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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

EU NUNCA VI UM PAÍS FECHAR

AO MESTRE ELEAZAR DE CARVALHO, COM CARINHO

Um dia, descobri a pedra fundamental para meu aprendizado de vida: ouvir os ensinamentos dos que têm grande sabedoria. Não falo de simples aulas, mas de certa convivência com um mestre, por mais curta que seja, que é uma escola a ser cursada por etapas e a longo prazo. Respirar o mesmo ambiente, ouvir-lhes o dom e o tom das palavras, absorver pensamentos, um rito de admiração e cumplicidade. Em classe de alguns raros, cheguei a gravar aulas para ouvi-las novamente em casa, tomar notas, não perder nada. Aprender com os sábios, coisa que os orientais fazem há milênios.

Thimóteo da Costa, óleo (1919)
Também falo do mestre que há nas pessoas mais simples, no mais das vezes de idade avançada, muito experientes. Poucos bons aprendizes pensam assim, os mestres de hoje não costumam ser vistos como antes, infelizmente.


Ano que vem completam-se vinte anos que Eleazar de Carvalho esteve no palco do Teatro Municipal pela última vez. Lá, foi velado pela família, amigos e músicos. Meus tempos de convivência com ele foram puro garimpo: tiradas geniais, na velocidade que ele queria ensinar aos músicos: “vivacidade, vivacidade!”, bradava para a orquestra. Tinha perspicácia surpreendente para analisar os acontecimentos políticos, mesmo sem envolver-se em nenhum deles. Disse-me um dia “caro professor, tive muitos amigos comunistas, e sempre os respeitei, dou-me muito bem com eles”.

Mas eu não sou comunista, falei, eu diria se fosse, sou um desencantado com esse novo tipo de doença infantil (que era como Lenin, russo de Simbirsk e artífice da revolução de 1917, se referia aos que se diziam esquerdistas. Ele os descartava, achava-os um entrave na luta pelo socialismo real). Ah, então esqueça, concluiu o maestro.

Teatro Sergio Cardoso (foto: Daigo Oliva)
Aquilo foi um teste, tudo o que ele falava embutia um truque, uma pegadinha, às vezes um motivo para anedota. A Osesp ensaiava no Teatro Sérgio Cardoso, e um dia fomos tomar um café – convite que, em seu código de sinais, era para saber de alguma coisa. 

Ofereci-me para pagar e ele deixou, coisa que não era de seu estilo. Despejei de uma pequenina bolsa porta-moedas sobre a palma da minha mão, e ele arregalou os olhos vendo umas fichinhas de DDD para orelhão. Ora, exclamou, o senhor está com más intenções! Deduzi que ele queria insinuar que eu estava planejando mudar-me da cidade. Acho que sequer passava pela minha cabeça, era para ligar para meus pais, no Rio. Pois retruquei de pronto: não, maestro, é que mudei de bairro, e uma nova linha de telefone demora para ser instalada!

Livros e estudo: o chão de todos
Tive outros mestres, alguns bem idosos, outros menos. Pela presença, observando-lhes as mãos, pela leitura de gestos, olhos e palavras, os movimentos. Entre eles, meus professores de instrumento e composição nos EUA, e aqui, também, outros com quem tive curto mas proveitoso trânsito. E os eventuais, como o Frei Betto, ou meu pai, Autran Dourado, e um primo dele, grande advogado que me ensinou muito sobre a arte forense e a vida, Antonio Moacyr Braga. Houve também um economista de enorme peso que me deu breves e sutis lições sobre condução de reuniões, administração pública, cuidados com procedimentos corretos, precauções contra os espertos e traquejo político, tudo isso entremeado nas conversas, fossem elas formais ou coloquiais.

Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos,
Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende
Quase que por osmose, também vale a turma de escritores e artistas plásticos que volta e meia passava na casa de meus pais, e apesar de eu na época ser criança ou adolescente, marcou-me à medida que fui me aproximando, lendo e descobrindo quem eles eram. Livros, estudos, teses, pesquisas, títulos, tudo foi meu chão, claro, mas a experiência com todos os grandes mestres foram as asas para construir minha formação.

