LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****

sexta-feira, 3 de março de 2023

DEUS E O DILÚVIO NA TERRA DO SOL

 


A
água é implacável. Tanto que Deus confiou a Noé, homem de coração puro, que um imenso dilúvio sobreviria, cobrindo a Terra até que toda a vida desaparecesse. E mandou-o construir uma enorme arca, de dimensões suficientes para transportar a bordo o que deveria levar na missão, a salvo do castigo. Ele queria que Noé, sua família e animais, sobrevivessem ao dilúvio, para ao final começarem o repovoamento da Terra: raça humana e fauna. E Deus fez-lhe o plano nos mínimos detalhes: “Você fará uma arca em madeira gofer, depois divida-a em compartimentos e revista-a de betume por dentro e por fora” (Genesis, 6:14). O dilúvio seria tanto um grande castigo pelo mal que imperava na Terra quanto sua purificação; a arca, travessia segura para recomeçar o mundo.


F
evereiro de 2023. O longo e caudaloso temporal que achacou o Litoral Norte de São Paulo não chegou a volumes ínfimos se comparado com o que descreve o Gênesis a título de lição, mas ceifou – até a manhã do dia 24 - a vida de 52 pessoas. Deixou um enorme número de feridos, 2,5 mil desabrigados e incontáveis órfãos, parentes e amigos dos mortos ou desaparecidos. Foram necessários 200 bombeiros e 100 homens do efetivo do Exército para salvar, tratar, e para escavar os rescaldos de uma guerra implacável e o desespero. Faltou água potável, preciosidade que chegou a ser vendida por atravessadores a 90 reais a garrafa -indivíduos que não respeitam sequer o sofrimento humano para seu injustificável e egoísta proveito financeiro. Sem dizer da fome, dos alimentos destruídos ou levados pelo barro e até mesmo pelos piratas da lama, ávidos por saquear o que surgisse. Esqueceu-se das infecções, hepatite, leptospirose, gastroenterite, tétano e uma série de outras ameaças que acossam as vítimas desses flagelos. E o medo, um medo de ser impossível a fuga daquele tormento sem limites.


D
ebates sobre ações preventivas são intermináveis e não são de ontem. Guilherme Simões, secretário nacional de Políticas para Territórios Periféricos do Ministério das Cidades, irritado, pegou no fígado, em entrevista ao UOL (22/02): “Defender que para prevenir desastres é simplesmente retirar as pessoas das áreas de risco é falta de senso de realidade. Tirar para onde? Sem uma política de moradia você retira a família e ela vai para outra área de risco”.  Politicamente, a curto prazo essa remoção de moradores das encostas traz algum efeito, saneia cosmeticamente. E foi preciso um secretário de ministério para alertar que o problema é mais complexo e demorado – pior ainda, demanda continuidade de obras passadas as eleições! “Obras para prevenir tragédias das chuvas não geram voto”, completou.

Caraguá 1967

M
as não foi um recorde. Números não escalam as estatísticas em linha reta, crescem oscilando em volume e frequência. Ora, em março de 1967, quando as condições de infraestrutura e moradia eram ainda mais precárias, Caraguatatuba, também no Litoral Norte de São Paulo e então com apenas 15 mil habitantes, viu uma tormenta desabar e levar 400 vidas, deixando outras centenas desaparecidas. Na manhã do dia seguinte, o jornal A Tarde dava como manchete: “Em dez minutos, quatrocentos mortos”, cabeça de matéria farta de descrições lúgubres de um cenário que mais parecia o de um abatedouro. Se, nos dias de hoje, as condições de permeabilização da terra para absorção de enormes volumes de água são péssimas, imagine há 56 anos. Permeabilizar, escorar morros e encostas, canalizar córregos, construir casas populares de boa alvenaria e, em suma, criar estruturas condizentes com o reerguimento da cidade eram sonhos futuros, mas esses sonhos ainda repousam na imaginação.


V
oltando para São Sebastião/Bertioga: 57 mortos (25/02). O volume de chuva se superou: 683 mm, ou seja, 68,3 cm por metro quadrado. Carlos Nobre (ex-Inpe), o mais reputado climatologista brasileiro, reforça que eventos climáticos como essa catástrofe estão e se tornarão cada vez mais frequentes. Os que acreditam que esses desastres são glamourizados por organizações “de esquerda” que copiam modismos de primeiro mundo vão morder a própria língua, e, muito pior, desabrigar, ferir e mesmo tirar vidas humanas. Fauna, flora e o complexo do meio ambiente estão juntos com o ser humano nesta aventura da vida, ou, fazendo um paralelo com a lição de Noé, nesta arca imaginária da qual fazemos parte.  O climatologista fez o alerta dizendo que as recentes tempestades do litoral norte paulista foram três vezes maiores do que aquilo que os modelos de previsão utilizados indicavam. E que é um desafio enorme para a ciência conseguir antecipar que esses picos gradualmente mais altos possam ser previstos na natureza a cada ano, no mundo inteiro.


D
e todas as observações feitas sobre o assunto, a que parece mais pertinente é a sábia frase – não uma tese, pura constatação - do secretário do Ministério das Cidades, Guilherme Simões: “Obras para prevenir tragédias das chuvas não geram voto”. Eis o ponto. Com pouca verba ou dinheiro mal empregado para manutenção da cidade, resta menos ainda, quem sabe, do que é visível para a população e nada rende em dividendos eleitorais. Pois se assim o é, que diria da nada vistosa e insossa engenharia de salvaguarda da população? O povo, voluntário, a sociedade civil, em geral, e mesmo entidades e empresas podem doar víveres e até emprestar sua mão de obra. Mas nunca farão o milagre de substituir o que aqueles que de direito e de fato deveriam fazer: a sua parte ao administrar as cidades.

