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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

AQUARELA DE CORES, SONS E FREQUÊNCIAS

 


“Quando eu morrer / não quero choro nem vela / quero uma fita amarela / gravada com o nome dela”. Noel Rosa, terrivelmente apaixonado, queria apenas uma homenagem da amada na sua partida: o amarelo, iluminado e mais vibrante do que o vermelho, que é a cor dos enamorados, do sangue, das rosas, da gala dos tapetes. (Mas é também a dos revolucionários, da “Bandiera rossa”, hino dos comunistas italianos, e a alcunha de Daniel Cohn-Bendit, Dany, le Rouge, o líder estudantil franco-alemão de 1968, além dos cravos portugueses de 1974. Foi a pecha que a ditadura brasileira atirou sobre Dom Hélder Câmara: o “Bispo Vermelho”, taxando-o de “comunista” e intervindo em uma indicação ao Nobel (pacifista, ele escrevera “Revolução dentro da paz”).


O verde é mistura do neutro azul com o vibrante amarelo, e tem o dom de ajudar a relaxar as pessoas. Isso o faz a cor preferida nas salas de cirurgia e nas vestimentas dos médicos, um descanso aos olhos que suportam horas seguidas de tensão sob fortes luzes. É cor do inseto chamado esperança, um gafanhoto do bem, e do poema de García Lorca, assassinado na Guerra Civil Espanhola durante a ditadura do generalíssimo Francisco Franco: Verde que te quiero verde, verde viento y verdes ramas. 


Aproveitando de ouvido os versos de Lorca, Cartola escreveu “Verde que te quero rosa”, homenagem à sua escola de samba, a Mangueira: “Verde como o céu azul, a esperança / Branco como a cor da paz ao te encontrar / Rubro como o rosto fica / junto à rosa mais querida” – linda síntese da química perfeita das cores do estandarte dos mangueirenses: o verde da esperança e o rosa, que é o branco da paz abraçando o vermelho do amor.

Obra de Lygia Clark: US$ 4 milhões

O branco é a cor da luz, da pomba da liberdade; da união, posto que mistura perfeita de todas as cores; da castidade, da purificação e dos que professam as religiões afro-brasileiras; é a que mais reflete a luz, sobressaindo ao lado de figuras de formas iguais de outras cores, ilusão de ótica em que uma figura branca parece  maior do que as outras (Gestalt). É a cor apaixonante do anjo de Jorge Ben: “Ela vem toda de branco / toda molhada e despenteada / que maravilha / que coisa linda / que é o meu amor”. Em amálgama, o branco clareia: faz do vermelho rosa, do azul escuro a água-marinha, e até do negro que a noite encobre ele faz o cinza. É o caldo de todos os matizes juntos, mas mesclando-se, a cada um ele clareia.

Amplitude e comprimento de onda

As cores despertam sentimentos e emoções, isto é certo, mas o que teriam elas a ver com os sons? Ora, tudo! (Recomendo Backus: The acoustical foundations of music). A medida de frequência das ondas sonoras em toda a faixa audível se lê de 20 Hz a 20 kHz - de Heinrich Hertz, que comprovou a existência das ondas eletromagnéticas. Abaixo da frequência menor temos o infrassom, e acima da maior o ultrassom - ambos inaudíveis mas de múltiplas utilidades, a exemplo do último, na medicina. O som do ‘Lá’ na afinação de instrumentos é um padrão fixado pelo acordo de Paris em 440 Hz (1936), pouco acima ou abaixo a depender da orquestra, do estilo e, antes disso, da época.


Ondas de rádio

As ondas de rádio vibram acima de nossa faixa audível, entre os 20 kHz (ou mil Hz) e 300 GHz (bilhões de Hz). Quanto mais curtas, mais longe elas vão, mas a frequência das rádios de melhor qualidade de som – e menor alcance - é a FM (modulada), aproximadamente entre 808 MHz a 108 MHz. A física nos ajuda a compreender sons e ondas de rádio, mas o que têm as cores a ver com isso?

Frequências das cores (coluna à direita)

É um capítulo à parte: o vermelho é a cor de frequência mais baixa, a partir de 480 THz (“tera”, do grego, ‘monstro’: um trilhão), e ao violeta, até 790 THz. Acima do violeta, as ondas ultravioletas, invisíveis, danosas aos humanos mas úteis especialmente na esterilização, ainda mais nesses tempos de pandemia. Abaixo da frequência-limite do vermelho, temos o invisível infravermelho, de valor incalculável tanto na medicina fisioterápica quanto nas medições submarinas e de engenharia. Resumindo, temos na natureza frequências de uma enorme gama de valores em Hertz e seus múltiplos: kHz (kilohertz, 1.000 Hz), MHz (megahertz, um milhão de Hertz), GHz (gigahertz, um bilhão), THz (terahertz, um trilhão). E mais: há ainda o petahertz, o exahertz e o zettahertz, mais três zeros cada, chegando a 18 dígitos (10
18)! 

