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sábado, 27 de maio de 2017

GLOSSÁRIO DA LAVA JATO

Sempre ouvi duplex, triplex, palavras oxítonas. Agora, nos episódios mais recentes, como no depoimento do próprio Lula – não que ele seja uma referência linguística, mas certamente é de seu uso e costume – também aparece triplex. Da mesma forma, o meritíssimo (palavra, aliás, merecidíssima) Sergio Moro prefere a palavra triplex– propriedade que, se é do Lula ou não, ainda cabe a presunção de inocência acima de nossas vãs, embora óbvias suspeições.

Mas há uma questão, com o “benefício da dúvida”, como diria o jurista: A Folha escreve tríplex (com acento), enquanto O Estado prefere triplex (sem). O Jornal Nacional, da carioca Globo, diz triplex, mas os demais preferem a forma acentuada. Qual seria o correto, se é que há correição absoluta em nossa rica língua? (Não confundir com outro significado de correição, que é o que faz uma corregedoria, já que estamos em pleno ambiente jurídico). Às pesquisas: o Houaiss mostra as duas formas, mas prefere tríplex, sabe-se lá o porquê. Já o Vocabulário Ortográfico da Academia de Letras classifica triplex como adjetivo, e tríplex um numeral.
Sempre na vida ouvi falar em “duplex na Vieira Souto”, refinadíssima avenida em Ipanema; assim, cabe-me a opção, e fico com a palavra que sempre ouvi, duplex – ou triplex. O linguista e filólogo Deonísio da Silva acha que deve acabar prevalecendo a forma sem o acento agudo no ‘i’. Penso que as palavras que vêm do latim, como córtex e vórtex, da anatomia médica, levam acento por causa da pronúncia original em língua que não conhece acentos, a terminologia apenas ajusta a pronúncia latina ao português.
Vou ao centro da minha questão, bastante delicado: a imprensa, em geral, tem sua culpa, sua máxima culpa, quando usa o verbo citar. Ora, estando em ambiente de discussão jurídica, citar se refere a citação judicial, uma intimação expedida pelo juiz. Quando o juiz manda citar, ele tem elementos que o levam a ver indícios de culpabilidade da pessoa objeto da citação, ou, se testemunha, de sua importância para o esclarecimento dos fatos. Mas a grande imprensa presta um desserviço à presunção de inocência que é exigida pela Constituição: rasgou de vez o verbo mencionar e generalizou o citar. Se todos os que a imprensa mencionou como “citados” na Lava Jato fossem réus, não haveria tribunais para tantos processos.

Imagine que determinado empresário já citado como réu conversou rapidamente com uma atriz ao entrar em um restaurante e a menciona em depoimento. Foi ela “citada” no processo da Lava Jato? (Usando uma alegoria exagerada em minha argumentação.) Nunca. É que o nome dela foi simplesmente mencionado de passagem na operação. Crucifica-se sem julgar, independentemente de partido político, muitas vezes apenas por algum delator que, em seu interesse, quereria apenas “engordar peso e preço” de sua delação.

A imprensa escrita confunde, não explica, e, com os préstimos das emissoras de TV, faz o povo assimilar a crucifixão antecipada de quem sequer é réu e pode não ter culpa alguma em coisa nenhuma. Um pequeno dicionário jurídico deveria fazer parte da escrivaninha dos jornalistas da área ou dos que redigem os textos dos teleprompters (aquela telinha onde os textos exibidos na frente do apresentador de telejornal, passando para o telespectador uma impressão de grande e muito bem informado orador).

Faz alguns dias, argumentei em uma rede social sobre esse cruel equívoco. Foi com o Deonísio da Silva, já mencionado acima (evitarei o verbo citar por algum tempo), um dos mais conceituados linguistas do país. Deonísio, em “Sem papas na língua”, sua participação semanal no programa do Ricardo Boechat (rádio Bandnews) - aliás um prato saboroso para os que gostam do assunto – faz alusão a um aparte meu na discussão ao questionar o uso de citar ou mencionar (gravação do dia 12 de maio - https://fatosfotoseregistros.wordpress.com). E trata de outros assuntos deliciosos, como a ‘raivosidade’ dita recentemente pelo Michel Temer. O mais importante: o professor diz que nossa língua não se resume aos dicionários, ela também está na escrita e na fala dos brasileiros. E a agregação do sufixo na palavra “raivoso” é plenamente justificável!
Antonio Magri
Pois foi o mesmo argumento que meu pai usou em um artigo sobre o “imexível” dito pelo ex-ministro Antonio Magri, em 1990. Disse que uma palavra poderia, sim, entrar para o vocabulário pelo acréscimo do prefixo ‘i’, de negação (palavra, aliás, já dicionarizada pelo Houaiss). E isso enquanto o então ministro, um cidadão acima de qualquer erudição, apanhava da “patrulha”. A publicação foi na famosa Coluna do Castello, no Jornal do Brasil, e por mim detalhada neste espaço em “Nossa língua não é imexível”.


