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sexta-feira, 21 de maio de 2021

O CONTO DO VIGÁRIO

 



Se é lenda ou história, tanto faz, é fato. No século 18 houve, em Ouro Preto (MG), uma contenda entre as paróquias de N. Sra. do Pilar e N. Sra. da Conceição, sobre a posse de uma imagem da Virgem Maria. Para encerrar a querela, os párocos acordaram em colocar um jumento a igual distância das duas igrejas, e aquela em cuja direção o animal rumasse ficaria com a santa. Como o dono do jumento era o vigário de Pilar, para lá o animal se dirigiu, claro. A palavra vigarista teria surgido, assim, de uma ‘ideia de jerico’. Mas quem ‘pagou o pato’ foi o ‘cabeça de bagre’.


Um século depois, em Portugal contava-se que uma dupla de andarilhos, trapaceiros contumazes, chegava nas pousadas com um baú trancado dizendo-o cheio de dinheiro, e que eles estavam a serviço do vigário. Como o malão era pesado, pediam para deixá-lo escondido, para empreender uma curta viagem, ao fim da qual retornariam. Mas, por segurança, o baú não deveria ser destrancado. E pediam algum dinheiro emprestado para seguir caminho. O donos das pousadas, honrados pela deferência, entregavam-lhes alguns mil réis. Mas os gaiatos nunca mais voltavam. Daí, viria, pois, ‘o conto do vigário’. (Fonte: Brasil Escola)


Deonísio da Silva, linguista conhecido meu de alguns anos, cita outras fontes, como José Augusto Dias Jr., em Os Contos e os Vigários: a História das Trapaças no Brasil, e fala de Os Ladrões no Rio (1904), de um tal Vicente Reis, então delegado de Polícia, sobre um falso pároco espanhol. E não é que o genial Fernando Pessoa interessou-se pelo tema e escreveu que tudo surgira de um embusteiro português chamado Manuel Peres Vigário? O dicionarista e professor da USP Francisco Bueno credita a expressão ao “espírito irreverente dos ouvintes”, ao escutar os religiosos contarem aos incrédulos “da outra vida e da intercessão milagrosa dos santos”.  Calote, do francês culotte, um quase sinônimo que, também segundo Deonísio, no jogo de dominó se refere às pedras ‘que o parceiro não conseguiu colocar em jogo’. ‘Trocando em miúdos’, ‘calote’ serve bem quando o sujeito que fica devendo, ‘dá o cano’.


Mas vamos ‘tirar o bode da sala’, pois o tema da vigarice seria interminável se pesquisado a fundo, e ‘quem nasceu pra tatu morre cavando’. No Brasil, a prática da trapaça remonta ao Descobrimento - desde as trocas de espelhinhos pelas esmeraldas de índios deslumbrados até as Capitanias Hereditárias,  o Brasil Colônia, chegando triunfalmente à República. No século 20, já sobrava embusteiro: Chico Buarque bem os definiu, em Homenagem ao Malandro: “Agora já não é normal / o que dá de malandro regular, profissional / malandro com aparato de malandro oficial / malandro candidato a malandro federal / (...) malandro com contrato, com gravata e capital / que nunca se dá mal”. Ode ao pilantra moderno, que vive ‘a cantar de galo’ ou o chapa-branca, aboletado em cargo público e ‘mamando nas tetas’ do poder.

Hoje, o caloteiro passou a empregar truque mais poderoso, a informática. Hackers e seus trojans e phishings (o vernáculo da boa literatura que dava tanto gosto perdeu para um idioma à parte, em inglês ou algo parecido, ou ainda um dialeto cifrado, de sílabas truncadas). Quantos já adquiriram produtos que não há de sites de lojas que não existem? Quantos foram achacados via WhatsApp, SMS ou mesmo pelo hoje claudicante e-mail? “Sua conta será encerrada, por favor entre em contato conosco em ‘venha@caianessa.com’ – que o levará a uma espécie de autocombustão computacional e financeira. “Sua conta no ‘Tolobank’ foi bloqueada. Para recuperá-la, insira seu login e senha nos campos apropriados do link acima”, tendo ao fundo o logotipo perfeito da instituição. Se ‘cair feito um patinho’, não adianta ‘tirar leite de vaca morta’. Ah, e as compras em seu nome feitas via Internet, aquele programa ou app que você esqueceu no computador que vendeu e que ainda são cobradas no seu cartão sem que você autorize? Ou a renovação automática de um sistema operacional caríssimo que você não mais vai usar? Com sorte, você poderá reaver o prejuízo, cancelando a compra e recebendo novo cartão de crédito, driblando essas formas modernosas e elegantes de ‘dar um boné’. Que fale a sabedoria popular: antes ‘ficar com a pulga atrás da orelha’ que ‘montar um porco’ depois do ‘leite derramado’. 

