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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

REFLEXÕES SOBRE O VOTO

 

Tiradentes

E
nfim, lambendo nossas feridas, como se diz, termina neste domingo uma longa e belicosa disputa. Face a face com uma obrigação a ser cumprida com orgulho, participaremos da escolha mais importante da última década. É muito menos a opção por um nome, um rosto, é o que ele traz na bagagem: precisamos do mapa do caminho que, espera-se, deverá mudar a régua do país. Muito deverá acontecer, embora no horizonte haja poucas chances de avanços reais - difíceis de serem colecionados – e muito mais riscos. Uma falha será um tiro n’água, bala perdida com sua errante trilha de espuma perfurando o oceano. Ecoa a frase do inconfidente, repetida na peça Arena Conta Tiradentes (1967), de Augusto Boal: “Hei de armar uma meada tal que não se há de desembaraçar em dez, vinte ou cem anos”.

Constituinte de 1988: o final 

S
ofremos até hoje com erros do Império, da inevitável abolição, assim como os dos tempos da proclamação da República, do golpe de Deodoro à ditadura de Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”. Depois, os desmandos de Getúlio e os males do longevo golpe de 1964; a censura e o recrudescimento via AI-5 até a conquista da “Constituição cidadã” de 1988, que nos libertou dos entulhos do passado, consolidou o Estado Democrático e os direitos e garantias individuais em todos os 79 incisos do Artigo 5°. Amargarmos a Carta do Império, de 1824, passamos pela de 1891 e depois as de 1934, 1937, 1946 e 1967 - esta última já na ditadura pós-64, sob a qual padecemos silentes e trôpegos por um ano, quando um ato institucional nos tirou o pouco oxigênio que restava. Duas dessas Constituições foram imposições autocráticas: a imperial, de 1824, e a de Getúlio, em 1937. A de 1934 tornou obrigatório o voto aos maiores de 18 anos e concedeu “generosamente” o direito às mulheres – enquanto vedava o sufrágio aos “mendigos e analfabetos” - cidadãos como nós, mas devidamente excluídos da sociedade.

Constituição de 1937: o golpe de Getúlio

C
om a Constituição do Estado Novo, em 1937, Getúlio rasgou, manu militari, a de 1934, promulgada a duras penas por uma Constituinte. O ditador suprimiu os partidos políticos, direitos e garantias, a liberdade de imprensa e partidária, e concentrou nas suas mãos todos os poderes. Mesmo se ora votamos e ora não, permaneceu riscado a ferro e fogo o amargor dos grilhões físicos ou da censura à opinião. O Brasil sempre esteve fadado a engolir arroubos autocráticos, varrendo para o lixo da sadia liberdade dos indígenas em suas origens à dos negros então livres da África - sequestrados para o trabalho desumano e cruel em nossos engenhos, fazendas e cidades. Tirando fora uma existência anterior desconhecida, que se esvanece na fumaça dos tempos pré-descobrimento, o país ainda vive a plena liberdade e os direitos garantidos após 1988, ano a que devemos boa parte do que usufruímos como cidadãos - malgrado a fome, a injustiça social, a devastação de florestas, a rapinagem das riquezas e uma das piores distribuições de renda do mundo.

Caronte

T
udo isso serve à reflexão sobre o direito que exerceremos no dia 30 de outubro: o de escolher os mandatários da nação e do estado para os próximos quatro anos. Voto, do latim votum, é promessa, desejo, palavra que surge em nossa língua de tantas formas, com sentidos os mais diversos, rumando à mesma direção: voto de castidade e de pobreza, de boas festas ou de felicidade; voto por acórdão, unânime, de Minerva, de qualidade ou por maioria simples; o ex-voto, que é oferenda pela cura de uma doença por um santo milagreiro que é cura ou jura, coisa entranhada em nossa cultura. Escolheremos os dirigentes que nos guiarão nos anos vindouros – lembrando a mitologia grega: Teseu nos conduzindo pelo labirinto ou Caronte em seu barco sabe-se lá para onde?  Soa, ao fundo, o Va, pensiero, sull’ali dorate, belíssimo coro da ópera Nabucco, de Verdi, sobre a libertação do povo hebreu escravizado na Babilônia, hoje um segundo hino italiano (“Vá, pensamento, sobre as asas douradas”). Há que serem líderes que olhem de verdade para os mais pobres, os descalços, os que têm fome, os que  não possuem onde morar, pois são esses que precisam mais que nós da opção escolhida.

