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domingo, 16 de dezembro de 2018

'O MUSE, O ALTO INGEGNO, OR M'AIUTATE'


AS MUSAS DA MPB DO PASSADO - II

Billy Blanco
No artigo anterior, abordamos o repertório da MPB dedicado às musas, às mulheres inspiradoras: casos platônicos, flertes, amores ‘a prima vista’, namoradas, esposas ou amantes. Passeamos desde os idos de 1901, com Yara (Rasga Coração) até Sebastiana, de 1952. Dos amores cantados já vistos, vamos agora para 1954 com Tereza da Praia, do Tom Jobim e o paraense Billy Blanco, arquiteto de formação, autor também da divertida Piston de Gafieira.
Praia do Leblon
Tereza da Praia gerou uma pequena dúvida entre os fãs, pois a mulher de Jobim também se chamava Tereza e a letra, está claro, não seria para ela (quem sabe se a dedicada era alguma ‘garota do Leblon’?) Divertida é uma brincadeira sobre uma rixa entre Dick Farney e Lúcio Alves: “Lúcio, arranjei novo amor no Leblon / que corpo bonito / que pele morena”, versos que continuaram com declarações de fantasia entre Dick e Alves “ - é a minha Teresa da Praia / - se ele é tua é minha também”, para juntos concluírem que “Teresa da praia / não é de ninguém”.
Klecius Caldas (IMMuB)
E veio “Maria Escandalosa”, de 1955, marcha carnavalesca de Klecius Caldas e Armando Cavalcânti, mulher que seria hoje uma ‘piriguete’: “Maria Escandalosa / desde criança / sempre deu alteração / na escola / não dava bola / só aprendia / o que não era lição”, para concluir de forma ousada, para a época – “é muito prosa / é mentirosa / mas é gostosa”. As marchinhas carnavalescas, dado o espírito voluptuoso da festa pagã, eram mais apimentadas do que as músicas do resto do ano.
Cauby, a grande estrela de 'Conceição'
Há um samba-canção que marcou época na MPB e foi o maior sucesso de 1956: Conceição, de Jair Amorim e Dunga, ‘estouro’ nas paradas e repertório de 9 entre 10 estrelas e sucesso imortal de Cauby Peixoto. Trata-se da história de uma mulher que não se conformava em viver na pobreza: “Conceição / (...) vivia no morro a sonhar / com coisas que o morro não tem”. Pois não é que a musa subiu de vida, mas a ascensão social terminou em um tombo infeliz para ela? “ E agora daria um milhão / para ser outra vez Conceição”. No mesmo ano (na verdade, composta em 1953), também causou frisson a Iracema, de Adoniran Barbosa, uma dor de cotovelo profunda: “...Iracema / meu grande amor foi embora / chorei, eu chorei de dor porque / Iracema / meu grande amor foi você”.
Jobim e Dindi
Saltemos para 1959, com Dindi, de Tom Jobim e Aluízio de Oliveira, um samba-canção que rodou o mundo, gravado mais de uma centena de vezes (incluindo Ella Fitzgerald e Sinatra) e que teve seu modesto début com Sylvia Telles. Tom inspirou-se no riacho de uma fazenda - que tem esse nome, ‘Dirindi’, ou Dindi - atrás de seu sítio próximo a Petrópolis (RJ). Sabe-se lá se imaginou um idílio com misteriosa ninfa dos bosques petropolitanos. “Ah, Dindi / se soubesse do bem que eu te quero / o mundo seria, Dindi, tudo, Dindi, lindo, Dindi”.
O jovem Carlos Lyra
O anonimato de Maria Ninguém, samba de Carlos Lyra (também de 59), cativa. (Ele, também o autor da mais bela declaração de amor da bossa-nova, Minha Namorada). É um canto à mulher misteriosa, difícil de conquistar: “Maria Ninguém / é um dom que muito homem não tem / haja visto quanta gente / que chama Maria / e Maria não vem”. Musas que ninguém sabe quem foram, como Kalú, Tereza da Praia, Dindi e Maria Ninguém são moldura para qualquer mulher com que se possa sonhar.
Passados a era JK, a renúncia de Jânio e o famoso show que tornou a bossa-nova um ritmo universal via concerto no Carnegie Hall (a nata do jazz presente), veio o golpe de 1964. As letras de Chico Buarque tornaram-se mais intimistas e ricas em poesia. Um bom exemplo é A Rita (1966), ainda com o toque mais conservador, mas de uma inteligência extraordinária: “A Rita levou meu sorriso / no sorriso dela / meu assunto”. E prossegue, de jeito literato: “...levou seu retrato, seu trapo, seu prato / (...) uma imagem de São Francisco / e um bom disco de Noel”.  Levaram tudo do poeta, e há quem diga que Chico se referia à ditadura: Rita, suas coisas, a imagem de São Francisco e o bolachão do Noel Rosa.


