LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador Guerra-Peixe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerra-Peixe. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

A BÊNÇÃO, SHALOM, BARAKAH, SARAVÁ, EVOÉ!

 

Fratelli Tutti, Papa Francisco!

 


Das músicas memoráveis compostas por Baden Powell e Vinicius de Moraes, o “poetinha”, diplomata e compositor, Samba da Bênção (1962) é uma espécie de oração parte versos, parte falada, com direito a improviso. A letra começa com um elogio à alegria e uma espécie de receita para fazer um bom samba: “É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração (...) / Mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza / (...) Senão, não se faz um samba, não”. O poeta carioca de educação católica, abraçando a Umbanda, distribui graciosamente as bênçãos à mistura fina brasileira: “Porque o samba nasceu lá na Bahia / E se hoje ele é branco na poesia / (...) Ele é negro demais no coração”. [Trecho deste poema foi citado pelo Papa Francisco no cap. 26:215 da encíclica Fratelli Tutti (“Todos irmãos”): “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.]


Vinicius proseia, não sem antes apresentar-se como “o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô, Saravá!” (Xangô é um orixá ioruba, deus da justiça e da sabedoria). Segue pedindo a bênção a Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Cyro Monteiro, Noel Rosa e Tom Jobim, encompridando aqui e ali a fala para tecer suas loas, como mereceram Pixinguinha, “tu que choraste na flauta todas as lágrimas de amor”, Jobim, a quem chama maestro, “parceiro e amigo querido, que já viajaste tantas canções comigo e ainda há tantas por viajar”, e Carlos Lyra, “parceiro cem por cento, você que une a ação ao sentimento e ao pensamento”. Com Baden-Powell Vinicius compôs também Canto de Ossanha, o orixá das ervas medicinais, no sincretismo católico representado por São Benedito (entre os escravos, nas senzalas, as entidades das religiões de origem africana eram simbolizadas por santos católicos, encobrindo as crenças das vistas dos senhorios das casas-grandes). Também da dupla Baden-Vinicius é o Canto de Iemanjá, orixá das águas e filha de Olokun, senhor dos mares, no sincretismo Nossa Senhora.

Maestro Guerra-Peixe

Escolhi o samba de Vinicius e Powell para desejar boas festas especialmente pela encíclica Fratelli Tutti do Papa Francisco, coração aberto aos que adotam religiões afro-brasileiras; os judeus, católicos, islamitas, evangélicos e mesmo os ateus e agnósticos, pois todos, mesmo aqueles que o negam, queiram ou não queiram e saibam ou não, também são filhos de Deus. [Lembro-me do triste episódio acontecido há um ano na UFRJ (Universidade Federal do Rio), quando vários alunos de música se recusaram a cantar Toadas de Xangô, do maestro petropolitano Guerra-Peixe, aliás também autor do hino católico do Colégio Nossa Senhora de Fátima.]

ENM/UFRJ

Uma nova censura tem adentrado debates e travado embates em todo o país, assim como aconteceu na UFRJ. Uma lástima, especialmente quando a laicidade do Estado se encontra abalada e ameaçada, e essa reação à liberdade de criação, censura hoje incubada até pelas vias oficiais, não pode ser bem-vinda contra uma obra de arte no Coro de uma escola do porte da ENM/UFRJ!

Rabino Ruben Sternschein

A bênção, Papa Francisco, o homem da palavra neste mundo, com seu manto mais de humildade do que a pompa da veste de um Sumo Pontífice: pregando a fraternidade, Amém! A bênção, Gabriel Boric, que trilhou o caminho dos justos em busca de livrar o povo chileno do males da sombra de Pinochet - contra o negacionismo, o ódio, o racismo e o extremismo. A bênção rabino Ruben Sternschein, por pregar a paz ao nosso povo judeu, Shalom! A bênção, xeques Rodrigo Jalloul e Mohamad Al Bukai, críticos de qualquer forma de violência como defesa do islamismo, Barakah!

