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sexta-feira, 12 de agosto de 2022

O PRIMEIRO VOTO

 

Médici

Em 7/7/77
(para os numerólogos ou adeptos da Cabala) fui morar nos EUA, mal havia terminado a Fefierj (hoje UniRio). De lá, cabia apenas observar, com medo, o Brasil em plena ditadura, e o que se passava em nossa República. Era presidente o general Ernesto Geisel, que sucedeu Emílio Garrastazu Médici. O sobrenome Médici remetia à poderosa financeira e politicamente Casa dos Medici, com Cosimo à frente da dinastia e da República de Florença, Itália, na primeira metade do século 15. “Nosso” Médici era duro na queda, inflexível. Quando descobriu que um samba do Chico Buarque de 1970 não se referia a uma mulher, mas a ele mesmo – “apesar de você / amanhã há de ser / outro dia” -, mandou censurá-lo aos berros. Clara Nunes regravou a música (1971), e, obrigada, cantou na abertura das Olimpíadas do Exército daquele ano.  Já a filha do Médici deixou escapar em uma entrevista que gostava do Chico. Pronto, bastou para que o compositor, em um show no Teatro Casa Grande, no Rio, tocasse um “roquinho” bem fuleiro, dois acordes e só dois versos, para deleite da plateia: “Você não gosta de mim / mas sua filha gosta”.


Geisel
, sucessor de Médici, era um sujeito carrancudo, com os traços germânicos de estilo. Nada com cultura, na verdade sequer gostava de arte, da música dos “3 Bs” germânicos, Bach, Beethoven e Brahms, e nem de Wagner, que seduziu até Hitler. Menos cruel do que Médici, mas um tanto fechado, foi presidente por seis anos (1974-79). Desses, os últimos dois passei em Boston, onde acompanhei os mandatos de Jimmy Carter e Ronald Reagan. Seguia as eleições com o sentimento de estar participando do futuro do país que eu havia adotado.


De volta ao Brasil
, aquela ópera bufa montada com a eleição indireta disputada por Maluf e Tancredo da qual nós, eleitores brasileiros, fomos simples espectadores. Maluf, colocado na disputa pelo regime militar, viu seu cacife ruir diante de Tancredo, mineiro astuto e perspicaz que tentara emplacar como vice Antonio Ermírio de Morais, poderoso empresário de família tradicional na política. A estratégia vazou, foi acolhido na vice José Sarney - homem que ainda tinha certa simpatia do regime, já agonizante. Acompanhei a eleição pela TV e refestelei-me na emoção de ter um candidato civil eleito, mesmo que indiretamente, para o cargo de mandatário do país. Porém, com a inesperada morte de Tancredo, logo antes da posse, assume Sarney, em meio a uma crise econômica sem precedentes.


Eu havia retornado
ao Brasil com a esperança de ver meu país em plena democracia, com estabilidade econômica e paz. Quando perguntei sobre o futuro ao maestro Eleazar de Carvalho, que tinha sido fuzileiro naval, educado desde cedo na Marinha, ele me respondeu daquele jeito sério e irônico que lhe era característico: “Nunca vi um país fechar, mas sempre pode haver uma primeira vez”. Pouco depois, ingressei como professor na USP, e o grito de ordem era “Diretas, urgente, reitor e presidente”.  Demorou: em 1989, após 26 anos de jejum eleitoral, foi eleito Collor de Mello, justo quando cravei meu primeiro voto para presidente! Concorreram, além de Collor, sagrado vencedor com o epíteto “O caçador de marajás”, Leonel Brizola, Paulo Maluf, Lula, Mário Covas e mais 18 candidatos. Após o impeachment de Collor assumiu Itamar Franco, seu vice, que governou de 1992 a 1995, ano em que, para tomar posse, concorreram em 1994 oito candidatos – na frente, Fernando Henrique Cardoso obteve 54,28% dos votos, e o segundo colocado, Lula, 27,05%.


Nos tempos do voto escrito
, o Brasil passava por experiências surreais. Bom exemplo foi o imaginário candidato Cacareco - homenagem ao então novo rinoceronte do Zoológico do Rio – que em 1954 obteve 100 mil votos na eleição municipal, contra os 95% do partido mais votado e foi manchete até no NY Times. Mais de trinta anos depois, em 1988, o fenômeno ali se repetiu nas eleições para prefeito: puro deboche de protesto, Macaco Tião obteve fantásticos 400 mil votos! Escrevia-se de tudo nas cédulas, de rasuras a ofensas à senhora progenitora de algum candidato, entre outros desaforos mal-educados, constrangendo ou, às vezes, divertindo os mesários.


