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sábado, 19 de dezembro de 2020

A LETARGIA ARTÍSTICA E O MERCADO DE ARTE NA CRISE

 


Sempre procuro a etimologia, a origem e o significado das palavras para melhor aplicá-las. Busquei no Houaiss uma breve definição para letargia (do grego lethargía): ”estado de profunda inconsciência, semelhante ao sono profundo, do qual a pessoa pode ser despertada, mas ao qual retorna logo a seguir”. É exatamente o que penso do estado atual das artes de qualidade, principalmente as chamadas performáticas - que acontecem com a presença de público, tais como a música, o teatro e a dança. Em tempos de pandemia, as não-performáticas, como literatura, poesia, composição, pintura, encontram terreno fértil para criação: isolamento, introspecção, neurose e uma espécie de introjeção, reflexo de acontecimentos externos como vindos do interior de cada um.


As artes performáticas – além dos artistas, os profissionais de apoio, técnicos e, claro, o ensino – estão seriamente prejudicadas e algumas em risco. O isolamento as perturba, e apesar de soluções heterodoxas felizes como salas de concerto e shows preparadas, espaçamento entre as pessoas, isolamento dos artistas, ainda se busca soluções criativas para manter vivas essas manifestações, mesclando técnicas online e lives com hora marcada, como se estivéssemos assistindo aos eventos em nossas casas. Mas sem o calor, a presença, a respiração do espectador vizinho, as palmas em efeito coro, os eventuais gritos de “bravo”, “bis”, ou mesmo algum “iuhu”, é inegável que muito se perde.


Nem se fale na óbvia queda de qualidade, uma vez que o público é parte das as manifestações artísticas desde seu surgimento - o ‘fazer arte’ -, e nunca houve um filtro à boa apresentação, algo entre artista e o público, que interagem entre si. Quem já se apresentou cantando, atuando, tocando ou dançando sabe do que estou falando. Aquela curiosidade que vem antes de se entrar no palco (tem público? Casa cheia?) até os naturais sorrisos ao pisar no tablado, a adrenalina, bom hormônio em doses certas que, al punto, acelera os  batimentos cardíacos. Tudo serve para criar um ambiente propício, mesmo com os olhos enevoando a plateia com a chamada “quarta parede”, para que a sensação de ver os rostos do público não invada com tanta força o espaço que é território e domínio do artista.


No final, perde toda a cadeia de profissionais envolvidos nas performances. Mas e as artes não-performáticas? Creia, sobrevivem em plena crise e, em alguns casos, muito bem, obrigado! Matéria de O Estado de SP (11/12) menciona uma análise do mercado de arte em plena Covid-19 em países latino-americanos. Foram consultados marchands, galerias e leiloeiros de pequena estatura, com movimentações de até R$ 500 mil ao ano. Mesmo com a Covid atuando na cena em 2020, as vendas foram bem mais significativas do que no ano anterior. O estudo foi dirigido pela Além Consultoria em Cultura, com a Associação Brasileira de Arte Contemporânea e a Agência Brasileira de Promoção Apex-Brasil.


O mercado brasileiro, pródigo em excelentes autores na área das artes plásticas, teve 78 marchands consultados, e entre eles os que movimentaram além de R$ 10 milhões em 2019, mantendo ou superando as vendas em plenos tempos de Covid. Os negócios chegaram a subir 58% neste ano nos três primeiros meses, de abril a junho sofreram alguma variação negativa e de julho a setembro registraram um crescimento de 55%. O desaparecimento dos leilões ao vivo, devido à pandemia, fez surgirem formas alternativas: visitas presenciais para análise dos objetos à venda com hora marcada, para evitar aglomerações, e pregões virtuais para lances nas obras desejadas. A disputa não sofreu, cresceu. Falamos de um mercado que tem nomes como Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, Lígia Clark, Iberê Camargo, Krajcberg, Weissman, Tarsila e Segall, que disputam lances nas vendas da Christie’s e Sotheby’s em NY e Londres.


