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sábado, 27 de maio de 2017

GLOSSÁRIO DA LAVA JATO

Sempre ouvi duplex, triplex, palavras oxítonas. Agora, nos episódios mais recentes, como no depoimento do próprio Lula – não que ele seja uma referência linguística, mas certamente é de seu uso e costume – também aparece triplex. Da mesma forma, o meritíssimo (palavra, aliás, merecidíssima) Sergio Moro prefere a palavra triplex– propriedade que, se é do Lula ou não, ainda cabe a presunção de inocência acima de nossas vãs, embora óbvias suspeições.

Mas há uma questão, com o “benefício da dúvida”, como diria o jurista: A Folha escreve tríplex (com acento), enquanto O Estado prefere triplex (sem). O Jornal Nacional, da carioca Globo, diz triplex, mas os demais preferem a forma acentuada. Qual seria o correto, se é que há correição absoluta em nossa rica língua? (Não confundir com outro significado de correição, que é o que faz uma corregedoria, já que estamos em pleno ambiente jurídico). Às pesquisas: o Houaiss mostra as duas formas, mas prefere tríplex, sabe-se lá o porquê. Já o Vocabulário Ortográfico da Academia de Letras classifica triplex como adjetivo, e tríplex um numeral.
Sempre na vida ouvi falar em “duplex na Vieira Souto”, refinadíssima avenida em Ipanema; assim, cabe-me a opção, e fico com a palavra que sempre ouvi, duplex – ou triplex. O linguista e filólogo Deonísio da Silva acha que deve acabar prevalecendo a forma sem o acento agudo no ‘i’. Penso que as palavras que vêm do latim, como córtex e vórtex, da anatomia médica, levam acento por causa da pronúncia original em língua que não conhece acentos, a terminologia apenas ajusta a pronúncia latina ao português.
Vou ao centro da minha questão, bastante delicado: a imprensa, em geral, tem sua culpa, sua máxima culpa, quando usa o verbo citar. Ora, estando em ambiente de discussão jurídica, citar se refere a citação judicial, uma intimação expedida pelo juiz. Quando o juiz manda citar, ele tem elementos que o levam a ver indícios de culpabilidade da pessoa objeto da citação, ou, se testemunha, de sua importância para o esclarecimento dos fatos. Mas a grande imprensa presta um desserviço à presunção de inocência que é exigida pela Constituição: rasgou de vez o verbo mencionar e generalizou o citar. Se todos os que a imprensa mencionou como “citados” na Lava Jato fossem réus, não haveria tribunais para tantos processos.

Imagine que determinado empresário já citado como réu conversou rapidamente com uma atriz ao entrar em um restaurante e a menciona em depoimento. Foi ela “citada” no processo da Lava Jato? (Usando uma alegoria exagerada em minha argumentação.) Nunca. É que o nome dela foi simplesmente mencionado de passagem na operação. Crucifica-se sem julgar, independentemente de partido político, muitas vezes apenas por algum delator que, em seu interesse, quereria apenas “engordar peso e preço” de sua delação.

A imprensa escrita confunde, não explica, e, com os préstimos das emissoras de TV, faz o povo assimilar a crucifixão antecipada de quem sequer é réu e pode não ter culpa alguma em coisa nenhuma. Um pequeno dicionário jurídico deveria fazer parte da escrivaninha dos jornalistas da área ou dos que redigem os textos dos teleprompters (aquela telinha onde os textos exibidos na frente do apresentador de telejornal, passando para o telespectador uma impressão de grande e muito bem informado orador).