Outro citado judicialmente e preso é o ex-magnata e hoje nouveau pauvre Eike Batista (rico só fica pobre em francês). Seria o nome do empresário pronunciado “Áique”, como em alemão, ou “Êique”, aportuguesando? Tratando-se de nome, creio ser justa a versão em português, apesar de não ser a única. (Meu próprio sobrenome, Autran, de origem francesa, soaria algo como “Ôtrrã”, coisa que nunca ouvi na vida.) E há outro preso pela Lava Jato, a que Lula e a imprensa se referem como Paloci (Antonio Palocci), codinome “Italiano”, cuja pronúncia na língua de Dante seria “Palótchi”, ou quase isso. Sou da época dos grandes jornalistas e articulistas da história, tempo que “é só uma fotografia na parede. Mas como dói”, citando (literariamente!) Drummond. 

sábado, 20 de maio de 2017

MEU CARO AMIGO TAURINO


Há um bom punhado de anos recebi de presente de uma amiga – taurina, claro - o livro Taureau, de André Barbault (da coleção Le Zodiaque, Éditions de Seuil, 1957). Não se trata de um livro de curiosos, Barbault e seus colaboradores Louis Millat e Jacqueline Bastide tiveram a supervisão de François-Régis Bastide (1926-1996), escritor, político, ensaísta, apresentador de rádio e diplomata, prêmio 1981 da Academia Francesa. Trata-se de um estudo coordenado por uma celebridade e organizado por especialistas em áreas diversas, como filosofia, história, política e astronomia.

Nas páginas introdutórias há uma frase do psicanalista C. G. Jung (1875-1961), autor de “O homem e seus símbolos”: “Nós nascemos em um momento determinado, em um lugar também determinado, e nós temos, como os homens célebres, o ano e a estação que nos viram nascer. A astrologia não pretende ir além deles” (em L’Homme à La Découverte de son âme, título que poderia ser traduzido como “O homem à descoberta da sua alma”). Nessas páginas iniciais, o autor do livro aborda os decanatos, zodíaco, cartas celestes, signos ascendentes, tudo longamente detalhado e com incrível precisão.

Dionísio, deus mitológico
A seguir, fala da fertilidade e da fecundação, as ligações mitológicas com o deus Dionísio, e no capítulo seguinte resume o que é o taurino: “ele é, em parte, um signo da Terra: o mais denso elemento, o mais sólido, o mais estável; por outro lado, é um signo fixo, fator de catalisação, de condensação”. O texto disseca o taurino e suas entranhas psicológicas e entra na análise da posição do taurino no zodíaco. Sobre os ascendentes, descreve os elos entre eles e o signo touro, em si, e eu, convertendo os horários e minutos dos fusos franceses para o nosso, descobri meu ascendente.

Eu seria um touro virginiano de “natureza simples, sólida, prática, honesta, modesta, ordenadora, pacífica, com sentimento utilitário, de bom senso, lógico, econômico” (atenção: citação literal do livro, e não palavras minhas, claro). Mais adiante, fala da relação do taurino com outros signos, e ressalto a do touro com o escorpião, caso das mulheres de meus dois casamentos: “eis o choque dos antagonistas, o casamento tormentoso dos complementares. Esses dois se atiram irresistivelmente e pessoas desses signos jamais são indiferentes umas às outras”. Acrescento ainda que noto certa cumplicidade entre taurinos.

Johannes Brahms
O texto segue discorrendo sobre atitudes no trabalho, finanças, política e filosofia. E passa a falar sobre taurinos célebres, citando sempre seus ascendentes: o poeta d’Annunzio, o escritor Balzac, o pintor Delacroix, o criador da psicanálise, Freud, o pai da arquitetura moderna Walter Gropius, o teórico Karl Marx, um dos maiores sinfonistas da história, Johannes Brahms, além de tantos outros, dando uma visão geral da personalidade dos que compartilham este signo (acrescento Shakespeare e Ella Fitzgerald, só para citar mais dois). A coleção inteira pode ser adquirida pela Internet, mas é preciso um conhecimento razoável da língua francesa.