O que há por trás dessa aparente contradição no mundo artístico? Pura questão financeira,  investimentos mesmo. Ora, vejamos: com as Bolsas em sucessivas quedas, perdas no mercado de capital – as aplicações são frequentemente deficitárias -, o dólar, que já encostou nos R$ 6,00 e hoje descansa sobre os R$ 5,00, o rumo errático da economia do governo, investir em quê? Ora, com a Selic congelada nos 2% a.a., segurando à unha as taxas de financiamento para atrair o consumidor, principalmente o de menor renda na expectativa de aquecer um mercado de trabalho em plena recessão, o investidor abastado e mais esclarecido dispõe de um mercado de que sempre participou, e que agora lhe oferece bons frutos: obras de arte. E não é sempre por amor: um quadro na parede pode guardar em si altos valores, ocupando pequenos espaços e adornando as residências das elites.


Não é um santuário de castas virgens; não raro, é  desvio de dinheiro público e negociatas emoldurado até ser possível usá-lo de forma nem sempre lícita. Entre as ações da operação Lava-Jato e de juízes como Fausto de Sanctis, que ‘grampeou’ o banqueiro Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, foram milhões de dólares em objetos de arte (foto).


O artista não escolhe quem frui de sua arte. O problema é que, entre as chamadas artes plásticas e performáticas, as primeiras são também investimento financeiro, e as de palco são subvencionadas pelo poder público. O capital privado brasileiro, assim como os governos, não veem retorno político ou financeiro que os recompense, exceção feita aos estereotipados “famosos” da TV e seus clones.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A CAVALGADA DAS VACINAS

 


Vale
citar um trecho da famosa A Cavalgada das Valquírias, da ópera Die Walküre, de Wagner, mais conhecida do grande público pelo aterrorizante ataque aos vietcongs por uma revoada de helicópteros, no filme Apocalypse Now, de Francis Coppola (1979). No Brasil, ensaiamos a batalha, enquanto quase 200 centros do mundo pesquisam vacinas, com cerca de oito já em conclusão. As mais adiantadas trabalham sobre dois princípios, o RNA (material genético) modificado ou o próprio vírus atenuado (explicação simplificada da pesquisadora Isabela Autran, da Fapesp/USP). Em São Paulo, a chinesa CoronaVac já descarregou um bom número de vacinas prontas e 600 litros para serem envasados. A americana Pfizer, associada à BioTechnet/FioCruz, espera até 95% de eficácia nos testes realizados, e já fez acordos com a União Europeia, os EUA e países latinos como Chile, Peru e México. Mas nossa burocracia anda em marcha lenta, apesar da urgência. 


Há outros empecilhos à negociação com a Pfizer, principalmente a necessidade de se armazenar o produto a uma temperatura de absurdos -70ºC, o que provavelmente descarta a totalidade das geladeiras dos postos de saúde, quase todos os SUS e afins. O país tem 5.570 municípios, muitos deles bastante pequenos, e várias metrópoles, como São Paulo e Rio, sem falar no campo e nas aldeias indígenas, que ficariam de lado. A Bahia já se adiantou e comprou certo número de freezers especiais, mas parece que será suficiente para pouco além da capital, Salvador. Se para os menores municípios do país três ou cinco deles poderiam servir, quantos, somente na área urbana da capital paulista, seriam necessários?


O mundo corre 'no vácuo’ do Reino Unido, que já enviou por ferrovias vacinas para centros estratégicos para começar a imunização em massa no dia 8 de dezembro, após aprovação que o assessor para saúde norte-americano Anthony Fauci (foto) – cuja permanência no cargo já foi anunciada por Biden, declarou apressada e perigosa. Os valores em real mencionados no parágrafo anterior mostram que esta vacina seria para uma abastada elite urbana e ‘ungidos’: a US$ 40 (R$ 210) pelas duas doses, mais transporte e freezers para armazenamento de milhões delas, chega-se a um custo estratosférico.


O tipo de freezer que a vacina da Pfizer requer existe em centros de pesquisa, como o Butantan, a Fiocruz e outros, e já são utilizados para experimentos, guarda de órgãos destinados a transplantes, fora as instituições privadas de reprodução assistida, ou seja, congelamento de esperma, óvulos ou embriões (foto), ‘hospedagem’ ridiculamente cara, acessível apenas a uma casta muito rica. Se vários centros não poderiam esvaziar suas geladeiras, outros não abririam mão das fortunas que auferem privadamente, portanto deve haver apenas mais alguns centros, como o HC, o Emílio Ribas e outros públicos, além de Hospitais como o A. Einstein e alguns laboratórios, que também não podem simplesmente esvaziar seus conteúdos.