Faz alguns dias, argumentei em uma rede social sobre esse cruel equívoco. Foi com o Deonísio da Silva, já mencionado acima (evitarei o verbo citar por algum tempo), um dos mais conceituados linguistas do país. Deonísio, em “Sem papas na língua”, sua participação semanal no programa do Ricardo Boechat (rádio Bandnews) - aliás um prato saboroso para os que gostam do assunto – faz alusão a um aparte meu na discussão ao questionar o uso de citar ou mencionar (gravação do dia 12 de maio - https://fatosfotoseregistros.wordpress.com). E trata de outros assuntos deliciosos, como a ‘raivosidade’ dita recentemente pelo Michel Temer. O mais importante: o professor diz que nossa língua não se resume aos dicionários, ela também está na escrita e na fala dos brasileiros. E a agregação do sufixo na palavra “raivoso” é plenamente justificável!
Antonio Magri
Pois foi o mesmo argumento que meu pai usou em um artigo sobre o “imexível” dito pelo ex-ministro Antonio Magri, em 1990. Disse que uma palavra poderia, sim, entrar para o vocabulário pelo acréscimo do prefixo ‘i’, de negação (palavra, aliás, já dicionarizada pelo Houaiss). E isso enquanto o então ministro, um cidadão acima de qualquer erudição, apanhava da “patrulha”. A publicação foi na famosa Coluna do Castello, no Jornal do Brasil, e por mim detalhada neste espaço em “Nossa língua não é imexível”.


Outro citado judicialmente e preso é o ex-magnata e hoje nouveau pauvre Eike Batista (rico só fica pobre em francês). Seria o nome do empresário pronunciado “Áique”, como em alemão, ou “Êique”, aportuguesando? Tratando-se de nome, creio ser justa a versão em português, apesar de não ser a única. (Meu próprio sobrenome, Autran, de origem francesa, soaria algo como “Ôtrrã”, coisa que nunca ouvi na vida.) E há outro preso pela Lava Jato, a que Lula e a imprensa se referem como Paloci (Antonio Palocci), codinome “Italiano”, cuja pronúncia na língua de Dante seria “Palótchi”, ou quase isso. Sou da época dos grandes jornalistas e articulistas da história, tempo que “é só uma fotografia na parede. Mas como dói”, citando (literariamente!) Drummond. 

sábado, 13 de maio de 2017

DE ONDE VENS, Ó PALAVRA?


Um sujeito estrambótico que era estrelícia do Ivan fez um garabulho enorme com suas galimatias a apenas um estepe da rica Mascate. Ora, tudo isso pareceria muito complicado, a não ser que fosse escrito assim: um sujeito vesgo que era atirador do Czar fez uma bagunça enorme com suas conversas confusas a apenas um passo da rica capital de Omã. Seguindo: tudo por causa do meirinho de que era dono um pária que mascava porrada como se fosse um preito do pretor. Que, por sua vez, pode ser lido assim: tudo por causa de um sujeito da classe mais baixa da Índia que era dono do gado que no verão pasta nas montanhas e mascava erva para temperos como se fosse uma homenagem do comandante do exército.

Deonísio da Silva
Deixem-me explicar melhor essa estória surreal acima. É que estou me divertindo com o livro “de onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa”, do amigo Deonísio da Silva (17ª edição, Rio de Janeiro. Lexicon: 2014). Catarinense que adotou o Rio, doutor em Letras pela USP, tem várias academias no currículo, 34 livros publicados, um programa apresentado pelo Ricardo Boechat em que ele fala da língua portuguesa na Rádio Bandnews FM 94,90 RJ, “Sem papas na língua”. Considerado um dos nomes mais respeitados em etimologia (origem e evolução das palavras) e filologia (estudo das sociedades e suas literaturas) do país, é um pesquisador incansável. (O blog do Deonísio pode ser lido em https://deonisio.blogspot.com.br/). Na brincadeira acima, inspirei-me em uma postagem dele.