 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

COMO UM OBJETO NÃO IDENTIFICADO

 


A
ntes de tudo, partindo do nada: algo que voa e não se sabe o que é. Ou seja, ÓVNI, segundo o Houaiss denominação genérica para esses objetos, ou UFO (Unidentified Flying Object) em inglês. Mais recentemente, oficiais norte-americanos classificaram-nos como UAP (Unidentified Anomalous Phenomenon), Fenômeno Anômalo Não-Identificado, sigla de abrangência mais ampla devido ao largo espectro de significados e possibilidades que encerra. Já ÓVNI é associado diretamente, até mesmo por uso e costume, aos discos-voadores (que nem sempre surgem em forma de discos!) Já o UAP pode ser desde um artefato a um fenômeno atmosférico ou meteorológico.  Em 2022 a NASA anunciou uma equipe de estudos de UAPs, para separar o joio do trigo, ao passo que pequenos grupos de ufólogos enxergam hipóteses pseudocientíficas nada convencionais, apontando nos “objetos” evidências de uma vida extraterrestre que talvez... sequer tenha nascido. Neste segundo caso há uma certa crendice, incensando o assunto com um misticismo que lembra alguma seita, envolta em mistérios e crenças.

Spitfire

L
embro-me de um tio, na minha adolescência, que dedicou parte de sua vida aos estudos desses “objetos”. Colecionava revistas, matérias de jornais, entrevistava cidadãos alegadamente abordados por ETs e conectados com vida inteligente fora da Terra. Uniu essa obsessão a um talento, desenhar, o que fazia com perfeição à ponta de lápis finos, H: os lindos grandes quadros de caças da II Guerra como o alemão Messerschmitt e o inglês Spitfire, de cabine única, que tem seus descendentes até hoje. Sobre uma prateleira, miniaturas de aviões, foguetes e ÓVNIs, preciosidades. Eu e um primo, filho desse tio ufólogo, armamos uma pegadinha: uma miniatura de disco voador feita de chumbo, pendurada em uma finíssima linha de pesca em cuja outra ponta atamos uma pedra; jogada por sobre cabos elétricos de postes da rua (que perigo!) foi içada a uma altura que dava a impressão de o disco estar sobrevoando a Terra. O tio, claro, não se entusiasmou nada com a foto e voltou a tratar do Centro de Investigação Civil sobre ÓVNIs, do qual era presidente. Talvez por isso eu não tenha caído no time dos que acreditam à primeira vista, mas estarei de braços abertos se um dia um ÓVNI ou ET me aparecer pela frente.


C
om a guerra fria, após o final da II Guerra, relatos sobre ÓVNIs, feitos principalmente por pilotos de caças americanos, muitos deles sob a égide de “classified documents”, “top secret”, começaram a encher um departamento inteiro na NASA. Ora, sabe-se lá se esses arquivos fazem referência a artefatos de espionagem soviéticos ou, talvez, a discos ou cilindros voadores com ou sem ETs a pilotá-los a passeio? (As teorias da conspiração sobre o assunto falam até em controle por inteligência artificial, encontros e mesmo abduções de inspiração cinematográfica por extraterrestres ou tendo eles próprios como modelos para filmagens). Há cientistas levando tudo isso a sério e há descrentes, grande maioria, mais engajados em fazer troça, brincadeiras e, em tempos modernos, memes sobre o tema.

(Ilustração: G1)

C
idades como Varginha, em MG, e São Raimundo Nonato, no Piauí, são pródigas em relatos sobre aparições de ÓVNIs e ETs, e é claro que o simples fato de haver registros sobre esses eventos já cria um ambiente propício a futuros acontecimentos correlatos, seja no campo da observação, seja no da mais fértil imaginação. No dia 23/11/20, um clarão assustou populações não apenas de São Raimundo Nonato, pela tradição da cidade – que já foi usada em cena de A Caverna, um espetáculo do músico e inventor suíço Walter Smetak -, mas também Teresina, Floriano e outras. A explicação é simples, segundo o prof. de física e pesquisador do IFPI Ayrton Vasconcelos: a região faz parte da rota de artefatos humanos de exploração “dada a proximidade com a Linha do Equador e pelo movimento de rotação da Terra”.   Tratava-se de um foguete chinês em direção à lua, visto entre os planetas Júpiter e Saturno, cujo lançamento fora até noticiado pelo New York Times. A região é privilegiada, razão pela qual Alcântara, no Maranhão, é onde se encontra o Centro de Lançamento da Agência Espacial Brasileira. Já Varginha, no sul de Minas, ficou famosa por ter sido onde três meninas teriam visto um ET, depois supostamente capturado por militares. Nos tempos seguintes vieram mais aparições, merecedoras de filmes, livros e muita elucubração.

Canadá-Alasca

N
o dia 11 de fevereiro de 2023 caças americanos derrubaram um “ÓVNI” cilíndrico na altura da fronteira do Canadá com o Alasca, e no dia 12 outro objeto, este de forma octogonal, sobre o lago Huron, em Michigan, nos EUA. Só mais um caso de espionagem nas relações nada amigáveis entre russos e norte-americanos nesta guerra fria? Pior ainda, envolvendo a China, que seria a lançadora do objeto, tendo como pano de fundo o conflito russo-ucraniano? Não, não eram ÓVNIs, apesar de inicialmente terem provocado certo frisson entre ufólogos e aficionados. Seriam artefatos chineses acusados de supostamente espionar os EUA, tendo como contrapartida objetos semelhantes que vêm sendo usados pelos americanos para bisbilhotar a China. Qualquer coisa que voa ou está voando pode ser alvo dessas especulações: “Carcará / é um bicho que avoa que nem avião” (João do Vale e José Cândido). Ou, mais suavemente e planando em suave poesia, como cantou Caetano Veloso: “minha paixão / há de brilhar / na noite / no céu de uma cidade do interior / Como um objeto não identificado”.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O DESATINO DA BOSSA

 

