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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

SEM AÇÚCAR, SEM AFETO

 


Chico Buarque tem muitas canções e letras dedicadas a mulheres
, algumas para serem por elas cantadas. Em 1966, compôs para Nara Leão: “Com açúcar, com afeto / fiz seu doce predileto / pra você parar em casa”. Palavras de esposa submissa, como era costume no passado – aliás, realidade que teima em sobreviver até hoje: a mulher subserviente. Era a primeira música em que o compositor assumia sua porção mulher, cantando como se tal fosse. Nara havia dito que gostava de canções “em que a mulher fica em casa, chorosa, enquanto o marido fica na rua, farreando” (HOMEM, Wagner. Chico Buarque. SP: Ed. Leya, 2009). Nem o doce favorito pôde fazê-lo abrir mão da boemia: entra em um bar a cada esquina, chega em casa quando quer.


Chico repete o tema muitas vezes
, como em Cotidiano (1971): “todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã / me sorri um sorriso pontual / e me beija com a boca de hortelã”, rotina servil do dia a dia. Em Feijoada Completa (1977), ele manda a esposa fazer comida ‘pra um batalhão’: “...bota a mesa no chão que o chão tá posto / e prepare a bebida e o tira-gosto” (...) / “Aproveite a gordura da frigideira pra melhor temperar a couve mineira” - assim, comandaria a sonhada festa de anistia para quando os exilados retornassem ao Brasil (op. cit.).


Em Mulheres de Atenas, fala em nome dos homens
: “Mirem-se no exemplo / daquelas mulheres de Atenas / Vivem pros seus maridos / orgulho e raça de Atenas”. A veia poética do autor foi buscar na antiguidade grega o retrato em que as mulheres de hoje se espelhariam. Chico, machista da pior laia? Para quem o conheceu, claro que nunca. É sangue do poeta como que cantando o sofrimento da mulher no dia a dia: manda-a servir a mesa para os amigos se esbaldarem de feijoada e cachaça, ou se servem ao homem que retorna a Atenas após a batalha. Realidade que não é a dele, Chico, um gentleman, tímido que só. Mas é o que acontece, como foi no passado e ainda hoje insiste em rondar as páginas dos jornais – mulheres exploradas, seviciadas e até assassinadas. E como ainda há disso nesses brasis!


Mas de onde este assunto?
Chico declarou em um documentário sobre Nara Leão que não mais cantará Com Açúcar, com Afeto, dizendo-a uma canção machista, embora há décadas fora de seu repertório. Ou se arrependeu de cantar como se fosse uma mulher? Não proibiu a canção, nem haveria como, mas provocou um escarcéu.


Nosso cancioneiro estaria ceifado pela metade segundo a lógica pós-moderna
, a tal ‘politicamente correta’. E seriam proscritas tantas músicas, como as que os carnavais cantaram: “Olha a cabeleira do Zezé / será que ele é / será que ele é?”  (J. R. Kelly e Roberto Faissal, 1964). Homofóbica ao extremo, diriam hoje. Também politicamente incorreta, do “misampli a ferro e fogo / não desmancha nem na areia” e “nega do cabelo duro / qual é o pente que te penteia?” - com essa deliciosa aliteração percussiva, “tiquití” (R. Soares e David Nasser, 1942, ano de Amélia, do Ataulfo e Mário Lago). Homofóbica e racista, diriam hoje de uma e outra, com certeza.

Navio Negreiro (Rugendas, 1803)

O francês Debret (1768-1848) e o alemão Rugendas (1802-1858)
, pintores que viveram no Brasil e retrataram negros tratados como fossem animais de carga e recebendo chibatadas, deveriam ser esquecidos por mostrarem a dura realidade daquele tempo? E O Navio Negreiro (1868), do grande poeta Castro Alves, obra-prima de nossa literatura, falando dos negros sendo arrastados à força da África para serem trazidos em um navio a fim de servirem de escravos aos senhorios? Seria esse poema para ser esquecido? Mais: Cleo Monteiro Lobato, neta do escritor, trocou" a boa negra deu uma risada gostosa, com a beiçaria inteira", por "Nastácia deu uma risada gostosa").