Cada freezer desses custa US$ 20 mil (mais de R$ 85 mil), fora o transporte, o que lançaria as cifras a níveis exorbitantes. Existe a possibilidade de se adquirir maletas especiais para até 15 dias de transporte, o que somado ao preço total seria impagável. Enquanto isso, a celebrada AstraZeneca/Oxford teve de suspender seus testes e recomeçar devido a uma falha de protocolo, o que atrasa ainda mais nossa batalha particular.


Correndo por fora, a chinesa da Sinovac, CoronaVac/Butantan, que tem custo dez vezes menor e funciona em dose que esperamos única, com eficácia a ser numericamente comprovada, e pode ser armazenada entre 2 e 8ºC em simples geladeiras de postos de saúde ou do SUS. O governo do estado de São Paulo comprou e já recebeu um lote pronto e insumos para envase pelo Instituto Butantan, ficando grandes volumes para mais adiante. O Butantan sofreu uma reforma (foto acima) e se prepara com a ajuda da Fapesp e do Todos pela Saúde (Itaú-Unibanco).


Contudo, aparentemente, há um impasse. O presidente da República já reiterou que não comprará a vacina chinesa, pura e simplesmente, não se sabe se por questão ideológica ou outro motivo desconhecido. Técnico-científico, sabemos que não é, fora bravatas como a do ministro da Economia, sobre “evidências empíricas” (sic), coisa desprovida de sentido cientifico (Estadão, 3/12). E a Anvisa, a ser dirigida por Jorge Luiz Kormann (foto), um tenente-coronel olavista nomeado pelo presidente cujo nome deverá ser ratificado pelo Congresso no dia 19 de dezembro, já vem obstruindo e procrastinando o ingresso da vacina chinesa há tempos.


Porém, um fato recente parece esquecido: Em 6 de fevereiro deste ano o presidente sancionou lei nº 13.979, decretada pelo Congresso, ante a iminência da catástrofe anunciada. Diz o preâmbulo: “Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública (...) decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019” (sic). E, no caput do Art. 3º: “poderão ser adotadas, entre outras, as seguintes medidas”. Entre elas, diz o inciso VIII: “autorização excepcional (...) para a aprovação de produtos sujeitos à vigilância sanitária sem registro na Anvisa, desde que: a) registrados por autoridade sanitária estrangeira”.

Em tempo: cavalgada ou cavalhada vem de cavalgata, um desfile que representa o duelo de lanças e espadas entre azuis e vermelhos, cristãos e mouros, do sul do Brasil a Minas e Bahia, tradicional folguedo introduzido no país, como tantos outros, por influência da ocupação mourisca da Península Ibérica.




sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A GUERRA DAS VACINAS

 


Era o ano de 1904. Presidente da República, Rodrigues Alves ainda enfrentava os ranços da ditadura de Floriano Peixoto, que já vinha de Deodoro, tempos eivados pelo forte estigma positivista de Comte e Durkheim. O grande médico sanitarista Oswaldo Cruz liderava uma campanha de vacinação em massa contra o vírus da varíola, doença que matava em 30% dos casos e deixava os sobreviventes com sequelas como cegueira e bolhas, feridas e cicatrizes pelo corpo. Houve campanha mundial de vacinação em massa, mas a OMS somente veio a declarar a doença extinta em 1980.


Por trás do movimento que ocasionou uma rebelião popular, chamada Revolta da Vacina, havia uma trama dos velhos positivistas para deflagrar um golpe de Estado, estimulando o movimento na capital da República, Rio de Janeiro. O povo, insuflado, não se conteve e foi às ruas: uma lei imporia aos cidadãos não-vacinados uma série de restrições, tais como viagens, empregos, matrículas em escolas e até casamentos. O país já estava assolado pela febre amarela e a peste bubônica, e o medo da vacina antivariólica balançava sobre a cabeça do povo como a espada de Dâmocles. O golpe de Estado aconteceu, levou 30 vidas, centenas à prisão e deportou outros tantos. Mas teve vida curta: oito dias.


Um século e quinze anos depois, sobre um outro vírus, o SARS-CoV-2, ou Covid-19, no dia 25 de novembro de 2020 o conceituado jornal norte-americano The New York Times publicou matéria intitulada “Depois de admitir erro, AstraZeneca enfrenta difíceis questões sobre sua vacina”, e disse que “alguns dos participantes do experimento somente receberam uma dose parcial da vacina”. E mais: “especialistas disseram que a divulgação irregular pela farmacêutica comprometeu a confiança”. Importante lembrar que o NY Times é um jornal americano e que a vacina da AstraZeneca uma parceria privada com a Universidade de Oxford, menina dos olhos dos ingleses na pesquisa contra o vírus.

