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sábado, 18 de março de 2023

COBRA ENGOLINDO COBRA

 


Recebi um aviso no celular para que os condôminos de onde eu moro limpem e capinem seus terrenos, se vazios, para evitar animais peçonhentos que costumam se alojar entre restos de obras, capim, madeira. Coisa comum onde há mato, áreas verdes como um bosque, lugar onde eles se escondem, entre preás, carcarás e outros bichos. Junto com o texto, a foto de uma cobra enrolada em um poste, lembrando uma das inúmeras ilustrações de Adão e Eva: a árvore do mal, e ambos no paraíso prestes a cometerem o pecado da maçã proibida. Aqui não era uma cobra imensa, como em algumas daquelas ilustrações, nem tinha cara de capeta ou era mais parruda do que o tronco, como em outras. Mas era uma cobra de se tirar o chapéu (e passar correndo)! O condomínio vizinho, já totalmente construído, optou por predadores de peçonhentos como escorpiões: vê-se aqui e ali grupos de pavões, angolas ciscando sabe-se lá o quê, e com sua técnica especial cortam o ferrão do aracnídeo, onde fica o perigoso aguilhão (fonte: Fiocruz).


Mas e a expressão “ver a cobra fumar”? Lembra algo como “galinha criar dente”. Bom, por volta de 1944 corria pelo Brasil o boato de que o país entraria na 2ª Guerra Mundial. A hipótese parecia tão impossível que jornalistas, de chacota, fizeram uma aposta: era mais fácil ver uma cobra fumar do que o Brasil ingressar no conflito (melhor do que galinha criar dente). Pois não é que entrou, e a Força Expedicionária Brasileira (FEB), por ironia, passou a usar como símbolo uma cobra fumando um cachimbo? Toda verde, fundo amarelo, sob um dístico azul onde se lê, em branco - as cores da Bandeira Nacional! - “Brasil”. Um ano antes, o primeiro Grupo de Aviação de Caça criara seu logo: um avestruz com um escudo representando o Cruzeiro do Sul, na asa direita uma arma expelindo uma bala. “Senta a Pua”, bradavam os soldados da aeronáutica, e daí surgiram brasão e lema de combate da Força Aérea.


“A cobra vai fumar” traz uma aura de medo, como “o bicho vai pegar”, e às vezes “é hora da decisão”. Agora, se for por ordem sabe-se lá de quê ou quem – “cobra mandada”, segundo nosso rico folclore -, é um modo de dizer que sob a ordem de alguém do mal fará o mal. O folclorista Câmara Cascudo diz que “cobra mandada” veio da cantiga da roça “os olhos dele são de ‘cobra mundiada’”, entendendo-se por “mundiado” o jeito de olhar de alguém meio que hipnotizado para cumprir o mando do mal. Já quando se diz que fulano gritou “cobras e lagartos” é porque a pessoa falou coisas terríveis sobre outrem. E “copla” era uma deliciosa forma poética espanhola de métrica variável da Idade Média, como o villancico, com coplas (estrofes) variáveis. Na América Latina, casta e pura, a copla veio a mesclar-se de vez às canções de Natal.


Algumas expressões associam “cobra” a experiente, com expertise em algum assunto, tal como “ele é cobra nisso” (ou, ao contrário, malaco, “cobra criada”). Não somente nas coisas ruins, às vezes tem um lado bom. Pois se “ninho de cobras” é lugar onde vai gente ruim, pode ser também o da elite experta. Há cobras na música: o serpentão, instrumento sinuoso de sopro criado na França do século 16, e sua variante “serpent d’église” (de igreja), entre vários outros. Há a dança do fandango paulista que é brincada serpenteando – daí o “cobra” -, nome também da “cobrinha”, um passo jocoso do maxixe. Cobra, na cultura popular, tem essa ideia de fila, como em “olha lá vai passando a procissão / se arrastando que nem cobra /pelo chão” (G. Gil).