Exatamente dois anos
depois da posse de Fernando Henrique foi implantada a urna eletrônica, que além de deixar de fora os adeptos do chamado voto zoológico, também impediu o antigo “voto carneirinho”, com olheiros contabilizando os nomes indicados pelo patrão - e a compra de votos pelos “coronés” que arrastavam eleitores atrás de algum trocado ou mesmo um prato de comida, sertões afora, na caçamba de caminhões. Pois a nova urna, empregada primeiramente em 57 cidades nas eleições municipais de 1996, revelou-se um sucesso, tornando-se exemplo para o mundo.

MM. Carlos Prudêncio

(Em 1932, em plena ditadura Vargas, o Código Eleitoral Brasileiro, em seu Art. 57, já fazia menção a “máquinas de votar”, mas as tentativas naquela época se mostraram efêmeras por absoluta falta de tecnologia. Houve outras experiências, em 1978 e 1980, mas foi só em 1988 que a máquina de votar criada pelo juiz Carlos Prudêncio e seu irmão Roberto foi colocada à prova na eleição municipal de Brusque, em Santa Catarina.)



A urna eletrônica que usamos, desenvolvida pela Microbras, Omnitech e Unysis, com apoio do CTA, do INPE e de outras organizações, revelou-se ágil, absolutamente segura, e a adulteração dos votos impossível. No próximo 2 de outubro, mais uma vez, será nela que depositaremos todas esperanças na candidatura do melhor presidente para o nosso país.



sexta-feira, 5 de agosto de 2022

BÁRBARA E A CARTA ÀS BRASILEIRAS E BRASILEIROS

 


Barbaridade
, de onde a interjeição gaúcha de espanto ou surpresa “bah!”, tem diversos significados. Segundo o Houaiss, pode ser um “ato próprio de bárbaro”, “crueldade, desumanidade”, ou “em extremo desacordo com a lógica, com as normas”, ou ainda “erro crasso de linguagem e escrita”. Remete também a barbárie, selvageria. Na gramática, consiste no “uso sistemático de formas vocabulares inexistentes (...) por parte de falantes que não a dominam” (N.: a norma padrão da língua). Em inglês, barbarism indica tanto a ‘palavra, expressão ou pronúncia não convencional quanto o período de migração europeu que viu a queda do Império Romano e a ocupação de vastos territórios por diversas tribos’ (alemães, hunos, búlgaros, húngaros e vândalos - germânicos do sul da Polônia, daí “vandalismo”). Trata-se de migrações e invasões em massa (HALSALL, Guy. “Barbarian Migrations and the Roman West”. Cambridge: CUP, 2007).


O sentido
dessas palavras no contexto atual refere-se a pessoas animalescas, sanguinárias, mesmo quando em sentido figurado, um cruzamento idiomático e histórico – crossover, lembrando o cartunista Laerte, que se veste como mulher, para usar uma palavra da moda. Expressões eivadas do horror de alguns dos períodos mais terríveis por que a humanidade passou - sangue derramado, atrocidades, barbaridade, barbarismo, bárbaros e ações bestiais de várias épocas.


Bárbara
, contudo, é também um lindo nome feminino que nada tem a ver com isso. Surge nas artes em diversos momentos, como no histórico musical de Chico Buarque e Ruy Guerra (1973) intitulado Calabar, o Elogio da Traição, que conta da vida de Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho de Pernambuco que se aliou aos holandeses traindo Portugal. Bárbara, esposa de Calabar, é quem conta a história, e dá título uma das canções da peça, “Cala a boca, Bárbara”: “Ele sabe dos caminhos dessa minha terra / no meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu / os meus rios, os meus braços (...) / Nas bandeiras, bons lençóis / nas trincheiras, quantos ais, ai”.

Santa Barbara

O nome
é originário do latim barbara, barbarus, significando estrangeiro, mulheres que não eram romanas, e vem do grego: ‘forasteiro’ (FERREIRA, Moacyr da Costa. “Dicionário poliglótico de nomes”. SP: Edicon, 1996). O dia 4 de dezembro é consagrado a Santa Bárbara, nascida em 280 d.C. na Turquia e convertida ao cristianismo. O pai dela, Dioscorus, seviciou-a, degolou-a e a entregou aos romanos. Diz a lenda que, ao cair sua cabeça, os céus trovejaram; por isso, é associada aos trovões, e protetora dos que lidam com fogo, como os bombeiros. Na Umbanda, parte que é do riquíssimo sincretismo religioso brasileiro, Santa Bárbara representa o orixá Iansã, mulher poderosa, deusa do fogo e dos trovões, vendavais e furacões. Como outros santos católicos, ela escondia da Casa Grande as práticas da cultura religiosa trazida pelos africanos escravizados, resguardando-se para não serem punidos.


