LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****

terça-feira, 14 de agosto de 2018

MÚSICA E SURDEZ


Foi padecendo da perda daquilo que lhe era mais caro que Ludwig Van Beethoven compôs, já em quase oclusão dos ouvidos, alguns dos seus melhores quartetos de cordas, sui generis e abstratos. Se soam modernos para a época, pura consequência do que lhe ocorria na mente. Ludwig passou a usar artefatos e espécies de cornetas de diversos tamanhos, no desespero de ouvir seu arredor. Fez encomendas especiais ao construtor e inventor Maelzel, o mesmo que criara o metrônomo, aquela pequena pirâmide cujo pêndulo oscila de um lado para o outro, alternadamente, para marcar o tempo.
Em 1812, já assinava cartas de modo inusitado: ‘de seu fidelíssimo amigo surdo’. Notas, acordes e frases de seu ouvido interno passaram a lhe atordoar, mas deixavam-no mais livre ante as normas rígidas do classicismo, dos invejosos e da crítica. À parte a surdez que torturava seu espírito, a fama lhe era perversa, não sabia lidar com ela. Na primeira audição de sua nona sinfonia, talvez a mais importante obra sinfônica de todos os tempos, Ludwig, já totalmente surdo, após encerrado o último acorde demorou a voltar-se para a plateia. Tinha medo de vaias e um fracasso tremendo, mas ao virar-se para o público só viu aplausos efusivos.
Helen Keller ouve Caruso
Se é possível um surdo criar música, que dirá dos que querem curtir lindas melodias? Helen Keller (1880-1968), ativista cega, surda e muda formada em Radcliffe (EUA), bem o mostrou. Sentia vibrações, e delas fazia o seu ouvido pessoal. ‘Ouvia’ cantores a seu modo, e do seu jeito manifestava sua opinião com sorrisos.
Apresentaram-na ao mito Caruso, o tenor maior, e este pôs-se a cantar-lhe uma ária. Com os dedos tocando os lábios do tenor, sorria como se comentasse cada frase. Assim, seu ouvido interno sentia pelo tato sons de beleza tão grande que a inebriavam.
Beethoven: máscara mortuária
Mas a surdez de Beethoven não era como a de Keller, nascida sem os principais sentidos. A vida do compositor parece ter sido melancólica, suas feições marcadas pelo sofrimento. Os retratos feitos pelos bons artistas destoam daquele vulgarizado, longos cabelos cuidadosamente revoltos como um modelo de passarela, a exemplo dos pequenos bustos comuns de se ver encimando pianos domésticos. Vi a máscara mortuária dele, e não era o rosto de um boa-pinta, consoante os retratos romantizados, só retratavam sofrimento e amargor. 
John Kamitsuka
Apesar da aparência malcuidada e desleixo, o gênio de Bonn parecia agradar os corações das mulheres. Seria a compaixão feminina pelo sofrimento dele um charme a mais? As investidas amorosas de Ludwig eram discretas, volta e meia sobre suas alunas. (O pianista John Kamitsuka lembra que o piano a quatro mãos, tocado por duas pessoas sentadas lado a lado no mesmo instrumento, foi criado tanto para facultar a audição doméstica de peças como sinfonias - já que não havia meios de registra-las em discos e afins - quanto para aproximar o professor de suas pupilas).
Condessa Giulietta Guicciardi
