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Mostrando postagens com marcador João Cabral. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

MORREU DE QUÊ?

 


A
curiosidade humana não tem limites. Não gosto de responder a perguntas invasivas da minha vida ou de terceiros, opto pela evasiva: não sei, digo, mesmo sem saber sabendo. Uma vez, atacado por algum insight poético, ao ser perguntado sobre o falecimento de um avizinhado comum, lembrei João Cabral, em Morte e Vida Severina: “e foi morrida essa morte, irmão das almas, essa foi morte morrida ou foi matada?” Aproveitei a ideia súbita e respondi: essa morte foi morrida (apesar de que em Cabral a resposta foi “até que não foi morte morrida, irmão das almas, esta foi morte matada numa emboscada”). Devolvi uma reposta com a licença poética do mestre pernambucano, não era da conta do meu interlocutor, ele que ficasse sabendo por terceiros. E se eu dissesse que morreu de síndrome edemigênica, causa mortis de uma personalidade famosa que nos deixou recentemente, ou, talvez, paniculite com sepse, já diria outro. Bastaria ao curioso? Não, o franco-atirador fuxiqueiro quer uma resposta banal, que lhe baste aos ouvidos sem esforçar-lhe o cérebro. (Ressalvas para os que extravasam sua angústias em oração nas redes ou, se for de sua escolha: “tiro, porrada ou bomba”, como disse o ícone das comunidades Valesca Popozuda, artista menos conhecida por seus dotes vocais do que por outros predicados).



E
ntrevero semelhante surge com “quanto custou?”, “vendeu por quanto?”, “pagou quanto?”, “quanto você ganha?” Que diabos interessa a um curioso a vida financeira de alguém? (Aprendi com minha mãe que este não é assunto para voz alta, se não por fofoca ao menos por segurança). Já dei sermão, expliquei que não se pergunta isso, fora se tiver muita intimidade, ou, como no caso da morte matada, aguarde-se elucubrando que alguma hora vai se tornar público. A imaginação nesses tempos de hoje nos remete à dos tempos de antanho: foi Covid, no primeiro caso, ou foi Aids, como no passado. No caso de doença infectocontagiosa, ainda há algum sentido: a prevenção, o controle endêmico, o alerta, se o “de cujus” era amigo ou parente, mas não convém sair por aí cuspindo suposições sem que haja absoluta convicção: Pode criar preconceito ou terror que não deveria existir, caso a informação seja falsa. Nos idos da eclosão da Aids, ninguém podia mudar de comportamento e principalmente emagrecer - quem não se lembra do sucesso da Rita Lee “Não, titia, eu não tô com leucemia”, a respeito de boatos? (“Que ideia mórbida, há há há há / que ideia sórdida, há há há há”).


Operou de quê?” Ora, se a pessoa não diz é provável que não quer que se espalhe. Já se sabe que operar tem múltiplo significado: João opera uma máquina, Hans opera um cálculo, Márcia opera no mercado de capitais – e, na literatura, há o cortejado romance “Ópera dos Mortos”, de meu pai, Autran Dourado. (Mas, acima de tudo, só Deus opera milagres!). Como substantivo, há o italiano “opera”, obra, trabalho: como deixar de mencionar as belas encenações lírico-dramáticas do repertório operístico: La Traviatta, Don Giovanni, Nabucco, Il Guarany? Já cirurgicamente, opera-se uma verruga, o panarício de uma unha encravada, apendicite, pontes de safena ou mesmo um transplante de fígado ou coração. Então, operou o que ou de quem? Em A Ópera, 9° capítulo de Dom Casmurro, Machado de Assis deixa no ar: “Deus é o poeta. A música é de Satanás”.


O
tipo curioso é uma daquelas crianças que mexe e fuça, cresce assim, quer saber de tudo e, salvo honrosas exceções, hoje quer buscar seu instinto e paixão embotados às custas da vida alheia. “E os teus desejos ferventes vão / batendo as asas na irrealidade / O que tu chamas paixão / é tão-somente curiosidade” – Manuel Bandeira, em “Poemeto Irônico” (1917) de “A Cinza das Horas”. Eu confesso que fui uma criança curiosa! Meu pai, bom mineiro interiorano da sabença de passarinhos, chamava-me “menino-curió” - em tupi-guarani curió é ‘amigo do homem’, que vive ciscando nas aldeias. Mas aquela curiosidade infantil, com os tempos, fui trocando pelo desejo indomável de saber, daí minha carreira de educador e pesquisador. ‘Mas veja, ilustre passageiro’, as grandes descobertas nasceram da curiosidade, com a mãozinha de algum acidente que derruba uma maçã na cabeça ou transborda a água do banho do cientista. Não me proponho a descobrir ou inventar nada grande como Newton ou Arquimedes, apenas sinto-me feliz quando compreendo alguma coisa nova, conquisto um degrauzinho de formiga que seja.