Alguns estereótipos e clichês em torno da figura do taurino são bem conhecidos, e se relacionam com o animal e seu jeito de ser. O touro é um animal reservado à procriação, enquanto os bois são castrados, sendo destinados ao abate e corte. Costuma ficar em espaço reservado, e parece o animal mais manso do mundo. É raro acontecer, mas quando atiçado ferozmente... Veja as criminosas touradas, se ele sai para o ataque, após ferido, de caçada na arena torna-se o caçador, ferindo ou matando, às vezes, o toureador, com sua veste bonita e capa vermelha (apenas para fazer “show”: touros não distinguem cores).

No dizer popular, o touro fica em seu canto e suporta tudo, mas volta e meia fica “ciscando” o chão com suas patas. Provocado além de seu limite, o que dificilmente acontece, dispara contra o que o intimidou; e que se danem vaqueiros, bois, vacas, porteiras, cercas de arame farpado, o que estiver na frente. Essa alegoria parece surreal, mas não deixa de ter certa procedência: o taurino pode ser o mais paciente, mas nunca o faça passar de seu limite, pode ser a gota d’água.

Martha Herr, no papel de Olga, da ópera homônima de Jorge Antunes
A saudosa soprano Martha Herr, taurina, costumava fazer em um domingo de maio, anualmente, um almoço para amigos taurinos, que congregava gente como os também falecidos violinista Bruce Mack e o professor de canto da Unesp Fernando Carvalhaes; além deles, a pianista Anna Claudia Agazzi, o compositor Ronaldo Miranda, o violoncelista David Chew e a cantora Sheila Minatti, entre outros, em anos diversos. Não sei se por termos um elo comum, o signo, aliado ao fato de sermos todos músicos, o clima de festa e de entrosamento era muito especial. Reinava sempre a alegria, era uma ‘tourada’ sem o maldito El toreador, nada haveria que perturbasse aquele rebanho de pacientes taurinos.


Miguel de Cervantes
Confesso que não sou muito afeito a coisas astrológicas, apesar de saber que algo existe entre nosso comportamento e os astros: a lua rege o ciclo menstrual das mulheres e as marés, o sol marca o dia e o ano, por isso o calendário gregoriano teve de dar uma “acomodada” com o ano bissexto, dando a fevereiro mais um dia a cada quatro anos. Não sou muito afeito a essas coisas – o que pode ser mais uma característica taurina -, mas que há algo de verdadeiro, parece-me que sim. Sou do tipo que repete aquela máxima atribuída ao grande escritor espanhol Miguel de Cervantes, yo no creo em brujas; pero que las hay, las hay: eu não creio em bruxas, mas que elas existem, existem. 

sábado, 13 de maio de 2017

DE ONDE VENS, Ó PALAVRA?


Um sujeito estrambótico que era estrelícia do Ivan fez um garabulho enorme com suas galimatias a apenas um estepe da rica Mascate. Ora, tudo isso pareceria muito complicado, a não ser que fosse escrito assim: um sujeito vesgo que era atirador do Czar fez uma bagunça enorme com suas conversas confusas a apenas um passo da rica capital de Omã. Seguindo: tudo por causa do meirinho de que era dono um pária que mascava porrada como se fosse um preito do pretor. Que, por sua vez, pode ser lido assim: tudo por causa de um sujeito da classe mais baixa da Índia que era dono do gado que no verão pasta nas montanhas e mascava erva para temperos como se fosse uma homenagem do comandante do exército.

Deonísio da Silva
Deixem-me explicar melhor essa estória surreal acima. É que estou me divertindo com o livro “de onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa”, do amigo Deonísio da Silva (17ª edição, Rio de Janeiro. Lexicon: 2014). Catarinense que adotou o Rio, doutor em Letras pela USP, tem várias academias no currículo, 34 livros publicados, um programa apresentado pelo Ricardo Boechat em que ele fala da língua portuguesa na Rádio Bandnews FM 94,90 RJ, “Sem papas na língua”. Considerado um dos nomes mais respeitados em etimologia (origem e evolução das palavras) e filologia (estudo das sociedades e suas literaturas) do país, é um pesquisador incansável. (O blog do Deonísio pode ser lido em https://deonisio.blogspot.com.br/). Na brincadeira acima, inspirei-me em uma postagem dele.

