de seu filho, Giromina abraçou o catolicismo e jurou criar o menino à luz dos Dez Mandamentos, repudiando antigas bandeiras como o aborto legal e o feminismo. Ao contrário, passou a atacá-los, no tom ultraconservadorista da extrema direita.
Buscando projetar-se a qualquer custo, tentou uma vaga pelo DEM na Câmara dos Deputados em 2018, mas recebeu apenas 0,22% dos votos válidos (as verbas de campanha ainda estão sob investigação por supostos desvios). Graças à militância ultraconservadora, em 2019 foi nomeada coordenadora de políticas da maternidade da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves – conhecida pela frase “menino veste azul, menina veste rosa”.
Sara Giromina adotou como “sobrenome de guerra” o de sua ‘Alter ego’ inglesa, Winter, uma reverência à militante do Reino Unido que do fascismo histórico passou a apoiar a via hitleriana, mais radical. Ainda criança, Giromina foi estuprada, sofreu maus-tratos e deixou-se entregar à prostituição durante quase um ano. Seu irmão declarou-a sociopata, pessoa de comportamento fora de sintonia com a vida em sociedade.
Com o brasão imperial
Como militante da extrema direita, Giromina advoga um patriotismo radical extremado típico do fascismo, e vez por outra surge vestida com uma camiseta estampada com o brasão do Império. São frequentes suas postagens nas redes sociais ostentando pistolas automáticas 9 mm ou 765, às vezes uma em cada mão. Mercê de uma ambição doentia por liderança, Sara criou outro grupo, mais radical, o ‘300 do Brasil’ - que na verdade não agrega mais de 30 - e com ele fincou acampamento em Brasília. Disse que teve “inspiração em passagem bíblica” na organização de marcha com feitios da Ku-Klux-Klan.
bbc.com

Familiarizada com o entourage do Poder, é defensora intransigente de todos os atos do governo, atacando tudo que não seja ele. Por ameaças consideradas criminosas pelo MPF ao ministro do STF Alexandre de Moraes, foi denunciada por ofensa e injúria, tendo fixada multa de valor pedagógico, R$ 10 mil. Em âmbito do inquérito que investiga a organização de manifestações contra a Constituição e o Estado de Direito, no dia 17 de junho Giromina foi presa, em conformidade com a lei. Reclusão preventiva de 5 dias, depois renovada. Um habeas-corpus impetrado em seu favor visando à sua soltura imediata foi denegado pela ministra Carmen Lúcia, do STF. Hoje,  encontra-se em casa, com uma tornozeleira eletrônica. 
Seus protetores não a ampararam como faziam os nomes influentes de sua musa britânica, afinada com milionários e até o primeiro-ministro. Giromina, agora sozinha, não sabe que no Brasil a democracia, sob a égide do Estado de Direito, é pétrea e indissociável da Constituição Federal.
                                                                             ***
Canal no Youtube - Eleazar de Carvalho: https://www.youtube.com/watch?v=LpQs_7vwewY
Todos os programas: https://www.youtube.com/autrandourado
Livro: Memórias de Isolamento - Saudosos Velhos Amigos  e Outras Crônicas (compra):  memoriasdeisolamento@gmail.com 

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O FUNDAMENTALISMO POLÍTICO E RELIGIOSO


O Estadão publicou, no dia 12/11, matéria que acende a luz vermelha: “Até que ponto chega o ódio cego e visceral, quando não patológico” (link da TVT logo abaixo). Palavras do ministro do STF Celso de Mello, indignado com a alucinada incitação de uma advogada gaúcha: “estuprem e matem as filhas dos ordinários ministros do STF”.  Ela protestava contra a decisão da Suprema Corte pela inadmissibilidade da prisão em segunda instância, antes de esgotados todos os recursos e o trânsito em julgado. A advogada se referia, claramente, à decisão que teve como consequência a soltura do ex-presidente Lula. Sem entrar no mérito da questão, que é coisa julgada, sirvo-me desse gravíssimo incidente de possíveis desdobramentos penais para uma digressão a partir do que Mello chamou “fundamentalismo político”.

