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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A SANGRIA DOS IMPOSTOS EM DUAS CRISES BRASILEIRAS


Marquês de Pombal (Jean-Michel van Loo e Claude Vernet - 1766)
A Capitação (de capita, cabeça) foi um tributo instituído pela Coroa Portuguesa em 1734, para acabar com a “ociosidade dos negros e vadios em geral” (sic). Recaía sobre cada cabeça de escravo de qualquer raça, e mesmo homens “pobres ou vadios”. Porém, a Coroa achava pouco, e, conforme o Marquês de Pombal (1699-1782), “ou se extinguia a Capitação ou Portugal perderia não só Minas, mas a própria Colônia”. 
Degredados
No final do século XVIII, o Brasil sofria com os abusos das autoridades e a cobrança de impostos, como a taxação do quinto (1/5) do ouro extraído, que já vinha desde 1534. Passaram a cobrar 100 arrobas, algo como 1.500 quilos anuais sobre o ouro obtido. As tentativas de burla à cobrança eram severamente punidas e chegavam ao degredo, ou seja, uma espécie de deportação violenta para algum território português na África. Claro que, a uma certa altura do Ciclo do Ouro, a diminuição da quantidade do metal extraído e a consequente perda na arrecadação já despertavam a ira de Portugal. 
Tapeçaria de tecelagem portuguesa
Como o ouro passou a escassear e a cobrança não atingia mais tal enorme volume, soldados foram autorizados a invadir as casas do povo de uma região e retirar tudo o que fosse de algum valor. A Inconfidência Mineira de 1789 foi uma rebelião contra a Coroa Portuguesa e a cobrança de impostos e confiscos. Mas a extorsão oficial já vinha de antes, 1785, quando a fabricação de tecidos em todo o território da Colônia fora proibida, de forma a coibir a competição com as indústrias portuguesas. 
Grupo Globo
Criar impostos, taxas e tributos sempre foi uma maneira de cobrir os monumentais gastos da máquina pública, e mesmo com as gritas contra supostas eventuais bitributações (cobranças em dobro) aqui e ali, eles persistem. O fantasma da CPMF, guardado insepulto no armário e vivo como nunca, surge no afã de arrecadar um volume enorme de recursos, 32 bilhões, pouco mais de 1% do orçamento anual do país para 2016, de 3,05 trilhões.  
Pezão, governador do Rio
Houve até dança de tributos e números às vésperas do badalado réveillon carioca, dia 29 de dezembro passado: o governo do estado do Rio de Janeiro sancionou a lei 7.174/15, que aumenta a alíquota do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) que é cobrado sobre o bem herdado ou recebido em doação. Antes, eram 2,5%, depois, avançaram para 4%, e agora saltam para 4,5%, ou 5%, conforme o caso. Os preços dos imóveis no mercado do Rio são altíssimos, e até os de outras grandes cidades, como Niterói, Campos de Goytacazes, São Gonçalo e Duque de Caxias, além de estâncias como Petrópolis e Teresópolis. A sangria da Colônia se repete, e como disse um economista e pensador do passado, desta vez como farsa.  
Evolução do ITCMD
Tomemos um exemplo prático, o do herdeiro de um imóvel no valor de R$ 1,3 mi: ele teria de desembolsar R$ 91.000,00 de ITCMD, já somados os 2% de Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), da esfera municipal, para ter direito ao bem recebido por direito. Pior ainda, o imposto devido pelo usufrutuário – que não é proprietário, mas tem ‘usos e frutos’ de um imóvel por ele doado passou a 100% do valor, contra os 50% anteriores. Isso quer dizer também que, no caso de falecimento do doador que tem o usufruto do imóvel, o ônus recairá integralmente sobre os herdeiros, se o ITCMD já não tiver sido pago no ato da transmissão por doação em cartório. Recebe-se um imóvel, mas para tê-lo pagam-se impostos enormes. 
(marioquintanaresidencial.com)
Considerando a média do preço do metro quadrado na cidade do Rio, R$ 8.514,00, conforme pesquisa com quase 69 mil unidades feita pela Agente Imóvel, um apartamento básico de 100 m² valeria R$ 851 mil. E isso é a média. Já na região de Ipanema, onde o preço às vezes supera em muito os 20 mil/metro, um apartamento de 150 m², metragem nada exuberante para a área, vai custar mais de 3 milhões, e os impostos (ITCMD e ITBI) chegarão a 210 mil. 
Um apartamento antigo em Ipanema, daquele sobre pilotis, com 107m², a cinco quadras da praia, mais perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, chega a custar 1.850 mil (R$ 129.500 de imposto), enquanto um na aprazível Vieira Souto, na orla da praia, coisa de 25 milhões (1,75 milhões para os mesmos tributos).
Prédios de apartamentos na Av. Vieira Souto