Dizzy

C
omo todo movimento musical na história, não se pode precisar o início da bossa-nova, assim como não se pode estabelecer quando começaram os movimentos norte-americanos que mais lhe foram influentes, como o bebop e o cool jazz. Do bop saíram nomes como os trompetistas Miles Davis e Dizzy Gillespie, os contrabaixistas Thelonious Monk e Ray Brown e os saxofonistas Charlie Parker e Sonny Stitt, dos quais apenas dois não assisti ao vivo. E vieram o jazz-rock, o pop-jazz, o jazz-fusion, o cuban-jazz e naquele miolo todo estava a marca que contaminava a nascente bossa; aos poucos, ao contrário, nós influenciávamos os americanos. Interessante lembrar a música “Influência do jazz”, de Carlos Lira. Coisa do CPC da UNE, crítica mas abraçada às novidades. “Estamos aí” (Ferreira/Einhorn), de 1962, é um tema intricado para se cantar, e faz sucesso até hoje, como tem sido desde a versão inesquecível de Leny Andrade. Pega carona no estilo, também, a grande sambista Elza Soares, um prodígio do chamado scat singing, técnica que faz uso de um improviso geralmente em alta velocidade utilizando percussivamente sílabas desconexas. A Elza o Brasil deve o samba-jazz, o sambalanço e suas variantes.

Jackson do Pandeiro

A
propósito das controvérsias naturalmente surgidas sobre essas influências, um bamba paraibano chamado Jackson do Pandeiro saiu com a genial “Chiclete com banana”, tirando uma do mimimi generalizado: “Só ponho / bebop no meu samba / quando o Tio Sam / pegar no tamborim”,  para mais adiante desafiar “...quando ele pegar / no pandeiro e no zabumba / (...) eu vou misturar / Miami com Copacabana / chicletes eu misturo com banana / e o meu samba vai ficar assim”. Certa dissenção que houve nos EUA também chegou aqui: uma prática jazzística de pendores mais brancos, intelectualizada, poucos altos e baixos melódicos, voz meio que falada; era o cool-jazz (disso o Nelson Gonçalves, o vozeirão romântico, criticando o jeito de certa ala bossa-novista de cantar, tirou proveito: gravando com Caetano Veloso, que naqueles tempos navegava nas ondas do cool-bossa, o baiano pediu a Gonçalves que subisse um pouco o tom. Estava difícil, para ele, um tenor, dialogar com aquele vozeirão de barítono no registro mais grave. Gonçalves abusou da ironia e atirou em um terceiro - “vai falando, como faz o João Gilberto” -, matando dois coelhos de uma cajadada só.

Carnegie Hall, 1962

O
cool pegou também em Carlos Lira, Dick Farney, Lúcio Alves e outros, sem deixar de fora vozes femininas suaves e meigas como a de Nara Leão. Seria o tempo dos bossa-crooners? Já estávamos no final dos anos 1950, quando o movimento formava corpo para “tomar de assalto” os EUA, no famoso show de estrelas no Carnegie Hall, em 1962, quando mostraram o que é que o brasileiro tem. Encantaram Stan Getz, Frank Sinatra e muitos outros, para depois adotarem o brazilian jazz – que àquela altura já existia aqui – e que contaminou a América do Norte.

Com a escova

U
m compositor, cantor e pianista brasileiro de nome artístico americanizado, Jhonny Alf, de “Eu e a brisa”, havia sido deixado um pouco à margem da turma, pois alguns o achavam “made in USA” demais. Ajudou-o Tom Jobim, que de cima de sua autoridade afirmou que Alf teria, sim, sido o pai da bossa-nova. Estava batizado o novo bossa-novista. Mas foi em 1955, num trabalho conjunto de Jobim e Billy Blanco, “Hino ao Sol”, para muitos o início da Bossa, o despertar de um movimento que persiste e influencia até hoje - mesmo que Billy Blanco, músico e também arquiteto, fosse um pouco obscuro para o grande público, uma timidez que o levava ao intimismo da bossa (nascida nos apartamentos de Copacabana, onde bateristas como Edison Machado, Dom Um Romão e Milton Banana tinham de tocar “como em uma caixa de fósforos”, para o ruído não gerar brigas com a vizinhança). Toc-toc da baqueta esquerda no aro da caixa, às vezes apenas a do tipo escova, que com seu xique-xique fez reduzir o volume dos grupos. De vilã, a bateria passou a heroína da bossa de Copacabana.

O Lundu

H
ouve movimentos de puristas, claro, contra a “invasão ianque” do nosso samba, nosso puro e casto samba. Alguns críticos se alvoroçaram contra a bossa-nova, esquecendo-se de que o auriverde samba nascera do maxixe, danças angolanas e congolesas. O maxixe veio da habanera, tango brasileiro e polca, e já era mal visto pelas classes abastadas, tido como semelhante ao Lundu, dança do final do século 19 dos cabarés dos bas-fond cariocas. Aquela pureza tão decantada pelos nacionalistas carrancudos nunca existiu, isso aliás não existe na música - fosse assim a única música genuinamente brasileira seria a dos povos indígenas, que chegaram aqui muitos séculos antes de nós. E o que veio depois, com a bossa-nova, também tinha traços de Debussy e Ravel, principalmente pelas mãos de Jobim. Tudo o que sucedeu a bossa teve o DNA dela, como a jovem-guarda, a tropicália, ritmos em que a batida de violão do adorado João Gilberto volta e meia reaparece, tocado com as pontas dos dedos em sequência rítmica que marcou a história.

Espinoza

E
sses dissensos e casamentos na música são fontes de rica diversidade, mais precisamente o alimento da chamada linha evolutiva da MPB. Quando se digladiam ou quando se casam, forças aparentemente antagônicas fazem a música viva, enriquecendo-a e alimentando seu caminho com novos elementos. Os mais conservadores se enclausuram. Lembrando a filósofa Marilena Chaui, caminhemos com o pensador de seus estudos, o espanhol Espinoza. Uma frase resume tudo, da arte à política: "dos conflitos emergem as soluções".