M
as afinal, fulano morreu de quê? E sicrano foi operado de quê? Se em sigilo, permanecerá guardado – “segredo entre três só matando dois”, diz o vulgo -, se importante para a comunidade, basta o suficiente, e se for para ajudar a desvendar um crime, uma ladroagem, abre-se o saco de verdades. Há de haver sempre um bom propósito. Delação não, delação é interesseira, embora ferramenta útil em nosso direito, nossa velha política, passando pela alcaguetagem. Com o advento descontrolado das redes sociais, o direito à vida privada anda cada vez mais rarefato! Mas veja, que curioso (opa!): no mundo político e das ‘celebridades’ o que é privado pode tornar-se interessante para o (bem) ou malfalado se lembra aquela frase atribuída ao Carlos Imperial, inspirada no escritor Oscar Wilde e este no irlandês Henry King: “falem mal, mas falem de mim”.  

Pensei em chamar este texto “A taxonomia dos curiosos”, mas pode servir de pós-título. (Taxonomia, segundo o Houaiss, “é a ciência que lida com a descrição, identificação dos organismos, individualmente ou em grupo”).

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

FOI BONITA A FESTA, HORA DE TECER A MANHÃ

 


P
assada a ressaca da eleição, valem algumas considerações. Em primeiro lugar, venceu a Nação, pela tranquilidade com que o pleito se realizou, levando em conta as nossas dimensões continentais, polarizadas entre dois blocos, cindindo a população. O lado negativo fica por conta da ocupação de estradas não por motivos salariais e afins - que poderiam justificar uma greve dentro do que a lei permite, liberando parte da rodovia para não prejudicar os que precisam passar, como famílias e cargas especiais. Outro dado negativo foi a atuação ostensiva da PRF em estradas nacionais, principalmente do Nordeste, segundo se informou uma ‘operação padrão’ para o controle das rodovias. Felizmente, nada mais aconteceu, e, segundo do presidente do TSE, Alexandre de Moraes, no cômputo geral os passageiros continuaram as viagens após as operações, podendo exercer o seu direito de votar.


S
obrepujando esses inconvenientes, a caminho das urnas com o objetivo de escolher os governantes dos estados ainda não eleitos e, principalmente, o dirigente máximo da Nação, aflorava o orgulho de sermos brasileiros. Com apenas uma ou duas escolhas no teclado eletrônico, sem os atrasos creditados à estreia do registro biométrico, a votação transcorreu sem maiores problemas. A população compareceu e saiu com a altivez cívica do dever cumprido, escolhendo um futuro com mudanças – afinal, não é este um dos pilares da democracia, a alternância? E quem sabe não será essa a ocasião para que, já no início da próxima gestão, possamos retornar via PEC ao mandato único de cinco anos, conforme fixado anteriormente pela CF de 1988? A Emenda Constitucional 16/97 transformou o segundo mandato, ou ao menos seu ano final, em campanha para reeleição: prejuízos ao Tesouro e à normalidade do país. A reeleição, suas virtudes, vícios e vicissitudes devem ser reavaliados, e isso já se evidencia de há muito. Trata-se de assunto para o nosso Legislativo - para isso elegemos nossos representantes -, cabendo à sociedade civil exercer o legítimo direito de pressão e cobrança.

Av. Paulista

S
im, “foi bonita a festa, pá”, lembrando o Chico, a Paulista com 700 mil pessoas (segundo o The Guardian), a Cinelândia outro tanto, mais capitais e muitas cidades pelo país. O presidente eleito, aos 77, com problemas de impostação vocal, terminou seu discurso após longas, e por várias vezes dispensáveis pela longueur, apresentações de apoiadores. (Lembrou o cantor Jorge Ben, em apresentação de Charles, Anjo 45, no IV FIC: “tô rouco, Charles, tô rouco!”). Surpreendente, também, a estamina popular, gente de todas as idades, para resistir horas de pé. Sim, “foi bonita a festa, pá”, mas desde agora há de se encarar o batente: É de bom-tom o presidente eleito visitar alguns dos principais líderes mundiais – e foram 88, até 1/11! - que lhe mandaram cumprimentos, como Joe Biden (EUA), Emmanuel Macron (França), Rishi Sunak (Reino Unido), Joseph Borrel (União Europeia), Pedro Sánchez (Espanha), Antônio Costa (Portugal), XI Jinping (China), países do Mercosul, América Latina e outros.