Nessa profusão de siglas e percentuais crescentes, temos a tributação “causa mortis” no Rio recaindo também sobre direitos relativos a planos de previdência (PGBL) ou ainda o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). A criação de novos impostos, tributos e taxas é uma bola de neve, já que, uma vez bem sucedida, todos tendem a copiar, na frente o governo federal, campeão na prática da taxação. 
STF no julgamento da ADI 1923 (OS): 17 anos
Uma vez aprovados por lei, a tentativa de contestação dos impostos poderá ser feita por meio de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no STF, um processo excessivamente moroso e complicado, dado o imenso acúmulo de ações no Supremo – coisa de uns bons anos. Sei que é cansativo, sim, ouvir falar de cifras, mas minha consciência de cidadão deve estar acima de minhas preferências pessoais. 

Afastado o risco da violência física ao estilo da derrama colonial e suas invasões, o que vemos hoje é um enorme achatamento de todas as classes e reflexos no já alto custo de vida dos mais pobres, a reboque do aumento das alíquotas e mesmo criação de mais e mais impostos. Nossas casas são invadidas não pela derrubada de portas e intrusões como na época da Colônia, mas sim pela nossa entrada principal e sem boas-vindas ou pedir licença, contas da novena nossa de cada dia, esse rosário sem fim.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

EU VOU TAXAR A RUA E SEUS PÉS (de graça, só o chão pra dormir e a concessão pra sorrir)

Liverpool
"Se você dirigir um carro / eu vou taxar a rua / se tentar se sentar / eu vou taxar seu lugar / se esfriar muito vou taxar seu calor / se você for andar / eu vou taxar seus pés". Taxman (literalmente, "homem da taxa", ou cobrador de impostos) é uma beleza de letra de George Harrison do LP Revolver (1966). Os Beatles, grupo formado por quatro jovens da cidade portuária inglesa de Liverpool, não eram politizados - apenas Lennon, mais tarde, por influência da esposa e guru Yoko Ono, abraçou as causas libertárias do gênero "paz e amor". (Ouça, abaixo, Taxman, dos Beatles)


Distribuição da receita no RU: 59% para a área social,
5% para a defesa e 2% para a cultura
O imposto de renda básico (fonte: www.gov.uk) na Inglaterra é de 20% para quem ganha até o equivalente a R$ 15.800,00 ao mês (e ainda há o chamado personal allowance de R$ 5.300,00, que é algo parecido com a nossa “parcela a deduzir”). Desse patamar até R$ 75.000 mensais, um belíssimo salário, aliás, são descontados 40%. A próxima faixa vai desses 75 mil em diante, com acréscimo de 5%. Ao se comparar as taxações sobre renda, é leviano dizer que no Reino Unido elas são de 50%. E isso tem sido dito e publicado por alguns próceres da nossa república, em defesa do aumento de impostos em nosso país, hoje malvisto pelo investimento externo e com muita pobreza. Não existe INSS inglês, ele já está embutido no Imposto de Renda. Mesmo assim, há uma imensa contrapartida: transporte público exemplar, um sistema de saúde pública (NHS) que é considerado o melhor do mundo, nível dos nossos melhores hospitais e clínicas particulares. Se você aqui paga um convênio médico, veja o seu custo-saúde, que para o cidadão britânico é zero. Esse custo que pagamos significa renda a menos para a classe média brasileira!

Nos EUA, a primeira faixa de imposto, de até R$ 13.300,00 mensais, é taxada em 10% até R$ 3.025, e daí em diante, o que restar, em 20%. Para quem ganha até R$ 137.733,00 mensais, salário para classe A nenhuma botar defeito, o imposto é de 35% (fonte: Federal Income Tax) - exatamente a maior alíquota que nossos tecnocratas tupiniquins querem agora arrancar a fórceps já a partir de renda muitíssimo menor.

Carga tributária brasileira
Hoje, no Brasil, se você recebe R$ 4.664,00, o corte já será de 27,5% (compare com RU e EUA!). E somem-se os 11% de INSS: são 38,5%. Nos EUA, o Social Security desconta 6,2% do cidadão e o mesmo tanto paga o empregador. Nossa carga tributária total esbarra nos 40% do PIB!