 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

DISSECANDO A MENTIRA

 


E
u nunca diria “nunca antes neste país”, porque, mesmo certo mas sem segurança, pareceria estar mentindo, a despeito de não fazê-lo. Poderia, talvez, dizer “nunca antes em minha vida” (se mentisse, não seria comprovável). Pois nunca vi tanta mentira, tanto embuste, enganação e lorota como hoje. Veja o fake, cuja consagração nas mídias equivale a um Grammy, enquadrando com ouro os embustes: a falsidade se torna tão real que pode usurpar o espaço da verdade. O resto, ah, fica por conta da boca do povo, “telefone sem fio” que transforma tudo em verdade, até esquecermos onde a dita cuja foi parar.


S
egundo o caderno de filosofia Neurohacks, da BBC (26/10/16), uma equipe de cientistas liderada pela Drª Lisa Fazio saiu em campo para investigar como a ilusão do “efeito da verdade” interage com a nossa mente, se ela alteraria o conhecimento. Foram contrapostas afirmações verdadeiras e não-verdadeiras, como “O Oceano Pacífico é o maior oceano da Terra”, a outro exemplo conhecido, “O Oceano Atlântico é o maior oceano da Terra”, item não-verídico que as pessoas podem terminar reconhecendo como “verdade verdadeira”. O pesquisador Tom Stafford assegura que um fato pode tornar-se verdadeiro, mesmo sem o ser, e a compreensão desses efeitos pode ajudar o indivíduo a evitar as ciladas da propaganda.


U
m princípio no qual teria se baseado Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, ao supostamente proferir o corolário “Uma mentira repetida dez vezes se torna verdade”, é: quanto mais o indivíduo ouve algo, mais nele crê como verossímel, e quanto mais ele o repete mais acelera seu efeito multiplicador. Mc Luhan, nos anos 1960, em “O meio é a mensagem” (com o trocadilho em inglês mensagem/mass-age, “era das massas”) estudou os efeitos dessa multiplicação. (Ainda nas décadas pós-Goebbels/McLuhan, pesquisadores interpolaram um quadro entre os demais 23 na película com que se fazia cada segundo de filme naquela época, criando um efeito subliminar – ou seja, este quadro, entre os demais 23 em um segundo, não seria percebido e compreendido de forma liminar. Para confirmar, em experiências feitas em salas de cinema, naquele quadro “invisível” estava o logo da Coca-Cola com fundo vermelho, imagem que ficaria gravada no subconsciente de cada um e, terminada a sessão, teria multiplicado a sede do público pelo refrigerante, nos quiosques do saguões de entrada.


F
azer confusão, mesmo que seja no vaivém, no mente-desmente e mente novamente, faz ressurgir o efeito Pacífico-Atlântico, às vezes com grande impacto. Certa medicação inócua para combate à Covid, propagandeada insistentemente, foi usada apesar de desmentida sua eficácia. “Fulano é ladrão” (ou não é), o eu disse mas não disse, e até o famoso “a imprensa distorce tudo, coloca tudo fora de contexto”, generalizando a afirmação para desacreditar a fonte, personificando-a na “imprensa” como una. Ao final, prevalece o que for mais forte, mais verossímel, em geral o que foi mais repetido. Um exemplo desse efeito verso-reverso: recentemente, um certo senador declarou, por espontânea vontade, que teria tido uma reunião para que o atual presidente fosse impedido de tomar posse e um ministro de corte superior intempestivamente preso. Depois, renunciou ao mandato, modificou a narrativa e retirou sua renúncia, tendo terceiros a causar ainda mais confusão ao imbroglio, para que ficasse o dito e o redito por não dito. Ex-político e ex-instrutor da conhecida SWAT norte-americana, ele estaria na crista da onda da suposta armação, mas, duro na queda, treinado no esquadrão de elite americano, desfez e fez mais confusão. Experiência como ator ele tem: no filme Tropa de Elite, de José Padilha e Marcos Prado, treinou atores na simulação de investidas da Polícia em favelas. Restam aos que deverão questioná-lo judicialmente os velhos documentos dos autos, acareações e instrumentos forenses de praxe, uma vez que na habilidade de prestidigitador ele é mestre (não à toa, ele teria sido o “eleito” para engambelar e grampear um ministro de tribunal superior).

Carl Jung

O
suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra e psicanalista, tinha certa obsessão pelos subterrâneos da mentira, como em “O Indivíduo Moderno em Busca de uma Alma”: “...mas nós não podemos viver o entardecer da vida conforme o programa de vida da manhã – porque o que era grande de manhã será pequeno à noite, e o que de manhã era verdade terá se tornado mentira à noite”. E como, em grau diminuto, a mentira está presente em nosso dia a dia: “A observância de leis e costumes pode facilmente ser um manto para encobrir mentira tão sutil que nossos companheiros, seres humanos, são incapazes de detectá-la”.

(Helena Xausa - BBC)

H
á aquela mentirinha social: “não posso ir, não passei bem”, ou “belo quadro”, “justamente o que eu esperava” (para agradar), e a comercial: “está novinha”, mesmo usada, “custa o dobro por aí”. Mas a pior, a pior de todas, é a mentira política, pois ela sangra os cofres públicos e faz uma volta para ir dar na conta de um parente ou em uma mansão no exterior. O real mentiroso age tão bem que chega a pensar que a falsidade que prega é verdadeira, e quando a desmente, sente estar mentindo, e o faz com a convicção ao avesso.