Em Arrastão
(1965), Vinicius de Moraes, com música de Edu Lobo, evoca a santa em meio a outras entidades da Umbanda: “Olha o arrastão entrando no mar sem fim / É meu irmão me traz Iemanjá pra mim / Minha Santa Bárbara / me abençoai / Quero me casar com Janaína” Iemanjá costuma ser representada como Nossa Senhora, de azul e branco ou azul claro.

Barbara Hendricks

Muitos lugares
homenageiam a mártir turca: de Santa Bárbara do Leste, cidade mineira, à paulista Santa Bárbara d’Oeste e Santa Barbara, na Califórnia americana. Há as que fizeram parte de nossas juventudes, como Barbara Streisand, cantora e atriz, a soprano Barbara Hendricks, ambas americanas, sem esquecer Bárbara Heliodora, talvez a maior especialista em Shakespeare que o Brasil já teve (ouvi-la discorrer sobre o bardo inglês era como penetrar em um mundo de sonhos, amores, dramas, devaneios e poesia).

6 de janeiro de 2021: a invasão do Capitólio

Saindo da arte
, a pergunta: o que teria sido aquele bando que invadiu o Capitólio americano em 6 de janeiro de 2021, convulsionando o resultado das eleições dos EUA, tentando derrubar um pleito legítimo e uma democracia sólida, atrás de palavras de ordem do candidato preterido, Donald Trump? Na horda, muitos loucos trajados como vikings e hunos quebraram vidraças, portas e móveis gritando slogans...Ou seja, corja de bárbaros na acepção crossover da palavra. Um bando de alucinados, arriscando todos a um banho de sangue onde afundar a democracia mais sólida do planeta! Foi um ato de barbárie, insano e irresponsável. Felizmente, parece que o país superou o trauma, manteve intactas suas instituições e tem superado, até aqui, incursões pontuais de radicais fascistas e neonazistas.

Gofredo da Silva Telles, 1977

No próximo dia 11 de agosto
, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP, haverá um evento pacífico liderado por algumas das grandes cabeças pensantes do país, à frente de insuspeitas entidades suprapartidárias, empresários, líderes sindicais, estudantes, representantes da sociedade civil de todos os credos, raças e orientações políticas. A convocação foi feita por meio do manifesto intitulado “Carta às brasileiras e brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!”, relembrando 1977, quando o ilustre jurista e professor daquela Faculdade, Gofredo da Silva Telles, leu sua “Carta aos Brasileiros”. Nela, denunciava “a ilegitimidade do então governo militar e o estado de exceção em que vivíamos”, celebrando os 150 anos da criação dos primeiros cursos de Direito no Brasil.

A carta de 2022, mais uma vez, será contra a barbárie, pela democracia.

https://www.estadodedireitosempre.com/



sexta-feira, 29 de julho de 2022

NUM RABO DE FOGUETE

 

O viaduto caído (Gazetario)

E
ra o ano de 1979. O poeta Aldir Blanc fez de uma letra preciosista um libelo contra a ditadura, e é preciso entendê-la para que possamos nos situar no samba do João Bosco: um goulash de informações cifradas, figuras de linguagem e metáforas para falar de verdades proibidas, e ele o fez com mãos de ourives. Assim nasceu O Bêbado e a Equilibrista, sucesso até hoje na voz imortal da Elis Regina: “Caía a tarde feito um viaduto / e um bêbado trajando luto / me lembrou Carlitos”.  Em 1971, desabaram simplesmente 112 m de um trecho do viaduto Paulo de Frontin, no Rio, obra mal feita, com vícios, superfaturamento, estruturas de material barateado. Morreram 48 pessoas e houve um grande número de feridos. Eram tempos do general Médici, talvez o mais cruel daqueles anos, responsável por uma censura implacável: assunto proibido. Infelizmente, os censores sequer tinham lido ou compreendido um poema: a censura é um ato contra a inteligência.