Sir John Bell

No dia seguinte, 26 de novembro, foi a vez do jornal britânico The Guardian noticiar: “Vacina Oxford/AstraZeneca será submetida a novo teste global”, e, completando, “críticos questionam a informação de que ela poderia proteger até 90% das pessoas contra o coronavírus”. Sir John Bell, assessor do governo para assuntos de saúde e professor emérito de medicina, segundo o jornal, desmentiu as informações de que o teste anterior não havia sido corretamente aplicado ou reportado, e disse, literalmente, que “nós não estaríamos ‘cozinhando’ isso enquanto seguíamos em frente”, e que esperava que informações completas e abalizadas por analistas seriam publicadas no jornal de medicina Lancet, no fim de semana”.

Instituto de Ciências Biológicas/USP

Logo no dia seguinte, 27 de novembro, o The Times noticiou: “Antivacinas exploram confusão sobre a vacina de Oxford”: “militantes antivacinação apegam-se à crítica feita à AstraZeneca para respaldar teorias não fundamentadas sobre segurança, e argumentaram que falhas nos experimentos poderiam causar prejuízo à ciência”. De um lado, um noticiário mais azedo do americano NYT, e do outro uma velada defesa da vacina de Oxford pelo britânico The Times. Enquanto isso, entrava um tertius na briga, o grupo antivacina. No Brasil, a microbiologista Natália Pasternak, do ICB/USP e presidente do IQC, apresentou, no Estadão de 27 de novembro,  uma opinião mais técnica, não-política, dizendo que os voluntários a que se refere a suposta falha do consórcio deveriam ter sido simplesmente excluídos da experiência (o que nos induz a crer que a falha ainda poderia ser corrigida).

Sputnik 5

Enquanto a Rússia mantém sob um véu sua vacina, a Sputnik-5 (nome do primeiro satélite a levar animais ao espaço), a China entra em estágio de finalização para a fase 3 da CoronaVac. Enquanto o mundo avança e o que se vê é uma “guerra mundial das vacinas” e uma corrida pela cura, por aqui há uma queda de braço entre os governos federal, via Anvisa, e do estado de São Paulo, que tem o modelo chinês como seu futuro grande trunfo político. Trata-se de uma guerra particular, talvez uma batalha intestina dentro de um conflito de ampla escala, uma disputa estratégica em que os dois governantes travam um embate cujo maior prejudicado será o povo, caso haja obstruções, impedimento ou procrastinação sem motivos científicos de rigor que embasem a Agência de Vigilância.

Sede da Pfizer nos EUA

Enquanto isso, seguem em paz a Johnson & Johnson e a Pfizer americanas, esta última com uma das maiores farmacêuticas do mundo, com sede em NY, receita anual de US$ 51,75 bilhões e ativos de US$ 167,489 bilhões em 2019 (perto de um trilhão de Reais). Em 1987, Gilberto Gil profetizava em uma música, coincidentemente batizada Lunik-9: “Guerra diferente / das tradicionais / guerra de astronautas / nos espaços siderais”. Não, ainda não chegamos a esta modalidade, mas sim a outra, uma espécie de guerra fria do capital, do poder, do lucro e das ambições de governantes, da disputa pela prevalência de um país sobre o outro, uma Guerra Mundial das Vacinas.

Oswaldo Cruz

A disputa de âmbito nacional torna-se uma questão política, talvez uma Batalha das vacinas. E o célebre Oswaldo Cruz, herói brasileiro na campanha de 1904, que dá nome à FioCruz, sede brasileira da AstraZeneca/Oxford e um dos dois maiores centros de pesquisa sobre Covid no país, amargaria ver tanta disputa, tanta ganância e tanta política, e, entrando em campo pela linha de fundo, os velhos antivacinas – e não mais os positivistas do início do século 20, mas os novos donos de outras bandeiras tão retrógradas quanto as deles.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

DEBATENDO O DEBATE

Lincoln e Douglas

De acordo com o Bill of Rights Institute, o primeiro debate político aconteceu entre os candidatos ao Senado americano Abraham Lincoln e Stephen Douglas. A estreia obteve sucesso, e prosseguiu com mais seis encontros, lembrados até hoje como “os debates Lincoln-Douglas”. A prática, revivida tempos depois, teve origem na ideia de que os candidatos devem apresentar seus pontos de vista publicamente por meio de um diálogo construtivo sobre o futuro da nação.