Retrata-se o mundo tal como ele é ou era, coisas atuais, vivíssimas, ou de época. Pois se existiu - e de alguma forma ainda existe -, é como retrata Drummond, em Confidências de um Itabirano: “Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói!” A dura realidade do negro, da mulher, do índio, dos homossexuais e minorias ainda perdura, como no recente sacrifício do congolês Moïse Mugenyi Kabagamba, 24, em um quiosque da Barra da Tijuca chamado Tropicália, por cobrar duas diárias que lhe eram devidas como empregado (Caetano disse que chorou quando viu o nome do movimento que incluía Gil, Gal, Mutantes, Capinam e vários outros, além dele, e “sobretudo Hélio Oiticica, que criou o termo”, associado ao episódio).


Voltemos ao Chico
, que afirmou em um documentário sobre Nara Leão, para satisfazer as feministas, que não mais cantaria aquela faixa, (BBC News, 2/02). Mas foi mais razoável à revista Realidade, em 1972, quando disse que tem “controle limitado sobre o que compõe” – ou seja, podem cantar, fazer o quê? Mas ele não mais canta por apelo das feministas? Claro que explorar psicologicamente esse filão dá ‘pano pra manga’, é rosca sem-fim. Chico não precisa de autopromoção, mas o que o levou a declarar que não mais cantará uma música fora de seu repertório há mais de cinco décadas? E as tantas outras que falam da submissão e da exploração da mulher? Segundo Andreia Oliveira, a música “pode ser entendida como um modelo de relação de gêneros a não ser seguido” (UFRJ: Dissertação de mestrado, 2018). Nas redes sociais, mulheres que se declaram feministas afirmam que não veem nela a defesa da submissão da mulher

Enigmas o gesto do Chico, o lado feminino do homem, o machismo, o racismo e outros ‘ismos’ que nunca serão totalmente decifrados.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

EDUCAÇÃO ESCOLAR E O MITO DA CAVERNA DE SOBRAL

 


Sobral, a 230 km de Fortaleza, no Ceará, com 210 mil habitantes, tem sido alvo de várias publicações e estudos, como a tese de doutorado de Ana Calil (PUC-SP). Mas o que faz a cidade despertar tanto interesse? Segundo Patrick Cassimiro e Gustavo Heidrich, em 2001 a cidade tinha 50% de alunos analfabetos do 3º ao 5º anos. Em 2015 as notas haviam dado um salto: média entre 4,0 e 8,8 nos primeiros anos. Uma escola municipal, a Emílio Sendim, chegou a uma média de 9,8! (Publicado em “O que explica o fenômeno de Sobral” - Nova Escola, com base no IDEB).


Lá, 95% dos alunos
mostraram “competência na leitura e interpretação de textos”, 38% acima dos 57% nacionais. A preparação de professores focou quatro pontos: Formação, Avaliação, Meritocracia e Seleção. No primeiro, Formação, 16 horas/mês de capacitação dos mais de dois mil docentes da cidade. Em Avaliação, provas semestrais de português, matemática, redação e ciências, aplicadas por especialistas externos, davam rumo às metas e incluíam prêmios e gratificações para os docentes. Na Meritocracia, um programa de metas que premiou com até R$ 2.800,00 os professores e outro tanto diretores e coordenadores; por fim, o item Seleção vedou a indicação política de diretores: a escolha dura três meses, entre provas, entrevistas, cursos e prova de títulos. Os aprovados têm autonomia para escolher sua equipe.

(AgoraSP Editorial)

Publicado em 10 de maio de 2019
com amparo da SBPC pela Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, “Sobral, um caso de sucesso educacional no semiárido nordestino” sustenta que, apesar de localizados em uma das regiões mais pobres do pais, os alunos locais têm excelentes índices nas “provas padronizadas de língua portuguesa e matemática (Prova Brasil)” e baixíssimos números de repetência - a performance dos alunos da cidade seria uma “enorme exceção” no contexto da educação no Brasil. Com trajetória apenas comparável à de Sobral, treze municípios estão no Ceará, dez em Minas Gerais e sete em São Paulo! Internacionalmente, a cidade é considerada um exemplo de que a escola “pode fazer a diferença” (Tomlinson, 2013).