Vinicius e Mãe Menininha

A bênção todos os mais de 615 mil mortos pela Covid-19 e suas famílias; aos que nas ditaduras sofreram e morreram por um ideal chamado criminosamente de ‘delito de opinião’; a bênção todos os verdadeiros evangélicos, os que professam as palavras dos livros sagrados por fé e não enganando ou sendo enganados por ganância política ou financeira de alguns, escudados em alguma Igreja de fantasia. Amém! A bênção Mãe Menininha de Gantois, por cujo terreiro na Bahia passaram, além de Vinicius, Caetano, Gil, Bethânia, Gal, Caymmi, Jorge Amado, enfim, a fina flor da cultura brasileira: Saravá!

A bênção Emanuel, judeu palestino 
que há mais de dois mil anos foi 
perseguido e crucificado por buscar a paz 
e a igualdade para nos salvar: Feliz
Natal, Joyeux Noël, Merry Christmas, 
Feliz Navidad, frohe Weihnachten 
- todos os idiomas do mundo serão poucos -, 
porque somos um só, todos irmãos, e um dia,
independentemente de credo, matiz ideológico 
ou cor da pele, alcançaremos a paz
na plenitude, livres dos bandidos 
sem e com colarinho, dos tiranos 
e dos inimigos do povo, Amém! 


A bênção Vinicius, todos os músicos, bardos e menestréis, por tornarem a sofreguidão da vida humana mais suave e fazerem se abraçar os amantes (e como diziam Lamartine e João de Barro, em Cantores do Rádio (1936), “de noite embalamos teu sono / de manhã nós vamos te acordar”); a bênção poetas e os que escrevem prosas das mais belas, romances e contos, ou registram com honestidade o dia a dia e a história do país e do mundo, sem corromper ou censurar a verdade; a bênção pintores, escultores e artistas de palco: dançarinos, atrizes e atores (e os que viajam em circos e mambembes, ou pelas esquinas das ruas com seus malabares); os cantadores e cururueiros, Evoé!  Aos que me leem, Feliz Natal e Ano Novo. Siamo tutti fratelli!



 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O POETINHA E OS ORIXÁS

Escola Nacional de Música da UFRJ
No dia 5 de setembro de 2019 o jornal O Globo trouxe matéria estarrecedora, que comentei neste espaço. Na UFRJ, conceituada universidade brasileira, estudantes de música adeptos de certa Igreja se recusaram a cantar “Toadas de Xangô”, do ilustre compositor petropolitano Guerra-Peixe (1914-1993) - aliás, de formação católica, autor do “Hino do Colégio Nossa Senhora de Fátima”. Xangô é o orixá da justiça e do poderoso trovão, nos cultos afro-brasileiros, e Guerra pensou no tema como material brasileiro por excelência. Era a fase nacionalista, sob a influência do movimento liderado por Mário de Andrade.
Eleazar de Carvalho e suas "índias", na estreia de sua ópera
O Descobrimento do Brasil, em 1939
Também na música de concerto, Villa-Lobos, o “Índio de Casaca”, compôs sobre ritos indígenas, crenças de origem africana e... um “Magnificat”, de 1958. Francisco Mignone, autor de “Festa das Igrejas”, criou “Babaloxá”, de Babalorixá, que é o sacerdote nas religiões afro-brasileiras. Contemporâneo, meu amigo Ernani Aguiar, nascido na Petrópolis do Guerra e na época ateu, compôs “Cantos Sacros para Orixás” - e três “Missa Brevis”. O paraibano José Siqueira e o cearense Eleazar de Carvalho eram diretores da Ordem dos Músicos do Brasil, fundada em 1960, organização que sofreu intervenção da ditadura em 1964. A diretoria foi defenestrada, Siqueira acusado de comunista, mas Eleazar era notório conservador. O golpe sobre a OMB foi mordaça em sindicatos e organizações de classe (o interventor lá ficou por 40 anos!) Siqueira compôs o “Oratório Candomblé” e “Macumba de Pai Zusé”, com poema de Manuel Bandeira, deísta - acreditava em Deus e ponto.
Dorival Caymmi
Na MPB, Caymmi (“Oração de Mãe Menininha”) e Caetano (“Xangô manda chamar Obatalá Guia”), devotos da Umbanda. Sérgio Ricardo e Ruy Guerra (“Saravá, Ogum, mandinga da gente continua / cadê o despacho pra acabar”), Edu Lobo, de formação católico-jesuíta, é autor de “Arrastão”, com o Poetinha (“ê meu irmão me traz Iemanjá pra mim”). Margareth Menezes gravou de “Faraó, Divindade do Egito” ao álbum “Pontos de Umbanda”.
Vinicius de Moraes, o "Poetinha", e Baden-Powell: a dupla
Vale lembrar o “Poetinha”, neste atual surto de retrocesso cultural que vivemos, fenômeno de que foi reflexo o incidente no coral da UFRJ. Vinicius de Moraes (1913-1980) foi diplomata, homem culto e erudito. Mas a paixão dele, além da poesia – preciosista na difícil arte dos sonetos! -, era a música popular, contando para isso com parceiros do naipe de Jobim, Toquinho e Baden-Powell, este último fabuloso violonista e bom colega de copo e de samba. É da dupla o “Canto de Ossanha” (veja e ouça abaixo). Ossanha, ou Osanyin, é o orixá das ervas medicinais, representado no sincretismo por São Benedito. A gravação original teve arranjo do maestro Guerra-Peixe, por coincidência ou não admirador da cultura afro-brasileira. A obra foi concluída pela dupla na frente de Elis Regina, que a gravou e fez estourar nas paradas: “O homem que diz dou, não dá / porque quem dá mesmo não diz”. Do Poetinha e Baden são também “Lamento de Exu” e “Canto de Iemanjá”. Exu é o orixá da disciplina e da adivinhação, intermediário entre homens e deuses, enquanto Iemanjá é o orixá das águas e filha de Olokun, senhor dos mares.