Fernando Pessoa (Revista Bula)

Retornando ao ‘vigarista’ da memória popular, teorias acerca de sua origem vieram com frequência de Portugal via literatura, provérbios ou folclore, sem um rigor científico que carimbe um ponto de partida oficial para as versões usando o título dos reverendíssimos vigários. Data venia, prefiro acatar o Fernando Pessoa, poeta e prosador lusitano da mais alta estirpe que contou sobre o comerciante Manuel Peres Vigário. Acossado por um farsante, Manuel foi levado a repassar notas falsas de 100 mil réis, retendo de cada uma 20 mil para si no final. Em uma estalagem, embriagado de vinho, negociou com o proprietário, pedindo-lhe um recibo de ‘apenas’ 50 mil - o que o salvou, haja vista que o caso foi parar na Polícia. Escapou do xilindró e entrou na cultura popular em O Conto de Réis do Manuel Vigário (publicado sob o título O Grande Português e disponível na Internet, um texto delicioso de Pessoa que merece ser lido). Para concluir, apoio a tese do poeta lisboense e coloco o ‘vigarista’ na conta do ribatejano Manuel, dono do sobrenome Vigário. Façamos justiça e penitência aos párocos ordenados e paramentados, sempre a conduzir, como bons pastores, seus rebanhos de fiéis.



sexta-feira, 14 de maio de 2021

UM FURACÃO CHAMADO PAULO GUSTAVO

 


Confesso que antes pouco dele sabia, só que era da TV, do cinema, dos anúncios, e uma figuraça. Não dava para não rir com a Dona Hermínia, sua personagem mais conhecida, sátira às mulheres do gênero, ao seu estilo mais irreverente. Fazia um escrachado retrato da classe média, melhor comediante do que os talk-showmen da moda –poderíamos chamar, lembrando a vanguarda do cinema do fim dos anos 1950, de nouvelle humour. Tinha uma verve cênica personalíssima e uma presença impagável, um physique du rôle (o físico do papel, como se diz em teatro) que seduzia o Brasil além do cômico. Comecei a prestar mais atenção no Paulo, para mim alguém novo despontando nas ribaltas, enquanto ele já escalava o pico de uma bela carreira com perspectiva de ir muito mais longe: uma investida internacional já se lhe esboçava naturalmente. Mas quem era Paulo Gustavo?


Um niteroiense que logo, como tantos, atravessaria a Ponte para o Rio, ou, lembrando a música: “só mesmo vendo como é que dói / (...) trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói”.  Pois logo aventurou-se em uma seara desafiadora, o monólogo, gênero em que o personagem deve interagir consigo mesmo, preenchendo a cena de per si, e superava-se. Assim foi com Minha Mãe é Uma Peça (2013), trocadilho bem carioca de peça, como sinônimo de “figura” e uma encenação teatral. Foi seu primeiro grande sucesso, que puxou um livro homônimo, e logo um filme e as versões 2 e 3 da “Mãe”. Em 2020 estreou 220 Volts, na TV Globo, em substituição ao programa Profissão Repórter. Crescia na plateia e nos bastidores ressuscitando um humor irreverente, sadio, algo como as chanchadas da Atlântida de Oscarito, Zé Trindade e Grande Otelo. Homérico era o pastiche da dona de casa com bobes no cabelo, as pernas longilíneas, atuação sempre espontânea e bem improvisada. Foi um ator de si próprio, e bem lhe cabia um predicado antigo: era uma pândega. E chegou a recordista de bilheteria do cinema brasileiro com Minha Mãe é Uma Peça 3: incríveis 11,5 milhões de pagantes!


Nascido Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros, manteve, sem artifícios, o duplo prenome, e, mesmo aspirando à fama, não buscou o modismo do falso charme diferenciador, ou a ajuda de algum numerólogo para ungir-se artisticamente Paullo, Gusttavo ou ambos. Gay assumidíssimo, encontrou sua cara metade no dermatologista Thales Bretas, formalizando a união em 2015. Sonhando uma vida de casal para chamar de sua, a dupla teve, por meio de barrigas de aluguel, dois lindos bebês, Gael e Romeu. Materializava-se ali o sonho da típica mãe de classe média suburbana brasileira, a incrível Dona Hermínia.


No dia 4 de maio, Paulo deixou público e família, caindo vitimado pela Covid-19 após longa e inglória batalha, abraçado simbolicamente a uma torcida em seu favor que impressionava não apenas pelos números, mas também pelas demonstrações de carinho. Em seu legado, além e acima de tudo, grandes surpresas, como um lado até então praticamente desconhecido: naquele mesmo dia, o Padre Júlio Lancelotti, conhecido por sua bandeira Pastoral do Povo da Rua, da Arquidioceses de SP, revelou que recebera de Paulo R$ 1,5 milhão para que fosse construído um hospital especializado no tratamento de câncer. Por tudo isso e muito mais, Paulo recebe e continuará angariando em retorno uma enorme admiração póstuma de fãs e personalidades brasileiras, torcida que continua a crescer em proporção impressionante. Sem os narizes torcidos dos homófobos de plantão, calados pela simpatia e carinho.