Olavo Bilac

A nós, humanos, foi reservado um espectro bem limitado de sons e cores visíveis e audíveis, ou seja, tudo o que podemos ouvir está entre uma nota Si pouco abaixo de 20 Hz até um Ré sustenido agudo perto de 20 kHz, e as cores que podemos ver de 480 THz a 790 THz. Fora de nossas limitações, frequências nos ajudam a ligar a TV, abrir o portão da garagem, afastar insetos, esterilizar objetos, visualizar o feto, buscar frequências de rádio entre as estrelas e um mundão de coisas que não conhecemos e cujos limites nunca conheceremos (“Ora, direis, ouvir estrelas”, exclamou Bilac). Não somos máquinas, o homem é apenas um mero ex machina de ínfima dimensão. Gilberto Gil avisou, há décadas: “O cérebro eletrônico comanda / manda e desmanda / mas ele não anda / Só eu posso pensar se Deus existe / só eu / Só eu posso chorar quando estou triste / só eu”.

[O mínimo que a eternidade espera de nós é que nos recolhamos à nossa pequenez para que a natureza cumpra sua inexorável missão. Sem magoá-la, protegendo as lindas matas verdejantes, que são a esperança da vida na terra, o neutro e acariciante azul das águas e os infinitos matizes dos animais: invisíveis, camuflados ou berrantes] 

(walpaperflare.com)

 





sexta-feira, 18 de setembro de 2020

NOTAS MUSICAIS SOBRE O NOVO NORMAL

 


Nesses tempos ricos em neologismos, mesmo que alguns sejam verdadeiros ‘chutes’ não providos de conceito maior que os ampare, o ‘novo normal’ é um a ilustrar a nova vida que teremos de soerguer como kit de sobrevivência em tempos de pandemia. Nada tão definido quanto o ancien e o nouveau régime franceses, que têm como divisor de águas a Revolução de 1789; ou mesmo, entre nós, a “República Velha”, da proclamação a 1930 e a “Nova”, que a seguiu.


Refletindo sobre este ‘novo normal’, presumo que seja a vida que levamos hoje, uma existência provisória em isolamento, e, indo além dela, estando ciente de que haverá limitações por um bom tempo, concluí, sem precisar de maiores mergulhos teóricos, que a expressão sintetiza uma radical mudança de costumes, relacionamento e convivência social. Assim, é este o ‘novo normal’ que não nos impõe regras escritas, mas as que nós mesmos nos impomos em defesa da saúde de cada um e do povo como um todo. Desta forma, mudamos todos para esta espécie de nouveau régime sem revolução, transformando-nos para sobreviver – no caso de que tratarei adiante, culturalmente, e em particular, musicalmente.


Tantos músicos vêm buscando seu arroz de cada dia, aliás cada vez mais caro, na prática de aulas particulares on-line, um processo bastante simples que pode ser feito domesticamente por Skype ou via plataformas mais modernas, como o Google Team ou o Microsoft Teams. Em princípio, o investimento é praticamente zero, e assim ensaios e aulas presenciais de riscos bem previsíveis para a saúde pública são evitados.


Com inteligência e criatividade, há quem saiba driblar todas essas dificuldades e até a inevitável perda de qualidade sonora das bugigangas eletrônicas. Há que se inovar? Então em frente! O maestro Abel Rocha (foto), velho conhecido, abriu um flanco riquíssimo introduzindo algo realmente novo no cenário: convidados, oito compositores brasileiros criaram obras especialmente para músicos da Sinfônica de Santo André, uma ideia feliz que suaviza a ressalva perspicaz que fez o jornalista especializado João Marcos Coelho (Estadão, 9/09/20), e que segue adiante.


“Detalhe: não há nada mais constrangedor do que maestros e músicos agradecendo a uma sala totalmente vazia. Nada mais empobrecedor, tedioso mesmo, do que assistir a concertos e recitais com som vagabundo e ‘câmeras-estátuas’, inertes em frente aos músicos”. Realmente, para o instrumentista, é como tocar para ninguém, a frio, sabendo que não há quem o veja, quem o ouça, que sinta e interaja com a sua presença. “Microestreias da Quarentena, programa lançado em maio, é um ovo de Colombo, tamanha a simplicidade”, diz Coelho. À frente de músicos da OSSA, orquestra que faz um ótimo trabalho, Abel Rocha fez a “Microestreia” de obras de Alexandre Guerra, Alexandre Lunsqui, Chico Mello, João Cristal, João Guilherme Ripper, Leonardo Martinelli (foto), Mauricio de Bonis e Neymar Dias.