Betinho, Chico e Henfil

“(Brasil) que sonha / com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu / num rabo de foguete”. Henrique de Souza Filho, o Henfil (1944-1988), era cartunista do semanário O Pasquim. Dono um traço inconfundível e pai de figuras como a Graúna, o Fradim, o Bode Orelana e outros, e de cujo irmão Betinho fala a música, era hemofílico como ele e o irmão Chico Mário, músico (os três morreram de AIDS após transfusões para o tratamento de hemofilia congênita). Betinho (Herbert José de Souza) foi um brilhante sociólogo que terminou exilado depois de ser preso por, digamos, pensar. Essa “volta do irmão do Henfil” simboliza, além de um enorme bom-retorno, braços abertos para receber de volta os asilados, exilados ou que tiveram de buscar proteger-se no exterior.


R
abo de foguete, com ou sem os hifens, pode ter diversos significados: uma grande encrenca, uma queimadura por fogos de artifício; segundo o etimólogo Deonísio da Silva, “empreender tarefa difícil”. Refere-se igualmente a uma planta conhecida também como ‘arnica de Minas’ e mais uma dezena de nomes: é coberta de espinhos que grudam na roupa e na pele e podem ferir, enroscando-se na vítima. Todas versões convergem. Como grande parte das expressões populares, ‘rabo de foguete’ é moldado pelo tempo e cultura de onde se vive, enriquecendo-se. Mas há uma sensação intangível: é ‘coisa ruim’, que por sua vez quer dizer ‘coisa do diabo’ - ou o próprio. Mas quem sabe, ao invés de seguir destrinchando a etimologia seja melhor sentir, tal qual o povo faz sabiamente?


S
egundo o Memorial da Democracia, de 5 a 10 mil pessoas foram expulsas, deportadas, exiladas ou asiladas. Da primeira leva, em 1964, fizeram parte políticos como JK, Jango, FHC, Arraes, Brizola e Darcy Ribeiro; da segunda, estudantes, artistas como Caetano, Gil, Vandré, Chico e Glauber Rocha, professores, militantes e mais de 130 presos políticos trocados por embaixadores reféns na luta armada. Foram em boa parte refugiados na França, no México, no Chile e Uruguai.

Vlado e Clarice

E
ssa gente, o filé da nossa chamada intelligentsia nacional, foi a que “partiu no rabo de foguete”, na poesia de Blanc. A censura acompanhava essa viagem, e pior: as viúvas dos presos políticos. A letra diz “choram Marias e Clarices”, referindo-se essas últimas à viúva de Vladimir Herzog, jornalista preso e morto em uma cela do DOI-CODI em 1975. As Marias simbolizam a viúva do operário Manuel Fiel Filho e todas as mulheres de mortos e presos no Brasil - e tantas Marias há, como bem disse João Cabral em seu candente Morte e Vida Severina: “...deram então de me chamar Severino de Maria / Como há muitos Severinos com mães chamadas Maria / (...) fiquei sendo o Severino da Maria do Finado Zacarias”. Quando a razão se esgota na missão de compreender alguma coisa, a poesia ocupa o espaço e se faz presente em outro universo: o da sensibilidade, dos sentimentos mais profundos, da arte como expressão humana maior: dores e alegrias, figuras e fundos, sofrimentos e vazios, devaneios e angústias que a mente não consegue explicar.

(Veja)

“Mas sei / que uma dor assim pungente / não há de ser inutilmente / a esperança / Dança na corda bamba de sombrinha / e em cada passo dessa linha / pode se machucar”. Vivemos esta vida como a equilibrista na corda bamba, com sombrinha para não cair, passo a passo, correndo riscos, sabendo que a qualquer momento um aventureiro pode nos fechar na encruzilhada. Vivemos parte de nossa República sob regimes de força, exílios, desde os constitucionalistas de 1932 - entre os quais meu avô - aos de que tanto lembramos no pós-64 – todos num rabo de foguete, “que ninguém sabe o que seja”; só que foi ruim, muito ruim (que o diga minha mãe, outra Maria, que na mais tenra infância teve o pai tirado do convívio do lar, e suas irmãs, também Marias). Há o retorno, diz a história que sempre retorna, mas o importante é não partir, salvo se para conhecer lugares lindos, nunca para se entocar.


S
e a poesia do Aldir Blanc, que nos deixou sem avisar no dia 4 de maio de 2020, é uma ode à anistia, em 1968 Chico escreveu para Jobim a letra de Sabiá, de uma leveza enorme, um canto do exílio que teria sido dedicado a JK: “Vou voltar / sei que ainda vou voltar / para o meu lugar / Foi lá e é ainda lá / que eu hei de ouvir / uma sabiá”.