Hemingway e um de seus merlins: um hobby, uma paixão
São quase quinhentas páginas de verbetes os mais diversos, incluindo um enorme número de palavras que falamos ou escrevemos no cotidiano sem pensar de onde vêm e os mistérios que há por trás delas. Quem gosta de entender nossa língua, lê ou escreve, vai achar o livro de grande utilidade. Pinço ao acaso uma palavra que todos conhecem e já devem ter usado: “anzol”, que teve origem no latim vulgar “amiciolus” diminutivo de “hamus”, gancho, podendo também designar a proteção do cabo da espada. “Anzol” se presta à descrição da luta individual travada entre o homem e o peixe, ao contrário da rede, que leva o homem a pescar no atacado (obs.: sobre a luta homem contra o peixe, é leitura obrigatória “O velho e o mar”, de Hemingway). “Como os primeiros discípulos fossem homens que viviam no mar, Jesus prometeu transformá-los em ‘pescadores de homens’”.

Este é um único exemplo “pescado” aleatoriamente (do grego “alea”, dado de jogo da sorte) entre incontáveis outros. Deonísio é um preciosista, desce aos mínimos detalhes e encontra variações na aplicação das palavras, não se limitando, no mais das vezes, a apenas um significado ou um uso em nossa rica língua portuguesa. As palavras podem formar um quadro que pode ser lindo de se ver, mas por trás dele há um universo de histórias e visões riquíssimas a serem descobertas. É preciso ousar conhecê-las, e fazer do aprendizado do dia a dia uma coisa prazerosa e desafiadora, porque nunca terá fim. E o livro do Deonísio pode ser lido saltando páginas, de trás para frente, várias por dia, ou – mais uma vez – aleatoriamente, fora consultas.

Se conhecer a etimologia das palavras é uma instrução e uma diversão, não quer dizer que devamos escrever sempre com as mais rebuscadas erudições. De vez em quando coloco em um texto meu uma palavra para ver o leitor se dar ao trabalho de ir ao dicionário, ao menos isso. (Meu pai contava que uma senhora disse que o livro dele era muito difícil – o que não era – e que ela teve de ler duas vezes. Ele: “mas eu escrevi mais de vinte!”) Adoro a simplicidade com que certos grandes autores usam as palavras, tecendo um jogo lindo e de grande sabedoria, como Drummond e Fernando Pessoa, d’além mar. Do primeiro, os versos de Para Sempre: “Fosse eu rei do mundo, / baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, / velho embora, será pequenino / feito grão de milho”. Do Pessoa, acho geniais os versos de Liberdade: “Mais que isto / É Jesus Cristo, / Que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca”.

Estátua do Drummond, no Rio
Entre os nossos poetas, há lugar para o bardo Vinicius de Moraes – “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”, do Soneto da Separação. Vinicius é outro mestre da simplicidade (nas palavras), mas os versos são mais bordados em João Cabral, de Morte e Vida Severina: “E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, mesma morte severina:  / (...) (de fraqueza e de doença / é que a morte severina / ataca em qualquer idade / até em gente não nascida”). Tem de ler e reler, compreender sem procurar um sentido de redação de escola. Melhor é sentir.


Região da enfiteuse, no Rio de Janeiro
O livro de Deonísio nos dá a dimensão mais profunda das palavras, desde as mais simples, como ‘outono’, até ‘laudêmio’, que tem origem no italiano e carrega em si a ‘enfiteuse’, que até hoje é cobrada no Rio pela orla do mar, e em Petrópolis, paga à Família Real! Fiquei tão indignado com essa cobrança feita na venda de um imóvel do espólio de meus pais que escrevi o artigo “Você sabe o que é enfiteuse, mas não sabe o que é extorsão?” (tem um link do lado direito, em cima), sobre o absurdo número de impostos pagos na venda de imóveis nas duas cidades (dizem que em Salvador é ainda pior). Na verdade, fiz uma brincadeira com o Mário de Andrade, em “Você sabe o francês ‘singe’ / Mas não sabe o que é guariba? / - Pois é macaco, seu mano / que só sabe o que é da estranja”. Obrigado, Deonísio, e salve a Língua Portuguesa!

sábado, 6 de maio de 2017

SALIERI MATOU MOZART?


Milos Forman
“Amadeus” (1984) era o título de uma peça teatral concebida por Peter Schaffer, que basicamente se pretendia uma imaginativa e saborosa versão da biografia de Wolfgang Amadeus Mozart. A peça foi transportada para o cinema pelo cineasta Milos Forman, nascido na Tchecoslováquia – coincidência ou não, país (então uno) em cuja capital, Praga, grande cento de música que era, Mozart estreou algumas de suas obras, como a sua deslumbrante ópera Don Giovanni.