Levando adiante as simpatias femininas de Beethoven, as discussões intermináveis sobre quem teria sido a ‘amada imortal’ do compositor, já especularam que talvez a cunhada Johanna, como quer a ilação do cineasta Bernard Rose. Quem sabe Teresa de Brunswik ou a condessa Giulietta Guicciardi, ambas suas alunas? Em algumas cartas para sua misteriosa amada, Beethoven refere-se a um lugar chamado ‘K’. Seria referência ao balneário de Karlsbad? Ou Korompa, onde a família Brunswik teria propriedade? Bernard Rose (de Immortal Beloved) perdeu a oportunidade de fazer um filme interativo, em que os espectadores escolhem a resposta, versão a ser apresentada no final.
Helen Keller: laureada
Entre Beethoven e Keller, contrastam duas formas de se conviver com a surdez. Enquanto o primeiro se deixava levar pelos malefícios da perda de audição e problemas mentais, a segunda superou os obstáculos à ausência de três dos sentidos, escalou graus acadêmicos e alcançou notoriedade com seus estudos sobre o socialismo.
Em Beethoven, a surdez fora progressiva, em Keller de nascença. A do primeiro pode ter sido consequência de alguma outra moléstia ou a convivência com o epicentro da orquestra em alto volume, a PAIR (Perda Auditiva por Indução de Ruído). Esta, irreversível, pode acometer músicos e plateias - vide o caso de shows de rock, funk e outros, em volume pornográfico. Sirva isso de alerta para um exemplo cotidiano: a poluição sonora e o absurdo volume dos sons automotivos. Matam aos poucos nossos ouvidos.
Nos EUA: proteção auditiva exigida acima de 85 dB
Que ninguém amaldiçoe, buscando vingança, os donos dessas máquinas de fazer doido, pensando que logo terão uma perda auditiva, porque aos poucos elevarão o volume para continuarem ouvindo alto, daí mais surdez, e tome mais volume e assim vai, círculo vicioso até a perda total ou quase. Os cidadãos que se resignem a compartilhar à revelia a doença deles! Poluição sonora não é 'frescura de ambientalista', ela é cruel e selvagem. O limite de ruído para os humanos é de 90 dB (decibel, medida de volume) por 8 horas, segundo o Departamento de Trabalho dos EUA, mas um acréscimo de apenas 5 dB reduz esse tempo máximo de resistência para a metade da jornada, quatro horas. A 100 dB, o dano começa em 15 minutos, e a 112 dB, apenas um minuto. A 140 dB, a perda neurossensorial tem início imediatamente. Para se ter uma ideia, um escritório fechado, em silêncio e sem condicionador de ar ligado, registra entre 40 e 60 dB de ruído local externo ou vizinho (existem apps gratuitos para a medição em celulares, são os decibelímetros ou sound meters).
O guitarrista Mark Goffney, nascido sem os braços
É possível deficientes físicos, surdos, cegos ou mudos tocarem algum instrumento, cantarem? Sim, claro, observadas as condições de cada caso, a escolha e objetivos ao fazê-lo. Novas tecnologias ajudam, como os metrônomos com luz piscante para surdos. Esses ‘ouvem’ a música no seu instrumento, pela vibração em seu corpo ou ainda pelo chão.
A música, além de confortar os que perderam ou nasceram sem algum dos sentidos ou movimentos do corpo, é alimento do espírito e recompensa da vida. 

