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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O FUNDAMENTALISMO POLÍTICO E RELIGIOSO


O Estadão publicou, no dia 12/11, matéria que acende a luz vermelha: “Até que ponto chega o ódio cego e visceral, quando não patológico” (link da TVT logo abaixo). Palavras do ministro do STF Celso de Mello, indignado com a alucinada incitação de uma advogada gaúcha: “estuprem e matem as filhas dos ordinários ministros do STF”.  Ela protestava contra a decisão da Suprema Corte pela inadmissibilidade da prisão em segunda instância, antes de esgotados todos os recursos e o trânsito em julgado. A advogada se referia, claramente, à decisão que teve como consequência a soltura do ex-presidente Lula. Sem entrar no mérito da questão, que é coisa julgada, sirvo-me desse gravíssimo incidente de possíveis desdobramentos penais para uma digressão a partir do que Mello chamou “fundamentalismo político”.

O então deputado Moreira Alves, em seu pronunciamento
Para mim, foi imediata a associação das palavras da advogada a um discurso do passado, guardadas as proporções e o contexto histórico. Em setembro de 1968, em Brasília, o então deputado Márcio Moreira Alves fez um pronunciamento, no Congresso, com teor naïve se comparado ao tom da advogada contra o STF. Longe de ser uma ameaça criminosa, a fala de Alves foi uma atitude até pueril naquele momento crítico do país.
UnB, 1968
A Polícia Militar do Distrito Federal havia invadido a Universidade de Brasília (UnB) e Alves subira à tribuna para pedir o boicote ao desfile de 7 de setembro, que seria um artifício para incutir no povo um “falso instinto patriótico”. E estendeu o pedido “às moças, aquelas que dançam com cadetes e namoram oficiais”. O governo Costa e Silva, via STF, exigiu do Congresso a cassação de Alves, que terminou rejeitada. Foi o estopim: em dezembro, três meses depois do discurso e seus desdobramentos, era baixado o hediondo AI-5; Alves fugiu do país, retornando somente com a anistia, em 1979.
Karen Armstrong
A inglesa Karen Armstrong (1945), formada em Oxford e ex-professora da Universidade de Londres, conseguiu uma façanha: chegou a ser freira durante sete anos, no Sagrado Coração de Jesus, hoje leciona Judaísmo e Treinamento para Rabinos na escola superior Leo Baeck e é membro honorário da Associação de Estudos Sociais Muçulmanos. Seu precioso livro “Em Nome de Deus¹” remete a 1492, ano em que, segundo ela, aconteceram três fatos de suma importância para Cristãos, Judeus e Muçulmanos: “a descoberta da América, a conquista de Granada e a expulsão dos Judeus da Espanha”, quatro décadas após a queda de Constantinopla.
Muhammad XII se rende aos "reis católicos" (F. Pradilla)