Esses debates de Lincoln aconteceram perante plateias, e ele seduziu, com sua verve e oratória contagiantes, os eleitores que o levaram à vitória na disputa pela vaga no Senado dos EUA. Tomou posse em 4 de março de 1847, e após longa jornada coroou sua brilhante carreira política com a chegada à Presidência da República em 1860, tomando posse em março de 1861. Foi assassinado em um teatro com um tiro na cabeça aos 56 anos, em 15 de abril de 1865.

Adicionar legenda

O debate e a trajetória de Lincoln, brilhante orador, e a disputa Lincoln-Douglas abriram caminho para, bem mais tarde, ser concebido um primeiro encontro pelo rádio. Em 1940, Wendell Willkie desafiou o então presidente Franklin Roosevelt para um debate radiofônico que toda a nação ouviria. O presidente, conhecendo os dotes de orador do adversário, não aceitou – e venceu.

Nixon vs Kennedy

Em 1960, John F. Kennedy repetiu a façanha de Wilkie e desafiou Richard Nixon para uma inédita série de debates na TV. Kennedy, homem calmo e educado, surgiu muito bem vestido, cabelos impecavelmente aparados, garbo condizente com sua fama de sedutor entre as mulheres. Antes de entrar em cena, foi maquiado, fato corriqueiro nos dias de hoje. Ao contrário, Nixon apresentou-se desleixado, barba mal feita, olhares perdidos em contraste com os de Kennedy, centrados na câmera - ou seja, no público telespectador. Nixon mostrou-se nervoso, inseguro, e talvez tenha perdido uma batalha dada como ganha devido a essa desastrada performance, e por uma margem estreita de votos.


A tradição dos debates televisivos vem se mantendo solidamente como parte do processo eleitoral americano, e desde Kennedy vs Nixon é parte fundamental das disputas nos EUA. Nesses debates os candidatos demonstram sua segurança, seu conhecimento histórico de dados e fatos, com suas propostas, e até mesmo seu caráter, além da habilidade em perguntar e responder com clareza.


Tudo isso foi para o espaço no debate Trump vs Biden, em 29 de setembro de 2020, quando o presidente, cuja empáfia perturbou o programa inteiro, invadiu abusada e repetitivamente o tempo de Biden, atravessando-lhe as falas. Mostrou-se bom de pose e presença, homem de TV que já foi, mas muito rude, e só. A discrição de Biden, seus sorrisos irônicos quando alvo de alguma mentira ou ataque do adversário, e seu discurso controlado e bem dosado, levaram-no a um sucesso talvez inesperado, segundo pesquisa da rede CNN: 57% a 41%. Um segundo confronto não aconteceu: Trump, estrategicamente, recusou-se a discutir online. No debate final, em que o republicano foi bem mais comedido, o resultado foi em patamares ainda mais altos para Biden, que ampliou a diferença, do alto de seus 60% contra 44% de Trump, de acordo com a Ipsos.

Pinga-Fogo, da TV Tupi

Espelhando-se na tradição americana, em 1960 o Brasil tentou inovar, no programa Pinga-Fogo, na TV Tupi, com uma discussão entre Lott, Adhemar de Barros e Jânio - que declinou do convite para preservar sua vantagem e levou a faixa. Com a ditadura, as eleições se transformaram em um sonho distante, já que o cargo de presidente era preenchido pela cúpula militar entre seus pares.


Em 1974, um tímido e muito bem vigiado debate para senador entre Paulo Brossard, do MDB, e Nestor Jost, da ARENA, aconteceu no Rio Grande do Sul, pela TV Gaúcha. Os próceres da ditadura temeram o ressurgimento da “ameaça” democrática e lançaram, no mesmo ano, pelas mãos do então ministro da Justiça Armando Falcão, a lei que levou o sobrenome dele: uma exposição de fotos, à 3x4, com o nome de cada candidato a parlamentar encimando-as, tendo embaixo o número eleitoral, lembrando um programa policial da época.