O Poetinha com Mãe Menininha de Gantois
A dupla Poetinha/Baden-Powell também nos deu “Canto do Caboclo Pedra-Preta” (“Pandeiro quando toca faz Pedra-Preta chegar / viola quando toca faz Pedra-Preta chegar”). “Canto de Xangô” celebra a entidade que vive nas pedreiras: “Sou filho de rei / muito lutei pra ser o que sou / eu sou negro de cor / mas tudo é só amor em mim / Xangô Agodô”. Uma curiosidade: foi o carioca Poetinha, já iniciado, quem levou Maria Bethânia, de Santo Amaro, ao terreiro da Mãe Menininha de Gantois, em Salvador. A cantora ingressou no Candomblé em 1971 e descobriu-se filha de Iansã, uma das três mulheres de Xangô, e de Ogum, o guerreiro, e também de Oxóssi (Oxoce), orixá da caça. Profundamente enraizados na cultura baiana, os cultos afro-brasileiros fazem parte do dia a dia de incontáveis cidadãos brasileiros, e, como não poderia deixar de ser, fornecem rica matéria-prima para muitos artistas.
Grupo Olodum (YouTube)
Em Gil, Caetano, Caymmi e compositores baianos, em geral, a cultura afro-brasileira corre livre nas veias. A própria “Axé music”, popularizada por Daniela Mercury e o grupo Olodum (de Olodumarê, orixá do destino), leva esse nome porque axé, força sagrada dos orixás, é uma espécie de bênção no Candomblé. A dupla Poetinha-Baden passou a afinar com esse mundo. Parecem de real convicção os laços de Vinicius com o Candomblé, ele que era conhecido como “o carioca mais baiano do mundo” e autoproclamado “o branco mais negro do mundo”, e é tanto quanto verossímil que tenha se convertido de fato e de fé. Em “Samba da Bênção”, o Poetinha pede, nome a nome, para que seja abençoado por uma longa série de pessoas conhecidas, para ao final pedir saravá! (salve!), palavra de origem banta.
Maestro Guerra-Peixe: Xangô

Já os chamados “eruditos” da música de concerto sempre viram nas culturas indígena e afro-brasileira matéria-prima fértil para suas obras. Se comungavam ou não de uma ou outra crença, isso não vem lá ao caso, que aqui é o fruir artístico. Interessa, sim, aos estudiosos, visando ao aprofundamento de suas indagações históricas e estéticas.  Mas universidade é lugar de aprendizado via pesquisa, produção, criação, questionamento. O que não se pode é deixar o ambiente acadêmico ser contaminado pelo obscurantismo ou fundamentalismo de qualquer espécie ou origem, seja religioso ou ideológico, e tornar-se uma pedra inamovível no caminho da cultura e do conhecimento. 
Axé, Poetinha!