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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

BÁRBARA E A CARTA ÀS BRASILEIRAS E BRASILEIROS

 


Barbaridade
, de onde a interjeição gaúcha de espanto ou surpresa “bah!”, tem diversos significados. Segundo o Houaiss, pode ser um “ato próprio de bárbaro”, “crueldade, desumanidade”, ou “em extremo desacordo com a lógica, com as normas”, ou ainda “erro crasso de linguagem e escrita”. Remete também a barbárie, selvageria. Na gramática, consiste no “uso sistemático de formas vocabulares inexistentes (...) por parte de falantes que não a dominam” (N.: a norma padrão da língua). Em inglês, barbarism indica tanto a ‘palavra, expressão ou pronúncia não convencional quanto o período de migração europeu que viu a queda do Império Romano e a ocupação de vastos territórios por diversas tribos’ (alemães, hunos, búlgaros, húngaros e vândalos - germânicos do sul da Polônia, daí “vandalismo”). Trata-se de migrações e invasões em massa (HALSALL, Guy. “Barbarian Migrations and the Roman West”. Cambridge: CUP, 2007).


O sentido
dessas palavras no contexto atual refere-se a pessoas animalescas, sanguinárias, mesmo quando em sentido figurado, um cruzamento idiomático e histórico – crossover, lembrando o cartunista Laerte, que se veste como mulher, para usar uma palavra da moda. Expressões eivadas do horror de alguns dos períodos mais terríveis por que a humanidade passou - sangue derramado, atrocidades, barbaridade, barbarismo, bárbaros e ações bestiais de várias épocas.


Bárbara
, contudo, é também um lindo nome feminino que nada tem a ver com isso. Surge nas artes em diversos momentos, como no histórico musical de Chico Buarque e Ruy Guerra (1973) intitulado Calabar, o Elogio da Traição, que conta da vida de Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho de Pernambuco que se aliou aos holandeses traindo Portugal. Bárbara, esposa de Calabar, é quem conta a história, e dá título uma das canções da peça, “Cala a boca, Bárbara”: “Ele sabe dos caminhos dessa minha terra / no meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu / os meus rios, os meus braços (...) / Nas bandeiras, bons lençóis / nas trincheiras, quantos ais, ai”.

Santa Barbara

O nome
é originário do latim barbara, barbarus, significando estrangeiro, mulheres que não eram romanas, e vem do grego: ‘forasteiro’ (FERREIRA, Moacyr da Costa. “Dicionário poliglótico de nomes”. SP: Edicon, 1996). O dia 4 de dezembro é consagrado a Santa Bárbara, nascida em 280 d.C. na Turquia e convertida ao cristianismo. O pai dela, Dioscorus, seviciou-a, degolou-a e a entregou aos romanos. Diz a lenda que, ao cair sua cabeça, os céus trovejaram; por isso, é associada aos trovões, e protetora dos que lidam com fogo, como os bombeiros. Na Umbanda, parte que é do riquíssimo sincretismo religioso brasileiro, Santa Bárbara representa o orixá Iansã, mulher poderosa, deusa do fogo e dos trovões, vendavais e furacões. Como outros santos católicos, ela escondia da Casa Grande as práticas da cultura religiosa trazida pelos africanos escravizados, resguardando-se para não serem punidos.


Em Arrastão
(1965), Vinicius de Moraes, com música de Edu Lobo, evoca a santa em meio a outras entidades da Umbanda: “Olha o arrastão entrando no mar sem fim / É meu irmão me traz Iemanjá pra mim / Minha Santa Bárbara / me abençoai / Quero me casar com Janaína” Iemanjá costuma ser representada como Nossa Senhora, de azul e branco ou azul claro.

Barbara Hendricks

Muitos lugares
homenageiam a mártir turca: de Santa Bárbara do Leste, cidade mineira, à paulista Santa Bárbara d’Oeste e Santa Barbara, na Califórnia americana. Há as que fizeram parte de nossas juventudes, como Barbara Streisand, cantora e atriz, a soprano Barbara Hendricks, ambas americanas, sem esquecer Bárbara Heliodora, talvez a maior especialista em Shakespeare que o Brasil já teve (ouvi-la discorrer sobre o bardo inglês era como penetrar em um mundo de sonhos, amores, dramas, devaneios e poesia).