N
esse curto espaço de tempo, até a posse de fato do eleito, no primeiro dia do ano de 2023, há que se formar talvez não um consenso da base, mas ao menos uma direção na escolha de ministérios, constituição das pastas, organogramas, indicação dos chamados cargos de livre nomeação e exoneração, que esperamos de competência técnica antes de política. E saber preservar os melhores profissionais que porventura tenham ingressado na gestão anterior. Apaziguar, mais do que nunca, pois não faltam lutas insanas: há um conflito real na Ucrânia que mata inocentes e esfacela a economia mundial, criando uma inflação no Brasil temporariamente estancada a bíceps em alguns produtos, como a gasolina, e que acomete a maioria dos países, não raro como um turbilhão. É difícil o momento, sim, mas a festa acabou, pá, e é hora de começar a arrumar a casa com disposição e vigor.


H
á que se dialogar, para que os que divergem possam ter espaço para exprimir democraticamente suas opiniões e posições; há que se contemporizar, remover barreiras e juntar os cacos que porventura possam ter resultado de embates necessários, quando civilizados, ou excedentes, se à margem dos contornos delimitados pelo Estado de Direito. Há que se pensar urgente nos que mal têm um prato de comida por dia, nos que “têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”; nos que não têm onde se abrigar, nos que estendem a mão ‘pelo amor de Deus’ para dar de comer aos seus filhos (o pelo amor de Deus da fé de cada um e mesmo dos incrédulos – voltando ao Chico, “e eu que não creio peço a Deus por minha gente, e é gente humilde, que vontade de chorar”).

Paz para o novo ano que se aproxima! Que os desejos mais profundos, libertos ou ainda represados nos corações e mentes sejam contemplados; que os homens caminhem para o destino que lhes foi traçado nas origens, que é o da fraternidade e do amor; que a vitória seja não mais do que o momento de uma disputa, e que junto a ela derrota perca o sentido de conflito - palavras cujos significados existirão de fato em nossa história. Que a paz e o direito à opinião sejam a imensa bandeira de todos, preservadas as divergências de onde emergem as soluções. Pensando agora em João Cabral, que seja uma imensa flâmula branca imaginária “se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação”.





 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

GENTILEZAS, SORRISOS, VACINA, LUZ BALÃO


Sexta-feira, 10 de dezembro
. Depois de uma tentativa quatro dias antes que terminou frustrada pela busca por uma vaga para estacionar e uma longa fila, fui receber minha dose de reforço da vacina, dessa vez da Pfizer. O The Guardian publicou: cientistas descobriram que duas doses de AstraZeneca com complemento da americana praticamente garantem contra o ataque da desvairada cepa ômicron! Se necessário, que venha uma quarta dose. Estava decidido: ou ir ou ir.


Segunda tentativa
. Fui ao ginásio Nebam Ayrton Senna, não por acaso nome de um de meus heróis, um vencedor. Mas ainda faltavam vagas para estacionar perto da escola, teria de andar muito e encarar uma rampa com bengala, minha companheira em terrenos irregulares, tanto no declive quanto no aclive. Com o carro, aproximei-me de um guarda municipal e bastou abrir a janela direita para que ele se aproximasse, solícito. Perguntei-lhe onde poderia estacionar, mostrei-lhe a bengala e ele, apontando para dois carros na diagonal, disse que eram de funcionários, só sairiam dali à tarde, e que eu parasse logo atrás. Satisfeito, estacionei de comprido, no sentido da rua. Já ia desligar a chave quando vi o mesmo guarda acenar, me chamando. Fui em frente e ele me disse acabou de sair um, poderia usar uma vaga na diagonal! Com reflexo de músico, bati palmas umas três vezes, em agradecimento. Que gentileza!