1985: posse de José Sarney na Presidência da República

O episódio que agora vou relatar aconteceu em 1986. Um ano antes José Sarney havia sido empossado Presidente da República, sucedendo o general João Batista Figueiredo. Era o começo do fim do regime de exceção. A eleição indireta de 1984 fora vencida por Tancredo Neves, que faleceu antes de assumir, em abril de 1985. Sarney, eleito vice, tomou posse, embora o Art. 2º do Ato Institucional nº 16, de 1969, decreto imposto pela ditadura sob medida para a morte do general Costa e Silva que complementou por canetada a malfadada Constituição de 1967, também pudesse ter sido usado como impedimento.

“Art. 2° - É declarado vago (...) o cargo de Vice-Presidente (...), ficando suspensa, até a eleição do novo Presidente e Vice-Presidente (...)”. Mas o regime fez vista grossa por simpatia ao Sarney, da Arena, na transição “lenta, gradual e segura”, pois da velha e maquiada realidade econômica já escorria uma inflação de 239% e uma grave recessão à espera do novo presidente! Inábil e inapto como líder e executivo, mesmo com o auxílio de boas cabeças não foi capaz de segurar a besta inflacionária e nem seduzir povo e empresários com os planos Cruzado I e II, Bresser e Verão.

Figueiredo (dir.), com Ronald Reagan
A inflação galopava como os cavalos puro-sangue do general Figueiredo no pátio do quartel do III Exército, onde ele fora Chefe do Estado Maior. A frase “a economia vai bem, mas o povo vai mal” já foi atribuída a outros generais, mas os bastidores creditam-na a outro oficial de altos coturnos, Golbery do Couto e Silva, o Niccolò Machiavelli de todos os príncipes do regime, mostrando que a camuflagem da economia estava apodrecendo.

Os generais Golbery e Geisel
Inconformado com a ascensão do general Costa e Silva à presidência, plano de que foi ferrenho opositor, Golbery abandonou o front do governo para assumir a presidência nacional da norte-americana Dow Chemical, a partir de 1968 - apenas quatro anos após o golpe que teve participação decisiva de grandes empresas aqui instaladas, como a petrolífera Dow, a IBM e outras 29 das 55 maiores do Brasil (56%) e, claro, da CIA (Operação Brother Sam), além de outros serviços de inteligência americanos, como a DIA (Defense Intelligence Agency, de 1961), em plena guerra de bastidores contra a União Soviética. A ITT havia sido estatizada por Jango, o que provocou profunda irritação e angústia nas demais empresas sediadas no país. (O general Vernon Walters, amigo pessoal de Castelo Branco, era homem forte na CIA, e chegou  à sua vice-presidência, além de adido militar de 1962 a 1967. Lincoln Gordon, embaixador dos EUA de 1961 a 1966, e autor do sinal verde para Brasília desencadear o golpe - obteve no salão Oval, de Kennedy, o equivalente a R$ 250 milhões para reforçar as tropas, já abastecidas pelas empresas americanas  - foi autor de ações para neutralizar o poder soviético na América Latina durante a chamada guerra fria, com projetos como a "Aliança para o Progresso" e "MEC-Usaid"). Pois o casamento de Golbery com a Dow foi pouco cristão ou kosher, embora celebrado com a bênção da então chamada matriz. 

Certo dia, saindo de um ensaio, eu e o maestro assuntávamos sobre os rumos do país. (Ele havia me dito outra frase célebre para o meu repertório: "vamos ficar olhando o aquário de cima, para ver a hora em que os peixinhos vão subir para respirar"). Como músico, eu ganhava 7 mil cruzeiros, ou sete milhões, se o Plano Cruzado, um mês antes, não tivesse surrupiado três zeros do salário. O dinheiro era o mesmo, mas os milhões fascinavam, apesar de os zeros nada valerem. Foi quando ele me veio com uma afirmação meio surreal, um quase vaticínio, coisa que eu não repetiria hoje, já que sou inveterado otimista. Olhos nos olhos, afirmou, com o humor sério e cáustico de sempre, adaga afiada como seus típicos cortes orquestrais (vide abaixo): “nunca vi um país fechar, mas sempre pode haver uma primeira vez”.




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