6 de janeiro de 2021: a invasão do Capitólio

Saindo da arte
, a pergunta: o que teria sido aquele bando que invadiu o Capitólio americano em 6 de janeiro de 2021, convulsionando o resultado das eleições dos EUA, tentando derrubar um pleito legítimo e uma democracia sólida, atrás de palavras de ordem do candidato preterido, Donald Trump? Na horda, muitos loucos trajados como vikings e hunos quebraram vidraças, portas e móveis gritando slogans...Ou seja, corja de bárbaros na acepção crossover da palavra. Um bando de alucinados, arriscando todos a um banho de sangue onde afundar a democracia mais sólida do planeta! Foi um ato de barbárie, insano e irresponsável. Felizmente, parece que o país superou o trauma, manteve intactas suas instituições e tem superado, até aqui, incursões pontuais de radicais fascistas e neonazistas.

Gofredo da Silva Telles, 1977

No próximo dia 11 de agosto
, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP, haverá um evento pacífico liderado por algumas das grandes cabeças pensantes do país, à frente de insuspeitas entidades suprapartidárias, empresários, líderes sindicais, estudantes, representantes da sociedade civil de todos os credos, raças e orientações políticas. A convocação foi feita por meio do manifesto intitulado “Carta às brasileiras e brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!”, relembrando 1977, quando o ilustre jurista e professor daquela Faculdade, Gofredo da Silva Telles, leu sua “Carta aos Brasileiros”. Nela, denunciava “a ilegitimidade do então governo militar e o estado de exceção em que vivíamos”, celebrando os 150 anos da criação dos primeiros cursos de Direito no Brasil.

A carta de 2022, mais uma vez, será contra a barbárie, pela democracia.

https://www.estadodedireitosempre.com/



sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O POETINHA E OS ORIXÁS

Escola Nacional de Música da UFRJ
No dia 5 de setembro de 2019 o jornal O Globo trouxe matéria estarrecedora, que comentei neste espaço. Na UFRJ, conceituada universidade brasileira, estudantes de música adeptos de certa Igreja se recusaram a cantar “Toadas de Xangô”, do ilustre compositor petropolitano Guerra-Peixe (1914-1993) - aliás, de formação católica, autor do “Hino do Colégio Nossa Senhora de Fátima”. Xangô é o orixá da justiça e do poderoso trovão, nos cultos afro-brasileiros, e Guerra pensou no tema como material brasileiro por excelência. Era a fase nacionalista, sob a influência do movimento liderado por Mário de Andrade.
Eleazar de Carvalho e suas "índias", na estreia de sua ópera
O Descobrimento do Brasil, em 1939
Também na música de concerto, Villa-Lobos, o “Índio de Casaca”, compôs sobre ritos indígenas, crenças de origem africana e... um “Magnificat”, de 1958. Francisco Mignone, autor de “Festa das Igrejas”, criou “Babaloxá”, de Babalorixá, que é o sacerdote nas religiões afro-brasileiras. Contemporâneo, meu amigo Ernani Aguiar, nascido na Petrópolis do Guerra e na época ateu, compôs “Cantos Sacros para Orixás” - e três “Missa Brevis”. O paraibano José Siqueira e o cearense Eleazar de Carvalho eram diretores da Ordem dos Músicos do Brasil, fundada em 1960, organização que sofreu intervenção da ditadura em 1964. A diretoria foi defenestrada, Siqueira acusado de comunista, mas Eleazar era notório conservador. O golpe sobre a OMB foi mordaça em sindicatos e organizações de classe (o interventor lá ficou por 40 anos!) Siqueira compôs o “Oratório Candomblé” e “Macumba de Pai Zusé”, com poema de Manuel Bandeira, deísta - acreditava em Deus e ponto.
Dorival Caymmi
Na MPB, Caymmi (“Oração de Mãe Menininha”) e Caetano (“Xangô manda chamar Obatalá Guia”), devotos da Umbanda. Sérgio Ricardo e Ruy Guerra (“Saravá, Ogum, mandinga da gente continua / cadê o despacho pra acabar”), Edu Lobo, de formação católico-jesuíta, é autor de “Arrastão”, com o Poetinha (“ê meu irmão me traz Iemanjá pra mim”). Margareth Menezes gravou de “Faraó, Divindade do Egito” ao álbum “Pontos de Umbanda”.
Vinicius de Moraes, o "Poetinha", e Baden-Powell: a dupla
Vale lembrar o “Poetinha”, neste atual surto de retrocesso cultural que vivemos, fenômeno de que foi reflexo o incidente no coral da UFRJ. Vinicius de Moraes (1913-1980) foi diplomata, homem culto e erudito. Mas a paixão dele, além da poesia – preciosista na difícil arte dos sonetos! -, era a música popular, contando para isso com parceiros do naipe de Jobim, Toquinho e Baden-Powell, este último fabuloso violonista e bom colega de copo e de samba. É da dupla o “Canto de Ossanha” (veja e ouça abaixo). Ossanha, ou Osanyin, é o orixá das ervas medicinais, representado no sincretismo por São Benedito. A gravação original teve arranjo do maestro Guerra-Peixe, por coincidência ou não admirador da cultura afro-brasileira. A obra foi concluída pela dupla na frente de Elis Regina, que a gravou e fez estourar nas paradas: “O homem que diz dou, não dá / porque quem dá mesmo não diz”. Do Poetinha e Baden são também “Lamento de Exu” e “Canto de Iemanjá”. Exu é o orixá da disciplina e da adivinhação, intermediário entre homens e deuses, enquanto Iemanjá é o orixá das águas e filha de Olokun, senhor dos mares.