Nicholson (centro), no filme
Antes do absoluto sucesso do filme Amadeus (mais de uma dúzia de prêmios, incluindo um Oscar, em 1985), estouraram bilheterias outras grandes obras de Milos Forman, como o louco “Um estranho no ninho” (One flew over the cuckoo’s nest), de 1975, que arrastou nada menos do que cinco grandes prêmios no Oscar), com uma impagável interpretação de Jack Nickolson. Filmou também Hair (1979), com uma magnífica coreografia de Twyla Tharp, do afamado American Ballet Theatre.
Salieri
Amadeus tinha na trama, como pano de fundo, uma certa inveja mortal de Antonio Salieri (1750-1825) por Mozart, de quem fora professor, pelo talento descomunal de seu aluno, razão pela qual, em evidente ilação romantizada cinematograficamente com fins de impacto, o mestre teria envenenado seu genial discípulo, então com 35 anos. Mas ambos eram apenas - além de mestre e discípulo - dois bons amigos. Após a morte de Mozart, o antigo professor Salieri continuou a dar aulas para o filho do vienense. E ainda foi mestre de ninguém menos do que Beethoven, e Schubert e até Franz Liszt!
Verona
Nascido em Verona, Itália, Salieri foi um dos mais proeminentes compositores europeus, além de disputado professor. Na Áustria, criou fama na Monarquia de Habsburg, tornando-se Kappelmeister (Mestre de Capela), onde foi responsável pela ópera de 1774 a 1792. Muitos compositores adeptos do gênero tinham, claro, intensa rivalidade com Salieri, a quem culpavam pela falta de acesso aos grandes teatros, que seriam “domínios” do italiano. Mozart chegou a escrever ao seu pai, Leopold, queixando-se da dificuldade de transpor as barreiras e o poderio de Salieri, razão pela qual os detratores deste último tentaram forjar a versão do envenenamento, nunca levada muito a sério, mas bem explorada na peça de Peter Schaffer. Com essa aversão a Salieri, no século 19 a música dele foi praticamente esquecida, tendo “ressuscitado” no século 20 até mesmo em parte por causa da peça e do filme Amadeus, e a polêmica do envenenamento romanticamente suscitada para atrair público.

Ilustração: montagem de "Les Danaïdes", de Salieri
Antonio Salieri foi um compositor profícuo e incansável: deixou além suas principais 42 óperas dois Réquiens, centenas de missas, coros, arias, ofertórios, graduais, hinos, introitos, motetos, 6 concertos para solistas, 9 sinfonias e variações, 5 balés, música incidental para cena, 12 marchas e serenatas, 7 peças para música de câmara e afins, uma vasta produção. Além de suas tarefas profissionais de Kappelmeister, como organização, coordenação geral e seus naturais afazeres familiares, Salieri ainda encontrava tempo para escrever incessantemente.

Sinfônica do Conservatório de Tatuí
O que me incentivou a escrever este texto foi a recente apresentação, pela Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí, sob a batuta de João Maurício Galindo, da obra “26 Variações sobre A Loucura de Espanha”, que também impressionou meu colega Antonio Ribeiro. A forma “tema e variações” é consagrada como uma maneira de o compositor explorar sua própria habilidade em desenvolver uma ideia, havendo grandes exemplos na literatura musical, como as “Variações sobre um tema de Haydn”, de Brahms, “Variações sobre o tema de Moisés no Egito”, de Rossini, por Nicolò Paganini, Enigma Variations, de Elgar, “Variações Goldberg”, de Bach, “Variações Rococó”, de Tchaikovsky, entre inúmeras outras.

Philip Glass
O tema que serve de motivo para variações pode ser absolutamente simples, como o utilizado por Salieri na obra citada, mas configura-se espaço e material aberto para sua imaginação brilhante. Aparentemente simples exercícios de composição transformam-se em modelos extemporâneos, que levam a traços de modernidade. Isso, desde os diálogos entre as cordas, os da harpa com os “tutti” (orquestra inteira), até repetições que lembram, por impossível que possa parecer, o minimalismo contemporâneo de Philip Glass e Steve Reich, no século 20. Chama a atenção um belo solo de violino, com espírito virtuosístico, e um intermitente jogo de ‘perguntas e repostas’ nos diálogos entre instrumentos ou entre solistas e orquestra, instrumento por vez ou alternadamente em um mesmo movimento.