  

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

BEETHOVEN: UM GÊNIO PERTO DAS TREVAS

Aquele que é considerado um dos grandes gênios da música, se não o maior, Ludwig Van Beethoven (1770-1827), foi acometido de grave e progressiva surdez, aliada a problemas mentais, no auge da carreira. As desventuras de Ludwig tiveram origem ainda menino, volta e meia espancado pelo pai, que queria vê-lo criança-prodígio e fonte de renda, tal qual Mozart. Não tinha a pirotecnia, a versatilidade do ‘Pequeno Mágico’, e dizia criar com extrema dificuldade. Ao contrário do prodígio vienense, não tanto tempo depois, Beethoven veio a compor suas obras mais representativas, como a Sinfonia n° 3, Eroica, aos 34 anos, quase a idade em que Mozart morrera, deixando-nos vasta obra. (Mário de Andrade se referia a Ludwig como Luís de Beethoven, costume de nacionalista. Poderia até ter-lhe traduzido também o sobrenome: ‘Luís de Beterraba’).
Beethoven foi um revolucionário nas ideias e na música. Na questão da forma, trocou uma pacata dança de salão do período clássico, o minueto, por uma outra mais viva e serelepe, o scherzo, uma brincadeira ou troça. O scherzo já existia, mas a troca do minueto é da lavra de Ludwig, consumando sua originalidade. Na famosa Sinfonia n° 5 mais uma vez inovou, acrescentando os trombones no último movimento. Na gloriosa n° 9 deu de presente ao mundo, no último movimento, o acréscimo de um enorme coral e cantores solistas: ‘Ode à Alegria’, sobre poema de Schiller, páginas que marcaram a história da música e abriram caminho para outros grandes sinfonistas.
Eroica: capa com a dedicatória rasgada
Algumas inovações de Beethoven foram mal recebidas. No primeiro ensaio da 5ª Sinfonia, popular no Brasil pelo comercial de aparelho de barbear - o tchã-tchã-tchã-tchã -, o tema inicial foi recebido como piada por músicos e analistas: ‘aquelas quatro notinhas’, gracejaram. Um crítico berlinense disse que nunca ouvira coisa tão desagradável, pobre em melodia, ‘um ruído sem arte alguma’. Mas o instinto revolucionário na música do compositor se estendia às paixões republicanas. Por isso mesmo, dedicou a Napoleão Bonaparte sua terceira sinfonia, Eroica. Mas quando soube que o francês havia sagrado a si próprio Imperador, a admiração caiu por terra. Com ódio, riscou até rasgar impiedosamente a dedicatória da capa da partitura.
São misteriosas e muito romantizadas as paixões de Beethoven, entre elas a famosa ‘amada imortal’. Houve quem defendesse que havia um mistério, como Bernard Rose expõe no texto do filme Immortal Beloved: a luta desesperada pela guarda de seu sobrinho menor, Carl, após a morte por tuberculose de seu irmão Johann. Pega carona aí mais uma teoria de que Carl, tão mimado pelo compositor, teria sido, na verdade, filho do próprio Ludwig com a cunhada Joanna. Na verdade, os grandes nomes da arte são campo fértil para todos os tipos de ilações e especulações, e é difícil saber se existe ou não, ao fundo delas, a chamada ‘verdade verdadeira’.
(schohenbrunn.at)
Beethoven era de um temperamento insuportável. Brigava com todos, despertava antipatias e deixava de se comunicar com o mundo, ensimesmado e entregue aos sons indescritíveis gerados pelo seu ouvido interior, no caótico inferno particular em que a surdez e a insanidade o submergiam. Era de um mau-humor e pessimismo extremos: passeando pelos jardins arborizados de Viena, olhava para os arbustos e sebes cuidadosamente aparados, e chamava-os poodles, aqueles cachorrinhos peludos.
Beethoven e Goethe
Certo dia, braços dados com o amigo e escritor Goethe, costume da época, comentou que aqueles muito bem cuidados arvoredos mais pareciam um bando de carneiros mortos.  Tinha o costume de rabiscar música em qualquer papel ou pano que pudesse encontrar, cantava e resmungava sozinho pelas ruas - sem falar em quando arremessou ovos no cozinheiro quando não lhe agradou a comida. Durante seus estudos, refrescava a cabeça e as mãos com uma jarra d’água que deixava ao lado do piano. E molhava o soalhado, para desespero do senhorio.
O obscuro Testamento de Heiligenstadt
Por tal mau-humor e inconformismo, mudou-se tantas vezes de residência que, ao reencontrar um velho conhecido, este lhe perguntou para onde deveria escrever, uma vez que nunca tinha resposta. Ludwig disse-lhe é simples, basta endereçar ‘Beethoven, Viena’. Sabia-se famoso, mas não se importava tanto com isso. Por seu comportamento agressivo e volátil, além de admirado Ludwig foi também odiado. Com a mesma paixão buscava uma inexistente perfeição na música e no sentimento, conceitos que significariam talvez a mesma coisa em sua loucura - a obra e o amor perfeitos nunca encontrados. Restaram sobre uma suposta paixão três plangentes cartas de amor encontradas após sua morte. Escritas por ele mesmo, não tinham dedicatória ou destinatária e, pior, nunca foram enviadas. Beethoven deixou tudo o que criara, além da bela poupança amealhada - para desespero de seus parentes que sonhavam com uma mordida no testamento dele -, em uma distribuição confusa num texto alucinado escrito durante um tratamento em Heiligenstadt.
Foi naufragando em sofrimento profundo que Beethoven compôs alguns de seus melhores quartetos de cordas e a magistral 9ª Sinfonia, entre outras obras-primas, empregando bugigangas de todos os tamanhos e tipos para amplificar os sons, como espécies de cornetas.


[Peguei emprestado para completar o título deste texto parte do de um livro do autor de A Escolha de Sofia, William Styron, ‘Perto das Trevas’ (Darkness Visible), um relato confessional sobre atravessar a experiência da neurose à depressão, e da demência à recorrente ideia de suicídio, tal qual Beethoven.]