O Comciência ressalta que Sobral ocupa a primeira posição em nível brasileiro, reserva espaço especial para a língua portuguesa e se destaca mesmo se comparada a municípios de renda muito mais alta. A prática da redação e da leitura são elementos primordiais não apenas para a formação do indivíduo - é por meio do raciocínio e da compreensão de textos que lógica e percepção encontram campo fértil para seu pleno desenvolvimento. Meu pai, em uma de suas tiradas, disse: “se todo mundo lesse Machado de Assis, menos pessoas morreriam nas mesas de cirurgia e menos viadutos cairiam” (em 1971, auge da ditadura Médici, acontecera o desabamento do Viaduto Paulo de Frontin, no Rio, citado na letra de Aldir Blanc para o sucesso de Elis Regina: “Caía / a tarde feito um viaduto” – poesia repleta de simbologias e referências, inclusive a Clarice Herzog, viúva do jornalista preso e assassinado).

Sobral: linha pontilhada

Analisado nacional e internacionalmente
, o sucesso de Sobral é creditado às
políticas educacionais e às lideranças políticas (Becskeházy, 2018; Pontes, 2016; Sumiya, 2015; Maia, 2006; Inep, 2005). Diversas teses e publicações científicas apontam para o plano de alfabetização de 2001, que chegou ao ápice com o novo currículo escolar do município, em 2015. Do ponto de vista político, em 1997 o governo decidiu “vencer práticas arraigadas pela cultura de gestão pública baseada no patrimonialismo, clientelismo e coronelismo”. Os alunos são alfabetizados no 1º ano do ensino fundamental e, a partir daí, passam a ler para aprender. “O primeiro segredo de Sobral foi acertar no processo de alfabetização e monitorar seu resultado continuamente” (Oliveira, 2015).


O Comciência destaca a evolução da leitura
entre os estudantes de Sobral: de 60,7% dos alunos incapazes de ler simples palavras em 2001 para 90% deles lendo textos, em 2014. As novas estratégias foram dirigidas e focadas em um objetivo bem definido e acompanhado, favorecido pela continuidade do processo, sem sobressaltos nas mudanças de gestão municipal que pudessem interromper o avanço educacional.

São Raimundo Nonato (PI)

Nos anos 1990
um banco francês resolveu fazer uma experiência. Em São Raimundo Nonato, no Piauí, a 576 km da capital, Teresina, seria criado um projeto-modelo experimental de educação. Em pleno agreste, calor medonho, seria criada uma espécie de imensa bolha física, com ar condicionado, onde alunos teriam uma educação de excelência em todas as disciplinas, incluindo literatura, música e artes plásticas, com professores de ponta. Fui sondado para coordenar o setor de ensino musical, posição que significaria muitas complicações na minha vida e de meus filhos; não valeria a pena, a despeito do salário irrecusável.


Não sei no que deu
, mas parece que o projeto do banco morreu na praia – ou, melhor, a centenas de quilômetros dela. O plano foi pensado para a cidade porque, apesar dos seus parcos 35 mil habitantes (IBGE), lá estão unidades do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, a Universidade Estadual do Piauí e a Universidade Federal do Vale do São Francisco. Portanto, uma grande concentração de cérebros voltados ao ensino.

São investidas diferentes em um mesmo problema: a educação escolar no Brasil. Se não dá mais para saber em que consistia o projeto experimental francês para São Raimundo, há muito o que aproveitar da vitória de Sobral, um Mito da Caverna de Platão no agreste.



 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

BRASIL, UM PAÍS DE LEITORES?

 


Eis um problema da competência de todos
. Se não há livros em casa, não se recebe esse incentivo dos pais no próprio lar, de onde surgirá o interesse pela boa leitura? As escolas, principalmente as públicas, que em geral abrigam os estudos dos alunos mais carentes, talvez sejam o principal caminho. Cada unidade pode ter sua biblioteca formada por doações espontâneas, campanhas oficiais, auxílio da comunidade e mutirões. Claro, é preciso que ao menos um professor em cada escola tome a liderança, com o apoio da diretoria,  levando os demais a se interessarem pela questão,


Fora isso, há programas
cujas origens remontam a 1929, quando foi criado o Instituto Nacional do Livro. Em 1985, surge o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) com o decreto 91.542 do presidente José Sarney. À parte o presidente ser autor de vários livros, a preocupação com a literatura veio no bojo de um conjunto didático. O PNLD depende de governantes e ministros: em 1990, durante a gestão de Collor de Mello, o programa suspendeu boa parte da distribuição de livros às escolas, e em 1992 restringiu-a ao período da 1ª à 4ª série do ensino fundamental, ou seja, algo bem básico para engordar outros setores da economia – sem entrar no mérito do destino das verbas. Em 2009, com Lula e com o impulso do prof. Fernando Haddad, da USP, ministro da Educação, o programa, via Correios, distribuiu 103 milhões de livros entre 140 mil escolas do Brasil, uma média de 735 livros por escola.  O PNLD disponibiliza obras didáticas, pedagógicas e literárias para todas as escolas públicas do Brasil, entre federais, estaduais e municipais. Para o segundo semestre de 2022, voltou-se a restringir a distribuição para apenas três séries do ensino médio.