Não é sem um pouco de maldade que se diz “matar a cobra e mostrar o pau”, algo como “resolver o assunto e provar”, geralmente em auto-exibição. Haja vista a historieta contada por Monteiro Lobato, em seu livro “Fábulas” (SP: Ed. Brasiliense, 1960), “O homem e a cobra”: nesta fábula, ao encontrar uma cobra ferida, ele a levou ao peito, para aquecê-la, e chegando em casa colocou-a junto ao fogão. Saiu para trabalhar e, ao retornar, lá estava ela toda cheia, com a língua esticada, em posição de bote. O sujeito, furioso, armou-se de um pedaço de pau e a matou, chamando-a de ingrata. Diz-se que se alguém mata a cobra a pauladas e, como fosse um estandarte, ele a exibe, é para mostrá-la como troféu. Já cobra que perde o veneno é o gaiato que fica atormentado com algo ruim que lhe aconteceu, mas é incapaz de reagir.


Ah, elas são terríveis: podem ser más ou nem tanto, mais dóceis ou assassinas; dão nome a danças, instrumentos ou festejos de procissões, são o fiel da balança do mal entre Adão e Eva ou, ao contrário, o mensageiro da tentação. Na farmácia, o cálice está associado à cura, e a serpente ao saber, à ciência. Mais ainda: na medicina, Asclépio, deus da cura na mitologia grega, tem em seu bastão a cobra-símbolo do espiritual sobre o corporal, a própria constante renovação (troca de pele, ou couro), entre a luta para salvar e o risco ver morrer; também se atenua ou anula um veneno com o seu próprio (e não seria essa a base para vacinas e tratamentos alternativos, como a homeopatia?).


Pelo sim, pelo não, mesmo havendo aqui e ali um lado simpático no popular, é de bom alvitre carpinar o mato, como se diz no interior, para afastar o risco desses animais peçonhentos, como as cobras-Quixotes e suas companheiras Sancho Panza, as lagartas. “Cobra engolindo cobra” é briga sem fim, de igual para igual, dizem os jagunços; é cantoria em ‘moto perpétuo’, estrofes de duas palavras – cobra e engolindo - repetidas emendadamente, como rosca sem-fim. 

Bora, povo, carpinar, roçar e limpar o matagal!



 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

OS BICHOS E A MÚSICA


Seja em  nosso folclore, no de outras regiões ou países, seja na música clássica, popular ou de vanguarda, a fauna sempre está presente. A associação entre animais e música surge tanto pelo som quanto pela aparência de um instrumento, pela forma da obra ou pela técnica de composição. Caranguejo, do latim cancer, o crustáceo, dá nome a uma dança do fandango do sudeste brasileiro. E é também um tipo de composição canônica – também do latim, canon, que quer dizer regra, e é forma que vem de meados do século 13. Vozes de uma mesma curta melodia vão ingressando em compassos diferentes, até que elas se entrelaçam em uma cantilena sem-fim, como na conhecida brincadeira infantil Frère Jacques.
Serpentão
Cobra é uma dança do fandango paulista em que homens e mulheres, organizados em sinuosas filas (de onde o nome da festa), dançam, sempre acompanhados por violas caipiras e violões. Gilberto Gil canta Procissão em sua religiosidade sincrética - ora católica, ora umbandista, como bom baiano -, lembrando o andar sinuoso do réptil: “Olha, lá vai passando a procissão / se arrastando que nem cobra pelo chão / e as pessoas que nela vão passando / acreditam nas coisas lá do céu”. O serpentão (em francês, basson serpent, ou basse-cor), é um instrumento de sopro derivado do corneto, criado na França do final do século 16. Tinha voz grave e formato de “S”, e reforçava a voz dos baixos nos coros das igrejas. Caiu em desuso no séc. 19.
Pedro e o Lobo é uma obra sinfônica brincalhona e didática de Sergei Prokofiev (1891-1953) cujos personagens são Pedro (violino), seu avô (fagote), o ágil gato (clarineta), o passarinho (flauta) e o pato (oboé). E os caprinos? No Brasil, bode não é coisa boa, pode ser a ressaca de um porre, um azar ou coisa ruim, como cantou Macalé nos anos 1970: “Se amarrar algum bode eu mato / se amarrar algum bode eu morro / mas eu volto pra curtir”.
Depois de crustáceo e réptil, um aracnídeo. A tarântula, ou caranguejeira, é uma aranha peluda que desperta medo, mas seu veneno, no século 19, era usado para fins medicinais. Tarantulismo seria um distúrbio mental, compulsão frenética para dançar, mazela atribuída à picada do bicho. Dança em agitado compasso 6/8 originária de Taranto, na Itália, à tarantela, no século 17, eram atribuídos poderes de neutralizar o veneno daqueles bichos peçonhentos. Pelo velocíssimo andamento, requerem virtuosismo do instrumentista, como nas tarantelas de Liszt, Glière, Saint-Saëns, Sarasate, Bottesini e vários outros.
A divertida tarantella (Brittanica)

