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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

OS 94 ANOS DO VELHO AUTRAN

band.uol.com.br

Difícil mesmo é escrever sobre o pai da gente. O apelo emocional exige cuidado, para que a escrita não se dobre à paixão - mesmo que seja falando da literatura de um escritor acima de qualquer suspeita, sobre quem tantos já falaram. Recordar é preciso, especialmente para os que tiveram felicidade de com ele aprender no dia a dia, no almoço, no jantar, ter o privilégio da companhia nos finais de semana, quando disponíveis.
A Monte Santo antiga
Em um 18 de janeiro como este nasceu em 1926 um menino, capiau de Patos de Minas, batizado Waldomiro (não usava, preferia só Autran Dourado, já complicado o suficiente). Muito cedo, foi levado por seu pai, Telêmaco, juiz de direito, com a mãe Alice e irmãos, para Monte Santo, perto da divisa de onde à noite se vislumbra a suave tenda das luzinhas da paulista Mococa. Ali, foi criado moleque da terra, “menino curió”, dizia, e como a cidade era muito pequena, já andando com pernas próprias deu de dividir seu tempo com São Sebastião do Paraíso, quase três vezes maior. (Ainda pequeno, uma senhora analfabeta pedia-lhe que lesse trechos de um livro ilustrado sobre a I Guerra. Não tinha “sabência” para ler aquilo, então criava sobre o que entendia. Aí talvez o começo de tudo).
Como se as duas cidades ainda não lhe bastassem, aos dezessete foi para a capital mineira descobrir um novo mundo, cidade grande que o acolheu com seu belo horizonte, nome com que fora batizada. Aprendeu taquigrafia – a espanhola, mais rápida, explicava -, que iria acompanhá-lo a vida inteira (em cartõezinhos, resumia nos curtos sinais as ideias de um novo livro).
UFMG
Em BH, estudou Direito na UFMG, para a qual já idoso viria a dedicar em testamento todo seu acervo de mais de cinco mil livros - era o que cabia em casa, rodeando as paredes de seu escritório, corredores, sala e quartos dos filhos, até na parte de cima dos armários embutidos. 
Tudo agora recompõe na universidade o ambiente caseiro de que mais gostava, aquele onde sua obra alcançara plena maturidade. Uma espécie de versão mineira de seu cantinho de escritor, no Rio, para onde havia se mudado em 1954. Com a posse de Juscelino Kubitschek, que tinha apreço especial por ele, foi trabalhar no Palácio do Catete, na capital da República. Em 1958, foi nomeado Secretário de Imprensa da Presidência, o pioneiro no cargo hoje chamado Porta-Voz.
Com JK, na entrada do Palácio do Catete

Godofredo Rangel
Na literatura começou cedo, publicando já aos dezenove anos; foi aconselhado por um escritor mineiro, Godofredo Rangel, que o dissuadiu do mito do artista precoce. O pai concordou que melhor seria trilhar o caminho da formiguinha, a labuta diária, construir uma literatura coesa e única em personagens e cenários, quase todos da cidade mítica de Duas Pontes, que criara à imagem e semelhança de sua vivência interiorana.
Seguiram-se muitos livros, diversos deles traduzidos para o inglês, alemão, francês, espanhol e outros idiomas. Com Teia, a segunda publicação, aos 21 anos, foi agraciado com o Prêmio do Jornal das Letras. Seguiram-se diversos outros, como o Jabuti, o Machado de Assis, o Prêmio Camões, o Goethe de Literatura, e viu a inclusão de seu trabalho nas Obras Representativas da Unesco. Quis o destino que a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural Brasileiro fosse entregue simbolicamente à família meses após sua partida, em 2012.
Machado de Assis
Com suas tramas, riscos, bordados e carpintarias, consolidou um estilo único, inconfundível, livre de academicismos, arquitetura que desenvolvera tanto na própria labuta quanto nas leituras e releituras incansáveis de mestres como Machado de Assis, Faulkner e Flaubert. Difícil é escolher o melhor livro: parece-me que será sempre o último que reler, mas o que mais me seduz é Ópera dos Mortos (talvez por isso, foi o último!), do qual peço a ele licença para reproduzir um trecho:
O relógio de pêndulo que foi de meus pais
“Não adiantava parar os relógios. Ainda bem que eles deixaram a pêndula na copa. De duas bolas, em formato de 8; tem pêndula mais bonita, de capelinha. Relógio de 8 é muito comum, até enjoa. Relógio de capelinha é que é mais bonito. Mas igual o relógio-armário (quando ele desceu, veio e parou, olhou parando na cara de cada um, foi assim mesmo que ele fez ou foi Rosalina? no dia do enterro, veio e parou o relógio-armário), igual o relógio da sala não tinha igual, nem nunca viu um assim tão rico, antigo de velho. O relógio da copa, quando chegar a vez, ela é que ia parar. Gostava de ouvir as batidinhas, o tique-taque gostoso no vaivém da pêndula. (...) As pancadas das horas, a musguinha vindo. (...) Minueto, Rosalina diz que é minueto”.
O coro dos relógios, nessa Ópera dos Mortos, a ourivesaria de cada momento, cada único momento e cada um após o outro, diversos relógios cujo oscilar dos pêndulos seria interrompido, cada um a sua vez, com a morte de cada pessoa do casarão. Tensões elaboradas, um crochê intricado e denso. (Musicalmente me lembraria Brahms, os momentos se sucedendo em ondas de pensamentos e angústias onde navegar o leitor: um desenvolvimento pleno de encadeamentos, cadências e dinâmicas, temas e contratemas recorrentes, como em uma sinfonia do alemão).