“Acima de tudo, não minta para você mesmo. O homem desleal a si próprio que ouve sua própria mentira chega a um ponto em que não pode discernir a verdade, e perde o respeito para consigo mesmo e os outros. Não havendo respeito, ele para de amar” (Fyodor Dostoievsky: Os Irmãos Karamazov).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

ÍNDIO QUER APITO, ÍNDIO QUER DIREITO

 


Era o ano de 1961, da posse e da velada tentativa de autogolpe de Jânio Quadros, em agosto. Havia tensão, e o clima um tanto conturbado, para variar, frequentemente escorregava para a anedota (não havia redes sociais!). Como aquela que se referia ao presidente estrábico e de pés tortos, na piada um índio querendo apito - claro, o poder. Haroldo Lobo e Milton de Oliveira lançaram um tremendo sucesso, inspirado na anedota: “ê ê ê ê ê / índio quer apito / se não der pau vai comer” - assíduo nos carnavais de décadas, mesmo que após aqueles tempos não se soubesse de que político se falava. Mas que era certo político, todo mundo sabia. Já uma índia suavizava o clima: a versão para o português de uma guarânia dos paraguaios Assunción Flores e Manuel Guerrero feita por José Fortuna em 1952: “Índia / seus cabelos nos ombros caídos / negros como a noite que não tem luar / seus lábios de rosa / para mim sorrindo...” Tem ainda a divertida “A índia vai ter neném / mais um, mais um, mais um que vem / Depois que vem o ‘baby’ / chefe pinta o ‘baby’ de urucum” (Dircinha Batista, 1964).


Em 2011, escrevi para o jornal O Progresso o artigo Geografia do Brasil, passando por cidades, morros, baías, praias e rios de nomes indígenas: Guanabara, Arariboia, Carioca, Anhanguera, Piracicaba, Chuí, Tietê, Paranapiacaba,  enfim, um pequeno glossário. A cada lugar por que meu texto passava, a tradução para o português e menção a algum personagem histórico local. Em Pindamonhangaba (lugar onde os anzóis são feitos, em tupi-guarani), fiz menção, sem citar o nome, a “um menino predestinado, já três vezes governador”. Passado um tempo, recebi uma dedicatória em papel timbrado do Gabinete do Governador, que reproduzo sem falsa modéstia: “Henrique Autran Dourado, com o seu talento a Geografia do Brasil ficou melhor. Seu artigo enaltece lugares, fatos e personagens importantes da nossa história, ao lado dos quais muito me honrou a sua referência. Parabéns! Abraço do Geraldo Alckmin” (por ironia, hoje vice-presidente da República). Alguém lhe teria entrege um exemplar do jornal em uma passagem por Pindamonhangaba.


Boa parte do nosso vocabulário, as influências musicais, nossa culinária, turismo - parece tão fácil ir a Ipanema ou Ubatuba sem saber onde estamos -, são tantas as raízes que talvez seja preferível fingir que não vemos ou sabemos, ou que nos é realmente desconhecido. Do Jobim de “...braços abertos sobre a Guanabara”, da “Garota de Ipanema”, do “Urubu” ou do “quero me casar com Janaína” (do Edu Lobo, Yemanjá na cultura mesclada afro-indígena), lá estão nossos povos originários, os que nos antecederam; da nossa mandioca, tapioca, ambas do tupi, o aipim, o açaí, o abacaxi, moqueca, pipoca, jaboticaba, quindim... O que seria do canto do sabiá, do jogo no Maracanã? Pois são sete grupos de línguas tais como Arikém, Juruna, Mondé, Mundurukú, Ramaráma, Tuparí, e só no Tupi-Guarani são 21, mais três isoladas: Aweti, Puruborá e Sateré-Mawé (fonte: EBC).


Existe um povo especial, o Yanomami, cujas origens na região datam mais de um milênio. Teriam tomado posse das cabeceiras dos rios Parima e  Orinoco, e lá desenvolveram suas próprias línguas (até o final do séc. 19, os Yanomami não conheciam senão poucas tribos indígenas, e o homem branco lhes era desconhecido). A partir de 1970/80, em Roraima, eles tiveram contato com colonização, fazendas, obras, serrarias e garimpos, invasão que provocou “um choque epidemiológico de grande magnitude, causando altas perdas demográficas, uma degradação sanitária” (fonte: PIB/SA).

O líder Davi Kopenava Yanomami

A visão do líder Davi Kopenava Yanomami pode até ter alguma poesia, de tão rica, mas é apocalíptica: “
A terra-floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os espíritos xapiripë, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los para nos proteger. A terra-floresta se tornará seca e vazia. Os xamãs não poderão mais deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim, todos morrerão." Em 2011, os Yanomami eram, entre o Brasil e a Venezuela, 35 mil, e hoje se estima em 30 mil. No Brasil, seus 95.650 km² de floresta tropical são reconhecidos “por sua alta relevância em termos de proteção da biodiversidade amazônica e foram homologados por um decreto presidencial de 25/05/1992” (Bruce Albert, IRD).


A
penas em 2022 o desmatamento pelo garimpo ilegal na terra Yanomami aumentou 25%, ou seja, um quarto (Inpe). Malária, diarreia, desnutrição e, principalmente, doenças causadas pelo venenoso mercúrio usado no garimpo, são os principais vilões do massacre indígena. Somente no dia 26/01 foram seis mortos. O Hospital da Criança, em Boa Vista, tinha, naquela data, 64 pacientes internados, sendo sete em UTIs, e a Casai (Casa de Saúde Indígena) 700 Yanomamis aguardando atendimento. Quase cem crianças indígenas morreram no ano passado pelas mesmas causas - 570 crianças em poucos anos!

Há conscientização e até mobilização internacional sobre o assunto, que pensa em vidas e no meio ambiente como um todo: os olhos do planeta se voltam para as reservas, onde o quadro é doloroso como no triste poema Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes: “Pensem nas crianças / mudas telepáticas / pensem nas meninas / cegas inexatas / (...) pensem nas feridas /como rosas cálidas”. Pensem e reflitam.