OSSA

Indo ainda mais longe, um outro projeto de Abel Rocha leva o título sugestivo de “Trilogia Trancafiada”, e consiste em três curtas-metragens de até 8 minutos cada que abordam o próprio fato que a motivou e lhe deu nome: o isolamento social. São três os pequenos blocos dessa trilogia, este tríptico da clausura: Ansiedade, Acolhimento e Adaptação - sendo o último, ainda segundo Coelho e não sem certa poesia, aquele “em que a incerteza quanto ao retorno à normalidade se cristaliza em espera serena”.


Tanto nas “Microestreias” quanto na “Trilogia”, a inevitável perda de qualidade sonora já tão mencionada por mim – e abordada com ênfase pelo jornalista – ficam relativizados em função da importância de novos ingredientes, como as estreias de obras de compositores brasileiros e a incorporação de filmes em vídeo que resultam em takes importantes dessa angústia por que os músicos da Sinfônica passam. A “Trilogia” caminha entre trechos já gravados anteriormente pela orquestra, como a Abertura Festiva, de Guarnieri, no segmento “Ansiedade”, enquanto “
Adaptação” passeia no belo “Episódio Sinfônico” de Ronaldo Miranda, e “Acolhimento” tem como fundo as “barroquices” da “Vivaldiana” de Denise Garcia.


Sim, as inovações do Abel Rocha com os músicos da Sinfônica de Santo André foram um avanço, um largo passo conceitualmente falando. Uma demonstração de criatividade e, especialmente, de vontade, muita vontade, sem a qual sequer haveria música de concerto no Brasil. Sem plateia vazia, sem decepções, a qualidade do som vestindo-se de  comprimária ao papel da música para o público fruir remotamente, da mesma forma que aprendeu a vê-la e compreendê-la  parte de uma nova estética como fosse música de um filme do cinema ou da TV. Mais do que nunca é preciso ousar, criar, fugir da estagnação. É fundamental a “vivacidade” a que o mestre Eleazar de Carvalho se referia, o enfrentar de novos desafios, e nunca nos deixarmos frágeis e inertes diante das ameaças de um vírus letal e uma economia dilacerada.

[Em nada favorece aos artistas a falta de tudo, o desprezo e a inércia em âmbito federal, desde um simples apoio até a oferta de renúncia fiscal para as empresas investirem em cultura, valores insignificantes se comparados com os “penduricalhos” dos três poderes. Aos titulares dos bons cargos públicos, o dolce far niente; talvez, aos olhos da confusa ótica econômica atual, esperem um liberalismo ancien style, para lembrar expressão do início deste texto, em que a cultura se resolva por si mesma. (E se nunca se resolver, ora, tanto faz, dirão)]

sábado, 12 de setembro de 2020

MÁSCARAS

 


Bela marcha carnavalesca com letra de Pereira Matos e música de Zé Keti, “Máscara Negra” alterna um andamento moderado lamentoso em tom menor com a alegria agitada em tom maior: “...a mesma máscara negra / que esconde teu rosto / eu quero matar a saudade” – e emendando, em tempo corrido,  “vou beijar-te agora / não me leve a mal...”.



Nada a ver com este sucesso de todos os carnavais, o “Máscara negra” (Black mask) é um dos vilões arqui-inimigos do Batman, o homem-morcego, que por sua vez é um mascarado que esconde o multimilionário Bruce Wayne nas suas missões como herói de Gotham City.


A máscara do Zorro pouco esconde, além do redor dos olhos, mas a do Homem Aranha é um modelo que encobre até as feições. O também americano Clark Kent é um tímido repórter que ao se transformar, em suas missões heroicas, dispensa o uso de máscara: basta vestir o uniforme azul e tirar os óculos para não ser reconhecido como Super-Homem. E, como todo super-herói quando à paisana, Stanley Ipkiss é um pacato rapaz que se transforma em “O máscara” ao cobrir seu rosto com a peça encontrada no oceano que teria sido de Loki, um deus escandinavo.