No dia 19 de novembro de 2020, na Band, enfrentaram-se dois candidatos à Prefeitura paulistana. Polidos, educados e comedidos em suas falas, salvo uma ou outra intervenção um pouco mais contundente: Bruno Covas, do PSDB, e Guilherme Boulos, do PSOL. Fora o combate à pandemia, que foi o pico do encontro de média temperatura, o debate encerrou sem baixarias, porém morno, faltando tempero e eloquência na oratória de ambos.

Paes vs "bispo" Crivella

No mesmo dia, também pela Band do Rio, terra de uma infeliz sucessão de governantes no estado e na capital, o jogo foi bastante baixo desde antes do encontro entre o “bispo” e prefeito Crivella e Eduardo Paes, e o debate foi amargo e desagradável. Houve acusações de Baixo teor de Crivella, chamado de “O abominável bispo das trevas” pelo colunista Ascanio Seleme (O Globo, 21/11/20): disse que, se eleito, Paes nomearia alguém do PSOL para a Secretaria de Educação, e que seria estimulada a pedofilia nas escolas. Chamou-o de “viado vagabundo” e “madrinha da mentira”

Escola de Atenas, de Rafael Sanzio

Debate vem do francês medieval débat, discussão, querela, e no sentido acadêmico é a prática da controvérsia, do contraditório. Também está presente no meio jurídico e segue o conceito de academia desde
Platão. 

Mas outro sentido emprestado à palavra na Idade Média é mais afeito à nossa realidade: espécie de declamação entre atores, com sentido irônico, agressivo e malicioso. Um circo.


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O VÍRUS SOMATOPSICOPNEUMÁTICO

 


Não apenas a quarentena, em si, aliada aos fatores psicológicos, como o receio e o medo, são ingredientes que em nada contribuem para o bem estar das pessoas nesses tempos, apesar de o isolamento parecer o único caminho. De todas as dificuldades desse retiro, algumas das quais já tratei aqui neste espaço do ponto de vista artístico – Boccaccio, Camus, Plínio Marcos e Godard, por exemplo – está a forma de cada um lidar com uma ameaça permanente. Entre angústias e apreensões,  medo do contágio e insegurança, desce na contramão um punhado que crê - ou diz crer, vítima de fanatismo - que a Covid-19 não é mais do que um ‘resfriadinho’, e a chamada segunda onda uma ‘conversinha’ – ideologia rastaquera que, ela sim, é uma doença surreal assoprada lá do norte, como “o espião que veio do frio”, com seus ventos danosos sobre os incautos de cá, no hemisfério sul.


O psicossomático é um fator que não pode ser relevado. Como se trata de uma fronteira entre o orgânico e o psíquico, com as devidas escusas aos especialistas da área, é por causa dele que podemos sofrer alterações, preocupações e, em última instância, sintomas. A somatização é a transformação desses conflitos da mente em uma aparente realidade, via sensações e dores. Caetano Veloso criou, nos tempos do tropicalismo, um jogo de palavras de sabor concretista com sua “Alfomega”, montagem poética de octossílabos a undecassílabos: “O analfomegabetismo / somatopsicopneumático / que também significa / que eu não sei de nada sobre a morte / (...) tanto faz do sul como do norte”.  Na época, fui procurar explicações sobre os significados implícitos e explícitos desses termos, a curiosidade é a mãe do saber.


Há ainda um subproduto deste amálgama psíquico-orgânico: a hipocondria, uma obsessiva preocupação com a saúde ou seu último grau, no surto da implacável síndrome do pânico: infarta-se com pressão baixa, do nada tem-se sensações de asfixia ou de um AVC por autossugestão – quem já conheceu uma vítima da síndrome sabe. Com frequência, o hipocondríaco é levado a excessos nos medicamentos, ingerindo-os sem necessidade ou em demasia. É essencial que, no curso de alguma eventual tendência de transmutação interior-exterior, o indivíduo se previna contra seus próprios delírios. Cair no torpor também é um veneno.


Portanto, como eu e o leitor nos inserimos na faixa do que se convencionou chamar “normal” – “De perto ninguém é normal”, olha o Caetano de novo aí -, é difícil que alguma hora nesses meses não tenhamos experimentado, em maior ou menor grau, o gosto amargo desse caldo que resulta do cansaço, da angústia e, no final da linha, do medo.