Consegui subir pela calçada
até a entrada do ginásio. Desci a rampa me escorando na parede com a mão esquerda; na direta, a bengala mágica, tudo bem devagar. Cruzei com uma senhora de mais de 80 anos que subia e me perguntou se eu precisava de ajuda. Ela estava com um rapazinho em cujo braço se apoiava, que presumo seria seu neto. Não, obrigado, respondi, muito obrigado! Ela ainda deixou escapar um discreto “cuidado”! Cheguei no ginásio, metade das cadeiras ocupadas, nem me sentei, fui logo chamado por uma moça que estava na entrada. Ela me pediu que fosse direto a uma outra atendente, que, de pé com um microfone, anunciava os números das senhas na ordem sorteada, e encaminhou-me logo para a última mesa, vaga, onde um rapaz olhou meus documentos e preencheu a cartela, deixando-a pronta para a vacina. Dirigi-me a uma pequena fila de candidatos prontos para a inoculação e, mal cheguei, era minha vez.


Como aconteceu com todos os outros interlocutores
, fui recebido com gentileza e sorrisos. A enfermeira preparou meu braço, e eu o relaxava lembrando as lições do livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, do filósofo alemão Eugen Herrigel, professor universitário no Japão, que relata sua experiência com um mestre arqueiro budista: não é o braço que joga a seta, ele apenas a solta, como uma criança faz depois de atravessar uma rua com seu pai, deixando ir o dedo que o guiava. Herrigel soltou a flecha e acertou na mosca, num gesto sem ação física. Braço caído e absolutamente inerte, como eu ensinava na prática do arco de instrumentos musicais – está em meu livro O Arco (Vitale) -, nem senti a mão de fada da enfermeira que me aplicou a dose, para depois sorrir e dizer: prontinho, vacinado! Fiz o percurso de volta para o carro e, claro, a tradicional selfie para incentivo na rede social. Foi uma vitória entre gentilezas, sorrisos e amabilidades. Ganhei o dia.


Dia 24/04, da primeira dose da AstraZeneca
. Fui para a Praça Adelaide Guedes, e após uma hora na fila de automóveis cheguei ao drive-thru. Braço na janela, fui logo vacinado. Gentilezas da primeira atendente, que me orientou, e de uma simpática vacinadora. Uma ótima sensação porque, mesmo tendo sido vacinado na minha infância com as doses a que todos os brasileiros têm direito, era a minha primeira inoculação contra o famigerado vírus da Covid.

(Foto: divulgação)

Dia 13/07, segunda dose conforme a cartela de vacinação
. Novas instalações da Prefeitura de Tatuí - aliás, um belo prédio, então ainda por ser inaugurado, pessoas gentis e com sorrisos vincando suas máscaras e cantos dos olhos mostravam o local de cada vacina. Dirigi-me à da AstraZeneca e, feliz, recebi minha segunda cota. Misto de felicidade e alívio, minha proteção estava aumentando! Desta segunda vez, operação muito bem organizada cujo percurso não durou meia hora.


E que venha uma quarta dose
de reforço, como apregoam alguns cientistas - estarei bem protegido, se não surgirem as reticências de uma nova cepa terrível. Mas essa proteção nunca será realmente efetivada sem que um contingente enorme também o faça - a imunização não é um capacete com máscara e tubo de oxigênio, como os dos pilotos de jatos supersônicos: ela precisa de todos, só funcionará para nos libertar com um mínimo de 70% dos cidadãos do mundo vacinados com duas doses – Tatuí chegou a 75,1% na semana passada! Os entraves são a indigência de certas regiões e de muitos países africanos; ou, nos EUA, de cidadãos antivaxxers: 22% da população!


Impossível esquecer Tecendo a Manhã
, do poeta João Cabral, meu favorito ao lado do Drummond: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro, e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão”.