Ex-votos



É
de se lamentar o uso e abuso das notícias falsas, as fake news, ofensas, o acobertamento “nada canônico” – diria meu pai - de fatos e dados; a artilharia de bits e bytes no anonimato de uma tecnologia que cada vez mais foge ao controle da sociedade - pior, cujo futuro sequer imaginamos. Vimos avançarem novas palavras e expressões: bots, deep fakes e cyberwar, fora as já velhas hackers, likes e zap (esta última, redução mais fácil do que o original, What’sApp, trocadilho com a expressão what’s up? - “o que é que há?” Sai o up, entra o app, de application).

Falsos padres

A
lguém se arrisca a prever um cenário midiático para 2026? Com tudo isso e os gabinetes do bem ou do ódio, com o concurso de apologias ou execrações a Igrejas que nem deveriam ter entrado no tabuleiro, candidatos exóticos, ataques violentos aos tribunais superiores - e recursos a essas instâncias quando conveio -, faltou ética e acima de tudo civilidade a personagens dessa cruzada surreal. Basta relembrar como têm sido esses dias.


É
chegado o momento de, com o simples pressionar de um dedo, escolhermos os melhores. Na cabine, lá com nossos botões, sem mentiras, mídia e pressões a nos atormentarem, finalmente cravaremos a decisão final para presidente e governador. Mas atenção, seremos cúmplices dos que escolhermos! Não é um jogo, mas se acertarmos, a sorte estará lançada. Porém, se errarmos...

 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

TIPOIAS, SISTEMAS PÚBLICOS DE SAÚDE, PARALELISMOS

 

(CNN)

Às
vezes, rascunhando um texto, somos atropelados por alguma ideia. Daí nos lançamos a pesquisar outros problemas, e quem sabe ainda aprender alguma coisa mais de nosso idioma. Explico. Ao sentar-me para escrever, fui desviado do tema escolhido: minha filha Marta me liga de Londres e avisa que Thomas, meu netinho de 8 anos, fraturou a clavícula. Pânico: assim de longe, tudo parece visto com lupa, a mente não tem limites. Conhecendo o NHS, sistema de saúde londrino, fiquei mais tranquilo, e esperei (o National Health System foi criado no pós-guerra para acesso irrestrito e gratuito de todos os cidadãos. Medicina privada existe, mas é para uns raros aquinhoados que, na emergência, correm para o NHS, claro).


Exame
geral, chapa de raios-x, laudo: fratura na clavícula. Nada grande, chororô, muita dor, um sling de gaze e pronto. A médica disse que ele poderia tirar para dormir, houve quem dissesse que não. Eu, daqui, fiquei com meu bom senso e a palavra dela – são pessoas que inspiram preparação e confiança - e a lógica: o sling é um suporte para retirar o peso do braço do ombro quando sentado ou de pé. Daqui mesmo, de Tatuí, comprei um sling especial, em uma grande loja de departamentos de Londres.  Uma tipoia chique, que abriu caminho para uma nova lição: eu sabia de slingshot, conhecido aqui pela forma abrasileirada de ‘estilingue’ - atiradeira, ou ainda bodoque. O termo remete a funda, uma faixa que, girada no ar, lança uma pedra, tal como fez Davi para derrubar Golias.


Em
menos de 24h, o sling que comprei chegou na residência da minha filha, para conforto do moleque. Confortável, leve, ajustável, fácil de colocar e tirar. Segunda lição: de onde tipoia, se em inglês é sling? Dicionário. Claro, tipoia só podia vir do tupi, ti’poya, “barraca feita de folhagem”, dada a semelhança com a cobertura de uma oca. A palavra gerou outras, tão rica que é nossa língua portuguesa brasileira, acepções como “espécie de rede com que as indígenas mantinham os filhos às costas ou escanchados nos quadris”. Notável! Refere-se a apoios de tamanhos diversos, e eis enfim o ‘nosso’ significado: “tira de pano que se amarra ao pescoço para apoiar braço enfermo”. Quanta riqueza, quanta história aprendemos com os indígenas brasileiros de todas as etnias, quanto vocabulário! Se pesquisarmos a fundo, há uma vastidão de palavras e costumes que enriquecem nossa cultura e a dos que estavam aqui antes de nós (só temos a agradecer e pedir desculpa, mea culpa, pelo descaso ou violência de alguns).



stoneclinic.com

Volto
ao Brasil de doze anos atrás, quando meu filho Pedro, hoje engenheiro, era um meninão uns 4 anos mais velho do que meu neto hoje. Também jogando futebol, em São Paulo, caiu, machucou-se, foi levado a um hospital particular distante, na Zona Sul, e... Clavícula fraturada. A médica que o atendeu disse que teria de operar, e passou a descrever com detalhes como seriam as cirurgias (sim, duas, uma para fazer o serviço e outra para desfazer) – isso, na frente do menino, já pálido! Corri daqui para São Paulo e levei-o a uma clínica especializada na Vila Clementino. Não, nada de cirurgia, não é o caso, só tipoia, disse o médico. Trouxe-o a Tatuí, onde ele morava comigo, e mais uma consulta, com um ótimo ortopedista da cidade (e há vários!): tipoia. Nossos médicos falam a língua dos tupis-guaranis, quem diria. Assim, livrei-me do procedimento invasivo da médica de São Paulo, além das implicações que poderiam advir para o garoto, inclusive psicológicas, uma vez que ele já teria passado por uma torturante cirurgia imaginária ao assistir à descrição pormenorizada do procedimento.  Mas não. Com a tipoia, algum tempo depois tudo isso era assunto esquecido.