Salieri foi diagnosticado com demência (ou alguma outra versão de insanidade, talvez desconhecida à época) e não muito tempo depois faleceu. Foi sepultado em maio de 1825, e seu próprio “Réquiem em Dó menor”, ainda inédito então, foi apresentado na cerimônia. O poema desta obra foi escrito por um de seus alunos, Joseph Weigl, em homenagem ao mestre, e gravado na lápide do compositor: “Descanse em paz / descoberto do pó, a eternidade deve florir para você. / Descanse em paz! / Em harmonias eternas / seu espírito agora está liberto/ ele se expressa em notas encantadoras / e agora flutua na beleza do sempre!”
Já ouvi músicas de Salieri em rádios americanas especializadas, como a WQXR (http://www.wqxr.org/), ou 105.9 FM/NY, que às vezes sintonizo enquanto trabalho, mas não vejo o mínimo da devida importância que deveria ser dada ao compositor no Brasil. Por que não, por exemplo, encenar a bela ópera Axur, Re d'Ormus (abaixo)? Salieri ficará para a história como simples coadjuvante?

sábado, 29 de abril de 2017

GUARDAS MUNICIPAIS E PODER DE POLÍCIA


Romeu Tuma (1931-2010) começou como simples investigador da Polícia Civil e foi delegado, após ter concluído o bacharelado em direito pela PUC-SP. Chegou a diretor-geral do temido DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de SP. À frente do órgão, colaborou na ocultação de cadáveres de militantes e opositores do regime militar – vide o cemitério de Perus, por cessão do Paulo Maluf.

Josef Mengele e seu RG falso
Tuma foi diretor-geral da Polícia Federal e alcançou projeção, jogando uma névoa sobre seu passado, com a bombástica revelação da descoberta no Brasil do crânio do médico-torturador nazista Josef Mengele e a prisão do criminoso Tommaso Buschetta, conexão da máfia internacional no país. Em grande evidência, foi eleito senador da República por São Paulo em 1994.

New York Police Department
Em 2002, Tuma apresentou a famosa PEC 534, originária da PEC 87/1999, conhecida como ‘PEC do PP’. Aprovada, daria poder de polícia às guardas municipais do país, alterando suas competências. A inspiração parece ter sido claramente a Polícia Municipal norte-americana (Municipal Police), que responde ao prefeito de cada cidade e tem algumas das atribuições da nossa Polícia Militar, preventiva e de preservação da ordem pública, assim como as de Polícia Judiciária, tal qual a nossa Polícia Civil, a exemplo de investigar e cumprir mandados.
Já as Polícias Estaduais (State Police), têm jurisdição além dos limites municipais, e podem atravessar todos os condados dentro do estado a que são subordinados. O FBI (Federal Bureau of Investigation) tem jurisdição nacional e combate crimes relacionados ao tráfico e ao terrorismo, entre mais de 200 outros.

"Rudy" Giuliani fala à polícia de NY
A Polícia Municipal de Nova Iorque foi totalmente remodelada pelo ex-prefeito Rudolph Giuliani, que governou a metrópole de 1994 a 2001 e, tendo se tornado famoso pelo projeto de NY, chegou a disputar uma candidatura à Presidência em 2008, além de ter sido Advogado Geral da União (US Attorney General). Em seu mandato, dotou a Polícia Municipal de NY das melhores armas, possantes radiocomunicadores e viaturas, expulsou os maus policiais e contratou novos, de nível superior e fluentes em espanhol, língua comum na cidade, além de serem avaliados psicologicamente com rigor. Criou o “Tolerância Zero”, que compreendia desde a prisão em flagrante de cidadãos que violassem máquinas de refrigerantes ou evadissem roletas de metrô (punições mais leves) até os crimes mais violentos. Por outro lado, abriu espaços para a juventude, centros culturais com escolas de esportes, música, teatro e dança nos bairros e periferias. No conjunto, o projeto reduziu drasticamente os índices de criminalidade. Nada a ver com a bizarra interpretação de Paulo Maluf, simples guerra indiscriminada contra quem achassem nas ruas que tinha jeito de bandido, matando, se preciso, sem processo nem defesa.

A mudança de toda a política de segurança nova-iorquina tornou-se modelar, e foi mantida pelos prefeitos seguintes. Voltei lá em 2006, cinco anos depois da gestão Giuliani, e fiquei hospedado em um hotel na Madison Ave, perto da rua 42. Acordei e levantei-me às 3h da manhã, e resolvi descer. 