  

sexta-feira, 17 de abril de 2020

O CORONEL, O PESCADOR E O RETIRANTE


Uma trilogia de lutas solitárias

Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca, Colômbia, em 1927, e radicou-se em Ciudad de Mexico, lá ficando até morrer, em 2014. Nobel de Literatura (1982) por sua obra - principalmente “Cem anos de solidão”, ícone do “realismo mágico” -, influenciou gerações. Fortemente apegado à sua Colômbia natal, carregava o trauma do período chamado La violencia, uma década que lembra outros países da América Latina: censura, estado de exceção, perseguições e um saldo de mortos estimado em até 200 mil.
La violencia: um rescaldo de 1948

Durante os anos em Paris, no Hotel Trois Colleges, Márquez escreveu uma novela, sem o mesmo sucesso de “Cem anos”(escrito onze anos depois), mas de grande importância: “Ninguém escreve ao coronel” (El coronel no tiene quien lo escriba, de 1961). Ele conta a história de um militar reformado que aguardava, passados quinze anos, a carta oficial que lhe daria a sonhada pensão militar. O coronel vivia com a esposa asmática (“também no amor alguma coisa teria envelhecido”, constatou) uma vida difícil, de fome, isolado pelo toque de recolher de sua pequena cidade. Morria-se apenas de “morte matada”, como se diz aqui, até que um músico da cidade faleceu de causa natural, um acontecimento! (Senão por causa do músico, pela efeméride do óbito). O coronel se aprumava, então, para ir ao enterro, a primeira “morte morrida” da vila em anos, e assim dá o tom à novela.
Esperando Godot, de Samuel Becket
Como em “Cem anos de solidão”, as palavras soledad e solitud parecem ser o pano de fundo para Márquez desenvolver seu texto, envolto em angústias e mistérios (importante: “Coronel” não se encaixa no rótulo “realismo mágico”). Os nomes de eventuais personagens não aparecem, o foco é centrado no coronel, isolando-o. No afã de ganhar dinheiro, passaram até fome para engordar um galo de rinha do filho morto recentemente. Em vão também a herança do filho, a que tinha direito – e que, ao par de sua pensão, nunca chegava, como o Godot de Becket. Em suas memórias, Márquez confessa que pensara em seu avô Nicolás, que nunca recebera um peso sequer depois de reformado.
Hemingway, seu hobby e tema
De Cuba (1951), país que adotara para viver entre o rum, a pesca e a literatura, o norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961) escreveu “O velho e o mar” (The old man and the sea), uma de suas mais importantes novelas. Prêmio Nobel (1954) como Márquez, neste livro Hemingway consegue penetrar a mente solitária de Santiago, velho pescador, narrando uma luta de vida ou morte, centímetro por centímetro de linha, gota por gota de suor, uma vara de pesca contra um imenso marlin, o maior peixe-espada de sua vida. Dias se passaram e Santiago já delirava, disputando um “cabo de guerra” com o indomável peixe, às vezes vendo-o até como amigo, que de tão especial talvez nunca poderia ser servido à mesa. O que lhe importava era aquela luta, duelo de Titãs.
Usando um arpão, Salvador fisgou a presa, que afinal seguiu rebocada pelo barco. Com suas últimas forças, levava o peixe rumo à praia, depois de ter-se arriscado, para a conquista, na perigosa corrente do Golfo, não longe da Flórida. Enquanto retornava, inevitável que o sangue do peixe, tingindo de rubro o mar, se tornasse um chamariz infalível para tubarões. Já sem o arpão, Salvador mata um deles com uma lança improvisada, um olho naquele peixe amarrado no barco, quase seu cúmplice. Com um facão, conseguiu afastar outros tubarões, mas chegando ao seu destino o que restara do peixe era uma carcaça e um esqueleto de incríveis 5,5m, para espanto da comunidade e pavor dos turistas. Uma luta solitária, que deixou marcas e cicatrizes profundas nas mãos e no corpo de Salvador, além de gravada na mente a disputa, um animal contra outro.
Completa esta trilogia sobre a luta solitária o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), predileto de muitos. Versos bordados com maestria ímpar, riqueza de palavras, o frasear, o ritmo e a sofisticação transbordam em versos que soam simples, mas são contraditoriamente bastante complexos e plenos de rico conteúdo após uma leitura atenta. Assim é “Morte e vida Severina” (1955), de contornos regionalistas, amarga descrição da odisseia de um retirante nordestino. (Sua crítica social lhe valeu a pecha de comunista).
Retirantes, por Portinari
O drama de Severino era aquele do migrante do sertão, e tem início com ele, sertanejo, a se apresentar: “O meu nome é Severino / (...) / Como há muitos Severinos / (...) deram então de me chamar / Severino da Maria. / Como há muitos Severinos / (...) fiquei sendo o da Maria / do finado Zacarias / (...) Como então dizer quem falo / (...) é o Severino / da Maria do Zacarias / lá da serra da Costela / limites da Paraíba”.
É dura a caminhada, os diálogos secos e curtos, sem dourar a sina (“fazendo dos dedos iscas / para pescar camarão”), tudo lembrando um cordel, em lamento: “nos intervalos de pedras / plantava palha”. Musicados por Chico Buarque, versos inteiros sobre uma tosca sepultura revelam-se pungentes - “Esta cova em que estás / com palmos medida”-, sempre com forte apelo social: “é a parte que te cabe neste latifúndio”.