sábado, 4 de agosto de 2018

ROSSINI, MACHADO DE ASSIS, A ÓPERA E SATANÁS

Rossini, por Charlet Ory, 1829

Se por um lado Gioacchino Rossini (1792-1868) tinha enorme facilidade para escrever, por outro era extremamente preguiçoso. Compondo O Barbeiro de Sevilha, sua mais famosa ópera, certo dia uma página escorregou-lhe das mãos e foi parar debaixo de um móvel. Deitado na cama, não se deu ao luxo de levantar e pega-la, chamou o criado puxando seguidamente a corda que acionava um sino lá fora, mas sem sucesso. Após um bom tempo, virou-se para o outro lado e escreveu a página novamente.
Rossini era um glutão assumido: ‘comer e amar, cantar e digerir são os quatro atos da ópera da vida’, dizia. Poderia ter sido protagonista de uma opera buffa, gênero cômico italiano que dominava. Tornou-se famoso, compondo pelos cotovelos - Tancredi, melodramma eroico baseado em uma peça de Voltaire, foi escrita por encomenda em menos de um mês. Mas foi o sucesso de O Barbeiro que levou Rossini a compor mais intensamente. A ópera repercutiu tanto que as apresentações prosseguiram por 21 temporadas, centenas de récitas. E mesmo hoje: o Opera Sense contabilizou 2.547 apresentações pelo mundo na temporada de 2015.
Batalha de Yarmuk
Cenerentola, com libreto sobre a guerra entre bizantinos e sarracenos, foi escrita improvisadamente em apenas três semanas. Guilherme Tell, sua última ópera, obteve grande repercussão e ajudou a fazer de Rossini tão famoso na Europa que os franceses propuseram erigir-lhe uma estátua, orçada em uma pequena fortuna. Gozador, quando ficou sabendo Rossini disse que por metade daquele dinheiro ficaria no pedestal ele mesmo.
Um atarefado cozinheiro, uns bons séculos antes
A produção do italiano era quase doentia: aos 37 anos, já tinha composto número igual de óperas. Deprimido, enfadado pelo sucesso e sem perspectivas de subir ainda mais, quebrou a pena favorita que usava para compor. Entregou-se à boemia, às viagens, aos restaurantes franceses, a ne rien faire, ou, bom italiano que era, al dolce far niente. Mais uma vez enfastiado dessa rotina, passou a dedicar-se a outro talento, a culinária. Inventava pratos com a mesma facilidade com que criava suas óperas. Cansado de viver de economias, direitos e glória, Rossini decide voltar a compor, e escreve obras pomposas como o Stabat Mater e a Pequena Missa Solene.
Mosaico: a prisão de Guilherme Tell pelo tirano Gessler, por não reverenciá-lo
A última ópera composta por Rossini foi mesmo Guilherme Tell, cuja abertura foi usada, no nosso tempo, em filmes de caubói, porque os arcos em ricochet (saltando três vezes na mesma direção para cá e depois para lá) lembram o som dos galopes de cavalos do faroeste. A partitura de Guilherme Tell havia sido prometida muito antes, mas Rossini não se prontificava a começar a compô-la, pois havia prometido que aquela seria a sua última – apesar disso, viveu 40 anos após termina-la. Um crítico publicou no Correio dos Teatros que havia sido lançada à terra a semente da árvore cuja madeira serviria para a construção do piano que o compositor usaria para criar a partitura. E que pessoas não nascidas - porque os pais delas ainda não haviam se casado - poderiam, no futuro, ouvir tão preciosa obra. [No final deste artigo, você pode ouvir a abertura de O Barbeiro e seus ricochets]
O 'Retiro' de Jacarepaguá, Rio
Não se sabe se por causa desse episódio, Rossini pôs-se a escrever, concluindo uma de suas obras-primas, Guilherme Tell, com libreto em francês. Foi um dos mais populares compositores da história, mas tinha medo da velhice e parece que escrevia para correr do ócio, do torpor e do tempo. Legou boa parte de sua fortuna à Prefeitura de Paris, para que fosse construída uma residência para músicos idosos - algo como o nosso mais recente ‘Retiro dos Artistas’ de Jacarepaguá, no Rio.
Em A Ópera, 9° capítulo da obra-prima Dom Casmurro, Machado de Assis conta que a vida é uma grande encenação na qual tenor e barítono disputam a soprano na presença do baixo e dos comprimários (papeis secundários). Isso, quando não são soprano e contralto que brigam pelo tenor (eu sempre ouvi uma versão de músicos para este resumo da ópera: um tenor tenta ‘cantar’ a soprano, mas baixo e barítono atrapalham a cena).
Satanás expulso do Céu, por John MIlton
Machado resumiu o que acontece no mundo: Deus é o poeta, o compositor é Satanás, que subiu ao Conservatório do Céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não concordava em perder deles nas premiações. Tramou uma revolta, foi derrotado e expulso do Conservatório. Tudo poderia ter passado batido, pensou o escritor, se Deus não tivesse escrito o libreto da ópera para depois dele abrir mão - a atividade não caía bem à sua condição de Altíssimo. Satanás levou o manuscrito para o Inferno, compôs a partitura e usou-a tentando se recompor com Padre Eterno, que se recusou a vê-la. Por isso, quando certo dia alguém me perguntou o porquê das guerras, desgraças, tragédias, mortes, e questionou a existência de Deus - tão poderoso, Ele deveria evitar nossas desgraças -, pensei em Machado e respondi: Deus escreveu o libreto, mas quem rege a ópera é Satanás. 
Machado, o ‘Bruxo do Cosme-Velho’, foi guindado ao panteão dos maiores escritores do mundo após recente publicação de livro com contos dele nos EUA. O NY Times considerou nosso gênio um dos nomes de vulto entre os escritores, ‘herdeiro dos grandes e inteiramente sui generis’. A Ópera de Machado não é apenas uma incursão na literatura, música e filosofia. Considero o texto uma boa resposta para os incrédulos e os que não enxergam de quem é a grande culpa do mal neste mundo: o próprio homem. A Deus não cabe consertar ou evitar todos os erros da humanidade, tragédias e guerras. Quando muito dá uma forcinha aos que pedem e realmente merecem].
***
Ouça a abertura Guilherme Tell com a Filarmônica regida por Karajan. Os ricochets surgem aos 8 min 45 seg:

https://www.youtube.com/watch?v=qOofwWT3Edc




sábado, 21 de julho de 2018

O LADO OBSCURO DA VIDA E DA MORTE DE MOZART

Così fan Tutte, encenação da Ópera Nacional de Bucareste

Voltamos a falar de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), mas desta vez por outro ângulo que não o do gênio brincalhão e gozador. É uma outra vida dentro da vida, com final triste. Mozart amargou a decadência imposta pela nobreza, que passou a retirar-lhe o valioso subsídio à sua labuta. O comportamento do compositor, que às vezes afrontava os costumes da época (como nas óperas Don Giovanni, então por muitos vista como imoral, e Così Fan Tutte – Assim Fazem Todas), fora a sua adesão à tanto quanto obscura maçonaria local da época, passaram a incomodar os mecenas.
Com a doença - e depois a morte - de Joseph II, a vida de Mozart entrou em parafuso. Em seus últimos anos, endividado, gastava o que recebia. Passou a recorrer a um amigo e seu editor, Hoffmeister, que lhe emprestava alguns trocos, mas adotou o lema ‘devo, não nego, pago quando puder’. Hoffmeister disse-lhe que, se não saldasse a dívida, adeus empréstimos. E pior: se não compusesse pecinhas fáceis e popularescas para vender rápido, não mais editaria as músicas dele. Mozart não lhe poupou desaforos: preferiria morrer de fome. Cada vez mais desbocado, adorava falar e escrever besteiras.
Mozart e Constanze, em lua de mel
Já maduro, durante suas viagens mandava cartas à amada Constanze repletas de toda sorte de maluquices, entre declarações e juras de amor e saudade: ‘beijo-te 1.095.473.082 vezes’. Criava nomes e expressões existentes apenas em suas caraminholas. Para ela, criava frases e apelidos entre infantis, curiosos e ridículos, como: do teu stu! Knaller-paller. Schnip-schnap-schnur. Schneppeperl-snail’ cujo sentido parecia residir no som das palavras. Elogiava raramente seus ‘escolhidos’, e massacrava todos os incompetentes.
A corte de Mannheim
Frustrado e meio que possesso de raiva, escreveu ao pai que a orquestra de Mannheim era formada por pessoas jovens e honestas, ‘e não por velhos bêbados’, como as demais. De Leipzig, escreveu zombando da orquestra local, dizendo que era formada por gente muito velha que tocava arrastando e não conseguia chegar no andamento desejado. Claro, aquele jovem homem tornou-se siderado pelo mito da criança e adolescente prodígio e continuava ambicioso musicalmente, apesar da sombra da idade se aproximando impiedosamente: já não era mais a criança ‘predileta dos deuses’. 
Pasquale Anfossi
A prolixidade do mito vienense já foi objeto de inúmeros estudos, como o dos musicólogos italianos Enzo Amato e Alberto Vitolo, que buscavam achar defeitos na  obra dele, na falta de outra coisa para fazerem. Argumentaram que trechos de seu compatriota Pasquale Anfossi, de voos bem mais rasantes mas popular na Itália da época, aparecem nas óperas A Flauta Mágica, Don Giovanni e As Bodas de Fígaro, além do Réquiem. Segundo eles, Mozart utilizara mudanças de tempo, de harmonias e de orquestração, além de inversões de trechos da música do italiano.
Como não me dediquei a pensar nisso, restam-me as hipóteses: um muito improvável furto musical ou, o mais plausível, simples consequência da prodigiosa memória do vienense, que captava e assimilava com naturalidade tudo o que ouvia, dos pios de pássaros aos  sons das ruas, trote de cavalos e, claro, melodias, convivendo na cabeça dele sons musicais e natureza. Fico com a segunda hipótese, da influência de que músico algum, em qualquer época, conseguiu escapar, e penso inspirado no químico francês Lavoisier, contemporâneo de Mozart: em música – assim como nas outras artes – nada se cria do nada, nada se rejeita, e sem querer ou saber tudo se aproveita.
Lavoisier