O Poetinha com Mãe Menininha de Gantois
A dupla Poetinha/Baden-Powell também nos deu “Canto do Caboclo Pedra-Preta” (“Pandeiro quando toca faz Pedra-Preta chegar / viola quando toca faz Pedra-Preta chegar”). “Canto de Xangô” celebra a entidade que vive nas pedreiras: “Sou filho de rei / muito lutei pra ser o que sou / eu sou negro de cor / mas tudo é só amor em mim / Xangô Agodô”. Uma curiosidade: foi o carioca Poetinha, já iniciado, quem levou Maria Bethânia, de Santo Amaro, ao terreiro da Mãe Menininha de Gantois, em Salvador. A cantora ingressou no Candomblé em 1971 e descobriu-se filha de Iansã, uma das três mulheres de Xangô, e de Ogum, o guerreiro, e também de Oxóssi (Oxoce), orixá da caça. Profundamente enraizados na cultura baiana, os cultos afro-brasileiros fazem parte do dia a dia de incontáveis cidadãos brasileiros, e, como não poderia deixar de ser, fornecem rica matéria-prima para muitos artistas.
Grupo Olodum (YouTube)
Em Gil, Caetano, Caymmi e compositores baianos, em geral, a cultura afro-brasileira corre livre nas veias. A própria “Axé music”, popularizada por Daniela Mercury e o grupo Olodum (de Olodumarê, orixá do destino), leva esse nome porque axé, força sagrada dos orixás, é uma espécie de bênção no Candomblé. A dupla Poetinha-Baden passou a afinar com esse mundo. Parecem de real convicção os laços de Vinicius com o Candomblé, ele que era conhecido como “o carioca mais baiano do mundo” e autoproclamado “o branco mais negro do mundo”, e é tanto quanto verossímil que tenha se convertido de fato e de fé. Em “Samba da Bênção”, o Poetinha pede, nome a nome, para que seja abençoado por uma longa série de pessoas conhecidas, para ao final pedir saravá! (salve!), palavra de origem banta.
Maestro Guerra-Peixe: Xangô

Já os chamados “eruditos” da música de concerto sempre viram nas culturas indígena e afro-brasileira matéria-prima fértil para suas obras. Se comungavam ou não de uma ou outra crença, isso não vem lá ao caso, que aqui é o fruir artístico. Interessa, sim, aos estudiosos, visando ao aprofundamento de suas indagações históricas e estéticas.  Mas universidade é lugar de aprendizado via pesquisa, produção, criação, questionamento. O que não se pode é deixar o ambiente acadêmico ser contaminado pelo obscurantismo ou fundamentalismo de qualquer espécie ou origem, seja religioso ou ideológico, e tornar-se uma pedra inamovível no caminho da cultura e do conhecimento. 
Axé, Poetinha!