Eslováquia

Que o Brasil não é,
definitivamente, um país de leitores, todos sabemos. Mas os números parecem enganar: em sétimo lugar, atrás apenas da Eslováquia, Malásia, Romênia, Tailândia, Espanha, Rússia e Turquia, 74% de brasileiros compraram ao menos um livro no ano (dados: Picodi). Trata-se, é bom dizer, de uma média aritmética simples, uma única operação. Fosse uma média ponderada, veríamos que há uma casta de apenas 6% de pessoas que compram livros ao menos uma vez por semana e outra faixa, de 46%, uma vez por mês, o que catapulta os resultados no geral, criando uma ilusão de que somos um “país leitor”, quando na verdade 31% nunca leram absolutamente nada. Em geral, 14% acham os livros muito caros, e 10% exorbitantes (fonte: MoneyTimes).


Os grupos de um e quatro livros por mês
(46% e 6%), grandes responsáveis pela alta média, não representam a realidade brasileira: os números de aquisições iludem, pois são distribuídos per capita, e incluem o universo de pessoas que não têm qualquer tipo de carne no prato, os inúmeros que passam fome e tantos que sequer sabem ler (o deputado da Assembleia de Minas Pedro Ivo, o Pinduca, gaguejou e não conseguiu ler seu compromisso de posse em 2015; logo no começo parou, largando o papel, e disse “o que importa é que eu estou aqui”. E o mais triste: faleceu no ano passado de Covid-19).


Em Boston e NY
pode-se notar os vagões de metrô cheios de pessoas com livros na mão: escolares, técnicos, acadêmicos e literatura. Em Londres, principalmente, dada a variedade religiosa da população, vê-se muitos livros sagrados como a Bíblia, o Torá e o Corão, lado a lado com a prosa e a poesia. Assim também é nas praças e outros lugares públicos. Geralmente, em âmbito da literatura, não leem muito boa coisa: são os chamados paperbacks (de capa mole, baratos), ou de bolso, com frequência best-sellers - aprendi com meu pai a manter um pé atrás com esses últimos, pois se vendem muito não devem ser coisa muito boa, dizia (mas o costume de ler em muitos países já é um trunfo).  Lembro-me dele dizendo: quer conhecer uma pessoa? Veja o que ela lê.

Metrô de NY

Os livros são o registro da história
, nossa cultura, o trabalho dos criadores, poetas, romancistas, biógrafos, e nunca serão substituídos por outros meios. Mesmo que hoje se possa ‘baixá-los’ até de graça em pdf em tablets, ou nos paperwhite (branco-papel), que têm a virtude de não emitir a nociva luz azul: minúsculos pigmentos de grafite se aglutinam para formar os textos sob a luz natural, como um livro de papel.  O problema maior que vem somar a essa falta de leitura do brasileiro é o smartphone, ou mesmo um simples celular, aparelhos em que os jovens usam uma taquigrafia de dois polegares para passar curtas mensagens em um dialeto tribal sem acentos: “pq vc naum vm k”? “Naum to di boa”, e por aí vai.


Não é a informática, em si, o problema
, pois no computador pode-se ler jornais, trabalhos científicos abalizados ou uma boa poesia. O celular, com seus programas Whatsapp, Instagram, Tik-tok e Telegram, este último na mira do STF pela possibilidade de descontrole em período eleitoral – a sede é em Dubai, o produto é russo e não respondem à imprensa, à Justiça, a ninguém. Nesses apps sociais tem domínio a preguiça, e além da taquigrafia tribal usa-se gravar mensagens, preservada sempre a norma de não ultrapassar dois minutos ou parcas linhas para não chamarem de “textão”, outro neologismo. Ter livros em casa força o leitor a erguer-se e ir à estante buscá-los, ler fontes confiáveis e ao ótimo costume de, na dúvida, consultar, retendo o possível na memória.  

Termino com uma boutade genial do comediante Groucho Marx: “Acho a TV muito educativa. Toda hora que alguém a liga, vou para outra sala ler um livro”.



