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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

GENTILEZAS, SORRISOS, VACINA, LUZ BALÃO


Sexta-feira, 10 de dezembro
. Depois de uma tentativa quatro dias antes que terminou frustrada pela busca por uma vaga para estacionar e uma longa fila, fui receber minha dose de reforço da vacina, dessa vez da Pfizer. O The Guardian publicou: cientistas descobriram que duas doses de AstraZeneca com complemento da americana praticamente garantem contra o ataque da desvairada cepa ômicron! Se necessário, que venha uma quarta dose. Estava decidido: ou ir ou ir.


Segunda tentativa
. Fui ao ginásio Nebam Ayrton Senna, não por acaso nome de um de meus heróis, um vencedor. Mas ainda faltavam vagas para estacionar perto da escola, teria de andar muito e encarar uma rampa com bengala, minha companheira em terrenos irregulares, tanto no declive quanto no aclive. Com o carro, aproximei-me de um guarda municipal e bastou abrir a janela direita para que ele se aproximasse, solícito. Perguntei-lhe onde poderia estacionar, mostrei-lhe a bengala e ele, apontando para dois carros na diagonal, disse que eram de funcionários, só sairiam dali à tarde, e que eu parasse logo atrás. Satisfeito, estacionei de comprido, no sentido da rua. Já ia desligar a chave quando vi o mesmo guarda acenar, me chamando. Fui em frente e ele me disse acabou de sair um, poderia usar uma vaga na diagonal! Com reflexo de músico, bati palmas umas três vezes, em agradecimento. Que gentileza!


Consegui subir pela calçada
até a entrada do ginásio. Desci a rampa me escorando na parede com a mão esquerda; na direta, a bengala mágica, tudo bem devagar. Cruzei com uma senhora de mais de 80 anos que subia e me perguntou se eu precisava de ajuda. Ela estava com um rapazinho em cujo braço se apoiava, que presumo seria seu neto. Não, obrigado, respondi, muito obrigado! Ela ainda deixou escapar um discreto “cuidado”! Cheguei no ginásio, metade das cadeiras ocupadas, nem me sentei, fui logo chamado por uma moça que estava na entrada. Ela me pediu que fosse direto a uma outra atendente, que, de pé com um microfone, anunciava os números das senhas na ordem sorteada, e encaminhou-me logo para a última mesa, vaga, onde um rapaz olhou meus documentos e preencheu a cartela, deixando-a pronta para a vacina. Dirigi-me a uma pequena fila de candidatos prontos para a inoculação e, mal cheguei, era minha vez.


Como aconteceu com todos os outros interlocutores
, fui recebido com gentileza e sorrisos. A enfermeira preparou meu braço, e eu o relaxava lembrando as lições do livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, do filósofo alemão Eugen Herrigel, professor universitário no Japão, que relata sua experiência com um mestre arqueiro budista: não é o braço que joga a seta, ele apenas a solta, como uma criança faz depois de atravessar uma rua com seu pai, deixando ir o dedo que o guiava. Herrigel soltou a flecha e acertou na mosca, num gesto sem ação física. Braço caído e absolutamente inerte, como eu ensinava na prática do arco de instrumentos musicais – está em meu livro O Arco (Vitale) -, nem senti a mão de fada da enfermeira que me aplicou a dose, para depois sorrir e dizer: prontinho, vacinado! Fiz o percurso de volta para o carro e, claro, a tradicional selfie para incentivo na rede social. Foi uma vitória entre gentilezas, sorrisos e amabilidades. Ganhei o dia.


Dia 24/04, da primeira dose da AstraZeneca
. Fui para a Praça Adelaide Guedes, e após uma hora na fila de automóveis cheguei ao drive-thru. Braço na janela, fui logo vacinado. Gentilezas da primeira atendente, que me orientou, e de uma simpática vacinadora. Uma ótima sensação porque, mesmo tendo sido vacinado na minha infância com as doses a que todos os brasileiros têm direito, era a minha primeira inoculação contra o famigerado vírus da Covid.

(Foto: divulgação)

Dia 13/07, segunda dose conforme a cartela de vacinação
. Novas instalações da Prefeitura de Tatuí - aliás, um belo prédio, então ainda por ser inaugurado, pessoas gentis e com sorrisos vincando suas máscaras e cantos dos olhos mostravam o local de cada vacina. Dirigi-me à da AstraZeneca e, feliz, recebi minha segunda cota. Misto de felicidade e alívio, minha proteção estava aumentando! Desta segunda vez, operação muito bem organizada cujo percurso não durou meia hora.


E que venha uma quarta dose
de reforço, como apregoam alguns cientistas - estarei bem protegido, se não surgirem as reticências de uma nova cepa terrível. Mas essa proteção nunca será realmente efetivada sem que um contingente enorme também o faça - a imunização não é um capacete com máscara e tubo de oxigênio, como os dos pilotos de jatos supersônicos: ela precisa de todos, só funcionará para nos libertar com um mínimo de 70% dos cidadãos do mundo vacinados com duas doses – Tatuí chegou a 75,1% na semana passada! Os entraves são a indigência de certas regiões e de muitos países africanos; ou, nos EUA, de cidadãos antivaxxers: 22% da população!


Impossível esquecer Tecendo a Manhã
, do poeta João Cabral, meu favorito ao lado do Drummond: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro, e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão”.