Lá embaixo, alguns metros adiante, duas viaturas com seus giroflex dando mais um toque de cores giratórias aos néons da multicolorida NY noturna. Para “fazer um social”, como se diz, fiz uma pergunta aos policiais e quase por acaso passamos a conversar. (Lembrei-me de Caetano, em “London, London”: “...um grupo aborda um policial / ele parecia tão feliz em lhes agradar”). O salário havia melhorado muito com Giuliani, as seleções para ingresso tornavam-se cada vez mais difíceis, e mais severas as punições por desvios de conduta e honestidade. Sentia-me o próprio entrevistador da TV com tantas perguntas, gentilmente respondidas em um inglês escorreito e sem gírias. Seguro, passei a dar uma volta pelas redondezas, coisa que não faria há muitos anos naquele horário.

Saindo de NY e pensando no Brasil, não sei o destino da 'PEC do PP', mas é notório que a realidade já é outra em todos os municípios do país que têm o privilégio de dispor de uma corporação de GM. A Polícia Militar de São Paulo possui um efetivo de pouco mais de 86.000 policiais (um para cada 523 habitantes). Parece muito, mas para um estado - exceção: o mais rico - com 645 municípios e perto de 45 milhões de habitantes está longe de ser satisfatório, assim como a Polícia Civil, com 12 mil integrantes, ou apenas um para cada 3.700 habitantes, enquanto nos EUA a média é de 18 pelo mesmo número de cidadãos. Nem mesmo as grandes cidades - São Paulo, a maior do país, Guarulhos ou Campinas - podem prescindir do auxílio das Guardas Municipais no policiamento ostensivo, flagrantes e trânsito – distanciando-se, com a colaboração das populações e anuência das autoridades, do parágrafo 8º do Art. 144 da Constituição, que as destina aos municípios, para a “proteção de seus bens, serviços e instalações”. [Em tempo: dia 24 de abril o governador anunciou a posse de 1.100 agentes já concursados, entre 32 policiais, 74 delegados, 527 escrivães e 67 peritos].


Se as GM já vêm funcionando de há muito, por que não dotá-las de garantias? Precisamos de regulamentação constitucional das atribuições das Guardas Municipais, pelo bem das comunidades, fornecendo-as e a todos os policiais, em geral, de condições dignas, que possam contribuir para a melhor confiança do povo e o necessário controle de suas atuações. Como é texto da Carta Magna, somente uma PEC poderá mudá-la – entre as mais de mil sobre diversas outras matérias já apresentadas ao Congresso. A primeira 'PEC do PP' tem 18 anos. Quantos mais serão necessários para decretá-la, oficializando o que já existe de fato, para o bem e segurança de todos?