Do lado real, nos tempos de Luís XIV, na França, o “Máscara de ferro” foi um misterioso prisioneiro que terminou morto em 1703. Ninguém sabia a identidade daquele preso que usava uma máscara de ferro negro a encobrir-lhe o rosto, razão pela qual sua identidade ainda permanece um mistério - abrindo espaço para especulações, teorias, vários livros e filmes, como The Iron Mask, de 1929, com Douglas Fairbanks no papel principal. A fita é baseada em uma novela de 1850 de Alexandre Dumas, “O visconde de Bragelonne”, da saga de D’Artagnan.


Um ballo in maschera (1859) é o título de uma ópera de Giuseppe Verdi cuja trama alude ao assassinato do rei Gustav III, da Suécia, vítima de uma conspiração em 1792 - ano em que era proclamada a 1ª República Francesa, que já   alimentava movimentos sociais e políticos em todo o mundo. O baile de mascarados é a cena em que os papeis operísticos protagonizam traições, tramas, intrigas palacianas, vinganças, magias. E a morte do rei.      


Há tradições no mundo que certos regimes fundamentalistas muçulmanos impõem, como a burca, supostamente como sendo imposição divina às mulheres, apesar de a veste, que cobre até a abertura dos olhos com uma pequena tela, não estar prevista no livro sagrado, o Corão. Por motivos diversos, incluindo segurança, países como França, Bélgica, Holanda e Itália proibiram o uso até mesmo das que cobrem o corpo inteiro mas deixam os olhos livres.


As máscaras de oxigênio hospitalar foram criadas em 1917 para salvar vidas, ao passo que em 1944, perto do final da Segunda Guerra, Arthur Bulbulian inventou um modelo que levava um pequeno reservatório do gás preso a um tubo. Usadas pelos pilotos de caça americanos para conseguir voar a grandes altitudes, possibilitou ataques incisivos, cirúrgicos e mais eficientes.


Máscaras lindamente decoradas podem ser vistas no Carnaval de Veneza (foto), surgido no século 12 e similar ao que acontece anualmente no Brasil. Cores, prateados e dourados em profusão embelezam os participantes em um desfile riquíssimo de fantasias, com ao menos oito tipos principais de máscaras e seus personagens. Sem a alegria dessas, muito simples e tristes são as máscaras mortuárias, feitas em gesso, argila ou cera, um costume cuja origem remonta ao Egito dos faraós, quando era usada para lembrar as feições dos mortos que iam ser mumificados.


Vi a máscara fúnebre de Beethoven em um museu (foto), mas para minha decepção o gênio de Bonn não tinha aquela beleza que pintam nos quadros ou se vê frequentemente nos pequenos bustos do compositor sobre o piano: não era aquela beleza de galã. Já a chamada “máscara de olhos abertos”, para pessoas vivas, foi inventada em 1958 pelo cirurgião-dentista brasileiro Ernesto Ferreira de Morais como fôrma para modelar trabalhos artísticos. As máscaras de embelezamento (beauty masks), que deixam a pele feminina mais limpa e macia, vem a surgir como tratamento estético uma década depois.    


O ser humano convive com máscaras há pelo menos 5.000 anos. Seja por motivos religiosos, de festas e folguedos, guerra ou paz, de embelezamento e vaidade, seja como peça fundamental da indumentária dos heróis de ficção; outras servem à memória dos defuntos ou dos vivos, para salvar e até matar. Mas há as máscaras que preservam, protegem, servem de escudo contra ataques e males.


Hoje, mais do que nunca, a principal delas serve para evitar o contágio por vírus nesta pandemia avassaladora, que tem potencial para destruir e matar de forma, se não a pior, ao menos diferente de tudo o que já se viu. Usar máscara por completo, e não no queixo ou com o nariz a descoberto, não serve apenas, pensando egoisticamente, à proteção individual enquanto perdurar a contaminação maciça e suas nefastas consequências. Deve-se usar principalmente em nome da saúde do próximo, dos que com ele estão e estarão, e de todos os que com esses últimos tiverem contato e assim por diante, uma espécie de corrente que não gera um só centavo mas tem  custado muitas vidas ante um mal de tentáculos multiplicáveis.


É urgente que haja estímulo ao uso de máscaras por parte de todos os formadores de opinião, imbuídos do mais profundo sentimento humanitário. E os que não as usam e até, pelo contrário, estimulam, sendo autoridades, a abstenção do hábito, que ponham as mãos nas suas consciências para sentir o peso de suas atitudes.   



 

sábado, 29 de agosto de 2020

PARA QUE PESQUISA CIENTÍFICA NO BRASIL?