 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

INFLAÇÃO: EU JURO QUE JÁ VI O MONSTRO!

 

Maluf e Tancredo (Brasil Escola)

Havia retornado dos EUA fazia pouco tempo
. Após aqueles anos, estranhava muita coisa, voltava a um Brasil que reassumia o curso democrático: veio a eleição indireta Maluf x Tancredo, sendo o primeiro um simulacro para a continuidade sem farda de um grupo do regime; o segundo, um civil representando a esperança do povo brasileiro, mesmo que via indireta, após 20 anos de regime de força. Tancredo morreu antes de assumir, em circunstâncias que até hoje suscitam dúvidas sobre a diagnose, bem ao sabor das teorias conspiratórias. O vice, Sarney, tomou posse, e apesar de egresso da antiga Arena, era um civil à sombra do Tancredo. Mesmo com todo o frenesi despertado pela morte do eleito, o vislumbrar da redenção dos brasileiros e a proximidade de uma democracia de verdade, dizia-se que os militares “entregaram a rapadura com uma bomba-relógio dentro”: a inflação. Figueiredo, o último deles, deixou de bandeja cheia o comando do país para Sarney, 15,06% ao mês.


Ainda assustado
, passei a compreender melhor a economia descontrolada do país e o mote ‘dinheiro parado, dinheiro perdido’. As contas a pagar eu levava, pela ordem do vencimento, em uma pasta de plástico com divisórias. Como não havia Internet e outras facilidades de hoje, ia ao banco saldar meus compromissos no dia certo, aos 45 minutos do segundo tempo. Havia uma espécie de aplicação financeira chamada overnight (‘durante a noite’) que chegava a pagar 1% ao dia, percentual hoje raro de se ver em um mês em investimentos similares. Como esse 1% era cumulativo, em 30 dias chegava-se a uma cifra nominal considerável – se esquecida a inflação estratosférica. Resumindo, deixar para pagar as contas no vencimento trazia aquela sensação confortante de “lucro” que, mesmo irreal, parecia ganho diante da desvalorização diária. Com o Cruzado, de 1986, o primeiro dos grandes planos fracassados, vieram os “fiscais do Sarney”.


Volta e meia eu proseava
com o grande maestro Eleazar de Carvalho, um homem de inteligência raríssima aliada à perspicácia do nordestino alçado a cidadão do mundo, respeitadíssimo no meio musical. Certo dia, saindo do ensaio, fui com ele tomar um cafezinho perto do teatro, e, preocupado com aquela verdadeira montanha-russa de altos e baixos entre aplicações e inflação, resolvi perguntar o que ele achava daquilo tudo. Como sempre tinha uma frase lapidar na ponta da língua, respondeu: nunca vi um país fechar, mas pode sempre haver uma primeira vez. (Claro, era uma frase hiperbólica, um exagero usado na retórica e na escrita - no caso, até surreal, mas uma franca confissão de desengano.)

Collor com PC e Zélia

Fui para casa refletindo.
Não, o país não fecharia – aliás, me confortava lembrar que se não havia “fechado” em 20 anos, não seria em mais um assalto do tropel galopante da inflação à sombra do retorno “lento, gradual e irrestrito” à democracia, como dizia o general Figueiredo, último presidente militar (1979-1985) - redenção que só aconteceria de verdade com a Constituinte de 1988, abrindo as janelas para o Estado Democrático, e a eleição direta de 1990, a primeira depois de 1961! Eleito Collor de Mello, malgrado o grande erro, e daí em diante com ele, seguimos em frente tropeçando em um novo tiro no escuro, o Plano Collor, dos confiscos bancários e do submundo do “tesoureiro” PC Farias, ironicamente ligado a um presidente que, dada sua suposta beata correição, era conhecido pela alcunha de “caçador de marajás”, e quase levou o Brasil a um estrago sem precedentes. Recebeu um país com hiperinflação para entregá-lo ao fim de 1992, após a renúncia, com 25,24% ao mês.


Veio um hiato, iniciado com Itamar em 1994
, quando foi criada a URV (Unidade Real de Valor) e logo deu-se início à desindexação monetária. A inflação já estourava em 46,58% a.m., e em julho daquele ano, sob a liderança de Fernando Henrique no ministério da Economia, veio uma nova moeda, em paridade com o dólar, chamada Real (BRL). FHC assume a presidência em 1995, e consegue manter a estabilidade da moeda, seguido em boa parte por Lula, Dilma e Temer.

