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sexta-feira, 15 de abril de 2016

BRASIL: FIGA, SAL GROSSO, ALHO,

FERRADURA, PÉ DE COELHO, ESCAPULÁRIO...

Superstições são crenças, e, assim como os amuletos, existem e existiram em todos os lugares, culturas e épocas da humanidade. Servem a inventar coisas que não há para explicar o inexplicável, dotar objetos e seres vivos de poderes que não têm. Surgem da ilusão de se estabelecer uma relação causal entre fatos e coisas – tanto as que já aconteceram quanto as que se deseja que aconteçam - ou, ao contrário, as que se espera nunca aconteçam. Às vezes, é uma mentira engendrada para se evitar algo, a exemplo de "não se deve tomar leite e comer manga". Essa crença, bem brasileira, foi instigada pelos senhorios nos escravos, porque nas fazendas as mangueiras abundavam, cresciam como capim, se dizia. E o leite era privilégio das famílias brancas, nas casas grandes. Assim, como sobrava manga, principal alimento dos escravos, virou verdade a mentira de que a mistura poderia até matar. A ameaça podia estender-se a outros frutos, a depender do plantio local.
O hamsa é um amuleto que vem da Cartago das guerras púnicas, e, pendurado na porta, afastaria o mal da casa. Em árabe, a palavra quer dizer cinco, e o formato do objeto simboliza uma mão, geralmente bem pintada ou decorada com pedras e pingentes. Está presente também na cultura judaica, apelidado Shin, letra do hebraico, simbolizando Shaddai, “o Todo-Poderoso”.
Espécies de escapulários judaicos
A tradição católica criou proteções bem particulares, como os escapulários e ágnus-dei (medalhão de cera), aqui de herança portuguesa. Na cultura não-religiosa cristã, há os patuás (espécies de “bentinhos”), talismãs, figas e os já mencionados pés de coelho.

Esses últimos têm origem na Idade Média: os moradores das vilas, no inverno, abrigavam em suas casas esses animaizinhos, ótimos para aconchego e aquecimento. Na Grã-Bretanha, os coelhos, na crença celta desde antes de 600 a.C., eram tidos como animais da sorte, daí o hábito de, após um deles falecer, carregar um pezinho consigo para a rua, como proteção onde for.
O trevo (oxalis tetraphyla) de quatro folhas traz boa sorte, e é associado a Saint Patrick, bispo do século 14 e patrono da Irlanda, mas vem de bem mais longe, dos druidas celtas, sacerdotes cujas origens vêm de séculos antes, entre os romanos.