sábado, 4 de janeiro de 2020

UM NOVO ANO NOVO


Perder peso, repete-se sempre. Mas se aquele “a mais” já estava lá no ano anterior ao passado, não o há que daquele lá atrás se perder neste, se nada no de ontem se ganhou (embora o “extra” a dever valha ser queimado). Aos que, ao revés, quilos lhes faltam - esquálidos, desvalidos, esfomeados, modelos anoréxicas e bulímicas, viciados nas pedras do caminho -, ganhar peso é de bom voto. Cortar os cabelos - ou, diz melhor o inglês, “ter os cabelos cortados” -, é volta-face que se transubstanciaria em bom espírito e humor, e, quem sabe, a ansiada conquista amorosa? Ensejarão as novas madeixas ou desenhos nos cabelos novos olhares ou rememoranças de antigas paixões? “Não sei se você ainda é a mesma / ou se cortou os cabelos / rasgou o que é meu”¹.
(GGN)
Roupa nova faz falta, até a do Rei o rato roeu! Uns panos novos para nova fase, um elã arremedado para sentir-se rejuvenescer (apesar do ano a mais vivido); aos que amargam até a falta de um velho paletó ou rotos farrapos, que sejam guarnecidos do que lhes proteja do rigor da chuva, do frio ou do “serenô da madrugada”, que “não deixou meu bem dormir²”.
Um carrão zero, para os mais abastados, um iate para os milionários! “O barco, o automóvel brilhante³”, só porque entre ricaços “navegar é preciso³” no mar das aparências. Mais justo seria tê-los a menor, com menos luxos e narcisismos; aos outros, algo simples e útil, um saveiro para pescar, uma bicicleta para fazer entregas, um caderno para anotar as contas? “Mais que isto, só Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca”³). Venha a esperada justiça social, trabalho de corações e mentes que se preocupam com ela: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”4. Aos que foram perseguidos, ergam-se, eleitos, “por fazerem a vontade de Deus, pois deles é o Reino dos Céus”4.
Às mulheres caberá acolher o ano novo, nos conformes de seu uso e costume, depilando as pernas para poderem levantar as saias e saltar quando chegam as  ondas; às humildes, pernas pra que te quero, basta colocar os pezinhos na água fresca do mar que traz, espumando em vaivém, o novo dia, a plena madrugada; às adeptas de cultos que reverenciam o mar e sua rainha, apenas pés calejados da labuta do ano e saúde, que agradecem em suas danças e oferendas; recolhem flores murchas da água enquanto o arrastão despeja sua colheita viva na areia da praia, ao sol raiar: “ê, puxa bem devagar / ê, ê, ê, já vem vindo o arrastão”5. É a rede descarregando em abundância como fosse o milagre dos peixes, rito de cada dia desde sabe-se lá quando: “Eles não falam do mar e dos peixes / nem deixam ver a moça, pura canção / nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol”6.

"Beggars Banquet" (Banquete dos Mendigos), LP dos Stones
Ah, o bendito pão de cada dia! Uma bela cantina para os afogados na ressaca dos copos virados nas festas de Baco e Dionísio; os Severinos, “fazendo “dos dedos isca pra pescar camarão”7; aos que buscam nas latas dos becos o pão do dia e às vezes apenas o único sustento: que recebam dele seu mais recôndito milagre, e por ele louvarão, crédulos, ao Senhor.
A Última Ceia (Da Vinci)

(Vuelo Pharma)
Que vingue o novo e traga a beleza dos dias melhores! “É belo porque o novo / todo o velho contagia. / Belo porque corrompe / com sangue novo a anemia”7. Abram portas e janelas, deixem o sol penetrar, recebendo-o de  braços abertos qual aquele, gigante, que os ergue sobre a Guanabara. Novo é a visita que se espera há um ano, carece recebê-la, assuntar, servi-la, agradá-la. Venha desatar nossos nós, estancar nossas dores, pruridos, as feridas e mesmo as gangrenas, as angústias dos feridos, o sofrimento de tantos (impossível apagar chagas velhas, pois que cicatrizes). “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”4.