Baruch Spinoza
Com seu cabedal e ecletismo, Karen tornou-se uma das maiores especialistas sobre o fundamentalismo nas três grandes religiões monoteístas. O livro traz uma caudalosa bibliografia como suporte, incluindo textos de Nietzsche e os teológico-filosóficos de Spinoza, e é primordial para quem quer compreender o fundamentalismo político ou religioso (ou ainda ambos em convergência) nos dias de hoje.
Embaixada da Venezuela invadida
Dias após a investida afrontosa da advogada contra as filhas dos ministros, um grupo de 30 militantes favoráveis a Juan Guaidó, autoproclamado presidente da Venezuela, invade a embaixada de seu país em Brasília. Segundo declarou à Revista Forum o deputado Paulo Pimenta, que lá esteve, não lhe parece que o governo brasileiro tenha relação com o episódio em si, mas foi notório o acirramento de ânimos após o declarado apoio do Brasil a Guaidó contra o presidente Maduro. Detalhe importante: todos os invasores venezuelanos portavam mochilas com celulares, carregadores, baterias e... uma bíblia - o que nos leva à certeza de que o fenômeno que acontece no Brasil não nos é exclusivo, está presente em vários outros lugares. Além de cristãos de diversas ordens e seitas, incluindo as obscurantistas como os católicos “Arautos do Evangelho” e “Opus Dei”, são tão fundamentalistas quanto alguns núcleos ortodoxos judeus e muçulmanos, seguindo a ótica equidistante e imparcial de Karen Armstrong.
Sempre em nome de Deus, é inegável que o fundamentalismo político e religioso vem avançando no Brasil. Sem qualquer nexo, a ministra Damares Alves (também  já alvo de críticas do ministro), em um seminário sobre a “cura gay” (Estadão, 12 de novembro), disse que “o Estado é laico, mas não é laicista”. No dia 2 de janeiro já havia declarado ao mesmo jornal: “O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”. Laicista é um termo que não está no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) nem no Houaiss, há uma referência  no Priberam . Damares na verdade quis contrapor-se a quem compreende a laicidade, “qualidade do que é laico ou leigo”. Todas essas palavras que remetem à mesma coisa. Ou seja, têm a ver com o antigo secularismo e o lema revolucionário francês “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” identificado, em 1905, com a lei que determina a separação entre Igreja e Estado. Hoje, políticos tentam seduzir certas correntes religiosas que, além de lhes proporcionarem o apelo hoje sedutor do extremo conservadorismo, representam números bastante significativos na contabilidade eleitoral.
A indignação do ministro Celso de Mello com a provocação da advogada não é só dele, que de pronto resolveu manifestar-se à luz de sua vasta cultura jurídica e universal, à parte das possíveis consequências de uma denúncia criminal. Na verdade, ele representou todos os brasileiros que pensam um país mais justo, mais digno e sob plena democracia. Quem diria, o discurso de Moreira Alves virou história da carochinha.

[¹AMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus (O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo). Trad. Hildegard Feist. SP: Ed. Schwarcz,  2001]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

EM NOME DE DEUS

Karen Armstrong, autora de The Battle for God (A Batalha por Deus) é uma pesquisadora especialista em religiões, com ênfase especial para “o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo”, subtítulo do livro que peguei emprestado para este artigo (SP: Companhia das Letras, 2001. A publicação parece esgotada, mas existe em e-book). Karen é inglesa, OBE (Ordem do Império Britânico, alto título honorífico do Reino Unido) e entende do riscado: foi freira, mas decidiu trocar o convento pela Oxford University, entregue ao seu obcecado estudo das religiões, mantendo a fé cristã.

Karen (esq.) e religiosos
Com seu “Uma História de Deus – uma pesquisa de 4.000 anos de Judaísmo, Cristianismo e Islamismo” (1993), a autora aprofundou-se nas três grandes religiões monoteístas. Respeitada scholar, transita muito bem entre Budismo e Hinduísmo, ora pesquisando e palestrando sobre o judaísmo em Israel, ora no Concílio Religioso Islâmico em Cingapura. Lecionou em escola de formação de rabinos, passando a ser uma sumidade bem-vinda em todas as religiões.

Massacre em mesquita no Canadá, 30 jan 17: seis mortos
Matéria de uma edição da revista Veja da época do lançamento - em uníssono com várias outras resenhas - considerou Karen uma das principais autoridades sobre a história das religiões monoteístas e o fundamentalismo, que, com seus ‘braços armados’, “fuzilam devotos dentro de mesquitas, matam médicos em clínicas de aborto, assassinam presidentes e até derrubam governos”. E mais: “democracia, pluralismo, tolerância religiosa, liberdade de expressão, separação entre Igreja e Estado – nada disso lhes interessa”. A frase aparece em inúmeras resenhas sobre o livro, ilustrando o fanatismo e suas funestas consequências. É o mais importante depoimento que li sobre o assunto, e sua abrangência vai muito além das sinagogas, mesquitas e igrejas, chega ao âmago da origem e fonte dos radicalismos.