  

sábado, 27 de abril de 2019

A MÚSICA DOS MEUS PRIMITIVOS MODERNISTAS

O  jardim "do seo Francisco"

Francisco de Souza mora em Petrópolis. Negro, magro, idade não sabida, jardineiro por profissão. Caprichoso, cuidava do jardim da casa dos meus pais e de outras no entorno do bairro. Perfeccionista, apegava-se ao trabalho com carinho, mas talvez antes de jardineiro fosse verdadeiro artista. Depois que meus pais se foram, a casa foi vendida e Francisco não quis saber de continuar, desistiu. Talvez até da pintura, sua vocação nas horas de descanso.
Uma de suas telas, de 60 x 40cm em tinta acrílica, adorna a entrada da minha casa. É um assombro. Primitivista? Talvez, mas certo surrealismo não é estudado, saía de dentro dele naturalmente. No quadro, descrevia o jardim do jeito que o via: plantas e flores enormes, maiores algumas vezes do que as pessoas (insignificantes diante do poder da natureza que ele conhecia). No canto esquerdo, a pequena figura de um clarinetista sentado sobre uma raiz. Ainda menor, perto dele, um violinista que lembra um duende sentado dentro de uma vagem seca de fava. Ao centro, diminuta, uma flautista, e à direita dela, um homem toca um enorme violão na vertical exatamente como eu segurava o contrabaixo. Surrealista? Mas com certeza nunca ouviu de Salvador Dali, Max Ernst ou Joan Miró. Surreais em Francisco eram os olhos com que ele via a natureza, imponente, poderosa e plena de mistérios e fantasias.
Eu lecionava na ECA/USP quando conheci Jonas, um porteiro do prédio central. Certo dia, descobri que ele também cultivava o hábito de pintar. Encomendei-lhe uma tela que retratasse um violoncelista. Quando a vi, fiquei fascinado com a paisagem campestre, um céu bem azul encimando o verde, pinceladas de certo sotaque francês. Mais à frente, uma cerca baixa a separar essa visão pastoral de um estranho violoncelista e seu instrumento, meio que se apoiando sobre o joelho direito. Pernas e braços avantajados e algo distorcidos, de longe me remete ao magnífico Abaporu, da Tarsila do Amaral, mas não imagino que Jonas tenha visto alguma reprodução da obra-prima modernista em algum lugar. O braço direito e o arco descrevem uma curva, quase um grande finale à maneira do virtuose Mstislav Rostropovich (este tenho certeza de que ele não conhecia. Ou penso eu que não). No canto, assinou ADJonas, sem data, presumo que por volta de 1996.
Tanto gostei que lhe pedi outra obra, sugeri que fosse mais uma vez sobre um violoncelo. Prazo falado, prazo cumprido, e lá estava meu outro instrumentista, de incrível semelhança com o primeiro, até na cabeça, abaixada e em proporção menor em relação ao resto do corpo, parece que em súplica e submissão (à natureza, tal como Francisco). Só que agora essa versão basicamente transforma a paisagem campestre em ondas do mar que, músico ao centro, se derrama sobre um piso quadriculado, azulejos cor de tijolo e azul. À direita do violoncelista, as ondas avançavam mais do que as do lado esquerdo, num deslocamento curioso sobre onde que deveria ser areia, uma espécie de tabuleiro bem à maneira da op-art (Arte Óptica), lembrando o húngaro Victor Vasarelli. A água do mar tem o músico como seu Moisés, divide-se e faz dele seu costado para rebentação. Essas obras preciosas de Jonas merecem estar vizinhas, e o lugar ideal, pensei, seria a escada de madeira que leva ao mezanino. A subida é uma promenade, um passeio como o de Viktor Hatmann em Quadros em uma Exposição, descrito musicalmente por Mussorgsky.

Henrique Boliani, figura querida, também era porteiro, mas na Escola Municipal de Música do Theatro Municipal de São Paulo (fundada em 1969), onde fui diretor. Apesar de às vezes resmungão e ranheta, escusável por difíceis problemas familiares, era sempre amigo, era o meu faz-tudo em casa, nas horas vagas. Descobri que também tinha um grande talento como artista plástico: sobre um antigo LP, bolachão de baquelita de 78 rpm, pintou-me tocando um violino que eu não tocava, baseou-se em uma foto de uma matéria do Estadão em que posei a pedido do repórter, instrumento ao ombro.
Boliani pintou para mim a obra-prima que terminou virando capa do meu livro O Arco (Ed. Vitale), escrito a partir de minha tese de doutorado na USP. Toque cubista, cores fortes, expressava talvez músicos que costumava ver pela escola. Uma obra tão bela que o profissional que fotografou a capa do livro teve medo de leva-la para o estúdio, poderia até ser roubado, disse. As cores fortes em manchas no violoncelo se repetem no fundo, projetando-o para a frente em plano. Assina HBoliani, data pouco clara.
Henri Rousseau
Ora, falei de um jardineiro e dois porteiros fazendo o que se chama arte naïve, embora de ingênuo neles eu não veja nada. Nem primitivistas, coisa mais para os flamengos, os italianos do século 15, ou o autodidata Henri Rousseau, do séc. 19. Ou espontâneos como Van Gogh. Mas quando a pintura tem uma história por trás, como as minhas, há um valor intrínseco, inestimável por quem a possui.