Muito doente, Mozart começou a compor um Réquiem, música fúnebre. Trabalhava por insistência de um misterioso freguês, sempre vestido de luto, que o atormentava com frequência. Transtornado e provavelmente já confuso por alguma estranha doença, tomado por quase alucinações, elucubrava que a obra teria sido encomendada para seu próprio funeral. Talvez já perturbado pelo medo do fim, a fraqueza avançando, além de suspeitas infundadas de envenenamento pelo compositor Antonio Salieri - na verdade um amigo e, por que não, invejoso do prodígio. A ilação sobre o envenenamento, aliás, foi romanticamente explorada no filme Amadeus, de Milos Forman, sobre texto de Peter Shaffer.
Monumento em homenagem - tardia
Mozart morreu aos 35 anos de idade encerrando sua incomparável carreira tão precocemente quanto a iniciou. Foi enterrado, conta-se que na presença de uma ou duas pessoas e seu cão, que acompanhavam a charrete que levava o féretro. Cabe o cruel dito popular: ‘morreu com a boca cheia de formiga e um cachorro velho lambendo-lhe a cara’, retrato de um final desafortunado. Somente dezessete anos depois a viúva Constanze, que à época do enterro estava severamente adoentada, buscou visitar o túmulo do amado, ficando arrasada pois não encontrara onde o corpo havia sido enterrado.
Reconstrução facial de Mozart
Para completar, o crânio de Mozart teria sido roubado - não para que se pesquisasse o que havia na cachola daquele gênio, mas por motivo fútil: um idiota apropriou-se da peça, dando-a de presente ao irmão de um anatomista de nome Hyrill. O crânio fora recuperado, muito se especulou, mas em 2006 um exame de DNA refutou definitivamente a teoria. (E como há teorias sobre a vida e a morte desse gênio! Autores bem qualificados tecem diferentes ideias, de similares a divergentes ou... dissonantes). A alegria da criança genial e prodigiosa descambou para a penúria e a desgraça, até que lhe sobreviesse a morte. Restou viva sua grandiosa obra, uma contribuição de impossível mensura para a humanidade, e que assim será até o final dos tempos.


sábado, 14 de julho de 2018

O PRODÍGIO E A PRECOCIDADE NA ARTE

PERIGOS QUE SEDUZEM 
CRIANÇAS E PAIS


Já pensei, falei e escrevi sobre Mozart (1756-1791) muitas vezes. E será difícil, sempre, pensar o futuro da música sem nos lembrarmos do prodígio de Salzburg, menino travesso como qualquer outro, embora quase sobrenaturalmente bem-dotado. Já vi ilações sobre a data de registro de nascimento feita ‘a posteriori’, forçando para baixo a idade do menino, mas isso, diria meu pai, é coisa de especula. Poderiam as mãos habilidosas de papai Leopold ter colaborado nas composições precoces de monumental talento? Talvez um pouco, é coisa que não saberemos. Nada há que levante dúvidas quanto à predestinação daquela criança. Não dá para bater de frente com o torrencial de informações sobre o pequeno Wolfgang, precoce como raros, se não o topo da lista.
O tricordiano Godofredo Rangel
[Meu pai, o escritor Autran Dourado, contava sobre os conselhos que, ainda adolescente, recebeu do autor mineiro Godofredo Rangel após ler um dos contos dele, a pedido: ainda bem que você não é precoce. Estude, leia, leia. Orientou-o a mergulhar nos grandes clássicos, bebendo na rica fonte dos mestres da literatura. Godofredo achava que o canto da sereia da precocidade poderia atrapalhar grandes talentos que deveriam se desenvolver per ardua, e não apenas per talentum. A trilha construída por meu pai foi lembrada por um crítico como a de uma ‘formiguinha da literatura’, da labuta diária – talvez aludindo à fabula atribuída a Esopo e narrada por La Fontaine, sobre esse animalzinho e a cigarra.]