Copastar (divulgação)

O ator tinha dinheiro suficiente não apenas para doar – como fazia no anonimato - vultosas quantias de dinheiro a instituições beneméritas. Por isso, pôde internar-se para tratamento da doença no Hospital Copa Star. Recebeu o melhor em tudo, e até, última esperança, o chamado ECMO (sigla em inglês para Oxigenação por Membrana Extracorpórea), ou ‘respiração artificial’. Com o oxímetro em queda livre, o aparelho trabalhava diuturnamente na oxigenação sanguínea do ator. Mas não bastaram a melhor tecnologia, não foram suficientes as incontáveis preces, homenagens e mensagens nas redes sociais, e as declarações e juras eternas de seu companheiro Thales. Quis o destino levá-lo antes que fosse alçado a uma consagração ímpar, rara em nosso cenário artístico.



Um aspecto chama a atenção sobremaneira: Paulo e Thales, nascidos homens mas declaradamente bissexuais desde adolescentes, com seus lindos bebês a quem dedicavam carinho parental, ao menos não sofreram ataques dos carniceiros homófobos a querer-lhes os fígados ou dos que odeiam declaradamente aqueles que fazem uma opção diferente da sua, por motivo que não cabe aqui discutir para não cair no lugar comum. Nem os palavrões de praxe, as piadas, as ilações grosseiras sobre a intimidade do casal, a alcova. Pelo contrário, um desfile de celebridades mostrou simpatia irrestrita, de Ludmilla a Caetano, de Marcelo Adnet a Elza Soares. O país já vem se acostumando a uma realidade muito antiga, que agora ‘sai do armário’: gente famosa como Lulu Santos, Nanda Costa e Daniela Mercury, por exemplo, que assume suas relações afetivas tal qual casais héteros.  A questão que se coloca agora é a comoção causada pela partida do ator, sua generosidade como ser humano, o carinho demonstrado pelas pessoas e um afeto geral por sua mãe, consubstanciada na hilária Dona Hermínia, inspirada em Dona Déa, adorável caricatura brega das mães da classe média e média alta brasileiras, retrato das amadas mães de todos nós.

sábado, 8 de maio de 2021

UM DEVANEIO DIFÍCIL: SONHAR-SE MÉDICO

 


Pesquisa feita na Inglaterra revelou que grande parte dos médicos e cientistas da área viu seu talento despertar por volta dos dez anos de idade, já em plena fase analítica. Não se trata, portanto, de um delírio infantil sonhar-se um deles, é um desejo que flui na consolidação de vocações. Tal sonho costuma ser conjugado com certas particularidades, algo como um interesse espontâneo por assuntos médicos, como livros e filmes na TV, do galã Dr. Kildare (foto) ao carrancudo Dr. House.


A paixão se revela toda vez que o tema ressurge como sonho à frente da criança, como se ela estivesse paramentada mentalmente, um pequeno especialista a enfrentar suas quimeras: vírus, bactérias, cânceres e outros, moinhos a vencer em lutas quixotescas permeadas de muitas tristezas, desgostos e frustrações. Mas é também um caminho que reserva ao ator desta carreira uma intensa satisfação ao se deparar com a indizível conquista da vitória, um pódio único que é sua grande realização pessoal: a cura.


Também passei por esses devaneios de branco, como muitos meninotes. Quando ia a Belo Horizonte visitar meus parentes, via com especial atenção um tio que não apenas me salvou, transformou-se em meu paradigma de profissional. Inteligentíssimo, perfeccionista, eu o vi, ainda jovem, sair correndo da casa de meu avô após um telefonema do hospital convocando-o.  Rápido como um raio, como dizia minha mãe, lá ia Marcelo Campos Christo atender uma emergência, em pleno fim de semana.


Quanto ao mencionado interesse espontâneo da criança em pesquisar sobre o assunto, atraía-me o porão da casa de meu avô, velhos livros que despertavam sobremaneira minha curiosidade. Nos de química, por exemplo, decorava da tabela periódica de elementos a fórmulas como o ácido sulfúrico e o cloreto de sódio – muito embora elas não me fossem de serventia alguma. Aos dez, doze anos, achava lindas as fórmulas, plasticamente até. (Curioso, minha filha ainda cedo apaixonou-se pela química e hoje é doutoranda pela USP e pesquisadora da Fapesp. Parece que essa ‘mosca azul’ a picou fundo).

A caverna dos Lage. Entrada

Moleque, eu invadia uma gleba de 53 hectares, ao pé do Corcovado, que ostentava um belo palacete. Na época abandonado e hoje um lindo parque, o imóvel pertencera ao Eng. Henrique Lage e sua amada, a soprano italiana Gabriella Besanzoni. Refúgio de traquinagens, galgávamos o alto muro para adentrar o paraíso – bem perto do apartamento onde morava, no Jardim Botânico carioca. Dentro, ‘arpoávamos’ jacas armados com as flechas de uma besta doméstica e invadíamos matas, para nós ‘nunca dantes desbravadas’, lembrando Camões. E chegávamos a uma enorme caverna com estalactites, mimo do engenheiro à sua musa.