Guignard: Natureza Morta
Passar o pano no ódio, no racismo, na xenofobia, na misoginia, na homofobia, nos preconceitos e no desrespeito a culturas, crenças e livre expressão. Apagar a lousa em que foram arquitetados os pensamentos e atos mais nefastos e cruéis ao homem e à mãe-natureza - que a natureza-morta sejam apenas as pinceladas de lindos vasos de flores e frutas, tintos pelo óleo de habilidosos pintores.
Bom ano para islamitas, judeus – incluindo os sefardi, antepassados de boa parte de nós -, budistas, cristãos de todas as igrejas, xintoístas, taoístas, umbandistas, kardecistas, os temerosos ao Tupã-trovão, e (ave, Francisco!) abençoados sejam também os ateus, agnósticos e os que têm dúvida de fé, porque todos são filhos de Deus. Que as religiões não se submetam como massa de manobra aos poderosos, e que estes não se sirvam dos que creem para arrimo das muralhas de seu poder. Que o novo entrelace as mãos de nossos negros, mulatos, mamelucos, brancos, caucasianos, japoneses, chineses, coreanos, latinos imigrantes ou refugiados, indígenas de todos os matizes (aqui desde muito antes de nossos antepassados): guaranis, caiovás, mbys e ñandevas; ticunas, os caingangues kamé e kaiurukré; os macuxis, os terenas, os guajajaras; os ianomâmis, os xavantes, pataxós, potiguaras. Todos, apesar de “humilhados e ofendidos”8, suas terras arrasadas por grileiros e desmatadores sob a vista grossa, proteção ou mãos dos poderosos; com frequência cruelmente assassinados, ainda se multiplicam em ritmo dobrado: 3,5% para 1,6% do resto do país9. Um novo ano novo!
[1: Chico Buarque. 2: Folclore brasileiro. 3: Fernando Pessoa. 4: Mateus, 5: 3-12 (JFA).                    5: Vinicius/Edu Lobo. 6: Milton/F. Brant. 7: João Cabral de Melo Neto. 8: Romance de                      F. Dostoiévski. 9: IBGE]