É certo que, no caso de Mozart, cabem aquelas palavras atribuídas (embora não seja comprovadamente o real autor) a Abraham Lincoln: pode-se enganar a todos por algum tempo; é possível enganar alguns por todo o tempo, mas ninguém pode enganar a todos o tempo todo. Não enganou Mozart, perenizado como gênio inconteste, precocidade a toda prova.
O que se sabe é que o menino, aos tenros quatro anos, já tocava muito bem o cravo, memorizando peças com facilidade. Aos seis, escreveu pequenos minuetti e um allegro. Aos sete, já teria tido publicadas algumas pequenas peças e aos treze já enveredava por um dos mais complexos gêneros musicais, a ópera. Tendo ouvido um Miserere que era sempre cantado na Capela Sistina, o adolescente, chegando em casa, sentou-se ao cravo executou-o de memória, com perfeição.
Mozart: finalizando Don Giovanni
Ciente de sua genialidade mas nunca tomado pela soberba, Mozart não sucumbiu à clássica estupidez de muitos gênios. Um dia, foi procurado por um jovem compositor iniciante que lhe pediu orientação sobre como escrever uma sinfonia. Mozart, já consagrado na Europa, disse-lhe para escrever primeiro coisas simples como baladas. Surpreso, o aspirante o questionou, dizendo que ele, Mozart, havia composto sinfonias aos dez anos de idade. E ouviu como resposta que, diferentemente do curioso, não perguntara a outros como fazê-lo.
Linz, a antiga beleza arquitetônica
O compositor produzia prolixamente, encabularia até copistas de seu tempo (hoje há softwares que fazem cópias no lugar dessa classe de profissionais infelizmente em vias de extinção). Bom exemplo dessa fertilidade exuberante é que, já adulto, de retorno à Áustria, em 1783, Mozart escreveu ao pai dizendo que não tinha sinfonia alguma pronta na bagagem, mas que estava confirmada uma apresentação em Linz. Sem mais problemas, o concerto foi realizado na data prevista. O compositor havia chegado na cidade apenas quatro dias antes, em trinta de outubro, e foi após esse ínfimo prazo que viu executada com sucesso sua nova sinfonia, que levou o subtítulo Linz, de número 36.
Encenação de Don Giovanni,: Metropolitan Opera de NY
Na véspera da estreia da magnífica Don Giovanni, Mozart ainda trabalhava na abertura da peça, a ser ensaiada e executada no dia seguinte. A ópera obteve grande sucesso. As suas sinfonias de número 39 a 41, aliás entre as mais belas, três sinfonias inteiras, friso, já eram dotadas da boa arquitetura de um compositor maduro. E foram compostas em menos de dois meses. Se há estudiosos que apontam no conjunto de obras de Mozart nada menos do que cinquenta e duas sinfonias, achando um trecho do que seria uma aqui, talvez um movimento acolá, no frigir dos ovos restam-nos 41 completas, sendo a última a elaborada Jupiter, conhecida pelo número K. 551, na catalogação de Köchel, adotada no mundo inteiro. Mas 41 sinfonias são parte de um caudaloso repertório, na juventude de seus 35 anos , e já seriam suficientes para justificar uma longa vida de trabalho de qualquer bom compositor.
Para fazer um contraponto entre a precocidade e  a ourivesaria, pensemos em Brahms (1833-1897), que, na contramão de Mozart, teria sido um bom exemplo para Godofredo Rangel dar ao meu pai, a fim de que ele não se deixasse seduzir pelo que chamei, no início deste texto, de ‘canto da sereia’ do prodígio. Ainda passeando entre os gênios – o prodígio e o elaborado, da complexidade, da reflexão imensa -, lembro-me sempre de Brahms (1833-1897) e sua grandiosa Sinfonia nº1, que já foi chamada por alguns de 10ª de Beethoven, embora pessoalmente ache que essa obra pouco tem a ver com 9ª do outro. O primeiro movimento teve uma versão no início dos anos 1860, e o esmero e a tapeçaria de vozes, solos, harmonia, enfim, a complexidade da obra, levaram longos, longos anos para serem magistralmente concluídos à perfeição. Cada artista deve saber seu lugar, sua época e seu ritmo, que lhe mostrarão o caminho a seguir. Deve-se estimular crianças desde cedo, claro, mas com cautela para não ver embotar algum talento que não logre, por excesso, ascender ao topo tão cedo quanto parece atrair o canto da sereia. Há um infindável número de grandes artistas e mesmo gênios que amadureceram a seu tempo, sem terem sido prodígios.