Mas onde essas aventuras no assunto do meu tio? Pois foi de morcegos da caverna que contraí via respiratória uma histoplasmose, de um fungo que provoca uma série de problemas, não raro o dito “êxito letal”. Minha mãe levou-me a vários pneumologistas, até  um certo Dr. Aloísio, crème de la crème, mas nada de diagnóstico. Enquanto isso, meu tio Marcelo revirou livros, pesquisou e estudou tratados e publicações médicas até chegar às evidências que resolveriam a charada. Mandou vir dos EUA um teste e sim, era a causa do nódulo linfático. Seguiu-se o tratamento específico e a cura não tardou.


Apesar de ter outro tio, José Carlos, irmão de Marcelo e também um médico fabuloso, devido ao meu caso de histoplasmose minha admiração pelo primeiro inflou-se: quando crescer, quero ser ele, como se diz. Marcelo chegou a trabalhar com o Dr. Zerbini (foto), cirurgião cardiovascular que realizou o primeiro transplante de coração no país; criou um método para operar o baço evitando extraí-lo e ainda uma técnica de inserção de marca-passos. Para mim, tinha um defeito - ou virtude, concluo agora -, não lhe agradar meu sonho com a carreira de médico. Resmungava sempre, como bom mineiro, sobre a dureza da profissão, a exaustão, o burnout - algo como “queimar a mufa”. E insistia para eu seguir o que ele enxergava, meus supostos dotes artísticos, como o desenho e a música.


Talento me sobrava para encher-lhe a paciência – ‘menino curió’, dizia meu pai como bom caipira – até que um dia aceitou levar-me para assistir a uma cirurgia cardiovascular no hospital de BH que ele dirigia, o Felício Rocho (foto). Era uma troca da válvula mitral por uma prótese, coisa nada simples. Colocou-me de pé sobre um banquinho atrás do pano entre a cabeça e o corpo da paciente, pediu-me para ficar pressionando compassadamente uma espécie de bomba de borracha. A abertura com o bisturi elétrico, “fzzzzz”, senti como se fosse uma faca em brasa na manteiga. E o cheiro, ah, o cheiro: regurgitei na máscara e meu tio, ao olhar para cima, mandou nervosamente me tirarem dali, “se esse garoto cai eu vou preso!” Depois de limpar meu rosto e respirar um pouco, levaram-me embora, deixando para trás o centro cirúrgico, o sonho da medicina e o talento que não tinha. Reza o ditado que de médico e de louco todo mundo tem um pouco, títulos que me bastariam.


Toda essa história pessoal vem ilustrar minha afeição pelos que trabalham cuidando das pessoas e salvando vidas. Especialmente agora, nos tempos cruéis de pandemia, minha admiração pelos médicos transborda do coração. Fora a periculosidade, é um trabalho que estressa, distancia os profissionais de suas famílias, cria-lhes problemas de ordem psicológica e coloca em risco suas próprias vidas. A eles, salvaguardados pelas vacinas e protocolos, o mundo deve incontáveis vidas nesta pandemia.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

REFLEXÕES DE UM CIDADÃO VACINADO

 


Ainda parecia muito distante a minha vez de receber alguma vacina. O ritmo da campanha em nosso país é desanimador, dada a política confusa e inoperante do executivo, aliada a um desprezo infantil pelo assunto. Para mim, como mais de 80% dos brasileiros que nelas confiam, era questão de fé que a chance viria. Pessoas com idade cada vez mais próxima à minha já sendo vacinadas, os prazos contabilizando sequências em atropelos. Mantive-me firme, minha vez chegaria fosse qual fosse o andamento da toada. Só não imaginava que viria tão de súbito.


No dia 20 de abril, soube por minha filha de SP que minha faixa de idade já estava sendo chamada aqui, era a minha chance de viver aquele instante. De pronto, entrei no carro e fui direto ao Centro, não sem antes escolher a unidade mais conveniente para mim, a UBS Aniz Boneder, na praça Adelaide Guedes, coração de Tatuí. Chegando nas redondezas, vi uma fila de carros subindo na transversal, palmo a palmo. Engatei logo atrás do último, como em um trenzinho sem apito nem trilho, enquanto aos poucos, lá na frente, saía mais um vacinado, depois outro, e mais outro, a composição subindo devagarzinho. (Ninguém tinha medo de perder o lugar, certamente a ansiedade de estar chegando a cada para-choques que se movia: um metro, meio ou menos).


Entrando na rua da UBS, vislumbrei uma bendita tenda cinza; nada de místico, nada de bênçãos, ofereciam uma chance à população, um voucher com o efeito espiritual de encorajamento para prosseguir. Talvez como um primeiro bilhete de ingresso, abrindo caminho para a boa proteção do segundo, em data estipulada pelos técnicos, para depois prosseguir com todos os cuidados possíveis a fim de que a proteção trazida pelo derradeiro jab (no boxe, em inglês, soco direto, ou espetada) garantisse a segurança possível contra a doença. Além de mortal, ela chacoalha o planeta e provoca medos e fobias, cria disputas políticas, econômicas e inúteis desavenças.