 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

RELÓGIOS, OBRAS DE ARTE, BARBÁRIE

 


O
que leva alguém a pagar milhões por uma obra de arte? Esta é uma pergunta bastante comum, mas explicável se há algum nome ou sinal que a associe a alguém, alguma época, ou se tem um contexto histórico. Às vezes um nome basta: meu pai dizia que se o Rockefeller quisesse sacar 200 milhões de dólares no Chase Manhattan os encarregados entregariam o numerário em carros-fortes com suas equipes de segurança – e um belo champanhe para espoucar na entrega. Já se ele, meu pai, tivesse pedido para sacar dois milhões no caixa teria sido preso. A questão maior reside em quem assinou o cheque. E claro, não pensamos em qualquer um se falamos de Michelangelo, Rafael ou Da Vinci: essas obras são eternas, as melhores não têm preço.


H
á dez anos, em um leilão promovido pela Philips em NY, a artista plástica brasileira Lygia Clark (1920-1988) teve uma obra, “Contra Relevo (objeto nº7)”, de 1959 (55,5cm x 55,5cm x 5cm), vendida pela bagatela de R$ 8,12 mi em valores de hoje. Um simples quadrado dividido em 4, sendo uma das partes branca e em relevo três pretas. Lygia Clark era a bola da vez. As obras podem ver seu preço variar com a idade – quanto mais antigas, grosso modo, mais valem. Mas creia, esta é uma regra imutável: ela poderá mudar sempre.

Os cinco violinos que alcançaram maiores valores foram o Stradivarius ‘Messias’ (R$ 104 mi, hoje), o Strad ‘Lady Blunt’ (R$ 88 mi), o Del Gesù ‘Vieuxtemps’ (R$ 82 mi), o Strad ‘Da Vinci’ (R$ 80 mi) e o Del Gesù ‘Kochanski’ (R$ 52 mi). Todos esses instrumentos têm os ingredientes certos para lançar os preços ao espaço em leilões: autor, perfeição da manufatura, ‘árvore genealógica’ dos proprietários anteriores bem estrelada, beleza e som próximos à perfeição. São obras de arte de grandes gênios. Do mesmo jeito, para se ter a dimensão do valor de uma pintura, peça arquitetônica, mural, um conjunto histórico ou arquitetônico, é preciso certa cultura. O idiota nunca irá lhes dar valor, não tem referências, não lhe serve para nada.


N
o Brasil, quando penso em artistas plásticos imagino Portinari, Iberê, Di Cavalcanti, Tarsila, Brecheret, tantos excelentes artífices que carregam em suas obras o peso do nome! (Eventualmente, o peso em ouro...) Para simplificar o raciocínio: o piano Steinway branco que pertenceu a John Lennon vale uma fortuna, mas se fosse de um Zé-Mané valeria apenas o instrumento em si, se estivesse em ótimo estado, para chegar a uma paga razoável.

(R7)

R
elógio de mesa que é belíssima obra de arte é um precioso trabalho de Balthasar Martinot, mestre relojoeiro de Luís XIV, rico em detalhes desenhados por André-Charles Boule. Uma linda peça, doada de presente a D. João VI e trazida ao Brasil em 1808, ano da Abertura dos Portos. Além desses atrativos e elementos de apreciação do valor, existe apenas mais um relógio igual no mundo, o que o levaria à estratosfera num eventual leilão. Duas peças únicas! A segunda se encontra nos aposentos de Maria Antonieta no Palácio de Versailles, e é bem menor em sua dimensões, fazendo do “nosso” o primus inter pares - “primeiro entre iguais”. Uma joia de grandes medidas.


N
o malfadado dia 8 de janeiro, em surto de macaquice de imitação, um bando copiou os norte-americanos de extrema direita forjados por Donald Trump e Steve Bannon: a massa treloucada avançou sobre os prédios dos 3 poderes (Palácio da Alvorada, Congresso Nacional e STF) e causou os danos que pôde – houve quem chegasse a dizer “que lhe permitiram”. Foi-se o precioso relógio ao chão e o mentecapto ainda tentou quebrar com um extintor as câmeras de segurança que filmaram o ato de vandalismo. Claro que os prejuízos ao nosso povo e ao Estado brasileiro foram incalculáveis. O painel “As Mulatas”, de Di Cavalcanti, uma obra-prima do modernismo brasileiro, mural inspirado no estilo mexicano, mostrava em sua enorme pintura as nossas belas mestiças. Al lado de Di, nomes célebres ao par de Brecheret, com sua Bailarina, e Marianne Peretti, com Araguaia, de 13,10 m x 2,45 m, um vitral incrível de 1977. (Para servir de parâmetro, “Bumba meu boi”, também de Di Cavalcanti, é um painel de 5m x 1,90m avaliado recentemente em 20 milhões). Por aí se vê o nível do que foi violentado, além da nossa democracia.


V
amos tirar uma lição dos lamentáveis acontecimentos do dia 8 de janeiro em Brasília! Vamos ensinar que não há civilização sem ordem e, antes de mais nada, futuro para um país sem que tenha educação, cultura e arte. O embotamento cultural e a estupidez caminham de braços dados na contramão do progresso, encardem o país com sua água imunda, lançam dejetos orgânicos e intelectuais sobre obras de arte e nossa memória, levam à destruição de uma relíquia, um relógio dos tempos de Luís XIV e D. João VI.


F
omos soterrados pela lama da estupidez pelos que, armados de ódio e violência, tentaram destruir riquezas e depredar alguns de nossos símbolos maiores, da democracia à patrimônio histórico de Brasília, já com 60 anos, arruinando, quebrando, rasgando, uma fúria bestial a ser registrada e exposta aos nossos filhos e netos, para que não seja esquecida. Mas, a despeito da leniência de alguns setores oficiais, do pouco caso e da desfaçatez de certos servidores da segurança, ainda somos um povo que ostenta dignidade antes de tudo. Os “santos guerreiros” da civilização e da democracia venceram o “dragão da maldade” e a horda de bárbaros. Mas é bom repetir: aquelas absurdas violações não poderão ser esquecidas, assim como o monstro: mesmo dominado, ele ainda respira.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

MORREU DE QUÊ?