 

Há mais de 20 anos fui parecerista da Fapesp por uns tempos. Convidado por via eletrônica, não sei quais foram os propositores do meu nome, mas senti-me na obrigação de aceitar. Meu trabalho era nas artes, que nem sei se ainda estão lá devido à atual crise econômica, e cada área de pesquisa tinha seus pareceristas. Eu recebia os projetos eletronicamente e nunca tive contato com quem eu estaria julgando. Analisava desde a razoabilidade financeira da proposta à consecução do projeto, além de sua relevância e, claro, objetividade, clareza e redação. Assim, uma vez julgado, retornava o material por via eletrônica com observações e eventuais ressalvas, aprovando-o ou não.

Há três anos, minha filha Isabela, aos 21, formou-se em Química na USP, recebendo do Conselho Regional de Química o prêmio de melhor aluna do período 2013-2016. Passou a mergulhar com afinco na elaboração de seu projeto de pesquisa com vistas a uma disputada bolsa-auxílio da Fapesp, sua opção preferida, ingressou no doutorado direto (sem necessidade de mestrado) e obteve a cobiçada bolsa. Sua área de atuação é química associada à biomédica, e o objeto da pesquisa foca em próteses biodegradáveis para o corpo humano (dispositivos médicos reabsorvíveis). Pela Fapesp, foi para Ohio, EUA, e com uma pequena equipe de brasileiros e americanos palestrou e pôde dividir conhecimentos. Após o retorno, engajou-se com entusiasmo ainda maior no trabalho, passando dias inteiros no laboratório do Instituto de Química da USP.

Depois dessas duas vivências em épocas distintas passei a conhecer melhor e admirar cada vez mais a Fapesp. Como ex-parecerista, recebo notícias e newsletters da entidade de fomento criada pela Constituição Estadual de 1947, leio sobre as conquistas e avanços tecnológicos em todas as áreas do saber científico, com ênfase para o campo médico. Mais recentemente, os avanços no estudo e combate à Covid-19 -  do isolamento do genoma do vírus à construção de respiradores de baixo custo, testes com o anti-inflamatório Colchicina, no HC-USP de Ribeirão, e, na semana passada, a parceria da Omni-eletrônica com o HC da Faculdade de Medicina da USP para a produção de um aparelho que capta a presença do coronavírus no ar em ambientes com aglomeração (foto acima).

Em 1988, houve uma greve geral das universidades públicas. Um acordo feito entre o então reitor José Goldemberg e o governador, à época Orestes Quércia, foi sacramentado por decreto e anos depois enviado à Assembleia Legislativa para que as três públicas do estado de São Paulo e a FAPESP não tivessem seus orçamentos sujeitos a oscilações políticas, mas baseados em percentuais da arrecadação do ICMS, hoje fixados em 5,0295% para a USP, 2,3447% UNESP, e 2,1958% UNICAMP, totalizando 9,57%. Para a FAPESP, foi aprovado o percentual de 1%, com a salvaguarda da autonomia universitária determinada pelo Art. 207 da Constituição Federal, que diz, em seu caput: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.

Apesar disso e de todas as conquistas mundialmente reconhecidas da Fapesp, no dia 13 de agosto o executivo de São Paulo protocolou na Assembleia Legislativa o Projeto de Lei nº 529/20, que trata de inúmeros assuntos ligados às finanças do estado. Salta aos olhos o Artigo 14, que ou não mereceu os devidos estudos ou simplesmente ignorou como funcionam as entidades de fomento. Diz o caput: “O superávit financeiro (sic) apurado em balanço patrimonial das autarquias (...) e das fundações, será transferido ao final de cada exercício à Conta Única do Tesouro Estadual.”

Entre as mencionadas autarquias e fundações estão as universidades públicas e a Fapesp. Parece que enxergam a Fundação como fosse um órgão da administração direta, que devolve ao Tesouro do estado, a cada chamado exercício findo, eventuais excedentes - assim como acontece com secretarias e outros órgãos da administração direta. Ora, como funciona a Fapesp? Ela recebe a dotação de 1% prevista na Constituição Estadual e a aplica em conformidade com a autonomia determinada pela Constituição Federal.

Tecnicamente, desconsideraram ainda que nas universidades e na Fapesp é vital a continuidade das pesquisas em curso. Pesquisadores recebem mensalmente bolsas por até três anos, e uma vez aprovados os projetos as verbas são direcionadas à consecução dos trabalhos. Portanto, ao acatar um projeto para esse período, compreende-se desde já uma previsão da verba até o prazo final, o que desarma qualquer tese de superávit, “surplus” ou excedente. Por motivos óbvios, a Fundação não pode suspender ou abortar projetos em curso ao final de cada exercício, pesquisadores sequer usufruem de férias.