Centrão (Gazeta do Povo)

Em sua posse, Jair Bolsonaro
recebeu uma inflação bastante razoável, 3,75% a. a. (IBGE). Porém, seria ingênuo debitar os números crescentes atuais apenas na conta do presidente. Dividem essa conta a conjuntura internacional e a pandemia, que sufocam a atividade econômica. Coadjuvantes são uma gestão errática, o índice do IPCA, em 10,06% a.a., seguido pela saltitante taxa básica de juros (Selic), ora em 9,25%, remédio com efeitos colaterais no afã de conter a maldita inflação. Não há política econômica, apenas projeta-se reformas disso e daquilo. Paulo Guedes não decide sem o aval superior, e teve seu raio de ação desviado para a Casa Civil do ministro Ciro Nogueira, do chamado Centrão, que passa a ter o poder de brecar as decisões da pasta da economia, controlando-a.

Chicago Boys com Pinochet, ditador do Chile 

Da mesma forma que seria ingênuo
debitar a inflação apenas na conta do presidente, também seria fazê-lo ao ministro da Economia, perdido entre as teorias liberais dos chamados “Chicago Boys” do Milton Friedman e uma retórica vaga e oscilante. Trata-se de um conjunto de ações que, desorganizadas em uma gestão confusa de per si, ameaça perder régua e compasso entre volumosos gastos públicos: esbanjamentos, mordomias, orçamento secreto, benesses salariais para setores privilegiados com vistas à reeleição e outras sangrias aos cofres públicos. Seja quem for, o eleito que ocupar o cargo em 2023 precisará de um grande ministro e muito boa sorte.

                                                                



sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O QUE VOCÊS FIZERAM NAQUELE 6 DE JANEIRO?

 


O que teria acontecido nos EUA naquele dia de 2021?
Um fenômeno de massas desencadeado de forma nunca vista no país enquanto república democrática! O que levou as pessoas ao descontrole, àquele ponto? São perguntas que historiadores e cientistas sociais ainda não conseguiram responder a contento – afinal, fenômenos de massa não são palpáveis, geralmente nem é possível contabilizá-los pela absoluta falta de meios. Porém, um caso isolado pode servir de amostra exemplar do todo pela parte, peças que refletem como pequenos espelhos o quadro geral do acontecido.

A denúncia contra Bancroft

Uma amostra poderia ser Dawn Bancroft
, pacata eleitora republicana da Pensilvânia, proprietária de um estabelecimento de fitness que por impulso resolveu viajar até Washington, D. C., capital do país, seguindo afoita o brado de Donald Trump, derrotado nas eleições presidenciais americanas: “lutem com todas as suas forças!” Junto com uma amiga, chegou à Constitution Ave., e tendo a pressão da massa ensandecida como elemento contaminador de seus instintos mais reprimidos, com ela atravessou uma vidraça espatifada e invadiu o Capitólio, sede das casas legislativas do país. Segundo o The Economist (7/01/22), elas estavam “à caça” de Nancy Pelosi, então líder do partido Democrata e presidente da Câmara dos Representantes após a posse de Joe Biden, "para meter uma bala na cabeça dela, mas não a encontramos”. Saldo: 5 mortos e mais de 100 policiais feridos.


Disse o jornal que, diante do juiz Emmert Sullivan
, Bancroft reconheceu sua culpa na invasão. O magistrado suscitou uma questão estarrecedora: o que faz gente de bem, que nunca teve problemas com a lei, de repente transformar-se em terrorista? (Lembra o título da obra Pergunta sem Resposta - Unanswered Question -, do norte-americano Charles Ives composta em 1908). Todas as atitudes coletivas podem ser bem analisadas, mas nunca esclarecidas; no campo psíquico podem ser investigadas à luz de Carl Jung (1875-1961), ligado a Freud, que via dois segmentos no inconsciente: o pessoal e o coletivo. Este último seria o “conjunto de imagens primordiais, representações coletivas que são heranças de geração e que constitui os traços coletivos verificados no interior do psiquismo de cada indivíduo (...), imagens a que deu o nome de arquétipos (...), que não são jamais conscientes e não proveem de uma experiência pessoal do indivíduo”. Esses arquétipos são sempre inconscientes, “exprimem-se por símbolos que chegam ao consciente e podem invadir os sonhos ou se traduzir em mitos” (in Apoio às Disciplinas, USP).