 


A
curiosidade humana não tem limites. Não gosto de responder a perguntas invasivas da minha vida ou de terceiros, opto pela evasiva: não sei, digo, mesmo sem saber sabendo. Uma vez, atacado por algum insight poético, ao ser perguntado sobre o falecimento de um avizinhado comum, lembrei João Cabral, em Morte e Vida Severina: “e foi morrida essa morte, irmão das almas, essa foi morte morrida ou foi matada?” Aproveitei a ideia súbita e respondi: essa morte foi morrida (apesar de que em Cabral a resposta foi “até que não foi morte morrida, irmão das almas, esta foi morte matada numa emboscada”). Devolvi uma reposta com a licença poética do mestre pernambucano, não era da conta do meu interlocutor, ele que ficasse sabendo por terceiros. E se eu dissesse que morreu de síndrome edemigênica, causa mortis de uma personalidade famosa que nos deixou recentemente, ou, talvez, paniculite com sepse, já diria outro. Bastaria ao curioso? Não, o franco-atirador fuxiqueiro quer uma resposta banal, que lhe baste aos ouvidos sem esforçar-lhe o cérebro. (Ressalvas para os que extravasam sua angústias em oração nas redes ou, se for de sua escolha: “tiro, porrada ou bomba”, como disse o ícone das comunidades Valesca Popozuda, artista menos conhecida por seus dotes vocais do que por outros predicados).



E
ntrevero semelhante surge com “quanto custou?”, “vendeu por quanto?”, “pagou quanto?”, “quanto você ganha?” Que diabos interessa a um curioso a vida financeira de alguém? (Aprendi com minha mãe que este não é assunto para voz alta, se não por fofoca ao menos por segurança). Já dei sermão, expliquei que não se pergunta isso, fora se tiver muita intimidade, ou, como no caso da morte matada, aguarde-se elucubrando que alguma hora vai se tornar público. A imaginação nesses tempos de hoje nos remete à dos tempos de antanho: foi Covid, no primeiro caso, ou foi Aids, como no passado. No caso de doença infectocontagiosa, ainda há algum sentido: a prevenção, o controle endêmico, o alerta, se o “de cujus” era amigo ou parente, mas não convém sair por aí cuspindo suposições sem que haja absoluta convicção: Pode criar preconceito ou terror que não deveria existir, caso a informação seja falsa. Nos idos da eclosão da Aids, ninguém podia mudar de comportamento e principalmente emagrecer - quem não se lembra do sucesso da Rita Lee “Não, titia, eu não tô com leucemia”, a respeito de boatos? (“Que ideia mórbida, há há há há / que ideia sórdida, há há há há”).


“Operou de quê?” Ora, se a pessoa não diz é provável que não quer que se espalhe. Já se sabe que operar tem múltiplo significado: João opera uma máquina, Hans opera um cálculo, Márcia opera no mercado de capitais – e, na literatura, há o cortejado romance “Ópera dos Mortos”, de meu pai, Autran Dourado. (Mas, acima de tudo, só Deus opera milagres!). Como substantivo, há o italiano “opera”, obra, trabalho: como deixar de mencionar as belas encenações lírico-dramáticas do repertório operístico: La Traviatta, Don Giovanni, Nabucco, Il Guarany? Já cirurgicamente, opera-se uma verruga, o panarício de uma unha encravada, apendicite, pontes de safena ou mesmo um transplante de fígado ou coração. Então, operou o que ou de quem? Em A Ópera, 9° capítulo de Dom Casmurro, Machado de Assis deixa no ar: “Deus é o poeta. A música é de Satanás”.


O
tipo curioso é uma daquelas crianças que mexe e fuça, cresce assim, quer saber de tudo e, salvo honrosas exceções, hoje quer buscar seu instinto e paixão embotados às custas da vida alheia. “E os teus desejos ferventes vão / batendo as asas na irrealidade / O que tu chamas paixão / é tão-somente curiosidade” – Manuel Bandeira, em “Poemeto Irônico” (1917) de “A Cinza das Horas”. Eu confesso que fui uma criança curiosa! Meu pai, bom mineiro interiorano da sabença de passarinhos, chamava-me “menino-curió” - em tupi-guarani curió é ‘amigo do homem’, que vive ciscando nas aldeias. Mas aquela curiosidade infantil, com os tempos, fui trocando pelo desejo indomável de saber, daí minha carreira de educador e pesquisador. ‘Mas veja, ilustre passageiro’, as grandes descobertas nasceram da curiosidade, com a mãozinha de algum acidente que derruba uma maçã na cabeça ou transborda a água do banho do cientista. Não me proponho a descobrir ou inventar nada grande como Newton ou Arquimedes, apenas sinto-me feliz quando compreendo alguma coisa nova, conquisto um degrauzinho de formiga que seja.


M
as afinal, fulano morreu de quê? E sicrano foi operado de quê? Se em sigilo, permanecerá guardado – “segredo entre três só matando dois”, diz o vulgo -, se importante para a comunidade, basta o suficiente, e se for para ajudar a desvendar um crime, uma ladroagem, abre-se o saco de verdades. Há de haver sempre um bom propósito. Delação não, delação é interesseira, embora ferramenta útil em nosso direito, nossa velha política, passando pela alcaguetagem. Com o advento descontrolado das redes sociais, o direito à vida privada anda cada vez mais rarefato! Mas veja, que curioso (opa!): no mundo político e das ‘celebridades’ o que é privado pode tornar-se interessante para o (bem) ou malfalado se lembra aquela frase atribuída ao Carlos Imperial, inspirada no escritor Oscar Wilde e este no irlandês Henry King: “falem mal, mas falem de mim”.  