O sertanejo vai trincando os solados dos pés descalços no caminho árido, em sua luta solitária contra a fome (e a morte que um dia virá, inexorável). Assim como os personagens desta trilogia, é preciso que empreendamos, nesses tempos, uma luta, 
mesmo que solitária.  Por um ideal, por dias melhores.




sábado, 4 de janeiro de 2020

UM NOVO ANO NOVO


Perder peso, repete-se sempre. Mas se aquele “a mais” já estava lá no ano anterior ao passado, não o há que daquele lá atrás se perder neste, se nada no de ontem se ganhou (embora o “extra” a dever valha ser queimado). Aos que, ao revés, quilos lhes faltam - esquálidos, desvalidos, esfomeados, modelos anoréxicas e bulímicas, viciados nas pedras do caminho -, ganhar peso é de bom voto. Cortar os cabelos - ou, diz melhor o inglês, “ter os cabelos cortados” -, é volta-face que se transubstanciaria em bom espírito e humor, e, quem sabe, a ansiada conquista amorosa? Ensejarão as novas madeixas ou desenhos nos cabelos novos olhares ou rememoranças de antigas paixões? “Não sei se você ainda é a mesma / ou se cortou os cabelos / rasgou o que é meu”¹.
(GGN)
Roupa nova faz falta, até a do Rei o rato roeu! Uns panos novos para nova fase, um elã arremedado para sentir-se rejuvenescer (apesar do ano a mais vivido); aos que amargam até a falta de um velho paletó ou rotos farrapos, que sejam guarnecidos do que lhes proteja do rigor da chuva, do frio ou do “serenô da madrugada”, que “não deixou meu bem dormir²”.
Um carrão zero, para os mais abastados, um iate para os milionários! “O barco, o automóvel brilhante³”, só porque entre ricaços “navegar é preciso³” no mar das aparências. Mais justo seria tê-los a menor, com menos luxos e narcisismos; aos outros, algo simples e útil, um saveiro para pescar, uma bicicleta para fazer entregas, um caderno para anotar as contas? “Mais que isto, só Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca”³). Venha a esperada justiça social, trabalho de corações e mentes que se preocupam com ela: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”4. Aos que foram perseguidos, ergam-se, eleitos, “por fazerem a vontade de Deus, pois deles é o Reino dos Céus”4.
Às mulheres caberá acolher o ano novo, nos conformes de seu uso e costume, depilando as pernas para poderem levantar as saias e saltar quando chegam as  ondas; às humildes, pernas pra que te quero, basta colocar os pezinhos na água fresca do mar que traz, espumando em vaivém, o novo dia, a plena madrugada; às adeptas de cultos que reverenciam o mar e sua rainha, apenas pés calejados da labuta do ano e saúde, que agradecem em suas danças e oferendas; recolhem flores murchas da água enquanto o arrastão despeja sua colheita viva na areia da praia, ao sol raiar: “ê, puxa bem devagar / ê, ê, ê, já vem vindo o arrastão”5. É a rede descarregando em abundância como fosse o milagre dos peixes, rito de cada dia desde sabe-se lá quando: “Eles não falam do mar e dos peixes / nem deixam ver a moça, pura canção / nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol”6.

"Beggars Banquet" (Banquete dos Mendigos), LP dos Stones
Ah, o bendito pão de cada dia! Uma bela cantina para os afogados na ressaca dos copos virados nas festas de Baco e Dionísio; os Severinos, “fazendo “dos dedos isca pra pescar camarão”7; aos que buscam nas latas dos becos o pão do dia e às vezes apenas o único sustento: que recebam dele seu mais recôndito milagre, e por ele louvarão, crédulos, ao Senhor.
A Última Ceia (Da Vinci)

(Vuelo Pharma)
Que vingue o novo e traga a beleza dos dias melhores! “É belo porque o novo / todo o velho contagia. / Belo porque corrompe / com sangue novo a anemia”7. Abram portas e janelas, deixem o sol penetrar, recebendo-o de  braços abertos qual aquele, gigante, que os ergue sobre a Guanabara. Novo é a visita que se espera há um ano, carece recebê-la, assuntar, servi-la, agradá-la. Venha desatar nossos nós, estancar nossas dores, pruridos, as feridas e mesmo as gangrenas, as angústias dos feridos, o sofrimento de tantos (impossível apagar chagas velhas, pois que cicatrizes). “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”4.