Passou uma hora, nada a reclamar. Dividia-me entre redes sociais no celular e músicas no pendrive do carro, perdia-me em abstrações e pensamentos, quando fui chamado por uma enfermeira com olhos de sorriso. Ela e mais duas, vestais da saúde com seus paramentos alvíssimos, aguardavam, sendo a dos olhos encarregada de preencher uma ficha onde estava escrito “Astrazeneca”. Após a conferência dos documentos, um prólogo: eu estava recebendo a vacina da Fiocruz, e deveria, data assinalada no cartão, retornar em 12 semanas. Tudo certo e feito, agora um lance maior, coisa de dois metros, e cheguei ao anjo encarregado de aplicar-me a dose, retirada de um tipo elegante de geladeira de piquenique prateada. Ah, a bendita seringa e logo a picada, aquele jab de direita (novamente o jargão do boxe!) em meu braço esquerdo, eu havia chegado dirigindo. Uma aplicação segundos mais demorada do que as intramusculares de praxe seguida não de dor, mas de uma leve tensão muscular interna. Liberado e dando espaço para mais um, fui-me embora pleno de uma sensação difícil de ser explicada.


Houve uma ironia do destino: há três semanas escrevi um artigo para este espaço dizendo que tomaria qualquer vacina, pois todas proporcionavam  efeito de proteção similar, e fiz a defesa da Coronavac, malhada como Judas pelo alto comissariado e xenófobos de plantão. Esperava pela dita “a chinesa”, que deu título ao artigo que mencionei e é mote para ataques contra a nação que é nossa maior parceira, futura maior potência do mundo. A ironia é que, mesmo torcedor da Coronavac, fui selecionado para a Oxford-Astrazeneca - não sei se por sequência lógica, randômica ou sabe-se lá qual critério.

Minha filha Marta, que mora em Londres e já tomou os dois jabs da Oxford a que tinha direito, disse-me que eu poderia sentir dor no braço, enjoo, sonolência – ah, vê se para por aí, disse eu, para por aí porque logo, logo essas menções a efeitos colaterais poderiam me fazer senti-los por autossugestão. Todas as vacinas, lembro-me desde criança, são passíveis de provocar sensações diversas, e pensar nelas pode nos fazer senti-las, mesmo que não sejam ‘reais’.


Outro momento ímpar foi o de sentir aquele voucher de que falei no início, um passe e um passo rumo à esperada proteção de uma segunda dose. Alguma coisa entre a satisfação – muitos se comovem! -, o alívio, o sentir a proteção emocional tão confortante em momentos de pandemia. Pensei na família e todos os irmãos-cidadãos do mundo, desejando que a luz verde clareasse em breve para eles também. Todos merecem desfrutar dessa confiança interior, mas repito o alerta de que ser vacinado não é receber uma autoproteção para cair na gandaia: há que se sentir como um cidadão que está colaborando, como parte da coletividade, para o controle da pandemia.


Uma amiga jornalista do Paraná também teve sensações diferentes, uma espécie de completude, pensei eu ajudando, e chorou copiosamente durante algum tempo. Não que os cientistas da Fiocruz tenham adicionado o mágico pó de pirlimpimpim aos insumos da vacina, trata-se de uma sensação de leveza que emana de dentro de nós próprios para nós mesmos. Fiéis depositários das angústias de mais de um ano de confinamento, nossos corpos e mentes são confortados por este efeito misterioso da vacina.

Seja inoculado assim que puder, qualquer que seja a vacina, faça campanha, trilhe o caminho para o porto seguro com distanciamento social e proteção. Assim ajudaremos a sufocar esta ameaça surreal ao planeta.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

TERRAPLANISMO E AQUAPLANAGEM

 


O terraplanismo, ou ‘terra chata’ - que duplo sentido! – originou-se da crença de que o mundo era plano, em forma de disco ou quadrado. A concepção é bastante velha, desde a Grécia dos anos 300 a.C. e das eras do bronze e do ferro, e persistiu até o período helenístico (31 a.C.), e em países como a China, até o século 17! Na contramão, a ideia de uma Terra redonda era revolucionária, passou por Pitágoras (6 a.C.) e os pré-socráticos, que imaginavam um planeta esférico.


Todos os argumentos eram 100% empíricos, tanto do lado dos chatos da terra chata quanto dos que tinham suas ideias voltadas para a esférica, embora esses últimos buscassem alguma consistência e lógica em suposições e ilações para suas teorias. O primeiro grupo, da terra plana, baseava-se apenas em suas crenças, e empregava conceitos absolutamente pseudocientíficos. Não por coincidência, o terraplanismo, nos dias de hoje, é um modismo relacionado a teorias da conspiração e coisas do gênero. Entre os grupos que passaram a cultivar essas ideias pseudocientíficas está a International Flat Earth Research Society (IFERS), criada por Samuel Shenton em 1956 no Reino Unido, A partir de 1972, passou a ser dirigida pelo norte-americano Charles Johnson, que afirmou: “a ideia de uma Terra que gira é uma conspiração de erros que Moisés, Colombo e mesmo Roosevelt combateram” (revista Science Digest, 1980).