No mesmo ano, o artista plástico Rubens Guerchman (falecido em 2008) pintou sobre um espelho A Bela Lindonéia, ou Gioconda do Subúrbio. Rosto deformado, a boca meio que repuxada e o olho esquerdo arroxeado, cara de quem teria sido espancada. Em 1968, ‘o ano que não terminou’ - com o aperto geral do nó do cinquentenário AI-5 -, surge outra Lindonéia, esta de Caetano, um bom exemplo do duplo sentido, das imagens ocultas a que passaram a ser obrigados os artistas, sob os trancos dos coturnos e à tesoura da censura: “Despedaçados  / atropelados / cachorros mortos nas ruas / policiais vigiando / (...) Lindonéia desaparecida / a solidão vai me matar de dor”. Eram tempos difíceis os das Lindonéias de Guerchman e Caetano! 
Madalena, de 1970, é um ritmo balançado de Ivan Lins, então egresso do movimento universitário de música. A letra muito bem casada com a música é de Ronaldo Monteiro de Souza, e o título, fictício, foi inventado por precaução - a musa real, Vera Regina, era par de Ronaldo, mas o nome ‘não dava samba’. Elis Regina resolve gravá-la e a emplaca definitivamente em seu repertório, com enorme sucesso. Quem não se lembra da poesia, mais uma dor de cotovelo escancarada: “Ê Madalena / o meu peito percebeu / que o mar é uma gota / comparado ao pranto meu”. A fase de universitários como Ivan Lins foi profícua e enriquecedora. A MPB ganhou com jovens cultos e estudados. (Cont.)
[ Título: ‘Ó musas, ó altos gênios, agora me ajudem’ – Dante: Divina Comédia. Inferno, Canto II]