Cavalo marinho
Ah, os equinos! Na capoeira, cavalaria é um toque que serve para avisar os jogadores quando a polícia se aproxima. A cavalgata, ou cavalhada, tradição que vai do sul do Brasil à Bahia, é algo entre cena de dança com espadas e duelo com lanças sobre cavalos, representando a luta entre mouros e cristãos durante a ocupação da Península Ibérica. O cavalo-marinho é um festejo pernambucano das comemorações natalinas que vão até o dia dos Reis Magos. Acompanhado por rabeca e percussão, perfila com bovinos: boi-bumbá, o bumba-meu-boi maranhense, ou o boi-calemba do Recife. Mas muito cuidado! Nunca diga boi com abóbora perto de um carnavalesco, a expressão se refere a samba ruim, mal-ajambrado.
Cavalo marinho, o bicho.

Falando em bovinos, cabe lembrar o boi voador, animal empalhado a mando de Maurício de Nassau, governador da colônia (séc. 17), que deu troco  à negativa da coroa holandesa de financiar uma ponte sobre o Capiberibe, entre Maurícia e Recife (o reino neerlandês advertira: verba para ponte “só no dia em que boi voar”). Às suas próprias expensas, Nassau fez  a ponte, mas encomendou um boi empalhado, sob roldanas, que atravessou o rio, na inauguração, como um teleférico. Inspirou Chico Buarque na divertida “Boi Voador”, que liga a anedota de Nassau com o período em que a censura havia proibido falar do boi gordo retido no pasto, retardando o abate: “Quem foi, quem foi / que falou no boi voador / manda prender esse boi, seja esse boi o que for”.
Besouro (Fiocruz)
Há também insetos como o besouro, um coleóptero pesado para as finas asas traseiras que o fazem voar (as dianteiras servem apenas de carcaça). Elas têm de se agitar com muita velocidade para alçar o bicho a voo, fazendo zumbido. O compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908) é autor de uma ópera, A Lenda do Czar Saltan, em cujo terceiro ato o príncipe Gvidon, filho do monarca, pede a um pássaro mágico que o transforme em um besouro, para que possa ir ter com seu pai - a música descreve o voo errático e agitado do inseto. Mas o “Voo” descolou-se da ópera e passou a ser mais conhecido como peça de concerto de grande dificuldade, tendo sido gravado por boa parte de nossos virtuoses do piano e violino. O lendário flautista James Galway usa a técnica da respiração circular (circle breathing), para que o “voo” não sofra interrupção – ele inspira pelo nariz enquanto assopra no bocal o ar armazenado.
(worldwide.org)
O Elefante dá nome a  um solo dos contrabaixos em O Carnaval dos Animais, do francês Camile Saint-Saëns (1835-1921), o quinto dos catorze movimentos que representam diversos bichos. O 13º, O Cisne, é repertório de dez entre dez violoncelistas, em cuja versão para balé a fenomenal Anna Pavlova fez um cisne inspiradíssimo (1905), sublime dança de luta contra a morte até o momento derradeiro. Assista:


Uma tese sobre bichos e música seria um trabalho interminável. Busquei apenas homenagear os animais, nossos companheiros e inspiração. E os melhores amigos!