Antes disso, poetas como John Lennon, em “Because” (1960) confirmavam em trovas, poesias e letras sua contradita: “Porque o mundo é redondo / ele me liga...” (Parece que os poetas sempre souberam do formato real da Terra, talvez por sua visão de alcance infinito em divagações). Antes disso, em 1957, a bordo do Sputnik II, uma simpática cachorrinha russa, a terrier Laika, orbitara ao redor da Terra e deve ter constatado o formato esférico. Deveria, pois apesar de todas as precauções da época morreu durante a experiência.


Em 1961, o piloto soviético Yuri Gagarin lançou-se primeiro homem no espaço sideral e pôde ver a terra linda, azul e redonda, assim como depois seu rival norte-americano, Alan Shepard, Jr. Apesar dos inúmeros voos, fotos, filmes e relatos, os terraplanistas teciam liames com as teorias da conspiração mais absurdas – o mundo estava em uma guerra fria e em corrida espacial e valia de tudo, até negar com maldade as conquistas do inimigo. Se um lado enxergava dúvidas nas conquistas soviéticas, o outro questionava as filmagens da descida de Neil Armstrong na lua, em 1969.


No Brasil, a LHT Higs, conhecida como Brasil Paralelo, foi fundada em 2016 em Porto Alegre sob a orientação de Olavo de Carvalho, com os pupilos Ernesto Araújo e Jair Bolsonaro – este último atual presidente da República, entre outros. Olavo, “astrólogo” e sem qualquer formação acadêmica, reside em Richmond, EUA, e sobrevive à custa de doações on-line feitas por seus ‘discípulos’ a troco de tele-aulas que incluem   o movimento antivacina, teorias da terra plana e um ingênuo negacionismo da ciência e suas conquistas. Sempre adepto de teorias da conspiração, Olavo inocula em seus pupilos o veneno de uma pretendida nova extrema direita. Além do filho do presidente, encontra-se entre os seguidores de Carvalho o já citado ministro Ernesto Araújo, cuja péssima atuação sofreu duras críticas dos brasileiros bem informados e da diplomacia estrangeira. Era homem forte da chamada ala ideológica do Planalto, “inamovível” até sua exoneração, em março de 2021.


A esta altura, percebendo o  final deste artigo, o leitor deve estar se perguntando o porquê da aquaplanagem do título. Confesso que a palavra ultrapassou terraplanismo na mente sem pedir licença. Um sujeito versado nas coisas freudianas talvez aponte aí um lapsus linguæ, uma troça que o cérebro às vezes nos faz deixar escapar quando  falamos, um desvio involuntário do que deveria ter sido enunciado. Ou seja, escapou "sem querer querendo", diria aquele personagem cômico mexicano, e não deixa de fazer sentido. Aquaplanagem, segundo o Houaiss (acp 3): “Perda de controle ou equilíbrio de um veículo, causada pela falta de aderência dos pneus à pista molhada”.


Este lapso, ou ato falho, é expressão conhecida dos  psicanalistas e estudiosos que acontece no discurso (fala) ou pensamento segundo a ideia de que não  surgem por acaso, e sim por intervenção do inconsciente. Popularmente, então, o fenômeno da  aquaplanagem, que leva os motoristas despreparados ao volante a acidentes de grandes proporções, surgiu-me enquanto pensava na gravíssima situação por que passa o Brasil de hoje. 
Logo, não foi nem um pouco por acaso.

 

sábado, 17 de abril de 2021

A CHINESA

 


Toda vez que penso nesse gentílico lembro-me dos tempos em que, ainda no colégio, cabulávamos aula para ir ao Studio Paissandu, no Rio, servir-nos do manjar da juventude da época: filmes de arte. Era um título por dia, à tarde, durante a semana, e tinha público. Ali conheci as boas fitas do Godard, talvez o mais maluco de todos os cineastas. Era ambíguo, lançava grandes questões no ar, e, mesmo ateu, rodou o belo Je vous Salue, Marie (“Eu te saúdo, Maria”), sobre a mãe do Senhor e José, o nascimento do Salvador e seu paralelo moderno. Mas a produção que mais me intrigou foi A Chinesa (La Chinoise, 1967), mesmo.


O filme foi rodado quase que inteiramente dentro de um ‘aparelho’ – nome dado a qualquer esconderijo ou local de reuniões secretas de estudantes ou revolucionários da época. Os personagens são uma socióloga maoísta e seus companheiros, entre discussões e leituras de trechos do histórico “livrinho vermelho” do líder comunista chinês Mao Zedong (Tsé-Tung), dezenas deles empilhados no apartamento. Apesar da visível pobreza técnica e da locação – alguns grandes filmes foram feitos em condições adversas e paupérrimas -, é um marco.  Para os raros sobreviventes da doutrina de Mao, uma ode ao revolucionário comunista autor de feitos heroicos, como atravessar a nado uma enorme distância (foto) - em montagens fotográficas, claro -, contraponto atlético ao estalinismo; em atrocidades, nada devia ao soviético. Havia um outro lado no filme, que me puxava pelo pé, uma crítica ao “aparelhismo” e o fascínio de parcela da juventude por Mao. Com o passar dos anos, consolidou-se em mim esse aspecto de crítica do filme -  Godard era anarquista e ironicamente ligado a um tosco existencialismo.