domingo, 9 de dezembro de 2018

‘O MUSE, O ALTO INGEGNO, OR M’AIUTATE’1

AS MUSAS DA MPB DO PASSADO - I
Começo esclarecendo que costumo chamar de MPB exatamente o que a sigla quer dizer por extenso (música popular brasileira), não apenas da bossa-nova em diante, como muitos. Neste artigo, o ano de cada música comentada da MPB será o do primeiro registro, primeira gravação ou da primeira partitura.
Catulo
É difícil precisar quando a nossa música popular começou a dar nomes às paixões femininas, suas musas, mas neste texto optei pela ordem cronológica, e encontrando tantos nomes fui obrigado a fazer escolhas. Há poucos registros do início do século 20, porém um marco talvez seja Yara, subtítulo Rasga o Coração, chótis (schottische) de Anacleto de Medeiros e do grande poeta popular Catulo da Paixão Cearense: “Se tu queres ver a imensidão do céu e mar / (...) rasga o coração, vem te debruçar”.
Ary Barroso
Saltemos para Maria, de 1933, sucesso de Ary Barroso e Luís Peixoto. Música de uma peça teatral, foi um tributo à atriz portuguesa Maria Sampaio, a estrela: “Maria, o teu nome principia / na palma da minha mão...” De então para 1935, Lalá, marcha de João de Barro e Alberto Ribeiro, cheia de graça. Trata-se de uma deliciosa aliteração com vogais sobre o nome-título, terminando com a mulher da escolha do cantor (não a do título), entre cinco moçoilas: “Lalá, Lelé, Lili, Loló, Lulu / amei Lalá, mas foi Lelé que me deixou /jururu”.
Vênus de Milo
1937 foi o ano da Rosa. A de Pixinguinha, cuja melodia estava guardada há 20 anos e a letra que veio depois soa inspirada na perfeição de Vênus, deusa da beleza e do amor na mitologia grega, renascida carioca: “Tu és divina e graciosa / estátua majestosa do amor / por Deus esculturada...”, sem poupar, como se vê, exageros poéticos.
Os Anjos do Inferno
Em 1941, Antônio Almeida e Constantino Silva brindaram nosso cancioneiro com o samba carnavalesco Helena, Helena, que fez sucesso na voz do grupo Os Anjos do Inferno - “passei o resto da noite a chamar / Helena, Helena, vem me consolar”. O ano seguinte, 1942, consagrou o imortal modelo - machista, dirão hoje -, de companheira de todas as horas. “Ai meu Deus / que Saudades da Amélia, aquilo sim é que era mulher / Amélia não tinha a menor vaidade / Amélia que era mulher de verdade” joia de Ataulfo Alves e do versátil Mário Lago, homenagem carinhosa à empregada da cantora  Aracy de Almeida (título dicionarizado pelo Aurélio referindo-se à mulher submissa!).
Fim da II Guerra no Times Square
1945, do fim da II Grande Guerra, desencadeou um boom mundial de paixões e bebês, as primeiras tão desejadas e os segundos tão evitados durante o conflito! O ano produziu entre nós inúmeras oferendas amorosas, entre elas duas obras-primas. Uma é de Caymmi: “Dora, rainha do frevo e do Maracatu / Dora, rainha cafusa de um Maracatu”. Dora teve de competir com Isaura, do mesmo ano, da lavra de Herivelto Martins e Roberto Roberti, cantando o cruel dilema entre ir trabalhar ou ficar com a amada: “Se eu cair em teus braços / não há despertador que me faça acordar...” O mesmo ano ainda nos brindou com Maria Betânia, do pernambucano Capiba, curiosamente homem do frevo e não do samba, canção que balançou as rádios no vozeirão de Nelson Gonçalves: “Tu és para mim / a senhora de engenho”, talvez uma forma de o autor rebaixar-se galantemente ao papel de escravo de sua musa, com uma melodia bordada com imensa tristeza.   
Caymmi
O genial Caymmi reaparece em 1947 com sua Marina, de poesia tão linda, um samba urbano mais à maneira do Rio pré-bossa-nova do que das praias baianas: “Marina, morena Marina / você se pintou / (...) Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu / (...) desculpe, Marina Morena, mas eu tô de mal...”. O aparente dissabor ao ver sua amada ‘produzida’ é ao mesmo tempo um elogio à beleza pura, a que pode falar com suas próprias cores, seu jeito meigo, seus traços bem desenhados. Em conversa com o poeta Paulo Mendes Campos, o baiano disse que se inspirou em uma birra de seu então filho pequeno, Dori, que lhe disse ‘tô de mal de você’.
1959: Niemeyer mostra Brasília a Sartre (de óculos)
Em 1949, Chiquita Bacana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, fazia gracejos com... o existencialismo, dez anos antes de Jean-Paul Sartre conhecer o Brasil, em visita a Brasília com Niemeyer. Na paradisíaca Martinica do Caribe francês, com a sensual casca de banana que vestia Chiquita, a música estourou nas paradas com a ‘rainha do rádio’, Emilinha Borba. Aproveitando-se do momento parisiense que seduzia as hostes boêmias e intelectuais do Rio, os autores apelaram para a sensualidade feminina, fazendo uma espécie de ‘chiclete com banana’ com a filosofia da moda: “Não usa vestido, não usa calção / inverno pra ela é pleno verão / Existencialista (com toda razão!) / só faz o que manda / o seu coração”.
Por sugestão da ‘Estrela Dalva’ de Oliveira, em 1952 Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira compuseram um baião romântico intitulado Kalu, codinome de uma paixão oculta (não se sabe de qual dos dois): “Kalu, Kalu / tira o verde desses olhos de cima d’eu / (...) você tá ‘mangando’ di eu” (mangar, verbo surgido no séc. 18: caçoar). Era o jeito dengoso com que só o velho Lua sabia galantear. O ano seguinte também foi do Nordeste, com Sebastiana, de Jackson do Pandeiro (autor de Chiclete com Banana), mestre do forró e do xaxado: “Convidei a comadre Sebastiana / pra dançar e ‘xaxar’ na Paraíba / ela veio com uma dança diferente / (...) e gritava A, E, I, O, U, Y (cantado ‘ipsilone’).
Descobrir a beleza desse repertório dedicado à mulher - seja um caso platônico, flerte, amor à primeira vista, namorada, esposa ou amante - é fácil, basta ouvir. Difícil é escolher, entre tantas, e no fértil período que abordei, um meio século! (Cont.)

[1 ‘Ó musas, ó altos gênios, agora me ajudem’ – Dante: A Divina Comédia. Inferno, Canto II]