Guignard: Natureza Morta
Passar o pano no ódio, no racismo, na xenofobia, na misoginia, na homofobia, nos preconceitos e no desrespeito a culturas, crenças e livre expressão. Apagar a lousa em que foram arquitetados os pensamentos e atos mais nefastos e cruéis ao homem e à mãe-natureza - que a natureza-morta sejam apenas as pinceladas de lindos vasos de flores e frutas, tintos pelo óleo de habilidosos pintores.
Bom ano para islamitas, judeus – incluindo os sefardi, antepassados de boa parte de nós -, budistas, cristãos de todas as igrejas, xintoístas, taoístas, umbandistas, kardecistas, os temerosos ao Tupã-trovão, e (ave, Francisco!) abençoados sejam também os ateus, agnósticos e os que têm dúvida de fé, porque todos são filhos de Deus. Que as religiões não se submetam como massa de manobra aos poderosos, e que estes não se sirvam dos que creem para arrimo das muralhas de seu poder. Que o novo entrelace as mãos de nossos negros, mulatos, mamelucos, brancos, caucasianos, japoneses, chineses, coreanos, latinos imigrantes ou refugiados, indígenas de todos os matizes (aqui desde muito antes de nossos antepassados): guaranis, caiovás, mbys e ñandevas; ticunas, os caingangues kamé e kaiurukré; os macuxis, os terenas, os guajajaras; os ianomâmis, os xavantes, pataxós, potiguaras. Todos, apesar de “humilhados e ofendidos”8, suas terras arrasadas por grileiros e desmatadores sob a vista grossa, proteção ou mãos dos poderosos; com frequência cruelmente assassinados, ainda se multiplicam em ritmo dobrado: 3,5% para 1,6% do resto do país9. Um novo ano novo!
[1: Chico Buarque. 2: Folclore brasileiro. 3: Fernando Pessoa. 4: Mateus, 5: 3-12 (JFA).                    5: Vinicius/Edu Lobo. 6: Milton/F. Brant. 7: João Cabral de Melo Neto. 8: Romance de                      F. Dostoiévski. 9: IBGE]

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A ARTE POPULAR EM TRANSPOSIÇÃO ERUDITA