Melhor assim, saudar o velho Autran por seu trabalho, nada de remoer no dia do nascimento os tempos difíceis que precederam sua partida. É dia de agradecê-lo por ter vindo a este mundo nos deixar tudo o que produziu com humildade, sempre avesso a badalações. Uma obra para a posteridade, sem nunca pensar em enriquecer, bons livros não dão dinheiro, falava. “Também sei escrever um best-seller: leitura bem fácil, suspense, traição e uma pitadinha de sacanagem”. Só que nunca o fez.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

UM ABRAÇO TERNO EM VOCÊ, VIU, MÃE?

Era costume entre os luteranos dos tempos de Johann Sebastian Bach que os enfermos se despedissem da família, amigos e vida terrena no recesso de suas próprias casas. Não foi diferente com ele em 1750, no segundo andar da Thomasschule, em sua cama. Suas condições físicas já estavam comprometidas pela apoplexia, ele sequer enxergava, apenas imaginava a estrada terminando logo à sua frente. Confortavam-no orações, pequenos corais, um cravo ou clavicórdio, instrumentos de sons suaves e celestiais. Não se tem certeza sobre se a obra que citarei foi apenas uma revisão ou uma composição ditada pelo mestre a um de seus filhos ou genro, nota por nota, linha por linha, ritmo por ritmo.

A letra é de pura devoção ao Pai, e a autoria é de Lutero. Leva o título de Vor deinem Thron tret ich hiermit. (Ouça essa maravilha no clipe abaixo deste parágrafo, gravado na Capela de Leipzig, onde Bach foi diretor musical. Sugiro deixar a música como fundo durante esta leitura). O texto pode ser livremente traduzido como “Diante de vosso trono eu agora me apresento, ó Deus, e humildemente vos suplico que não afaste vosso generoso rosto de mim, pobre pecador".

Katharien Fuge, soprano; Nathalie Stutzmann, contralto; Christoph Genz, tenor; Gotthold Schwarz, baixo. Coral Monteverdi. Regência: John Eliot Gardner

[“Nasci com a minha morte / dela não vou abrir mão / não quero o azar da sorte / nem da morte ser irmão / da sombra eu tiro o meu sol / e do fio da canção / amarro essa certeza / de saber que cada passo / não é fuga nem defesa / não é ferrugem no aço". Letra de Ruy Guerra para a música Canto Latino, de Milton Nascimento]

Bem antes disso, Bach havia composto outro coral, intitulado Alle Menschen müssen sterben, ou “Todos os homens deverão morrer”. Aceitação do destino, do inexorável, da única certeza que temos quando vivos, que é a pergunta maior do fundo da alma humana, vazio em que todas as filosofias pecam por gerar mais dúvidas do que certezas: o que é a existência? Nascer é a condição maior sem a qual nada existiria.  Nos corais de Bach, há o sentido de devoção e resignação, diante do verdadeiro porquê da vida. O pessimismo de apenas se viver (Schopenhauer), o ser para não deixar de existir (Sartre), a vida pelo prazer, o bem supremo (hedonismo), ou a negação de tudo (niilismo). Mas ainda se pode servir a Deus, deixar uma contribuição para o mundo, entre tantas outras razões de se viver.

