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sexta-feira, 31 de julho de 2015

A MÚSICA CONTRA O CRIME

Ensaio (onedirection.com)
No calor das polêmicas sobre responsabilidade criminal e matérias correlatas, nesta segunda-feira (27/07) um assunto me caiu de súbito como luva para um artigo. Aconteceu no Rio Grande do Sul um fato ao qual me reportarei no final, após relatar coisas do passado e minha experiência de 25 anos dirigindo escolas de música. Pois foi essa vivência (entre outras) que me levou a refletir várias vezes sobre a não-interação entre violência e um ambiente musical sadio. Falo não apenas de infrações penais, refiro-me também à convivência social diferenciada dos que vivem a música.

Crianças: uma aula pacífica
Nesses longos anos, não me lembro de ter visto uma vez sequer um caso de violência entre alunos, enquanto hoje, fora do ambiente musical, episódios grotescos são cada vez mais frequentes nas escolas, na falta de limites. A sociedade está cada vez mais permissiva quanto à questão da indisciplina e indiferente aos abusos; moralmente, ao inverso, está cada vez mais retrógrada, uma amarga contradição entre dois lados de uma mesma moeda.

Professora: boletim de ocorrência (extra.noticias.com.br)
São frequentes os noticiários da TV ou postagens nas redes sociais mostrando agressões físicas violentas até contra professores! Disciplina e hierarquia parecem letra morta nessa “nova ordem” obtusa de perigosas consequências. Rasga-se a lei, a indisciplina parece tolerada e, pior, começa a ser aceita como corriqueira. Pais frequentemente tomam partido de filhos agressores e instâncias competentes têm espaço para pleitos descabidos na justiça.

Lang Lang, prodígio
Em música, não se conversa enquanto se toca. Ela mesma é a combinação de sons e pausas, elementos indissociáveis. E o silêncio interior do executante lhe é parte fundamental, é a alma do fazer música, seja no estudo, seja no palco. Quando se toca, tem-se que estar envolvido e submerso em apenas uma coisa: o som, e esse é estado de contemplação quase monástico.

Cristo com Maria (sentada) e Marta
Óleo de Vermeer (1635-1675)
Corto aqui para lembrar o episódio do Evangelho Segundo Lucas (10:40) em que Maria contemplava Cristo quando Marta, irmã dela, reclamou ao Senhor que lhe faltava ajuda nos afazeres domésticos. Jesus respondeu: “Maria escolheu a parte certa, que nunca lhe será tomada”, conforme explicou-me um doutor em teologia da Universidade de Chicago, versado nas línguas bíblicas - a tradução vulgata (popular) “Maria escolheu a melhor parte” parece sugerir que Maria estava acomodada).

Ed. Fundamentos
A contemplação é exercício espiritual milenar que ressurge no mundo cristão em The Cloud of Unknowing (“A Nuvem do Não-Saber”, outro título em português não bem traduzido). O escrito original, de um monge beneditino inglês anônimo do séc. 14, é na verdade um guia para iniciação na meditação e no caminho a ser percorrido rumo ao estágio mais próximo do Altíssimo, a contemplação em transcendência terrena, que nada difere do que sempre foi praticado pelos monges budistas tibetanos.

A boa música exige concentração, e com o progresso do artista o grau de introspecção deve ser crescente. Ao topo do Gradus ad Parnassum (degraus, ou passos, para a perfeição) somente chegam os grandes e abençoados músicos, mas o domínio dessa espiritualidade deve estar aliado a uma técnica adquirida em estudos de rigor quase canônico. Gradus ad Parnassum serve de título para inúmeros trabalhos de estudos musicais, de Clementi (1752-1832) a Debussy (1862-1918).

Sidney Mattos: músico, educador
No início de 2007, participei de um seminário em São Paulo que avaliaria o que vinha sendo produzido com os milhares de jovens do Projeto Guri, um trabalho social como fim e musical como meio, especialmente em áreas mais pobres na capital e no interior. Lembro-me de ter indicado o músico Sidney Mattos, que havia ido parar na França depois de ter participado do GUM (Grupo Universitário de Música) de Gonzaguinha, Ivan Lins e outros então estudantes, ocasião em que o conheci. Sidney ficou paraplégico após uma cirurgia na coluna, e hoje se dedica a uma ONG que trabalha com jovens em uma favela carioca. Nossas palestras e reuniões com orientadores do Guri foram muito proveitosas – não apenas pelo que pudemos acrescentar-lhes, mas também pelo que aprendemos sobre o papel da música nos segmentos mais carentes da sociedade.

Rebelião de internos no CASA 
Impressionou-me de maneira especial o depoimento de pessoas que trabalhavam com jovens internos do CASA (antiga Febem). Nas rebeliões, colchões foram queimados e até mortes aconteceram, mas o que mais chamou a atenção foi que, conforme os monitores, a sala de instrumentos era sagrada, ninguém depredava, era o símbolo do acesso à liberdade via conquista interior. A música lhes servia como elemento mágico!

Complexo Presidiário Frei Caneca (1850-2010)
Salto mais para trás: nos anos 1970, toquei com uma big-band no Presídio Frei Caneca, no Rio (construído em 1850, implodido em 2010). Auditório abarrotado, perguntei a um dos policiais se havia perigo de uma rebelião. Calmo, ele sorriu e respondeu que não, nas apresentações musicais os presos se transformavam. Tudo ocorreu na mais completa normalidade, aplausos, até uma certa euforia para relaxar do confinamento decretado em suas penas.

Dalmir e banda (ajuris.com)
Costurando aqui o primeiro parágrafo deste texto, há dias uma reportagem na TV narrou o caso do juiz Dalmir Franklin de Júnior, de Passo Fundo, no RS, musicista amador na juventude que passou a tirar a toga depois do expediente para aplicar sua experiência musical junto aos próprios jovens por ele mesmo condenados na Vara da Infância e da Juventude: com a ajuda do músico Marcelo Pimentel, o magistrado, baixo elétrico nas mãos e um microfone, tocou acompanhado pela Banda de Percussão Liberdade, formada por jovens apenados.


O comentário da promotora local foi sábio: “todos são iguais perante a música”, e isso pode ser interpretado como uma comunhão entre a Justiça e infratores que ela mesma condena. Os depoimentos daqueles internos e dos que já estavam livres após cumprirem sua pena soaram quase em uma só voz, ilustrando o achado da representante do Ministério Público: “todos são iguais perante a música”. Pois se “todos são iguais perante a lei”, conforme reza o artigo 5º da Constituição, também o devem ser na vida espiritual os que através da música se elevam e se iluminam. A música liberta!

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