Bush piloto de caça
George Bush era ligado a alguma ala paralela da Igreja. Não seria surpresa se ele tivesse ligação com o Opus Dei, que de seu prédio milionário dos EUA preparou um golpe na Venezuela, para tentar guindar à presidência do único país da OPEP fora do Oriente Médio um dos barões do petróleo. O golpe durou dois dias. Antes de prosseguir com o Opus, cabe aqui lembrar que o próprio Bush pai - a confusão mental e o fascínio por seitas para-religiosas vêm de família! - já era aconselhado por seus assessores a separar Igreja e Estado, e que aquela espécie de proto-igreja com jeito de capela dentro da Casa Branca começava a lhe render problemas. Concordou, e passou a andar com a “separação entre Igreja e Estado” na cabeça. Certo dia, em discurso em Ohio, Bush pai, perguntado sobre a queda de seu caça da Força Aérea, quando foi obrigado a saltar de paraquedas e inflar um bote para aguardar salvamento, respondeu sobre o que lhe passava na cabeça naquele momento. Aproveitou a deixa e disse que pensava nos pais, nos filhos e... “na separação entre Igreja e Estado”! (MILLER, MARK. The Bush Dyslexicon. NY: WW Norton, 2001). Mark Miller fala abertamente sobre a dislexia dos Bush e seu envolvimento com o fundamentalismo.

O Opus Dei foi criado em 1928 pelo Pe. Josemaria Escrivá de Balaguer, com o apoio do ditador espanhol Francisco Franco, que via a oposição juntar-se à Maçonaria. Muito mais tarde, Paul Marcinkus, arcebispo-presidente do Banco do Vaticano (de 1971 a 1989), que havia se tornado um antro de corrupção, quebrou o caixa. O Opus saiu em socorro com o Banco Ambrosiano, e sufocou o rombo e o escândalo da Santa Sé. Em troca, foi entronizado o Papa Paulo II, polonês de perfil bem dócil, que criou a única Prelazia Pessoal do Vaticano para o Opus. Beatificou e canonizou Josemaria Escrivá, fundador da organização, no recorde de dois anos. Sucedeu Paulo II outro Prelado, J. Ratzinger, o Bento XVI, criacionista que condenou veementemente o jesuíta Pe. Teilhard de Chardin (1888-1955), autor de O Fenômeno Humano, já censurado pelo Vaticano décadas antes, por crer na possibilidade de convivência entre evolução, ciência e Fé. Bento XVI condenou as ideias de Chardin, pensador cristão benquisto no mundo inteiro.

"Papa Francisco 'remenda' o Banco do Vaticano, destruído por escândalo"
Com a sagração do Papa Francisco, após a renúncia de Bento XVI, começou-se a conter mais uma onda de corrupção no Banco do Vaticano. Francisco demitiu o novo presidente, tratou da saúde da instituição e se abriu para o mundo, tornando-se o maior líder religioso dos últimos tempos. O Banco se equilibrou graças a Francisco, e tudo dentro da maior discrição possível. Mas o Opus permaneceu presente no mundo, pois não há como combatê-lo, uma vez que prega um conservadorismo exacerbado, mas dentro da Fé.

Estamos à espera da indicação de um novo ministro para o STF, e o presidente do TST, Ives Gandra Martins Filho, é forte candidato. Contudo, enfrenta resistências dentro e fora da Corte, apesar do apoio declarado de gente graúda. Ives é casto e celibatário, do alto de seus 62 anos, e contra o aborto - mesmo em caso de ameaça à vida da mãe ou da criança –, pesquisas com células-tronco, união civil, pílula anticoncepcional e divórcio. Um peixe fora d’água em várias decisões técnicas do STF.

O Prelado do Opus no Brasil, o jornalista e dono da Cásper Líbero, ligada à Universidade de Navarra (financiada pelo Opus), é Carlos Alberto Di Franco, também celibatário e declaradamente adepto do cilício – prática medieval que consiste em atar uma espécie de corrente de aço com espetos ao redor da perna durante uma hora diária para lembrar o sofrimento de Cristo.

No mundo de hoje, com Trump, Brexit, EI e tantos outros, grassa o fundamentalismo, representando um retrocesso radical (ou belicista) jamais visto. Esperemos que logo a tendência tenha um fim, e prevaleça a verdadeira obra de Deus.