Maria Lucia Christo Autran Dourado nasceu em 1928, em Belo Horizonte. Filha de um militar sistemático e ultracatólico, reformado como general, José Carlos Campos Christo, revolucionário constitucionalista como seu pai, o Cel. Vieira Christo, oficial auxiliar direto do ex-governador e ex-presidente Artur Bernardes, que com ele foi exilado posteriormente. Minha mãe odiava Getúlio desde que, criança, ficara um ano e meio longe de seu pai, deportado e depois exilado na Europa. Sua irmã Lourdinha só viria a conhecer o pai aos dois anos de idade, pois nascera após a prisão de meu avô, com minha avó grávida.
Preciosidade que enviei ao 12º BI, sediado em Minas Gerais, em 2003. "Alma amargurada", do soldado-músico Salustiel José do Carmo, ao meu avô, pai de minha mãe: "Palida homenagem (...) ao Exmº Sr. José Carlos de Campos Christo, 1º tenente do nosso glorioso exército e seu grande benfeitor. Belo Horizonte, 10-5-932. Detalhe: revolução constitucionalista já armada e deflagrada apenas dois meses após. 
Meu bisavô e avô de minha mãe, Cel. Vieira Christo e oficial auxiliar do ex-governador e ex-presidente Artur Bernardes, ambos também exilados, teve igualmente uma peça dedicada: "Dobrado Vieira Christo".


À direita, o Coronel Christo
(vovô Juquinha)
Minha avó Lilia era uma pessoa dócil mas igualmente rigorosa, talvez um pouco áspera pelos anos durante os quais, sozinha, foi chefe de família com a prole de quatro filhos: Lígia, minha mãe, Marcelo e Beatriz. E Lourdinha, nascida depois da partida de meu avô. Seguiram-se José Carlos, Carminha e Ângela, nascidos após o retorno de meu avô, fora duas meninas falecidas ainda pequenas. De meus bisavós maternos, generosamente, minha mãe herdou os olhos azuis, traço da invasão neerlandesa ao Brasil no século 17, tempos em que Nassau deixou um legado cultural, arquitetônico e artístico sem precedentes no Recife. Pois diante daquele azul fustigante dos olhos maternos não se conseguia mentir, nada escapava, eles tudo viam! Dela, recebi os olhos mais claros, mas o meu netinho inglês, Tommy, tem o mesmo azul celeste de minha mãe, joias que, quem sabe, passará a quem o descender. Profundos como Those ole blue eyes, “aqueles velhos olhos azuis”, quase-alcunha de Frank Sinatra.

Difícil dizer o quanto nossa mãe sofreu durante a ditadura de Getúlio, obrigada aos insuportáveis desfiles cívicos e até discurso de apelo fascista que era obrigada a enfrentar e ouvir ainda pequena, a saudação forçada ao homem que tanto fizera sofrer seu próprio pai. Difícil imaginar a labuta de educar seus filhos com esmero, acompanhando seu marido, jovem e futuro grande escritor, como as estrelas pareciam ter-lhe escrito desde cedo.

JK, meu pai e o poeta Schmidt
Logo, iriam para o Rio de Janeiro, onde meu pai haveria de assumir aos vinte e tantos anos de idade um alto cargo na República, sendo dele seu primeiro titular na história. Trabalho estressante, o de Secretário de Imprensa (hoje Porta-Voz) de JK, respondendo por um mineiro visionário, cercado por artistas, especialmente escritores, e intelectuais.

Meus pais com o afilhado Roberto Christo
(www.robertochristo.com.br)
Dona de casa guerreira e intelectualizada, leitora compulsiva quando havia tempo, compartilhou da melhor intelectualidade do Rio de Janeiro, cidade onde ficou com meu pai após a mudança da capital para Brasília, em 1960. Minha mãe dedicou-se a educar os quatro filhos dando de si muito mais do que podia e do que o salário de meu pai, serventuário da Justiça do estado do Rio, poderia dispor, mas sabia fazê-lo suficiente para a família.

Não bastasse a ditadura de Vargas, minha mãe haveria de sofrer de perto uma segunda: 1964. Com o golpe, o medo. Especialmente após o endurecimento do AI-5, com amigos, parentes e ex-colaboradores de governo presos -  o próprio JK perdera os direitos políticos e sofrera outras sanções, além de ser perseguido por ter, supostamente, “sido apoiado por comunistas” (sic), absurdo dos absurdos. Um dia, o terror bateu à porta de casa. O porteiro avisou que lá embaixo estava um sujeito que se identificou como policial, e que era para ele descer. Meu pai avisou minha mãe, imagine a angústia, de que poderia ter chegado a hora dele – um recatado escritor “formiga” (lembrando a fábula da cigarra), de trabalho artesanal e de ourivesaria, como bem escreveu o crítico Humberto Werneck, e amedrontado como tantos brasileiros, apesar de nunca ter segurado uma metralhadora ou participado de grupos guerrilheiros.