Druidas

O sal é um elemento de diversos significados. Do lado católico, a crença tem origem no oriente, como força que vem da terra. Serve de proteção, afasta mau-agouro e protege – haja vista seu uso no batismo, costume da tradição apostólico-romana. É comum ouvir falarem “vai passar sal grosso na cabeça”, ou “vá tomar banho com sal grosso”, e até que comer sal em casa de alguém sela uma amizade. Outra virtude do velho cloreto de sódio: é fertilizante. “Vós sois o sal da terra” (Mateus, 5:13). Por outro lado, derramá-lo na mesa traz malefícios, e no catimbó (feitiçaria que mistura elementos negros, indígenas e católicos), segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo, é poderoso no trabalho de preparação do mal. Segundo ele, reza a lenda que cobrir com sal a pegada de uma pessoa na areia é feitiço praguejador que só pode ser desfeito com água do mar, em uma espécie de ritual.
A figa (do provençal francês, “figo”), por sua vez, tanto pode ser feita com a mão fechada, polegar entre os dedos indicador e médio, ou vir representada para servir de amuleto da sorte e contra mau-olhado. Segundo Moacyr da Costa Ferreira, há uma versão caipira chamada ‘mão carnuda’ (cheia), com os dedos indicador e mínimo estendidos e os demais fechados, e serve para afastar o mal e ajudar na fertilização da mulher.
Curiosamente, este é também o gesto de saudação dos adeptos do rock “heavy metal”, mas certamente no caso evoca um dos símbolos de rituais de morte ou satânicos, que eles tanto dizem cultuar pour épater la bourgeoisie (chocar a burguesia, no jargão dos estudiosos), haja vista nomes de grupos como “Madame Saatan”, “Sepultura” e “Black Sabbath”.
A ferradura é outro amuleto do bem, pois além de proteger as patas do cavalo, entre os homens atrai felicidade e repele o mal. Símbolo de proteção, o amuleto vem dos mesmos velhos druidas, em suas práticas religiosas na Idade do Ferro, mas a ferradura só funciona se for encontrada ao acaso na rua e depois afixada na porta de casa, crendice de longa data que chegou a nós vinda da Europa durante a colonização. Nos escritos de Plutarco (46 a 120 d.C.), o ferro teria poderes mágicos, e era chamado “o osso dos deuses”, donde talvez a origem do amuleto.
Já o alho teria o poder de afastar vampiros, lobisomens, mulas sem cabeça e caiporas, e seu uso benéfico vem do Egito antigo, passando pelos países eslavos, especialmente a Romênia, onde fica a Transilvânia – sim, a do Conde Drácula.
Eu, sinceramente, não sou chegado a crendices ou emprestar poderes a símbolos e objetos. Passo por baixo de escada – claro, se o pintor não estiver em cima com uma lata de tinta -, cruzo caminho de gato preto, tomo sorvete cremoso de manga, deixo bolsa no chão... mas quando as coisas estão tão feias, mas tão feias, tanto quanto agora, passo a adotar aquela velha máxima galega (de Galiza, noroeste da Espanha): Yo no creo em las brujas, pero que las hay, las hay. Além de lutar com suas mãos e palavras por um futuro melhor, vale cada um se apegar a seu Deus, credo, crença, e até se preciso amuletos. Não creio que funcionem, mas que existem, existem. Ou ao menos podem ajudar a torcer e alimentar esperanças no futuro.




sexta-feira, 8 de abril de 2016

GÊNESIS, DILÚVIO, NOÉ E O FUTURO DO BRASIL

Parece que as coisas andavam mal na Terra, bastante mal. Os homens haviam passado os limites do permitido. Desonestidade, perversão, iniquidade, desavenças, maldade. Como primeira punição, Deus ensaiou de limitar a vida humana a apenas 120 anos. Os malfeitos do homem na terra tanto incomodaram ao Pai que ele achou que era hora de uma solução radical: exterminar toda a humanidade, e com ela os animais, pequenos ou grandes, as aves, répteis (Gênesis, 6:7). Enfim, toda a vida na terra.

Noé (Noach, do hebraico), porém, era um homem correto, andava com Deus no coração (era dele descendente direto, pois que, conforme o sagrado Pentateuco, era filho de Lameque, este de Matusalém, filho de Enoque, que viera de Jarede, cujo pai foi Sete, filho de Adão, e este de Deus). Constituiu família honrada, com mulher e três filhos, Sem, Cam (“Cham”) e Jafé. De Sem, “pai da raça branca”, descenderam os chamados semitas, que foram os assírios, aramaicos, fenícios, árabes e hebreus, os principais. De Cam, “pai da raça negra”, vieram os camitas, que compreendiam os povos e tribos do Saara setentrional às Ilhas Canárias, do norte da África ao Sudão e Egito, da Líbia ao Chade. Finalmente, de Jafé, “pai dos persas e indianos”, descenderam os jaféticos, que alguns chamam jafetistas.

Árvore de gofer
Porém, crendo na pureza de Noé, Deus confidenciou-lhe que um dilúvio sem proporções haveria de cobrir a terra até que todos os seres vivos desaparecessem, e que ele, Noé, deveria construir uma embarcação, e foi cuidadoso até nas instruções de como fazê-lo, para suportar tanto tempo durante o monumental castigo: “você, porém, fará uma arca de madeira de gofer; divida-a em compartimentos e revista-a de betume por dentro e por fora” (6:14).