A pergunta do juiz Sullivan
no caso Bancroft continuará sem resposta, mas as explicações de Jung sobre o inconsciente coletivo esclarecem até para nós, leigos no assunto, onde se encontra o cerne da questão, e se não trazem respostas ao menos lançam uma luz clara sobre o inconsciente coletivo no comportamento das massas: “esses arquétipos chegam ao consciente e podem invadir os sonhos ou se traduzir em mitos”. (O excelente dramaturgo e frasista Nélson Rodrigues, assumidamente de direita, proferiu uma lapidar: “a massa é ignara”).

Corpos de Benito e Clara

O inconsciente coletivo
pode levar a grandes convulsões, distúrbios de massa como o linchamento de Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci, que terminaram pendurados pela turba de cabeça para baixo em uma viga de um posto de gasolina, como fossem bois abatidos em um açougue. Na famosa música Devoção ao Demônio (Sympathy for the Devil), dos Rolling Stones - que Mick Jagger diz ser um “samba” influenciado pelo Candomblé da Bahia, onde o grupo ficou por semanas -, ilustraram com o demônio esses arquétipos humanos: “Eu estava lá, em São Petersburgo / quando vi que era hora para mudança / Matei o Czar e seus ministros / Anastasia gritou em vão / (...) Eu gritei: quem matou os Kennedys? / Quando afinal fomos eu e vocês”.

O monstro do Lago Ness

O inconsciente coletivo potencializa forças
, destila o ódio nas veias ou, como me disse um velho russo: faz a urina subir à cabeça. E há sempre o fanatismo e a ocasião para acionar o detonador no momento propício para agir: elas precisam ouvir algo como uma voz ecoando na revolta trancada na profundeza de suas mentes: “lutem com todas as suas forças!”, brado de Trump, estopim que incendiou as supostas fraudes nas urnas de votação – foi o estímulo que apontou evidências inexistentes de manipulação, tentativa frustrada de alcançar a vitória “na marra”. O que queria o então presidente, conclamando aquela invasão ensandecida e abilolada, sabendo que poderia desencadear um morticínio sem proporções? Outra vez uma incógnita, pois os desígnios de extremistas descontrolados são impenetráveis. Sabe-se também que é necessária uma liderança com energia suficiente para fazer emergir, tal como o monstro do Lago Ness, o intangível, o quase sobrenatural, que satisfaça sua volúpia e abra espaço para seus sonhos e pesadelos: é fundamental criar o caos, grande aliado no erguimento de um Estado de fanáticos.


CNN, 10/12/2021
: “Eleitores que acham que Trump venceu são os mais entusiasmados para votar em 2022” (para o Senado). “Por uma vantagem de 74% contra 25%, republicanos e independentes com tendência republicana dizem que Joe Biden não obteve votos suficientes para vencer a eleição de 2020 legitimamente”. A ocasião, a arma e os motivos – ainda que falsos – deverão estar presentes outra vez na eleição presidencial de 2024, e a decantada democracia americana será colocada de novo à prova, servindo de exemplo para o mundo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

RETROSPECTIVA INTROSPECTIVA E O BANQUETE DOS MENDIGOS

 


TVs, jornais, revistas, Internet. Por todos os meios, nos últimos dias do ano passado houve uma avalanche de retrospectivas, depoimentos ou flash-backs, como se dizia dos trechos de antigos filmes lembrados no presente. Em sua primeira acepção, O Houaiss define retrospectiva como “uma exposição em que se apresentam as obras de um artista, de uma escola, com perspectiva histórica, mostrando a respectiva evolução <o museu fez uma r. da obra de Lasar Segall>”. Interessante definição, além da costumeira a que me referi no princípio, até porque temos visto mais um retrospectivo (s.m.), “relativo a fatos passados; que se volta para o passado” - desde o advento da telinha, um flash-back picotado do que se foi com o ano velho.


Quem nasceu de quem
, quem morreu entre as ‘celebridades e famosos’, especialmente em tempos de pandemia, deram o tom dessas coleções de ‘quadros em uma exposição’, que depois começam a se diluir nas névoas dos dias, meses e anos. Houve o que se pinçar entre uma coisa boa aqui e outra ali: feitos olímpicos, medalhas, maratonas, casamentos de ricos e famosos (feitos ou desfeitos com  estardalhaço pela mídia). O cidadão comum, excluído, é o pobre neste rol de assuntos, as alegorias de que contarei a seguir.