sábado, 7 de julho de 2018

DO TESTAMENTO DE HÄNDEL A VON KARAJAN


E OS DEGRAUS PARA A PERFEIÇÃO

Frontispício autográfico do oratório Messias
Handel, Händel ou Haendel? Nós já falamos aqui das brigas que aprontavam Bach e Händel, cada um de seu lado. Mas vejamos o último não como pessoa, sim como brilhante e prolífico compositor, de quem se destaca, entre incontáveis obras, o monumental Messias. Foi músico contra a vontade do pai, mas o Príncipe da Saxônia o fez aceita-lo assim, diante do enorme talento. O jovem Händel mudou-se para a Inglaterra, onde por questão de idioma, por seu interesse, retirou o trema de seu sobrenome. Alguns adotam literalmente a pronúncia correta, com a contração das vogais ‘a’ e ‘e’ por extenso: Haendel. Eu, particularmente, opto sempre pela grafia original, com o saudoso trema sobre o ‘a’.
O testamento: Händel teria pedido ao Criador, já no leito derradeiro, que o levasse em uma sexta-feira santa. E assim cumpriu o Senhor: morreu em uma sexta da Paixão e foi enterrado como inglês honorário na Abadia de Westminster, com direito a pomposo funeral. Em seu testamento, de 1750, deixou certa quantia em dinheiro para o criado Peter. Já biblioteca, instrumentos e grande parte de sua poupança ficaram para Christopher Smith. Para o primo Christian e a prima Johanna Friderika, sobrinha, e alguns amigos, deixou quantias que variavam de cem a duzentas libras. Teve certo conforto em vida, porém bastante menos do que merecia o seu patrimônio musical. (Aqui cabe uma dúvida levantada pelo insuspeito historiador Hans Neunzig: por que Händel teria premiado Christopher com altas benesses especiais na divisão? Por que não há registro de mulheres na vida de Händel? A pergunta pode soar ao leitor ‘moderno’, cheio de preconceitos,  como uma ilação e convida a possíveis visões machistas, quando não homofóbicas).
Karajan. (Foto: The Guardian)
O mito Karajan: Herbert von Karajan foi um dos mais famosos regentes de todos os tempos. Desfrutou das mordomias que Händel e outros não tiveram, e à frente da Filarmônica de Berlim exerceu como poucos um poder quase ilimitado. Marca registrada, regia de olhos cerrados, em profunda introspecção. Em uma gravação para TV, pediu aos técnicos que o focalizassem de olhos fechados, parte de seu mise-en-scène, a maior parte do tempo. Sentado, pernas cruzadas, teria comentado que achava simplesmente enfadonho ver músicos tocarem.
Toscanini e Karajan
Disputa no Céu: Isto evoca mais anedotas: encontraram-se no Céu Toscanini, Furtwängler e Karajan, que tentavam, a todo custo, decidir no berro quem teria sido o regente número um. Furtwängler disse que seu domínio técnico e o amplo conhecimento da cultura europeia o fizeram o melhor de todos. Ao que Toscanini retrucou que não, por causa de sua precisão rítmica,  fidelidade ao autor e, entre outras virtudes, porque Deus o havia feito assim. Karajan, indignado, deu um salto a esbravejou ‘eu não fiz ninguém não’! Por essas e outras, diz a sabedoria das anedotas, é que falam que a diferença entre Deus e um regente é que Deus não fica pensando que é um maestro!
Músicos e regentes descem ao Inferno: Há também a do músico que chegou ao Inferno para cumprir sua pena, sem direito a infindáveis recursos, embargos e instâncias de todos os níveis. Percebeu que havia vários enormes caldeirões sobre fogo intenso, onde eram cozinhados músicos de todas as especialidades. Os caldeirões tinham à sua frente capetas-fiscais, para evitar que algum esperto saltasse fora da água escaldante: usavam seus tridentes para que os recalcitrantes retornassem ao fundo. Porém, o noviço percebeu que havia um caldeirão sem capeta para fiscalizar, mas apesar disso algumas cabeças subiam e logo afundavam, misteriosamente. O novato indagou o porquê. O capeta-chefe, pernas sobre um banquinho e palitando os dentes, respondeu-lhe que aquele caldeirão era o dos maestros, ele nem se preocupava. E explicou que cada vez que um deles tentava subir, outros puxavam-no por baixo. Claro, uma pilhéria sobre histórica disputa entre os regentes. Se não há orquestra para todos os que querem ser músicos, existem senão raríssimas oportunidades para bons regentes, cálculo por demais óbvio.
Os degraus do Paraíso: Bernard Haiting, por décadas regente da famosa Concertgebouw de Amsterdam, conta que um dia, convidado, Karajan subira as imponentes escadas de onde se vislumbra o augusto órgão de tubos, rosto erguido e nariz empinado como um monarca dirigindo-se ao seu altíssimo trono, deixou escapar que aquelas escadas foram feitas para ele. Seriam elas um gradus ad parnassum (degraus para o paraíso, a perfeição)? Não se sabe se esse folclore todo é realmente verdade, mas que é um quadro da profissão, lá isso é. Diz um amigo linguista que, entre a verdade oficial e a lenda, às vezes é melhor ficarmos com a segunda.
George Philipp Telemann
Telemann e as redes sociais: Retornando aos velhos tempos, seu contemporâneo George Philipp Telemann (1681-1767), prolífico como boa parte de seus pares, escreveu quase uma cantata para cada domingo, setenta e oito ofícios, quarenta óperas, 44 paixões, concertos, sonatas e música de câmara, entre tantas. Amparados pelo Poder Público ou Igrejas, sobrava tempo para que os compositores se dedicassem com exclusividade à sua nobre arte – além de comer, beber, amar e nada mais. E com um detalhe: sem smartphones, redes sociais, trânsito e outros males de hoje a atrasá-los.
O pequeno Mozart: apresentando-se em Versailles
O menino mágico: Um pouco adiante no tempo, encontramos um outro grande compositor cujo volume de produção alcançou, em sua boa parte, insuperável qualidade: Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) talvez o maior talento da história. Desde cedo, papai Leopold se aproveitava dos extraordinários dotes de seu moleque para explorá-los e faturar na Europa, fazendo crescer-lhe a fama no piano e no violino. Chamavam-no “o pequeno mágico”, consumação do músico extremamente precoce, exótico, indomável e de habilidades tidas como divinas, por isso mesmo conhecido também como “o predileto dos deuses”.