O então deputado Moreira Alves, em seu pronunciamento
Para mim, foi imediata a associação das palavras da advogada a um discurso do passado, guardadas as proporções e o contexto histórico. Em setembro de 1968, em Brasília, o então deputado Márcio Moreira Alves fez um pronunciamento, no Congresso, com teor naïve se comparado ao tom da advogada contra o STF. Longe de ser uma ameaça criminosa, a fala de Alves foi uma atitude até pueril naquele momento crítico do país.
UnB, 1968
A Polícia Militar do Distrito Federal havia invadido a Universidade de Brasília (UnB) e Alves subira à tribuna para pedir o boicote ao desfile de 7 de setembro, que seria um artifício para incutir no povo um “falso instinto patriótico”. E estendeu o pedido “às moças, aquelas que dançam com cadetes e namoram oficiais”. O governo Costa e Silva, via STF, exigiu do Congresso a cassação de Alves, que terminou rejeitada. Foi o estopim: em dezembro, três meses depois do discurso e seus desdobramentos, era baixado o hediondo AI-5; Alves fugiu do país, retornando somente com a anistia, em 1979.
Karen Armstrong
A inglesa Karen Armstrong (1945), formada em Oxford e ex-professora da Universidade de Londres, conseguiu uma façanha: chegou a ser freira durante sete anos, no Sagrado Coração de Jesus, hoje leciona Judaísmo e Treinamento para Rabinos na escola superior Leo Baeck e é membro honorário da Associação de Estudos Sociais Muçulmanos. Seu precioso livro “Em Nome de Deus¹” remete a 1492, ano em que, segundo ela, aconteceram três fatos de suma importância para Cristãos, Judeus e Muçulmanos: “a descoberta da América, a conquista de Granada e a expulsão dos Judeus da Espanha”, quatro décadas após a queda de Constantinopla.
Muhammad XII se rende aos "reis católicos" (F. Pradilla)

Baruch Spinoza
Com seu cabedal e ecletismo, Karen tornou-se uma das maiores especialistas sobre o fundamentalismo nas três grandes religiões monoteístas. O livro traz uma caudalosa bibliografia como suporte, incluindo textos de Nietzsche e os teológico-filosóficos de Spinoza, e é primordial para quem quer compreender o fundamentalismo político ou religioso (ou ainda ambos em convergência) nos dias de hoje.
Embaixada da Venezuela invadida
Dias após a investida afrontosa da advogada contra as filhas dos ministros, um grupo de 30 militantes favoráveis a Juan Guaidó, autoproclamado presidente da Venezuela, invade a embaixada de seu país em Brasília. Segundo declarou à Revista Forum o deputado Paulo Pimenta, que lá esteve, não lhe parece que o governo brasileiro tenha relação com o episódio em si, mas foi notório o acirramento de ânimos após o declarado apoio do Brasil a Guaidó contra o presidente Maduro. Detalhe importante: todos os invasores venezuelanos portavam mochilas com celulares, carregadores, baterias e... uma bíblia - o que nos leva à certeza de que o fenômeno que acontece no Brasil não nos é exclusivo, está presente em vários outros lugares. Além de cristãos de diversas ordens e seitas, incluindo as obscurantistas como os católicos “Arautos do Evangelho” e “Opus Dei”, são tão fundamentalistas quanto alguns núcleos ortodoxos judeus e muçulmanos, seguindo a ótica equidistante e imparcial de Karen Armstrong.
Sempre em nome de Deus, é inegável que o fundamentalismo político e religioso vem avançando no Brasil. Sem qualquer nexo, a ministra Damares Alves (também  já alvo de críticas do ministro), em um seminário sobre a “cura gay” (Estadão, 12 de novembro), disse que “o Estado é laico, mas não é laicista”. No dia 2 de janeiro já havia declarado ao mesmo jornal: “O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”. Laicista é um termo que não está no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) nem no Houaiss, há uma referência  no Priberam . Damares na verdade quis contrapor-se a quem compreende a laicidade, “qualidade do que é laico ou leigo”. Todas essas palavras que remetem à mesma coisa. Ou seja, têm a ver com o antigo secularismo e o lema revolucionário francês “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” identificado, em 1905, com a lei que determina a separação entre Igreja e Estado. Hoje, políticos tentam seduzir certas correntes religiosas que, além de lhes proporcionarem o apelo hoje sedutor do extremo conservadorismo, representam números bastante significativos na contabilidade eleitoral.
A indignação do ministro Celso de Mello com a provocação da advogada não é só dele, que de pronto resolveu manifestar-se à luz de sua vasta cultura jurídica e universal, à parte das possíveis consequências de uma denúncia criminal. Na verdade, ele representou todos os brasileiros que pensam um país mais justo, mais digno e sob plena democracia. Quem diria, o discurso de Moreira Alves virou história da carochinha.

[¹AMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus (O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo). Trad. Hildegard Feist. SP: Ed. Schwarcz,  2001]