Uma parte risível mas incendiária dos brasileiros faz coro ao modismo radical dos piores momentos da história – por não a conhecerem, não a terem vivido ou por ligações com o instinto dos próprios repressores. Citando o grande Mário de Andrade, “reverendíssimas bestas”.



sexta-feira, 15 de julho de 2022

5G, ALEXA E PASÁRGADA

 

Manhattan School of Music

No dia seis de julho estreou finalmente no Brasil a 5ª geração de internet móvel, conhecida por 5G, inicialmente em Brasília - no Plano Piloto e no Lago Sul, a fina flor. Em seguida, Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo; as demais cidades aguardarão sine die pela bênção da nova tecnologia. (Como diriam os americanos, um sutil “não nos ligue, nós ligaremos”, ou os ingleses, mais irônicos, “não prenda a respiração”). Enquanto esperamos essa maravilha que vai encolher o chamado tempo de latência nas redes e as informações trafegarem dez vezes mais rápido, quais serão as reais vantagens oferecidas à população, dos veículos sem motoristas a intricadas cirurgias feitas remotamente? Ah, por dever de ofício, acrescento a parte que me cabe, a maravilha dos sons: músicos de diversas partes do mundo poderão aprender e tocar juntos em tempo quase real, com latência imperceptível. (Quando visitei a Manhattan School of Music, em 2016, vi que as escolas de música em NY já trabalhavam com um sistema de cabos subterrâneos, interligando-as a partir da Universidade de Columbia, como se fosse uma enorme rede direta interna de uma empresa).


C
omo tudo o que é bom, ainda mais tratando-se do Brasil, o 5G não será para todos: os celulares mais simplesinhos continuarão a operar em faixas mais lerdas; os preços dos novos aparelhos começam, os mais chinfrins, em 1,5 mil, até os que ultrapassam os R$ 10 mil. Dos 67 novos modelos, a Samsung sai na frente com 25 para todos os gostos; logo atrás vêm a Motorola, com 14, Apple e Xiaomi com 9 e 6, respectivamente, e 13 de outras marcas. Cidadãos mais pobres que lograram ter um celular vão continuar ligados em 2 e 3, no máximo 4G, vendo a banda 5G passar.


P
ara o novo sistema funcionar, as redes parabólicas, da banda C, irão de escanteio para outra, a KU, abrindo alas para o 5G. Divulga-se que no novo sistema chegaremos a trafegar até 20 vezes mais rápido do que no 4G. “É o progresso em nossa mão / viva a civilização” cantou Gonzaguinha com ironia. O 5G parece o sonho dos preguiçosos: apaga a luz, liga a TV, o ar condicionado... (Meu pai dizia, lembrando Mário Quintana: a preguiça é a mãe da invenção). Chegamos à era dos Jetsons!


H
á alguns anos ganhei da minha filha mais velha uma engenhoca chamada Alexa, aparelhinho de 8,5 cm de diâmetro por 3 cm de altura. Conectada à Internet, ela, que poderia chamar-se “Amélia”, obedece: “Alexa” (palavra-chave), “que horas são”, “acorde-me às 7”, “quais as notícias” (CBN ou BBC de Londres), mais previsão do tempo e hora certa de qualquer lugar do mundo – ah, e toca as músicas que você pedir. Minha Alexa só entende inglês, não conheço a versão em português, bem mais recente. Ela já pode fazer, há mais de dez anos, algumas das tarefas do 5G, como ligar ou desligar a luz, a TV, o ar condicionado, se ligados à rede. Claro que a nova geração de banda larga da Internet será milhões de vezes mais poderosa do que minha ajudante doméstica, mas no momento ainda há sobre o 5G mais dúvidas do que certezas. Ora, senão vejamos:


O novo sistema lembra uma criação de cavalos de raça: há o autônomo, “puro”, Standalone (no jargão, ao pé da letra, algo como o bebê que já fica em pé sozinho), não precisa do apoio da já existente rede 4G). É rápido, estável e seguro. Essa raça, digo, esse tipo, é o que está sendo lançado em Brasília, pioneira na rede. Nas demais capitais será implantado, inicialmente, o tipo 5G DSS, que “rouba” parte do sinal 4G, é mais lento e menos estável. Daí, será natural surgirem ciumeiras e disputas pelo “puro sangue” em outras cidades e estados.