Até o presente momento, acumularam-se 623 emendas parlamentares propondo, com justificativas, alterações no texto do PL, incluindo 45 delas sobre o Art. 14, que trata das autarquias e fundações, e especificamente das universidades e Fapesp. É preciso que os parlamentares ouçam a comunidade acadêmica; urge fazer as alterações no mencionado artigo para que a pesquisa no estado de São Paulo prossiga sem rupturas em seu trabalho de vanguarda e excelência reconhecido internacionalmente. Segundo as chamadas “Leis de Rolland”, a doutrina da continuidade dos serviços públicos é a mesma que rege a continuidade do próprio Estado. 
Que haja responsabilidade e sensatez nesta hora por parte do Legislativo. 

                                                                      ***

sábado, 22 de agosto de 2020

EDUCAÇÃO 2020: MISSÃO QUASE IMPOSSÍVEL

Um ano letivo comprometido para a educação em todos os níveis. Por mais que aulas à distância, on-line, possam minorar problemas de disciplinas em classes enormes como muitas da Escola Politécnica da USP (Poli), nunca poderão fazê-lo com matérias que necessitam prática, como as de anatomia e dissecação na medicina, laboratórios químicos, aceleradores de partículas ou prática musical. Uma agravante: já estourando na boca do balão, há uma turma para se formar este ano que deveria ceder lugar à próxima a ingressar. Tentar equilibrar tudo isso diante de uma inexorável nova queda na arrecadação do ICMS em 2021 - tributo responsável pelas universidades estaduais cujos orçamentos, no total, que significam uma fatia de 9,5% do arrecadado -, é como sonhar com um novo milagre da multiplicação dos pães: a se prorrogar os cursos dos que deveriam se formar em 2020, haveria uma leva a mais em todas as áreas das universidades e um colapso orçamentário. Fora isso, um Projeto de Lei (529/20) corre em regime de urgência na Alesp para fazer retornar ao Tesouro cerca de 1 bilhão das três universidades e da Fapesp (petição, com já perto de 80.000 assinaturas contra o PL pode ser assinada no link ao final deste blog). 

Aqui e ali, ouve-se um zunzum de cara ou coroa girando, cada lado com uma hipótese: na primeira, forma-se a alunada assim mesmo – porque sobre a outra turma que virá em 2021 não se poderá criar uma frustração em cadeia de gerações de vestibulandos. Esta primeira opção implica em simplesmente formar todo mundo, e não há como evitar que a maioria dos alunos saiam com preparação incompleta, o que em certas áreas significa grave risco à população, no cotidiano futuro: mais acidentes, desastres, perda de vidas humanas. 

A segunda opção, não menos preocupante, é a não abertura de vestibulares para 2021, sem novas turmas no ano letivo, para “esticar” o último ano, com a inevitável decorrente decepção da massa de candidatos, o que não pode ser negligenciado. Contudo, abrir as portas a novas turmas e prorrogar os cursos em finalização é bomba financeira, organizacional e de espaço no colo das universidades, sem pensar no corte drástico que o governo pretende impor. 

Em viés extremamente delicado estão o ensino fundamental e médio, quando a presença física do professor é essencial. Trata-se de classes, porém o atendimento por aluno é intermitente, e quanto mais novas essas crianças, mais a presença do mestre é fundamental. (Miremos no exemplo de um pequeno país ao sul do nosso, o Uruguai, que forneceu tablets a 100% dos alunos de suas escolas públicas, fato que nos obriga a reverenciá-los como exemplo administrativo, olhando para nosso próprio umbigo com a necessária submissão. Mesmo assim, a transferência eletrônica de informação, tomando emprestado um poema do Drummond, “seria uma rima, mas não seria uma solução”. Ajuda, mas persiste a enorme lacuna presencial). 

Na música, batemos de frente com o quase impossível. Fora poucas aulas como história da música, que poderiam seguir on-line, há problemas insuperáveis nas práticas e individuais: o maior deles, técnico, é a absurda perda da qualidade de áudio. Se o mundo um dia viu surgir o estridente fonógrafo, e dele geringonças de maior pureza, o LP e o HI-FI (alta fidelidade), houve a invasão do mercado pelo MP3, que é um tipo de áudio que se pode gravar ou transmitir em formato comprimido – tome-se como exemplo toda a discografia dos Beatles, que cabe em um único CD. 