Hemingway e um de seus merlins: um hobby, uma paixão
São quase quinhentas páginas de verbetes os mais diversos, incluindo um enorme número de palavras que falamos ou escrevemos no cotidiano sem pensar de onde vêm e os mistérios que há por trás delas. Quem gosta de entender nossa língua, lê ou escreve, vai achar o livro de grande utilidade. Pinço ao acaso uma palavra que todos conhecem e já devem ter usado: “anzol”, que teve origem no latim vulgar “amiciolus” diminutivo de “hamus”, gancho, podendo também designar a proteção do cabo da espada. “Anzol” se presta à descrição da luta individual travada entre o homem e o peixe, ao contrário da rede, que leva o homem a pescar no atacado (obs.: sobre a luta homem contra o peixe, é leitura obrigatória “O velho e o mar”, de Hemingway). “Como os primeiros discípulos fossem homens que viviam no mar, Jesus prometeu transformá-los em ‘pescadores de homens’”.

Este é um único exemplo “pescado” aleatoriamente (do grego “alea”, dado de jogo da sorte) entre incontáveis outros. Deonísio é um preciosista, desce aos mínimos detalhes e encontra variações na aplicação das palavras, não se limitando, no mais das vezes, a apenas um significado ou um uso em nossa rica língua portuguesa. As palavras podem formar um quadro que pode ser lindo de se ver, mas por trás dele há um universo de histórias e visões riquíssimas a serem descobertas. É preciso ousar conhecê-las, e fazer do aprendizado do dia a dia uma coisa prazerosa e desafiadora, porque nunca terá fim. E o livro do Deonísio pode ser lido saltando páginas, de trás para frente, várias por dia, ou – mais uma vez – aleatoriamente, fora consultas.

Se conhecer a etimologia das palavras é uma instrução e uma diversão, não quer dizer que devamos escrever sempre com as mais rebuscadas erudições. De vez em quando coloco em um texto meu uma palavra para ver o leitor se dar ao trabalho de ir ao dicionário, ao menos isso. (Meu pai contava que uma senhora disse que o livro dele era muito difícil – o que não era – e que ela teve de ler duas vezes. Ele: “mas eu escrevi mais de vinte!”) Adoro a simplicidade com que certos grandes autores usam as palavras, tecendo um jogo lindo e de grande sabedoria, como Drummond e Fernando Pessoa, d’além mar. Do primeiro, os versos de Para Sempre: “Fosse eu rei do mundo, / baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, / velho embora, será pequenino / feito grão de milho”. Do Pessoa, acho geniais os versos de Liberdade: “Mais que isto / É Jesus Cristo, / Que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca”.

Estátua do Drummond, no Rio
Entre os nossos poetas, há lugar para o bardo Vinicius de Moraes – “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”, do Soneto da Separação. Vinicius é outro mestre da simplicidade (nas palavras), mas os versos são mais bordados em João Cabral, de Morte e Vida Severina: “E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, mesma morte severina:  / (...) (de fraqueza e de doença / é que a morte severina / ataca em qualquer idade / até em gente não nascida”). Tem de ler e reler, compreender sem procurar um sentido de redação de escola. Melhor é sentir.


Região da enfiteuse, no Rio de Janeiro
O livro de Deonísio nos dá a dimensão mais profunda das palavras, desde as mais simples, como ‘outono’, até ‘laudêmio’, que tem origem no italiano e carrega em si a ‘enfiteuse’, que até hoje é cobrada no Rio pela orla do mar, e em Petrópolis, paga à Família Real! Fiquei tão indignado com essa cobrança feita na venda de um imóvel do espólio de meus pais que escrevi o artigo “Você sabe o que é enfiteuse, mas não sabe o que é extorsão?” (tem um link do lado direito, em cima), sobre o absurdo número de impostos pagos na venda de imóveis nas duas cidades (dizem que em Salvador é ainda pior). Na verdade, fiz uma brincadeira com o Mário de Andrade, em “Você sabe o francês ‘singe’ / Mas não sabe o que é guariba? / - Pois é macaco, seu mano / que só sabe o que é da estranja”. Obrigado, Deonísio, e salve a Língua Portuguesa!