Sou aquele cidadão que se enquadra na média “normal” – termo que é apenas uma curva sem medições, réguas ou escalas que delimitem a normalidade. A ferramenta é tão somente aquilo que vemos nos outros, a ‘persona’, máscara social que muito depende de fatores culturais, familiares e religiosos, individuais e coletivos. Ora, se para o ladrão é normal roubar, para a freira carmelita é normal esquecer-se do mundo em sua clausura, consagrando a vida ao Senhor. É a norma de cada um, e muito tem a ver com a índole pessoal, algo como o “id” freudiano. (O que lembra a fábula do escorpião e da rã que, sobre uma pedra no meio do rio, veem a água subindo, ameaçando-os. O escorpião, ao ver que a rã iria nadar até a margem, insistiu e implorou e jurou respeitá-la em uma carona nas costas dela, que, meio incrédula, aquiesceu. Chegando ao outro lado do rio, o escorpião deu uma picada mortal no cangote do anfíbio, que, agonizando, resmungava que ele, o escorpião, havia descumprido sua jura de não lhe fazer mal. No que o peçonhento animal retrucou: “mas é da minha natureza!”)


De cada notícia que surgir – do contágio ou suspeita em um amigo ou parente até a morte de alguém pela Covid-19 -, pode sobrevir uma natural preocupação. Com os filhos, parentes, e, claro, a pessoa consigo mesma.

[Tenho um  termômetro ao meu lado. É sempre bom, dizem (falando nisso, acabo de medir a temperatura: 36,5º, ótima). O coração parece bem, fora aquele mau jeito ao dormir que me fez sentir alguma coisa no peito. Não, não medi a pressão cardíaca: aquela sensação, ao levantar-me, passou em poucos minutos. Mas e essa respiração, será que não está um pouco ofegante? (Para o músico, respirar lentamente antes de entrar no palco faz o coração rallentare - diminuir o andamento -, atenuando a natural e necessária adrenalina, ao se apresentar, para que ela não transborde em um desastre musical. Aquela corizazinha? Ah, não posso com o ar condicionado e o desligo, e com ele entra em off também o incômodo no nariz. Mas e a tosse? Um copo d’água e ela se foi, era apenas um lasca da semente de granola do café da manhã]


Vivemos assim, numa constante provação  diária, o que em música é um ostinato, repetição de certos padrões, com crescendi e smorzandi (diminuindo), accelerandi e rallentandi aqui e ali, em nossas gaiolas de passarinho de voo já atrofiado – o que salva é ampliar o alcance da mente criando, lendo, já que ela é a residência do mecanismo psíquico-físico. Fisicamente, mais lerdos e obesos, na maioria, exceção aos amantes contumazes dos exercícios e dietas.


Depois do dilúvio, nunca mais seremos os mesmos, tanto no contexto do relacionamento social quanto no modo de encararmos a vida. Porém, estaremos mentalmente fortes e preparados para lidar com as crises que fatalmente herdaremos.

sábado, 14 de novembro de 2020

O SUFRÁGIO UNIVERSAL, CÁ E LÁ

 


O complexo de inferioridade tupiniquim, aliado às mentiras que viram verdade por prestidigitação – conhecidas como  fake news -, é um dado a se levar em conta na hora de pesar o que os brasileiros entregam de bandeja para denegrir nossa reputação. Ah, somos campeões respeitados não apenas no futebol e outros esportes, a bossa-nova influenciou o mundo, a MPB é apreciada em todos os países e a beleza da mulher brasileira é decantada em fotos, versos e prosa pelos quatro cantos do planeta.

Grande Otelo, genial em "Macunaíma"

É parte de nossa falta de autoestima, nosso pouco orgulho próprio e a necessidade de nos expormos como um país de terceiro mundo, atrasado, povoado por “Macunaímas”, criação genial do Mário de Andrade: ‘heróis sem nenhum caráter’. Prova disso são as nossas urnas eleitorais eletrônicas, equipamentos sobre os quais não se conseguiu uma prova sequer de falibilidade, manipulação ou “hackeamento” desde 1996, quando começaram a ser testadas. Em 2000, a eleição já foi feita exclusivamente por meio desses aparelhos em todo o país


Sobre o assunto, o Estadão publicou, em 23 de outubro, matéria de Brenda Zacharias que consiste em um levantamento e demolição de mitos sobre as novas urnas, um trabalho para Mythbusters, para lembrar o filme “Os Caça-fantasmas” (Ghostbusters), de 1984. Vamos aos ‘mitos’: o primeiro diz que as urnas são feitas por empresas privadas, portanto vulneráveis a manipulações, interesses políticos e tapetadas. A verdade: a criação das urnas teve consultores das Forças Armadas, do Instituto Nacional de Tecnologia, do prestigioso ITA e do INPE, tudo sob a supervisão do TSE. As urnas sequer podem ser testadas sem a intervenção de especialistas do Tribunal. Todos os 96 softwares do complexo eleitoral são de uso exclusivo do TSE, do cadastro de eleitores aos resultados. Durante 6 meses, os softwares ficam disponíveis à fiscalização e análise dos partidos legalmente constituídos, da CGU e do MP.