Tanguinho e maxixe
Troquei algumas ideias com minha filha Marta Autran acerca de sua tese de PHD, em vias de ser defendida em Londres, e fiz algumas reflexões além do tema, as sonatas para violoncelo de Camargo Guarnieri.  Mencionei-lhe o maxixe, o ponteio, as danças e até o tango brasileiro (tanguinho) de Ernesto Nazareth na música do tieteense, como fonte de inspiração ou influência. (Na verdade, o tango brasileiro – ou tanguinho - nada ou quase nada tem a ver com o original argentino, título que veio na garupa do sucesso portenho: o “nosso” tango era uma mescla de maxixe, habanera e polca surgida no final do século 19).
Mário de Andrade
Mario de Andrade advogava uma “transposição erudita” da música popular à música de concerto. Mas de forma alguma disse que o compositor clássico deveria fazer “arranjos” de música popular. Falou em transpor a arte de raiz com elaborada erudição - no sentido de profundo saber e técnica apurada (nada contra o fazer música popular com a formação que bem se entender, seja sinfônica, coro ou quarteto).
Flávio Silva (foto Funarte)
Isso me lembrou uma breve e salutar divergência que tive com o pesquisador Flávio Silva (falecido em 8/10/2019) na Concerto, revista de circulação nacional, e faço-lhe aqui um mea culpa. Debitei apenas na conta do Rio de Janeiro a responsabilidade pela invenção do termo “música erudita”, quando da primeira turma de professores da área na Universidade do Brasil - forma de justificar a falta de diploma superior entre os musicistas ingressantes. Chancelaram-lhes o título de detentores de profunda “erudição”(fora da música popular), perfilando-os com os colegas de direito, por sua vez inspirados na beca, toga e capelo dos acadêmicos d’além-mar, os colegas de Coimbra.
Universidade do Brasil (hoje UFRJ)
Se conferi aos acadêmicos da Universidade do Brasil no Rio a origem do termo “música erudita”– que nem os cariocas usam mais, diz-se “música clássica” ou “música de concerto”, como fazia o maestro Eleazar -, por outro lado o saudoso Flávio Silva creditou a origem da expressão a São Paulo, com Mário de Andrade. Não me lembro de Andrade ter utilizado o termo completo – música erudita -, que, de passagem, sequer existe em outros idiomas. Tudo, caro Flávio, pode ter sido uma feliz divergência que nós, sobre a origem da expressão nesse semi-árido mundo da música de concerto, terminamos por convergir, em cumplicidade, entre Rio e São Paulo.
O jovem Camargo Guarnieri
A “transposição” a que se refere Mário de Andrade é a de Marlos Nobre, compositor pernambucano, como foram as de Guarnieri, Villa-Lobos, José Siqueira, Guerra-Peixe, e como faz o jovem conterrâneo petropolitano dele, o meu amigo Ernani Aguiar, entre diversos outros. Uma das sonatas de Guarnieri analisadas por minha filha data de 1931 e soaria contemporânea e ímpar nos dias de hoje. Não é mero acaso senti-la, nessa contemporaneidade quase precoce em relação ao presente, remetendo aos ponteios de viola e violão, às danças e maxixes. Afinal, até os 17 anos Guarnieri foi “pé-vermeio” menino do interior paulista que travou contato com gêneros e ritmos populares. Costume que cedo, inoculado na pele, é benigno e prazeroso, acompanha qualquer artista por toda a vida.
O Lavrador, de Portinari (1939)
Nas artes plásticas, remeto a Cândido Portinari (1903/1962), que nasceu em uma fazenda em Brodowski, São Paulo, e ainda jovem foi estudar na Escola de Belas Artes, do Rio. Esperto, chegou a pintar (de nariz torcido, claro) um óleo acadêmico só para ganhar medalha de ouro e uma estada de dois anos em Paris, período que lhe resultou fundamental na vida. Mas a ótica pessoal de Portinari era moderna, e seu coração brasileiro. Ele retratava o homem do campo, o sertanejo, o retirante, sempre com os olhos com que os via: os rostos carregados de sofrimento, os pés descalços inchados de tanto caminhar no barro seco e nas pedras – “nos intervalos de pedra plantava palha”, disse João Cabral em “Morte e Vida Severina”; as mãos, calejadas pelo peso da enxada, e dilatadas pela tinta carregada do artista. Penso que a “transposição erudita” de Portinari – das raízes profundas à sua visão técnica modernista - se dá por um virtuosismo pessoal, distante da academia, sofisticação que ele transforma dentro de si próprio, tal e qual Guarnieri.
João Cabral
Um pouco antes, neste texto, citei o premiadíssimo João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um dos  nossos maiores poetas, ou o maior da língua portuguesa para muitos, como o festejado Mia Couto. Teve formação intelectual exemplar e grande erudição, lia e conhecia de tudo, foi diplomata de carreira. Mas entre a prosa escorreita do Itamaraty e a livre poesia ficou com a segunda, versos sofisticados que lembram um livro de cordel, e mesmo com frequentes rimas simples, pobres ou repetidas apegou-se à tecelagem barroca das palavras, rendendo-se ao surreal por vezes como Portinari no pincel, sem nunca se esquecer dos pés arraigados na terra brasileira.
Capa da primeira edição: como cordel
Vale ler com atenção: “Esse que andando planta / os rebolos de cana / nada é do Semeador / que se sonetizou. / É o seu menos um gesto / de amor que de comércio / e a cana, como a joga (N.do A.: pedra de rio), não planta: joga fora” (em “A cana dos outros”).  A armação intricada de palavras simples dentro de uma confecção muito elaborada, preciosista, vai compondo sobre um ritmo que o leitor precisa acompanhar, às vezes retrocedendo um verso para avançar dois no encadeamento do estilo do autor.
Bom nordestino, João Cabral transpõe à sofisticada poesia a aridez da caatinga, a fome, o desespero. Como em “Morte e Vida”, “fazendo dos dedos isca pra pescar camarão”). 
[homenagem a Flávio Silva]
Foto: Stock