Depois, surgiu o MP4, formato que traz um vídeo agregado ao som. A fração de espaço da duração de uma mesma música em MP3 em comparação com outra em disco se deve a essa tecnologia surgida em 1993, técnica que comprime – e elimina várias - faixas de frequência, o que significa perdas especialmente nos extremos, os graves e agudos. Pior do que isso, hoje coqueluche, é o som via streaming (de stream, correnteza, onda), a transmissão fracionada de sons e imagens, tornando-a ainda mais leve. E pobre. 

Na área musical, esta é apenas uma parte do problema. O pior é a falta da presença do professor, o carisma pessoal, o respirar o mesmo ar, o ouvir a voz do mestre, o interagir olhos nos olhos com o aluno de instrumento ou canto, nada passível de ser transmitido on-line. Em exemplo extremo, lembro-me de ter assistido a master classes com grandes nomes, como o gênio do violino Yehudi Menuhin (foto), para uma classe lotada. A cada participante que tocava, ele o presenteava com suaves e comedidas palavras. Mas com que efeito! 

O contrabaixista da Juilliard School David Walter (foto), aos 90 anos, após a execução de um Bach por um aluno fechou os olhos, criando um silêncio sepulcral que fez parte fundamental da cena. E foi somente após ficar calado por meio minuto, após o fim da peça, que ele narrou uma sedutora visão poética da obra, que lhe fora dada pelo lendário violoncelista Pablo Casals. Instado a tocar novamente, o aluno fez emergir com suas mãos naquelas mesmas notas uma outra música, ante participantes e professores embasbacados com a transformação. Coisa que nunca aconteceria por ondas de rádio, fios ou frequências comprimidas. Só quem já lidou com isso é que sabe. Que para iniciantes e leigos, aulas individuais on-line, nessa altura do campeonato, podem ter sua serventia, isso nós sabemos. E para ajudar no sustento dos professores, idem. Porém, mais uma vez, apesar da pandemia, pode ser outra rima, mas não uma solução. 

E qual seria a solução? Não sei, e nem quem saiba. Lembrando a célebre anedota do Chacrinha, o “filósofo” de massas favorito da Tropicália: “Eu não vim para explicar, mas para confundir” (e eu aqui não quero confundir, apenas abrir espaço para reflexão). Nós, educadores, temos por obrigação compreender algo complexo por natureza, mesmo que não consigamos propor alguma solução a contento. Fora isso, é procurar em delírios futuristas alguma tecnologia holográfica por teletransporte com olfato e toque físico no próximo século. Mas a realidade é hoje, e é outra. E dói. Na área federal, as perspectivas são ainda piores. Perderemos um ano, mas a vida humana vem primeiro.

***
Petição contra Projeto de Lei do corte nas universidades do estado de SP e Fapesp: http://chng.it/nHgjNgJN
Canal do Youtube: https://www.youtube.com/user/autrandourado
Para adquirir o livro Memórias de Isolamento - Saudosos Velhos Amigos e Outras Crônicas: memoriasdeisolamento@gmail.com