Q
ue o novo sistema será de imensa utilidade para a negligenciada pesquisa científica, a medicina, o ensino escolar (quando e se for disponibilizado), a comunicação e a automação de um sem-número de serviços, além do EAD e o ensino e performance musicais, não há dúvida. Mas não será a quintessência de uma nova civilização, a arca perdida do santo Graal, a panaceia para todos os males, a pedra filosofal: não extinguirá a fome, não impedirá que o ser humano se lance a guerras e conquistas estúpidas – pelo contrário, acirrará os ânimos, a espionagem e a competição armamentista; tal qual nas revoluções industriais, o desemprego aumentará a olhos vistos e os deserdados sentirão na pele; ajudará os mais fortes a sobrepujar os mais fracos, doença da índole humana. A tecnologia depende do homem, e, fora dos livros e filmes de ficção científica, não nos dominará – “o cérebro eletrônico comanda / manda e desmanda / (...) mas ele não anda”, compôs Gilberto Gil em 1969. Tomara que saibamos conviver com a novidade, tirar dela o melhor proveito e evitar seus efeitos adversos e maléficos. É da natureza humana sonhar alto, conquistar. Porém, há o lado negativo, dos que desejam o mal, têm volúpia pelo poder.

(Livro Errante)

E
m 1930, em Libertinagem, o poeta modernista Manuel Bandeira (1886-1968) deu asas e voos aos seus desejos, sonhos e utopias, tentando conjuga-las com o que o vislumbrava para seu futuro, tal como desejava que ele fosse. Assim nasceu um histórico poema: “Vou-me embora pra Pasárgada / lá sou amigo do rei / lá tenho a mulher que eu quero / na cama que escolherei”. Primeiro seus instintos e luxúria, em seguida as utopias: em Pasárgada tem de tudo, um processo seguro de evitar a concepção, telefone automático, alcaloide (N.: cloridato de cocaína) à vontade e, finalmente, prostitutas “pra gente namorar”, o lado onírico que compensaria as conquistas materiais. Navegar é preciso, disse Pessoa.





 




sexta-feira, 8 de julho de 2022

CARROS A GASOLINA, ELÉTRICOS

E O DESDÉM PELA PESQUISA CIENTÍFICA NO BRASIL

O Benz Patent Motorcar

Várias tentativas de se construir um veículo movido a combustível já haviam sido empreendidas, mas só em 1885 o designer e engenheiro alemão Karl Friedrich Benz (1844-1929) lançou seu Benz Motorcar, dando início à primeira produção em série de veículos com motor a combustão. Nascia assim a Benz & Cie., primeira fábrica de automóveis. Em 1926, três anos antes de sua morte, juntou-se à Daimler Motoren Gesellschaft, de onde surgiu a Daimler-Benz, que até hoje produz alguns dos melhores carros do mundo, os Mercedes-Benz. Por essa razão, recebeu de um norte-americano, em plena disputa entre seus dois países, o epíteto “Pai da indústria do automóvel” (FANNING, Leonard. Karl Benz: Father of the Automobile Industry.  NY: Mercer Publ., 1955). O veículo original, nada confortável, sem amortecedores e com uma espécie de manivela à guisa de direção, tinha as rodas de trás enormes e uma única na frente, bem menor. Logo Benz introduziria outros avanços: ignição elétrica e motor a quatro tempos com apenas um cilindro, 958 cc e ¾ hp, que atingia até 16 km/h!

Linha de montagem do Ford "T"

O magnata da indústria americana Henry Ford (1863-1947) criou a Ford Motor Company, e iniciou a produção de automóveis por linha de montagem em larga escala, com franquias nos seis continentes. Seu modelo “T”, revolucionou a indústria, baixando a preços acessíveis à classe média. (Filosoficamente, ligava o consumo à conquista da paz, porém durante a Primeira Guerra envolveu-se com o antissemitismo, inclusive financiando publicações como o jornal The Dearborn Independent e The International Jew - O Judeu Internacional). O “T”, com direção à esquerda, 4 cilindros e molas surgiu em 1908; a produção em massa forçava o preço para baixo, coisa de 25 mil dólares atualizados (R$ 129 mil). A classe média alta podia desfrutar do luxo de volteios em um automóvel confortável para a época, mandando às favas a poluição: a atmosfera, especialmente nos grandes centros, passou a receber uma quantidade crescente de gases como o ozônio (O³), o monóxido de carbono (CO), o nitrogênio (NOx) e o dióxido de carbono (CO²).

Shenzen

Paralelamente à escalada poluidora e o desmedido consumo de combustíveis fósseis, o preço nas bombas encareceu a olhos vistos. Várias guerras tiveram como pano de fundo o chamado “ouro negro” - o petróleo -, enquanto industriais e cientistas bem-intencionados começaram a procurar alternativas. Com as frotas de cidades inteiras - como Shenzen, na China - movidas a eletricidade acumulada em baterias e inúmeros experimentos de sucesso, os carros elétricos parece terem assumido o protagonismo futurista nessa promissora nova forma de propulsão.