Reconstituindo a arca
O cuidado divino chegou às dimensões necessárias para a obra: “faça-a com trezentos côvados (135 m) de comprimento, cinquenta (22,5 m) de largura e trinta (13 m) de altura” (6:15). Foi criterioso até nos detalhes do que tinha em mente, já que deveriam suportar a longa a jornada: uma embarcação de dimensões jamais vistas (cerca de 8.900 m²). Detalhou o teto, com as devidas medidas, a rampa e os três andares da nave (6:16).

Noé prometeu a Deus total obediência, e seguiu à risca as instruções recebidas. Temendo o fato de que todos os seres vivos sobre a Terra pereceriam, Noé agradeceu o Senhor e chamou sua esposa, três filhos e suas mulheres, que com eles começariam o repovoamento do mundo (6:18). Prosseguiu escolhendo casais de animais, para que com ele sobrevivessem. 

“De cada espécie de animal grande e de cada espécie de animal de pequeno porte que se arrasta no chão virá a você um casal, para que sobrevivam com você” (6:19). E foram sete casais de cada espécie. (Na Cabala judaica, sete é o número dos que gostam de mudanças e viagens. Os números do Gênesis – aliás, como tudo o mais no Antigo Testamento -  têm um significado, e eles se repetem várias vezes nas escrituras. A Cabala é pródiga desses códigos).

Noé tratou de acomodar na arca suprimentos que mantivessem todos vivos, durante o tempo necessário à sobrevivência ao dilúvio, de acordo com o que Deus lhe havia determinado (6:22). O Pai ordenou-lhe, também, que cuidasse de todos os detalhes, pois o dilúvio duraria nada menos do que quarenta dias e quarenta noites, até que desaparecessem da Terra “todos os seres que eu fiz” (7:4). E Noé tinha paciência, pois já tinha seiscentos anos de idade, e aquilo seria um sacrifício passageiro (7:6).
Déluge (óleo de Konstatinovich, 1864

Em sete dias, como determinara Deus, um volume enorme de água se abateu sobre a Terra. Os céus se abriram despejando o dilúvio, que terminaria em cento e cinquenta dias (na Cabala, o somatório dá 6, número da harmonia, do equilíbrio e da justiça). As águas foram se avolumando e, conforme previsto, a arca começou a elevar-se da Terra, flutuando (7:18). Todas as montanhas, até as mais altas, ficaram encobertas, só se via água. E tudo o que tinha “fôlego de vida” morrera (7:21).

O Ararat
“No décimo sétimo dia do sétimo mês - na Cabala, somando seis (1+7+7 = 15 = 6), número da vitória, da superação e do futuro de prosperidade, a arca repousou sobre o Monte Ararat” (8:4). Deus então refletiu: "Nun­ca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, pois o seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância. E nunca mais destruirei todos os seres vivos como fiz” (8:22).

Uma vez repovoado o mundo, sem mais ameaças de destruição, coube aos homens que desembarcaram da arca reedifica-lo, mesmo que, conforme o texto do Gênesis do Pentateuco, Deus tenha dito que “o coração (do homem) é inteiramente inclinado para o mal desde a infância”. Cito, outra vez, meu romance favorito do Machado de Assis, Dom Casmurro, em seu capítulo IX, “A Ópera”, um raio de lucidez e conhecimento da virtù: Deus escreveu a partitura, mas quem rege é o diabo. (E não é o que os descendentes de Noé, então, fizeram tudo mais uma vez?).

Se o leitor está se perguntando onde entra “o futuro do Brasil” do título deste artigo, sinceramente não sei. A quem será permitido embarcar na Arca? Os escolhidos, os justos, que se preparem para navegar no dilúvio, até que ao fim do prazo baixe a água. Até porque, mesmo que se lute pelo melhor, o futuro “adeus” pertence, reinventando o dito popular.


[Textos do Gênesis extraídos da Bíblia de 1681 de João Ferreira de Almeida, primeira tradução dos cinco idiomas originais diretamente para o português]