JK: discurso
Desceu à portaria, e o policial (do SNI, acho) pediu-lhe que o acompanhasse para uma volta. Meu pai deve ter se lembrado de uma frase de efeito de inspiração bíblica que escrevera em um fiapo de papel e colocara no bolso de JK durante um comício em que o povo estava pouco empolgado. O presidente o leu e bradou “Deus poupou-me o sentimento do medo!” (Palmas). Voltando ao policial, na breve caminhada, o sujeito lhe disse que vinha com a missão de prendê-lo, mas que na verdade o agradecia muito por sua filha. Meu pai não entendeu nada.

Iapetec, no Rio
É que o senhor, quando trabalhava no Palácio do Catete, me fez um grande favor, disse ele. Minha filha estava desempregada, estive com o senhor e lhe pedi uma ajuda. O senhor lhe conseguiu uma vaga no Iapetec (o antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas). Sou-lhe eternamente grato, continuou, pois então volto e informo que o deixei sob condições restritas e que o estarei observando. Muito obrigado e adeus, despediu-se. Imagine agora o que sentia minha mãe, lá de cima. Que aflição! Outra vez, Senhor, primeiro meu avô e meu pai, agora o pai de meus filhos? Eu mesmo só vim a saber dessa história depois, em uma conversa com ele e lendo mais tarde sobre o episódio em seu Gaiola Aberta (Ed. Rocco). O fantasma da ditadura trouxera a sombra do prisioneiro para minha mãe mais uma vez, como descreve várias vezes Cecília Meireles em seu Romanceiro da Inconfidência.

Carlos Lacerda, no meio, com seguidores
Voltando um pouco, a tentativa de golpe antes da posse de JK, as ameaças traiçoeiras do Carlos Lacerda, sua patrulha udenista e setores militares (“JK, se for candidato, não será eleito; se eleito, não tomará posse. Se tomar posse, cairá”). Frase, aliás, tomada emprestada de Artur Bernardes e distorcida conforme sua conveniência). Fora a posse garantida pelo Marechal Lott, houve ainda duas revoltas da aeronáutica. Mais tarde, nos chamados “anos de chumbo” Frei Betto, primo de minha mãe, preso, assim como Hélio Pellegrino, amigo da família, os humoristas do Pasquim, Cony, o editor Joel Silveira (preso cinco vezes!) para todos tudo era motivo para o medo, dia e noite. Fora o que ela relatou sobre mim, ano passado, sobre o meu trabalho em peças teatrais do Chico Buarque, shows do Grupo Universitário de Música, festivais e outros possíveis desafios à “ordem vigente”. Mas “Dona Lúcia”, “nossa mãe”, como meu pai a ela carinhosamente se referia, era uma pessoa de nervos de aço. Mandona, sim, mas extremamente carinhosa.

No dia 23 de novembro passado, data do falecimento de sua mãe Lilia e, consta, no mesmo horário e em condições absolutamente semelhantes, com o despojamento dos luteranos de Bach diante do fado inegociável, o destino, terminou por entregar-se. Aos filhos, sozinhos e novamente crianças, restou a serenidade diante do que seria um desejo já manifesto, e àquela altura obviamente irreversível e já maturado pelo tempo. Para quem lutou energicamente uma vida inteira sem conhecer fraqueza ou vacilo, restou-lhe tão somente aceitar os impenetráveis desígnios de Deus. E assim a respeitamos na hora da despedida da sua presença física, e apenas esta, pois sua chama de vida restará acesa em todos os que tiveram com ela a enorme bênção de conviver.
A partir da esquerda: Ofélia, filha; Zé Paulo, genro; João, neto; Lucas, neto,
com seus irmãos Isabela e Pedro no colo, e Marta, ao seu lado; acima, eu; Lucia
e Autran, nossos pais, em momento de lazer em Petrópolis

Gonzaguinha
Peço vênia ao Gonzaguinha para citar uma de suas letras mais inteligentes, que bem exemplifica o mundo que nossa mãe nos deixou, e no final evocar as palavras do poeta carioca, uma reverência aos memoráveis anos de que todos com ela desfrutamos: “Nas avenidas as buzinas gritam alto a nova explosão / numa vitrine está à mostra seu novo tipo de coração / é o progresso em nossa mão, viva a civilização! / Um abraço terno em você, viu, mãe?"

Raríssimo momento, no Rio: de pé, meu pai (esq.) e vô Juquinha. Embaixo,
Vô Dourado, pai de meu pai, com Inês, minha irmã, no colo. Minha avó materna
Lilia,  comigo no colo. Minha mãe, com Lúcio, irmão, minha bisavó materna, 
Zina, e Ofélia, irmã, no colo.