sábado, 30 de março de 2019

MEU TIO DA AMÉRICA


Mon oncle d’Amérique é um filme (1980) do francês Alain Resnais, autor também do amargo Hiroshima, mon amour. Na trama, um fazendeiro é diretor de uma empresa em fase de cortes de empregados. Convivem Janine Garnier, atriz de ambições e amante de um senhor casado, e Jean Le Gall, ativista político e escritor em crise existencial. Pano de fundo, as ideias do neurocientista Henri Laborit, também narrador do filme.
Henri Laborit
Segundo Laborit, há quatro elementos que regulam a conduta das pessoas: o consumo, a recompensa, a punição e a inação. Revolucionou a psiquiatria em 1952 ao introduzir novas drogas em alguns tratamentos e teve sua participação no filme duramente criticada pela comunidade científica. Era adepto do chamado behaviorismo, teoria que analisa indivíduos e animais pelo seu comportamento e associa as atitudes das pessoas às suas neuroses e doenças. É o retrato de uma intensa disputa no trabalho que leva a alucinações. Eis a América de Resnais.
As 13 colônias: o início de tudo
Em busca dessa competição, do ‘fazer a América’, fui para os EUA em 1977, com chances para estudar nos melhores lugares e sonhando com trabalho. Mas já saindo do aeroporto de Boston veio o primeiro choque: um enorme outdoor parece que alertava para o que eu iria encontrar: Competition. That’s what makes America great! (Competição. É o que a faz a América grande!). Uma nação erguida por 13 colônias de culturas e Igrejas diversas disputando terras, cultivo, gado e dinheiro. Competia-se dentro de cada uma e todas entre si. Mais tarde, ciência, esportes, jogatina, ascensão na vida, busca pela excelência em todas as atividades, ser a maior nação.
Sly & the Family Stone
Em 1974, eu já havia estado em NY. Resolvi ir a um show do grupo de funk (nada daquilo que se ouve por aqui) Sly & the Family Stone, ritmo e balanço evocando o lema de George Clinton, shake your ass and your mind will follow (o ‘sacuda seu traseiro e sua mente seguirá’). Era no famoso Radio City Music Hall, e fui sozinho.
Lá, grupinhos e gangues davam medo. Recém-chegado, vi que tinha apenas uma nota de US$ 100 – o equivalente a coisa de R$ 1.900, em valores atuais. No caixa não havia troco, e um monte de pivetes cercou-me para ‘ajudar’. Salvou-me um contrabaixista de apelido Yinka, do Harlem, que veio ao meu encontro e foi logo se apresentando. Fomos ao show, um deslumbre, mas declinei do convite para ir ao gueto nova-iorquino ouvi-lo tocar. Seria às 2h da manhã, loucura.
Essa experiência de 1974 ajudou-me a lidar com a vida nos EUA a partir de 77. Ainda não estava em condições de competir para os bons cachês de orquestras, então fiz como muitos brasileiros, usei minha alma latina para ganhar algum dinheiro com música enquanto estudava. Surgiu um convite para tocar salsa com um violinista cubano de alcunha William Fox.
Roxbury, Boston
Metrô para Roxbury, saindo perto do New England Conservatory e cruzando a chamada limit zone (zona do limite). Basicamente, um bairro-gueto enorme, brancos, negros e latinos, brigas e sensação de insegurança à flor da pele. Mas precisava daquilo para me preparar para o ingresso no curso superior dos meus sonhos. Em uma das viagens, um sujeito, de pé no vagão, calmamente enrolou seu baseado e começou a fuma-lo. Ninguém deu a mínima. Claro, fiquei preocupado, imaginei polícia invadindo, essas coisas. Fui discreto, perguntei se ele não tinha medo de ser preso. Pronto: abriu a torneira, dizendo-se herói da guerra do Vietnã, vítima de uma bomba, puxou a barra da calça mostrando a prótese de madeira. E gritava salvei a América, ninguém manda em mim, coisas do gênero.
Veteranos, os vets
Muito comum ver esses ex-veteranos de guerra – e ex-presidiários – de todas as origens pelas ruas, alguns dóceis e outros nada, praguejando em voz alta para si mesmos. Ou com camisetas de recordação: visit fascinating Vietnam. Quando quietos, e não surtados, não incomodavam, mas não se sabia no que poderiam se transformar de repente. Mas ou eu tocava o barco ou terminaria por desconfiar e ter medo de todo mundo. A América já não era tão ‘Disneyworld e Hollywood’ assim (conforme vou ilustrando neste espaço), mas o intento de estudar cada vez mais, seguindo os conselhos do professor, era ouro – nunca aceite menos do que primeiro, disse.
Consulado dos EUA em SP: fila para vistos
Nós aqui temos bandidos e psicóticos. Americanos também (e têm terroristas de sobra, brotam da noite para o dia). Aqui, por um visto de turista ou estudante nos EUA vive-se uma odisseia. Meu permanente obtive lá mesmo, depois de anos, e só após interrogado sob juramento, o passado remexido. Nas filas dos consulados no Brasil é frequente candidatos a turista nos EUA terem o visto negado de pronto, às vezes sem saberem o porquê.  Há muito tempo existe um rígido controle de entrada e o atual presidente americano ainda quer apertar mais e mais, vide o muro na fronteira com o México. Há um cuidado policialesco com quem quer entrar no país, mesmo que por via legal.
Pero Vaz de Caminha
O Brasil é terra onde se plantando tudo dá, disse Vaz de Caminha. Do bom e do ruim, ‘banana pra dar e vender’. É positivo turistas injetarem recursos aqui, mas não dá para ‘fazer o bem sem olhar a quem’. Enquanto isso, nossos marginais de estimação sequer viajam para os EUA. E não apenas os turistas americanos – jovens, casais de idosos, recém-casados e yuppies - terão aqui as portas abertas, o perigo também terá. A massa entrando livremente não terá rosto nem passado, e pode haver consequências. Enquanto isso, nossos pivetes, punguistas, organizações criminosas e 'arrastões' também estarão ávidos por fazer a festa que nos dá péssima fama. Haverá competição.