A China de Mao foi uma grande mentira que perdurou do golpe, em 1949, até 1976, com a morte do líder. Retratava um país sem fome, igualitário, de trabalhadores felizes nos meios de produção do Estado. Divergências, opiniões, arte, como em todo regime autoritário e autocrático, não tinham espaço, já que o onipotente regime tudo dava (mas punia exemplarmente quem não o seguisse às cegas).

Bolsa chinesa

Um salto para a atualidade, e um novo velho regime, a velha bandeira, o velho epíteto República Popular da China, o velho partido único, o mesmo discurso messiânico de seus líderes. Em 1978, dois anos após a morte de Mao, o país começou a empreender uma grande reforma econômica que hoje derrubou a linha de pobreza para 8% graças à imensa industrialização que o leva à segunda potência mundial, atrás apenas dos EUA. Conquistou assentos de importância em inúmeros organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU, a OMC e outros. O PIB chinês alcança mais de 20 trilhões de dólares, e a renda per capita (PIB do poder de compra) chega a US$ 15 mil (R$ 82 mil) anuais. A antes monolítica economia de Estado permitiu o surgimento de grandes fortunas individuais e empresas que hoje competem com as melhores do mundo, quando não produz insumos eletrônicos ou componentes pré-montados.


O mouse do meu computador é chinês! Ah, o teclado sem fio também. E meu relógio, o celular e seu carregador, a calculadora, o multímetro, o aparelho para fisio no tornozelo e, creia, os medicamentos, principalmente os genéricos, que usam insumos chineses, paquistaneses ou indianos. “Nossos” chineses costumam ser bons e duros negociantes, bem ao seu estilo mundo afora, ótimos cozinheiros ou gestores de restaurantes, massagistas de técnicas milenares, agricultores, cientistas e até gênios de nossa música ocidental, como o violoncelista franco-chinês Yo-Yo-Ma e o prodígio do piano Lang Lang (1982), que já assombrava o mundo quando criança. Ironicamente, o país socialista criou alguns dos mais poderosos bilionários do mundo, como Jack Ma, dono de uma das maiores cadeias de vendas existentes, a Alibaba (que me vendeu massageador, aliás), William Ding, poderoso tycoon dos games on-line, e Ma Huateng,  detentor das patentes de aplicativos e jogos como WeChat e League of Legends. A TikTok, de vídeos e trocas, tornou-se tão poderosa que foi proibida pelo governo norte-americano para uso no país sob alegações de viés claramente fascista e xenófobo de Trump, argumentos que não escondiam uma terrível dor de cotovelo: especialistas de todos os cantos projetam a China como a futura primeira potência mundial em alguns anos.


Dúbio como sua economia e ideologia atuais ou o filme de Godard, o país de 1,4 bilhões de habitantes tornou-se também paradigma na área médica e de pesquisa, uma produção sempre potencializada em grandes números. De lá o nosso Butantan importa insumos para a fabricação de uma vacina de pleno sucesso contra o Covid-19, e em breve terá autonomia suficiente para fabricar exclusivamente nas suas instalações de São Paulo a popular Coronavac. Isso, mesmo ante uma altamente reprovável xenofobia sob o manto de preconceito ideológico patrocinado pelos altos escalões brasileiros, uma sinofobia política que entre outras coisas tenta erguer barreiras para produtos como a tecnologia 5G chinesa, que já revoluciona o mundo. Usam as mesmas obstruções focais já empreendidas contra a vacina, mas terminaram perdendo, e hoje o consórcio sino-brasileiro domina não apenas a vacinação dos brasileiros quanto boa parte da produção interna nacional.

Chegando minha vez de ser vacinado – e que não demore tanto -, aceito outra, claro, mas ficarei contente com a segurança que sinto na chinesa. Na dúvida, claro, La Chinoise.



sábado, 10 de abril de 2021

DIVERSIDADE SEXUAL E UNICIDADE DE GÊNEROS

 


Desde antes das cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra já se sabia de práticas sexuais diversas das ‘normais’, como o transexualismo e toda espécie de homossexualismo, bissexualismo e  o chamado bizarre sex. Os capítulos 18 e 19 do Gênesis veem os pecados dos habitantes daquelas cidades como os piores do mundo, merecedores das “labaredas de enxofre” do céu. A destruição dessas tribos por Deus foi o castigo imposto aos que viviam na violação às suas leis. Refletindo, mais longe do que o passado bíblico, concluímos que esses comportamentos considerados “anormais” que se tornaram símbolos de condutas fora do ‘sexo casto’ antes de Sodoma e Gomorra, sempre existiram e foram um exemplo para as duas cidades.


“Menino veste azul, menina veste rosa”, festejou a ministra Damares Alves em convescote particular, um ‘meme’ que grassou nas redes passados milênios das duas cidades destruídas ao norte da Palestina, trazendo à luz outra cena simbólica, Adão e Eva. Ironicamente, nem ele estava de azul nem ela de rosa – consta que nem estavam vestidos. Ademais, para que cobrir suas vergonhas, se eram apenas os dois? Após o 'pecado', uma rama de videira caiu bem sobre a genitália do casal, fantasiam ilustrações posteriores.