Getúlio entre amigos (1930)
Em Boston, meu contracheque destinava cada parte do imposto já dividindo-o entre união, estado e município, de forma que as taxas, centralizadas, não têm como escorrer, como aqui, por dutos e ralos misteriosos (hoje bem conhecidos) até seu destino. Verbas públicas tornam-se moeda de troca para favores via emendas parlamentares, ou benesses generosas do executivo para estados e cidades ‘amigos’ do governo, sob a ética de Getúlio: "aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei".

A derrama
No Brasil, desde muito antes da “derrama” dos inconfidentes, sempre houve cobranças extorsivas. Hoje, há impostos que embutem outros, indiretos, em uma equação em espiral: entre os impostos federais, o II (sobre importações), o IE (exportação), o IPI (produtos industrializados, que o governo quer aumentar!), o IOF (operações financeiras), o ITR (rural) e o IGF (grandes fortunas, ainda não regulamentado).  Fora o JCP (juros sobre capital próprio), Pis e Cofins, “contribuições” tributárias empresariais. E há as taxas que podem sofrer reajuste com uma “canetada”, sem passar por lei, como o CIDE (importação e venda de combustíveis). Já os impostos estaduais são: ICMS (mercadorias e serviços), o IPVA (veículos) e o ITCMD (causa mortis e doação), hoje em 4% em SP, e que o ministro da Fazenda quer equiparar ao de alguns países do 1° mundo: 40%! O ICMS é cobrado em uma média de 25 a 30% para a maioria dos estados e chega a 38% na Bahia! (Nos EUA, o state tax é cobrado no máximo em 7%). 
"Impostômetro" (ver cada segundo de 01/01 até hoje em http://www.impostometro.com.br/


Casa à venda em Marília, interior de SP: R$ 130 mil
Se vingar, para receber uma herança de um imóvel de 100 mil (vale a tabela do imposto, não o valor venal), o cidadão terá de desembolsar 40 mil, ou tentar vende-lo por um contrato particular, prometendo saldar o imposto após o recebimento do sinal, ou deixar leiloarem, um péssimo negócio. Por sua vez, os impostos municipais são o ISS (serviços), o IPTU (propriedade predial e territorial urbana) e o ITBI (transmissão de imóveis inter vivos).

Jatene: um cirurgião idealista
O IPMF foi um “imposto provisório” instituído em 1993 por Itamar Franco. Voltou como CPMF a pedido do cirurgião Adib Jatene, então ministro da saúde de FHC, para erguer a medicina pública claudicante no país. Triste sonhador, o médico viu seu imposto ser usado para cobrir gastos outros, e durou um ano, sendo enfim rejeitado pelo Senado em 1997 (em 1996, frustrado, Jatene já havia largado o cargo com protesto público). O ICMS ressuscitou como IOF em 1999. O atual governo quer emplacar novamente o imposto, para gerar caixa (porém, creia, sem revogar o IOF, seu substituto!). O coro dos contrários e a base política, em franca oposição, matou na praia a volúpia arrecadadora, que ainda resiste. (Detalhe: à parte o fato de um imposto ter substituído o outro, no afã do governo de somá-los, o primeiro incide sobre "operações financeiras", o segundo sobre "movimentações financeiras", o que deixa claro que há convergências claras, então haveria a chamada "bitributação", vedada pela Constituição. Com a palavra os tributaristas e constitucionalistas). 

Joaquim Levy (exame.com.br)
O atual ministro da Fazenda é um tecnocrata, homem de banco privado que pelo seu costume de ofício vê as verbas públicas como cifras de contas bancárias e balancetes, expurgando da equação as consequências sociais e econômicas da implantação de mais tributos. Impostos, ora, impostos... são números, apenas. Os anunciados cortes de gastos públicos são como um curativo em uma hemorragia. Se a presidente e seu ministro não leram Maquiavel, no mínimo deveriam conhecer a Bíblia, o Míshié Shelomon, ou  “Provérbios de Salomão”), de muito, muito antes de Cristo, em especial os versículos 2 e 4 do capítulo 29:




O subtítulo deste artigo devo ao desabafo de “Deus lhe pague” do Chico: “por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir / a certidão pra nascer e a concessão pra sorrir / por me deixar respirar, por me deixar existir / Deus lhe pague”.  O pãozinho e a certidão de nascimento estão bem caros para os pobres. Mas restam-lhes de graça o chão para dormir, o sorriso e o poder existir. (Ouça abaixo "Deus lhe pague").