sábado, 15 de abril de 2017

RESSURREIÇÃO

Gustav  Mahler
A segunda sinfonia de Gustav Mahler (1860-1911), que leva o subtítulo acima, foi estreada em 1895 e é uma das obras-primas da humanidade. E com óbvia inspiração na idéia da maravilhosa Sinfonia nº 9, de Beethoven (1770-1827), datada de 1824 e que inovou trazendo um grande coral (“Ode à Alegria”, sobre um poema de Schiller) no último movimento. A obra de Mahler é um chamamento tão poderoso ao espírito que há quem garanta ter sido convertido ao ouvi-la, passando a crer na existência de Deus! E se ela, por si, já é uma maravilha de se ouvir, tocá-la em uma orquestra é uma experiência inigualável, em sua quase hora e meia de duração!
Filarmônica de Berlim, com Rattle e grande orquestra e coro
Iniciada, em seu primeiro movimento, com um poema sinfônico do autor intitulado Totenfeier (Ritos Funerais), sua orquestração é tão grandiosa que pede, além do “maior número possível de cordas”, um exército de músicos no palco e em off-stage (ocultos, fora do palco): 4 flautas com piccolos, 4 oboés (3º e 4º alternando com corne inglês), 5 clarinetas (clarone, ou clarineta baixo), 4 fagotes (3º e 4º com contrafagotes), 10 trompas, 10 trompetes, 4 trombones, tuba, 7 tímpanos, sendo seis tocados por dois executantes no palco, e um fora dele, diversas caixas claras, duas gran cassa (grande bombo sinfônico), dois pares de pratos, sendo um fora do palco, 1 Glockenspiel (carrilhão), 3 tubular bells (sinos tubulares), 2 tam-tams, 1 grande órgão de tubos, 2 cantoras solistas (soprano e alto), um enorme coro misto e 2 harpas, aglomerado de uma pequena multidão de músicos que já impressiona só de se ver.
O coro entra no 5º movimento com um emocionante poema, “Luz Essencial”, uma entrega do autor ao pó de onde veio, conforme o Eclesiastes 12:7. ”E o pó volte para a terra como o que era, e o espírito volte a Deus que o deu”. Diz o poema: ”Levantar, sim, levantar! / Você irá, meu pó / após um breve descanso! / Viverá eternamente! Viverá eternamente! / Aquele que o chamou lhe dará a vida eterna / você será semeado para novamente desabrochar / o Senhor da colheita virá e nos colherá – os frutos não morreram” (Die Auferstehung, de Friedrich Klopstock. Trad. Deise Voigt).
Ressurreição (Carl Heinrich Bloch
Se há legendas eletrônicas que ajudam a entender a obra como um todo, como nas boas casas de ópera de hoje, o impacto é espetacular! Que conjunto perfeito de exaltação à figura divina, à vida eterna, à Ressurreição de Cristo!
Gilbert Kaplan
Uma apresentação inusitada foi feita pela OSESP da época de Eleazar de Carvalho em meados dos anos 1980. O poderoso empresário norte-americano Gilbert Kaplan desde cedo desenvolveu uma paixão obcecada pela obra-prima de Mahler. Na falta de tempo, e interessado apenas em devotar-se à Sinfonia, Kaplan pagou aulas particulares com professores da Juilliard School, de NY. Objetivo: reger aquela sinfonia, projeto de sua vida. Não queria solfejo, teoria, contraponto, essas coisas, sua idée fixe era definitivamente a obra do alemão. Milionário, alugava o Avery Fischer Hall e pagava músicos para que pudesse treinar sua incipiente regência. Criou a Fundação Kaplan, que dava auxílio para estudantes de música e, claro, promovia a 2ª sinfonia de Mahler, que Kaplan estreou em público em 1982, gravando a obra, em 1987, com a Sinfônica de Londres. Em 1990, faria o mesmo com a Filarmônica de Viena. Sua estreia brasileira com a OSESP aconteceu ainda no início de sua carreira de uma só obra.
Em São Paulo, Kaplan ocupou um andar inteiro do Hotel Sheraton com seu staff. Alugou carros e vans preparadas com equipamentos, câmeras, tudo o que tinha direito. Ele pouco ou nada falava para nós, músicos, apenas ensaiava. Parecia embevecido diante de um totem sagrado, sua partitura, que era algo peculiar: estranhando sua regência, alguns de nós subimos ao pódio, no intervalo do ensaio, e ficamos pasmos quando vimos papeizinhos autocolantes coloridos, do tipo stick-on, com algumas indicações marcadas. Entrada à esquerda, violinos, corte à direita, violoncelos, ataque dos tímpanos, fundo. 


Resumindo, um regente que não sabia música, apenas vivia com sua vida e fortuna em função daquela obra. E mais: mesmo sem realmente ler partitura, apenas seguindo a silhueta das notas e seus papeizinhos, fez muito melhor do que muitos conhecidos “maestros” mundo afora! Movia-o a paixão desmesurada por aquela “Ressurreição”. Kaplan faleceu em 2016, talvez aguardando encontrar o autor de sua obsessão musical, Mahler, e almejando ressuscitar para juntar-se ao Senhor na vida eterna.
Ascensão (Benjamin West)
Nesta semana, temos a Ressurreição de Cristo no domingo a celebrar, após a angústia e a dor da sexta-feira santa, e isso é motivo de júbilo para toda a humanidade. “No terceiro dia ele se reergueu conforme as escrituras”. Romanos, 1:3-4: “Seu Filho, que foi descrito de acordo com a carne e nomeado o Filho de Deus, conforme o princípio de santidade por sua ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor”. Timóteo, 2:8: “Lembrem-se de Jesus, erguido da morte. Esta é a razão por estar sofrendo e acorrentado como um criminoso. Mas a palavra de Deus não está acorrentada”. Coríntios, 15:3-7: “Cristo morreu por nossos pecados, conforme as escrituras, foi sepultado, e reerguido no terceiro dia”.
Você pode ver e ouvir o movimento final desta obra-prima da humanidade logo abaixo, com o eletrizante Leonard Bernstein e a London Symphony Orchestra. Grandioso! Inebrie-se! Há vida indolor após a morte! 

Feliz Páscoa!