Quem inventou de associar sexo masculino com azul e feminino com rosa? Poema simbolista ao poder dos céus sobre a fragilidade da flor? (Concepção, aliás, para lá de machista). A ideia surgiu no século 19, para distinguir os sexos masculino e feminino desde o nascimento dos bebês (PAOLETTI, Barraclough. Pink and Blue: distinguishing the girls from the boys in America”. Ind: IUP, 2012). Damares fez eco à tradição norte-americana, hoje espalhada pelo mundo, e, tendo a frase surgido em Igrejas, foi seguindo uma delas que a ministra ergueu sua bandeira. O ultrassom veio para assegurar aos pais a escolha do enxoval apropriado para seu rebento logo ao conhecer  a luz, a partir daquela telinha que só o técnico entende - aliás, não 100% infalível.


A partir do século 20, as massas de discordantes da ‘normalidade sexual’ começaram a se organizar frequentemente como força política, a exemplo do LGBT e suas agregações. Nos países livres, ao menos uma vez ao ano grandes paradas gays – de todos os gêneros, dos clássicos às mais coloridas variedades – tomam as ruas atraindo grande número de simpatizantes, muitas vezes levando seus filhos, em uma festa transbordante de sorrisos, caras, bocas, lamês e purpurina. São eventos absolutamente pacíficos e, em tempos sadios) exemplos de aglomerações organizadas como poucas.


Museu de Arte Moderna (Rio)

No meu colégio jesuíta no Rio, dois colegas de turma não se encaixavam nas brincadeiras ‘de macho’ ou no futebol: apenas observavam. Um deles, hoje cantor famoso que se casou com o namorado após uma antiga união de fachada com uma socialite imposta pela indústria fonográfica, tinha bom trânsito entre os colegas: cantava bem, fazia um ótimo cover de Lennon ou McCartney e tinha um bom papo. Éramos uma turma libertária, os anos 1967/70 que o digam. Todos mereciam nosso respeito, que se estendia dos “happenings” nos jardins de Burle Marx no MAM à praia de Ipanema, dos topless à tanguinha de crochê introduzida pelo jornalista Fernando Gabeira após a anistia lenta, gradual e irrestrita do Gen Figueiredo.


Particularmente, respeito pessoas de qualquer opção ou, para quem não crê em ‘escolha’ -, qualquer realização pessoal da sexualidade. Cada um vive como quer desde que, como todos deveriam, respeite a vida alheia. Há um número crescente de ‘trans’, opção já comum, e cifras ascendentes de assexuados, que não vislumbram em seus dotes natos meios para uma sublimação que, aliás, nem desejam.


George Orwell, em seu premonitório “1984”, falou da Newspeach, que expurgava do vocabulário, por determinações autoritárias do governo central, palavras ou expressões que pudessem desviar a população do pensamento oficial - uma civilização quase lobotomizada, sem opinião, sentimentos ou prazer.


Lembro-me de, nos EUA,  brincar com uma amiga que em português casa, praia e rua são palavras femininas, enquanto em inglês house, beach e street são assexuadas. Ao que ela retrucou que o inglês é assim, reserva aos seres humanos a sexualidade, e mais: “my dog is a nice girl”, complementaria, definindo-lhe o sexo. Mais: hoje, boyfriend e girlfriend
referem-se a quaisquer casais de parceiros. Triste é que surge entre nós em uma neófita minoria um vício, o de “assexuar” as palavras para acomodar todas as opções, prática que já chamam,  lembro-me aqui de Gorge Orwell, 'Novilíngue'.


Já protestei contra uma jornalista, escrevendo à então ministra da Cultura Marta Suplicy (com quem eu havia trabalhado longos anos atrás), reprovando o aporte da pasta pela Lei Rouanet a uma edição ‘simplificada’ de Machado de Assis, um crime! (A aprovação, escreveu ela de volta, havia sido na gestão anterior, e mais, que ela era contra quaisquer mutilações, garantiu). É natural, então, que eu também objete fortemente quanto a essa forçada “novilíngue”, modismo que substitui as letras finais das palavras por “e”, ou, creia, por “x”: “todxs estão convidadxs”, supostamente para acomodar o arco-íris de gêneros.


Abro aqui um enorme abraço para todos, de todas as opções e cores! Mas não compactuo com os diletantes das redes que destroem a “última flor do lácio”, a língua portuguesa brasileira. Já vi “novilinguistxs” que não pertencem à comunidade LGBT e nem sabem o que fazem, só querem aparecer. Salve Machado, Bandeira e Drummond, do panteão intocável por pessoas contaminadas por modismos, que nunca leram absolutamente nada. A prática, mesmo ‘pingada’, não contribui para causa outra que não seja ampliar e perpetuar a ignorância e macular a língua de nossos grandes mestres. Salve a comunidade de todas as cores, salvem o vernáculo!