Toyota Prius II

Nova? Nunca! Nos anos 1830 o escocês Robert Anderson já tinha seu veículo elétrico, em 1835 Stratingh e Becker construíram um modelo pequeno, e no mesmo ano Thomas Davenport criava o seu protótipo. Em 1870, David Solomon montou pequenos carros movidos a energia elétrica, mas enfrentava um problema que ainda hoje desafia a fabricação mundial desses veículos em larga escala: a baixa autonomia em distância percorrida e o peso das baterias recarregáveis. Mas houve progresso: em 1977 a Toyota lançou o modelo Prius e vendeu 18 mil veículos; em 2000 criou um modelo híbrido, o Toyota Prius II, que recebeu da Motor Trend Magazine e da North American Auto Show o prêmio “Carro do Ano”.

Musk e seu Tesla

Elon Musk, dono de 282 bi de dólares, excêntrico playboy nascido na África do Sul em 1971 e naturalizado norte-americano, é um dândi com ideias exóticas, controversas e exibicionistas que vende ao mundo seu Tesla, de linhas esportivas e alto luxo. Deu ao carro nome de um inventor visionário, o engenheiro mecânico e elétrico sérvio-americano Nikola Tesla (1856-1943), que criou projetos de modelos com corrente alternada (AC). Os Tesla de Elon Musk alcançam mais de 250 km/h e têm autonomia acima de 480 km. O modelo Roadster, ainda em aprimoramento, pode rodar mil km sem reabastecer, um grande avanço. Pelo luxo, tecnologia e design, o Tesla de Musk, excêntrico patrocinador de curtos voos espaciais para cidadãos comuns, manda seus preços para a estratosfera. No Brasil, por exemplo, o carro chega a custar entre R$ 500 e R$ 600 mil.


Falando em Brasil, onde nós ficamos, nessa história? No passado! Em 1969, o engenheiro João Augusto do Amaral Gurgel criou o primeiro carro elétrico da América Latina, 100% produzido no país, o Itaipu E150. (A remissão a um nome indígena não era novidade para Gurgel: antes de Itaipu, o carro se chamava Ipanema, ao passo que outros foram o Tocantins, o Xavante e o Carajás). Lançado oficialmente apenas em 1974, o carro pesava 460 kg, 70% devidos às duas baterias, por um preço de aproximadamente R$ 65 mil atuais: um automóvel ainda bem rústico, com dois lugares, feito a partir de chapas planas e que chegava a 60 km/h. Fora a economia popular, poderia ter sido um projeto para um Brasil menos poluído tanto no ar que se respira quanto sonoramente. Desde que tivesse sido levado à frente com investimentos e pesquisas, mas...


O establishment brasileiro é retrógrado e cruel.  Não interessam nem a economia popular nem o meio ambiente, apenas poderosas empresas como a Petrobras, um Estado à parte ávido por volumes incríveis de cargos e dinheiro e voltado apenas para combustíveis, gás e afins. E nada de pesquisas científicas: universidades e seus centros são sucateados como contrapeso financeiro para campanhas políticas às custas da Educação, da Ciência e da Saúde.  



sexta-feira, 1 de julho de 2022

ACADEMIA DE PLATÃO E CENSURA NAS REDES SOCIAIS

 


Tempos de ditadura, certa marchinha de Miguel Gustavo atiçava o povo na copa de 1970 - “Noventa milhões em ação / pra frente, Brasil / salve a Seleção”. Nelson Rodrigues dizia “a Seleção é a pátria de chuteiras”, o ufanismo era massificador e o governo excludente: “ame-o ou deixe-o”. Outra frase, que pelo estilo pode ser também do Nelson, atualizada pelo censo demográfico: “O Brasil tem 214 milhões de técnicos de futebol”. Claro, é na rua, no estádio ou na mesa do bar que todo brasileiro diz como fulano deveria batido aquele pênalti; olha, sicrano deixou entrar; não foi mão na bola, foi bola na mão (volta e meia gritaria e não raro safanões). Coisas do Brasil, como na Argentina, porém muito menos violentas do que os Hooligans ingleses - Hooligan seria o sobrenome de um irlandês violento, do gênero “João Valentão é brigão / pra dar bofetão” (Caymmi). Sejamos todos técnicos, há espaço para todos!