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O MESSIAS E MOISÉS

O Juízo Final, segundo Michelangelo

O nome Messias vem de Messiah, do hebraico romanizado Mashiash; para os judeus, refere-se ao Salvador, que virá redimi-los. Entre os cristãos é Jesus Cristo, que morreu para nos salvar, e na parusia conduzir o Juízo Final, “de onde haverá de julgar os vivos e os mortos”. ‘Messias’, no caso deste artigo, é a conjunção do belo e do perfeito, acima do bem e do mal.
Stradivarius
No auge de sua carreira, em 1716, Antonio Stradivari, ou Antonius Stradivarius, de Cremona (latinizado à moda dos luthiers da época), construiu um violino tão próximo da perfeição quanto humanamente possível. Apaixonado por sua obra-prima, com ele permaneceu durante 21 anos, até morrer. Seu filho Paolo vendeu-o ao conde Cozio di Salabue, conoisseur e colecionador de reputação pouco ilibada, que batizou o instrumento com o nome da cidade de seu título nobiliárquico, Salabue. O preço, corrigido monetariamente, teria sido hoje de meros R$ 62.250.
Jean-Baptiste Vuillaume
Mais de um século após a morte de Stradivarius, Luigi Tarisio, outro voraz colecionador italiano, adquiriu o instrumento e, começando a tradição – ou sina -, ficou com ele também até morrer, em 1854. Outro colecionador e especulador, o grande luthier francês Jean-Baptiste Vuillaume, adquiriu não apenas a obra-prima, mas toda a coleção de Tarisio, o dono da preciosidade. Jean-Delphin Alard, grande violinista e genro do então finado Vuillaume, adquiriu o violino da família pelo equivalente hoje a R$ 1.811.000, uma pechincha. Atualmente, um leilão do instrumento reverteria em tumulto, e com uma grande interrogação: o violino, em princípio, não tem preço.
Conde Cozio di Salabue
Foi em uma conversa entre Tarisio, Vuillaume e Alard sobre a perfeição daquele instrumento, que o último cunhou uma frase decisiva: “certamente, senhor Tarisio, este violino é como o Messias dos judeus, que por ele sempre esperaram, mas nunca chegava”. Bastou para o instrumento ser rebatizado com o nome pelo qual o conhecemos hoje.
A antiga loja e luteria Hill & Sons
A família do especialista Hill, luthier e poderoso colecionador de Londres, adquiriu-o para o Ashmolean Museum de Oxford, onde até hoje é mantido em perfeito estado de novo, e serve de paradigma para todos os luthiers do mundo. Raros tocam ou tocaram o violino, destacando-se o virtuose Joseph Joachim, que declarou por escrito nunca haver tocado em um instrumento de som e volume a um só tempo tão suave e poderoso, opinião dividida com Nathan Milstein, fabuloso solista.
O Parnassus, por Rafael
O ‘Messias’ ficou, assim, a um passo da perfeição, o Gradus ad Parnassum. Parnaso é uma deslumbrante montanha perto de Delfos, na Grécia. Na mitologia, lá morava Apolo, deus da perfeição, da harmonia e da beleza, ladeado pelas musas inspiradoras das artes; também habitava Dionísio, deus das festas, do vinho e do prazer. Nada mais apropriado.
O Papa Julio II, por Rafael
Inspirado em capítulos do Êxodo segundo a Vulgata, tradução latina da bíblia da época, o florentino Michelangelo Buonarroti, gênio da Alta Renascença, começou a construir em 1505, por encomenda do papa Júlio II, uma estátua de Moisés em puro mármore para ser colocada na igreja de San Pietro in Vincoli, em Roma. Ornamentação de pompa, circunstância e vaidade para a própria sepultura papal, foi concluída apenas 32 anos após sua morte, em 1545, tempo de trabalho que o escultor levou para a finalizá-la. Júlio II era conhecido como “o papa guerreiro”, dado o seu histórico exército de muitos embates militares.
Michelangelo interpretou a seu jeito, como os italianos de seu tempo, trechos do Êxodo na Vulgata: Moisés com as tábuas da lei e dois chifres na cabeça, atribuídos a uma tradução equivocada da palavra keren que se referiria a dois raios fulgurantes, a sabedoria que lhe teria sido dada por Deus para sua missão de legislador divino. Uma obra tão perfeita que, segundo se conta, teria feito um Michelangelo raivoso exclamar, depois de atirar sua marreta de trabalho sobre o joelho da estátua: perchè non parli? Por que não falas? (puro folclore popular, segundo especialistas como Antonietta Bandellonni, em Michelangelo Buonarroti è tornato).
Em seu ensaio “O Moisés de Michelangelo”, Freud, admirador do artista, interpreta a obra com detalhes que  descrevem o espírito da escultura com a perspicácia do grande psicanalista e observador apaixonado: “Moisés está sentado, o corpo voltado para a frente, a cabeça com sua volumosa barba para a esquerda, o pé direito apoiado sobre o chão e o esquerdo elevado para que apenas os dedos do pé toquem a base. Seu braço direito apoia as Tábuas da Lei com algo na palma da mão que se parece com um pequeno livro, junto a uma mecha de sua longa barba. O braço esquerdo descansa sobre seu colo”. A obra é tão perfeita, no rosto, nas mãos, nas vestes, na expressão, na simbologia peculiar a Michelangelo – como o as diferenças entre as mãos, as veias da direita saltadas, contrastando com a esquerda, da sabedoria e expressão, em suave repouso. Segundo Freud observou, Moisés teria acabado de descer do Monte Sinai, onde fora expulsar adoradores do Bezerro de Ouro (Êxodo, 32), razão da mão direita sofrida por carregar as Tábuas de pedra.
O Gradus de Debussy
A escolha dessas duas altas figuras bíblicas, Messias e Moisés, como paradigma de obras de arte próximas à perfeição, não foi por acaso, vai além da ligação religiosa dos títulos. Ambas representam a busca pelo perfeito artístico, ideia que dá título a várias peças e estudos de virtuosismo musical, representando os degraus da escalada para a perfeição (Gradus ad Parnassum) - que nunca será atingida.
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