Tudo lembra O Banquete
, obra derradeira e inacabada de Mário de Andrade da década de 40. No livro, o autor faz um contraponto entre os pratos estrangeiros, sedutores e muito vistosos, e os nacionais, talvez de maior riqueza em sabor, mas de nem tão atrativo glamour. Trata-se de um paralelo com o que acontecia musicalmente na época, quando Andrade pedia que os compositores ‘transpusessem’ elementos do folclore nacional à música de concerto. No banquete, degustavam e comentavam sobre música quatro entre cinco convidados: a anfitriã, apreciadora das manifestações artísticas, uma cantora famosa, um político benfeitor das artes e um compositor esquecido e pobre.


Ópera do Mendigo
é o título em português para The Beggar’s Opera, de John Gay (1724) – também título e capa de um álbum dos Rolling Stones de 1978 -  dois séculos mais tarde adaptada por Bertold Brecht e Kurt Weill como A Ópera dos Três Vinténs (1928), sempre tendo como fio condutor a discrepância entre as classes sociais e o fruir artístico – banquete não muito diferente em sabor filosófico do descrito pelo nosso Mário de Andrade. O assunto também ressurge com Chico Buarque (Ópera do Malandro, 1978).


Os banquetes jornalísticos
de encerramento do ano serviram-nos de tudo, com escassos pratos finos e iguarias apetitosas, porque houve muito mais tristezas, acidentes, doenças, mortes, catástrofes nas mesas simbólicas das telas e monitores. Em várias retrospectivas parece que nos ofereciam a parte dos mendigos no banquete, e não a da finesse, que terminou por não se sobressair perante os vendavais negativos por que passaram o mundo e o país. No réveillon, descortinou-se um novo ato da ópera da vida: fogos de artifícios ao redor do mundo iluminaram esperanças, a fé em tempos melhores e na cura, se não para todos os males, ao menos para os que mais nos afligem e amedrontam, e que ameaçam tomar-nos o que temos de mais precioso neste banquete: nossas próprias vidas e as dos que nos são mais próximos.


Contra a ameaça de variantes
arrasadoras da Covid, exaltou-se a ciência das descobertas, vacinas de diversos tipos em vários centros do mundo fazendo o que era angústia e medo transbordar em lágrimas de felicidade nos olhos, no instante mágico da inoculação. Sim, elas foram as protagonistas da grande ópera de 2021, e continuarão sendo em 2022. Depositemos nos cientistas, vacinas e medidas protetivas nossas esperanças e a imensa fé no porvir – que, não curiosamente, também serve de alívio para a amargura dos esfomeados, vítimas de incêndios, alagamentos e outras catástrofes. As vacinas inocularam corações e mentes com esperança por dias melhores, além de protegerem nossas vidas na forma do controle ora possível pelas mãos de profissionais abnegados – cientistas, médicos, enfermeiras e técnicos. Entre tantos infortúnios, pensando na vacina como o “biscoito fino” - expressão do velho Mário de Andrade - a que o povo tem tido acesso, providencialmente serviu-se à mesa para que todos tenham sua cota de iguarias e a possibilidade de degustar o que é lhes justo e de direito. Devemos isso ao Sistema Único de Saúde, criado pela Constituição de 1988 à imagem e semelhança do NHS britânico do pós-guerra, sistema que nos provê bálsamo e salva-vidas, apesar do descaso e da inoperância dos que têm por obrigação mantê-lo.


Haveremos de varrer para trás
o que ficou de ruim e buscar esperanças, abrindo caminho para o ano que se apresenta em longa e árdua batalha pela frente. Onde houve trevas, que surja a luz, onde faltou pão que haja o que comer - seja por lídimo direito ou pelo exercício da solidariedade entre os homens, a chamada fraternidade. Contra as guerras, que sejam ouvidos os clamores pela paz e flutue aos quatro ventos a bandeira branca nas mãos de todos; se males foram perpetrados pelo apetite incontrolável de tiranos, poderosos e bandidos insaciáveis neste grande banquete passado, que no futuro sucumba diante daquilo que é predestinado por Deus e pela natureza para vencer e consolidar um mundo melhor: o bem.



Diante de todo o dito ou não dito, concluo lembrando uma celebração meio esquecida: 1º de janeiro foi o Dia da Fraternidade Universal! 

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