Justicialistas

Quando o assunto é política não difere muito do futebol, haja vista a enorme dissensão polarizada nesta já buliçosa pré-campanha eleitoral. Comparando à Argentina, discute-se não como os barulhentos peronistas do partido Justicialista, com seus tambores e gritos, nem como os quase sempre comportados ingleses. Nos quatro cantos do Brasil, paralelamente às discussões - quer sobre futebol, quer sobre política -, é comum investir um troco nas certezas de cada um: vale apostar dinheiro, quem sabe uma rodada ou um engradado de cerveja em quem vai fazer o gol da vitória. Na política, quem será o presidente, o governador e, frequentemente, o prefeito – no interior, os cidadãos são mais simpáticos à política local, que os afeta diretamente.


Mas não é só no futebol e na política que tantos milhões de brasileiros militam em debates com a verve de especialistas, mesmo que com pouco tempo de bancos colegiais, bem mais nas escolas da vida. Ler jornal? Um grupo mais seleto, talvez, pois a TV é bastante mais deglutível. Assistindo a novelas, comenta-se – frequentemente durante um intervalo ou mesmo alguma cena – sobre as pernas da atriz tal, aqueloutro e seus olhos, com invariáveis elogios ou palpites críticos: “como ela está bem neste papel”, ou “ele não tem cara de vilão, não acha?”, avaliações que no fim das contas acabam flutuando no ambiente, familiar ou não, transformado em plateia. Sim, a tendência é assistir em grupo, pois o pulsar e a respiração de cada espectador têm o efeito de reverberar no clima da audiência.


E como não bastassem o futebol, a política e o fazer artístico, também se discute economia. Claro, sem a erudição de um PHD da Harvard, são aqueles economistas forjados na própria condição de vida, nas dificuldades do dia a dia, na inflação galopante, no crédito impossível, no estouro do cartão, no preço exorbitante da gasolina e do diesel, do tomate, da carne, tudo o que o sufoca. Afinal, as finanças, segundo Kenneth Galbraith, em seu didático A Era da Incerteza1, já andavam a passos largos quando um campesino trocava cabras por um boi, e daí até o surgimento da moeda – versátil e mais fácil de se levar (1 em livro, há versão em português, e na internet uma ótima série em vídeo).


Sobre a expertise de um cidadão acerca de determinado assunto, lembro-me de ter conhecido o respeitadíssimo comentarista de economia Joelmir Betting, falecido há dez anos, em um churrasco do maestro Eleazar de Carvalho em Interlagos, na capital de SP. Para puxar assunto, ironizei sobre ele ter chegado em um Dodge Dart, beberrão à época nada bem quisto por conta do alto consumo e dos preços nas bombas. Brinquei, e logo com ele, um economista... Pegou a caneta e um guardanapo e foi fazendo as contas diante de mim, aluno embasbacado. “Vocês compram carro popular para economizar gasolina, eu compro um “gastão” e pago a metade. Daí vocês financiam e pagam em até 5 anos, eu quito à vista e parcelas só pago cada vez que encho o tanque. Na hora de vender o carro vocês perdem dinheiro, têm dificuldade em transferir o financiamento, eu não”. Agradeci a aula e nos fartamos no lauto almoço.  Foi somente depois desse episódio que descobri: Joelmir nunca fora economista, era um jornalista formado em Ciências Sociais na turma da Ruth Cardoso!

Academia de Platão

Todas as noites, após os telejornais, gosto de assistir aos programas de opiniões e debates com empresários, médicos, filósofos, apresentadores de TV, professores, cientistas, sociólogos, enfim, pessoas de credibilidade com formações diversas, no melhor estilo da Academia de Platão, lá atrás na Grécia antiga, primórdio da universidade (~387 a.C.): discutem ou expõem suas opiniões sobre diversos assuntos. Enriquecedor, ainda mais quando eventual discordância traz à luz novos elementos, um lado elegantemente acedendo ao outro: um sim com a cabeça, um sorriso ou um piscar de olhos. A diversificação e mesmo o conflito dão rumo ao conhecimento e à raiz do verdadeiro saber. A apologia do nada é bandeira da ignorância.

Novos tempos. Com o advento das redes sociais, alguns internautas postam críticas genéricas, toscas e depreciativas à exposição de ideias e conhecimento – textos negativistas geralmente copiados de um terceiro e colados digitalmente. Sinal dos tempos, compartilham uma espécie de censura, novo estilo de mordaça, sabedoria do nada saber e da “raiva de quem sabe”; ingenuamente, pensam que “lacraram”, como diz a gíria, com a aquiescência dos mais ignorantes do que eles.  Encerro parafraseando Nelson Rodrigues: “toda censura será castigada”.