Um segundo mito fala de uma suposta  vulnerabilidade das urnas no que diz respeito a vírus maliciosos, que poderiam alterar resultados na totalizações. Não existe tal possibilidade: as urnas são lacradas com material inviolável da Casa da Moeda após longas vistorias, com a chancela do presidente do TSE e da PGR. (Emprega-se no lacre uma tinta especial que, à menor tentativa de violação, fica marcada de forma indelével). Ainda há um terceiro mito, o de que não seria possível auditar os softwares ou recontar votos. Mentira: há uma espécie de “caixa preta”, chamada ‘registro digital’, que pode ser aberto sob supervisão multidisciplinar e vasculhada, item por item, sem a identificação dos eleitores. Finalmente, as cédulas são contabilizadas à incrível velocidade de 150 mil por segundo.


Voltando o olhar para as eleições americanas, observa-se que o sistema está sujeito a todo tipo de ilações, especulações, fakes, pedidos aleatórios de recontagem, acusações vazias de fraude e manipulações políticas que podem procrastinar o resultado final por dias ou um mês - criando, como se temeu até agora, riscos de conturbação social, manifestações e prejuízos. Pedidos têm sido feitos sistematicamente via judicial até mesmo em estados em que a contabilidade já está fechada, e todos os votos indicados como suspeitos por causa da data de postagem – outra peculiaridade controversa de alguns estados – aguardam serem liberados para divulgação.


Não é ofender ninguém dizer que o sistema americano, e isso com toda a tecnologia de que dispõem, e tratando-se da maior potência do mundo, é anacrônico e obsoleto, mais suscetível à divulgação de suspeitas de fraudes e conspirações, e não têm faltado exemplos. Isso tudo, em que pese a relativa independência dos 50 estados da federação tanto na esfera legal pertinente quanto nas regras específicas, a exemplo dos votos pelo correio e a validade de sua contagem após a data de encerramento da eleição. E não há, como aqui, TREs e um TSE, que supervisionam e controlam toda a eleição: lá, sabe-se do andamento e resultados pelo que é aferido nas cidades, tabulado pelos estados e divulgado pela imprensa.


Às 13h27 (hora de Brasília) do sábado, dia 7/11, a mídia americana divulgou a vitória de Biden, após uma virada de jogo na Pennsylvania, arrastando mais 20 delegados para sua contabilidade. Uma hora depois, Nevada anunciou mais uma vitória, com seis delegados no estado, dando a Biden 19 além do necessário para ser eleito. De tudo foi feito e tentado, e apesar de o presidente ter alegadamente tido prejuízos declarados à Receita por onze anos (sic) foram pagos quase mil (isso mesmo) advogados, na tentativa de reverter a situação em inúmeros condados e distritos dos estados. Sou obrigado a dizer que nada disso teria acontecido com um sistema confiável, direto e rápido como o implantado no Brasil há vinte anos: o voto eletrônico. Continuaremos com nosso complexo de falso nanismo enquanto poderíamos ser exemplo de votação e apuração.


Claro, a estrutura eleitoral e a legislação brasileira têm problemas, o horário eleitoral gratuito é uma excrescência. De modo semelhante aos EUA, apesar de lá cada estado ter sua relativa autonomia e peso na eleição, no Brasil há um contrassenso: SP tem um senador votando em nome de 15 milhões de cidadãos, e Roraima cada representante vota em nome de 210 mil, ambos os estados com votos de igual peso na Casa.


Agora, temos uma eleição, e a confiança que devemos depositar na segurança das urnas – mais do que discutida, questionada e comprovada - deve se reproduzir na escolha de bons candidatos. E respeitando não apenas as regras gerais do escrutínio como também as de precaução sanitária desses tempos de pandemia.