Pensei em chamar este texto “A taxonomia dos curiosos”, mas pode servir de pós-título. (Taxonomia, segundo o Houaiss, “é a ciência que lida com a descrição, identificação dos organismos, individualmente ou em grupo”).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

COMO UMA ONDA

 

Adrenalina: fórmula química

N
ão faz muito tempo escrevi neste espaço um artigo - “Pensando a Copa” - sobre música, esporte, adrenalina e as interações deste hormônio com a performance (desempenho presencial), característica de ambas atividades. Discorri tanto do ponto de vista benéfico dessa droga natural produzida pelo corpo quanto a hora em que ela chega a derrubar o artista ou atleta, um nocaute mental. Falei dos efeitos de um quase popular “antídoto” para controle da adrenalina, entre músicos, os betabloqueadores – de prejuízos sensíveis à performance musical. Aliás, digamos que “mecaniza” a interpretação, submetendo uma pretensa segurança do músico em desfavor da criação artística. Cabe ao músico sucumbir diante do caminho mais fácil e confortável ou trabalhar por uma interpretação que realmente cative o espectador (toda arte performática sempre tem como objetivo ser ao vivo, é bom lembrar).  Mas hoje abro espaço para ainda outra tendência: os esportistas que buscam algum tipo de catarse (libertação) via adrenalina em fortíssimas doses.

Bungee jumping

S
ão os chamados esportistas radicais, ou de aventura, cujo prazer é exatamente a busca pelo máximo, o que se traduz em rápida pulsação cardíaca aliada a uma intensa pressão sanguínea. Filosoficamente, pode-se dizer que é brincar com o risco, que remete ao limiar da morte – ou seja, o indivíduo busca emoção sentindo, às vezes muito perto, a mórbida sombra da velha e temida “senhora”. Quase todos esses esportes - a maioria inventada nos EUA, daí os nomes em inglês – são cultivados lá e cá, tal como o arborismo, a asa delta, o balonismo, o bungee jumping, o kitesurf, o longboard, o mountain board, o parapente e o trekking, entre outros. É claro que, sob um raciocínio bem simplório e reducionista, uma volta de bicicleta, um passeio na calçada, um descer de escadas ou alimentar-se na rua oferecem algum perigo, enfim, em tudo há certa mínima dose de risco, involuntária, que seja. Quero falar dessa busca determinada e voluntária pelo perigo, e, mais uma vez, de certo obscuro jogo de cartas com a morte.  Claro que todos esses esportes radicais têm de ser monitorados, executados sob supervisão e praticados em ambiente preparado para resgate e socorro: enfim, tudo para oferecer maior segurança – dentro do perigo de que é consciente do esportista.  E o surfe é um desses esportes, especialmente se for levado às modalidades mais radicais, como as ondas de grande altura.

Nazaré, Portugal

A
praia de Nazaré, oeste de Portugal, além de aprazível local turístico, é famosa por suas altas ondas, sempre desafiadoras. Surfistas de todo o mundo procuram-na pela fama – hoje, enquanto escrevo, ondas chegaram a até 4m de altura, trazidas por dóceis vagas (no Rio de Janeiro já seriam chamadas de “calhaus”, ondas muito grandes). Abrem-se enormes túneis, fascinantes e desafiadores para os surfistas, que aguardam ansiosamente por aquela onda gigante especial, de 15 metros ou mais de altura, o equivalente a um prédio de 4 andares. (O recorde em Nazaré foi estabelecido 2022, quando um alemão, Sebastian Steudtner, surfou a 26,21m de altura, quase uma construção de perto de oito andares).



Lorelei

N
a tarde do dia 5 de janeiro deste ano de 2023, Márcio Freire, brasileiro de 47 anos aficionado por ondas gigantes, foi seduzido por uma dessas vagas enormes e, como sempre, atirou-se com a prancha para uma viagem pelo túnel do tempo que mais uma vez parecia abrir-se de forma alucinada à sua frente. A partir daí, pouco se pode imaginar além do que ele próprio diria, se pudesse. Guiava-o uma descarga volumosa de adrenalina, companheira inseparável nessas viagens, mestre na sedução dos surfistas radicais como a sereia Lorelei dos navegantes do rio Reno, cantando e lançando-os contra os rochedos após se submeterem aos seus chamados voluptuosos.

Da Vinci: o homem vitruviano

I
magine agora Márcio, aventureiro, na boca de um desses túneis de água salgada, ante mais um verdadeiro convite ao desconhecido.  Ele vê apenas um clarão à sua frente, mas o túnel é mais veloz e afasta a luz mais e mais a cada segundo, até que ele se vê no escuro, no breu. Sabendo que há uma arrebentação na areia para onde confluem poderosas ondas - outro perigo de Nazaré, junto a um esfomeado refluxo de corrente a puxar-lhe para trás e para baixo. Daquele turbilhão imenso surge um caleidoscópio tridimensional girando em todas as direções, um globo imaginário sob o desenho vitruviano de Da Vinci, agora com pés e mãos torcidos e trançados, até o apagar geral da ribalta, um globo girando perdido e sem piedade para os lados, para a frente e para trás, para cima e para baixo. Corte para outra cena: de fora, vê-se a Marinha portuguesa retirando um corpo multifraturado  e já sem vida por conta de uma parada cardiorrespiratória. A busca pelo limite despertada pela adrenalina levou Márcio, bom baiano, para junto de Iemanjá, rainha do mar.

“É doce morrer no mar”, cantaria o também baiano Caymmi, “nas ondas verdes do mar”. Mas não houve poesia nas imensas ondas verdes onde ele foi se afogar, “fez sua cama de noivo / no colo de Iemanjá”. Segundo os colegas do Mad Dog Márcio - de “Cachorros loucos”, como o trio de amigos surfistas era conhecido na Bahia - o companheiro de ondas em Salvador e no Havaí está no lugar onde gostaria. Talvez mais na poesia do Nelson Motta (feita para música de Lulu Santos) do que na do Caymmi, ele poderia cantar: “Não adianta fugir / nem mentir / pra si mesmo agora / há tanta vida lá fora / aqui dentro sempre / como uma onda no mar”.

In memoriam.

Márcio Freitas (RMS)