Fora
a parte léxica, houve a visão médico-hospitalar de dois países com sistemas públicos diferentes, gratuitos e para todos (a rede privada inglesa é para a mais casta elite, apenas). O NHS do Reino Unido – que na verdade são três - os NHS England, Scotland e Wales - foi criado em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra, e é 100% custeado com dinheiro público. No Brasil, quarenta anos depois, a Carta de 88, chamada “Constituição Cidadã”, criou o Sistema Único de Saúde, à imagem e semelhança do NHS. O sistema inglês consome 45% dos gastos em bens e serviços de Saúde (fonte: ONS, 2001 Census). As despesas governamentais chegam a R$ 14,5 bi (câmbio de 7/10). Quanto a nós, o site Transparência Brasil do mesmo ano (2001) pede desculpas mas... está “fora do ar”. Diz o federacaors.org.br, o Ministério da Saúde, principal mantenedor, o SUS recebeu um corte de 20% no orçamento de 2022.

Klinik NHS

Se
o nosso sistema público ainda não chega àquele NHS dos bons tempos, é pura questão financeira: orçamento cortado, rendimentos baixos, falta de equipamentos e aparelhos de todos os tipos, instalações, medicamentos e insumos. Lá, os salários vão do básico, R$ 14.130,00, ao do especialista, R$ 24.290,00, pelo câmbio de 7/10 (fonte: The Complete Guide to NHS Doctors, in BMJ Careers, 22/08/22). Isso, fora extras, bônus e gratificações. Mesmo considerando o custo de vida inglês, a diferença é gritante.


Em
decorrência dessa fratura na clavícula vim a descobrir que o sling inglês nada mais é do que uma tipoia ajustável, de material sintético. A origem da palavra tipoia é riquíssima, e traz à lembrança o grande Mário de Andrade, com sua ironia modernista: “Você sabe o francês singe, mas não sabe o que é guariba? Pois é macaco, seu mano, que só sabe o que é da estranja”.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

DEBATE: DISCUSSÃO OU POEMA

em tom satírico e alegórico?


Para discorrer sobre o debate, busquei o étimo de palavras e expressões. Além dos equívocos de que poderia ser vítima, aumenta a compreensão da matéria. Recorri ao basilar, com o etimologista Deonísio da Silva (De Onde Vêm as Palavras, ed. Lexicon). Diz ele que ‘debate’, com o sentido que tem em uma disputa eleitoral, vem do inglês to debate. Para o Oxford Dictionary, “uma discussão formal sobre um tema em um encontro público ou Parlamento”. “No debate são alegadas razões a favor e contra determinado tema”, completa Deonísio. E há outra acepção, que pode ser novidade para o leitor como foi para mim: “...poema dialogado, de tom satírico e alegórico, muito em voga na Idade Média”.


O Houaiss cita débat, do francês do século 13: “controvérsia, querela”, e entre seis acepções para a palavra destaco uma que serve de forma especial a este caso: “agitar veementemente o corpo e/ou membros (ou qualquer espécie de apêndice locomotor), na tentativa de livrar-se de sujeição física <a mosca debatia-se na teia da aranha>”. Sobre esses dois sentidos nos debruçaremos.


O debate de 29/09 teve de tudo, um pouco do sentido emprestado dos americanos e da alegoria da mosca na teia de aranha – ou, quem sabe, “eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, do Raul Seixas. Entretanto, pouco debate se viu, e se alguém tentou, o fez para si, sem interessar a resposta – arte em que é mestre Ciro Gomes. A ironia de Bolsonaro a Lula, chamando-o de ex-presidiário – “indivíduo que cumpre pena em presídio”, segundo o Houaiss –, além de equivocada foi inoportuna. Sem entrar no mérito, Lula não passou 580 dias em um presídio, mas numa sala da Superintendência da P. F. em Curitiba, condenado em segunda instância no TRF-4 e liberado pelo STF (proibição de prisão imediata após condenação em segunda instância). Inciso LVII do Art. 5º da Carta de 1988: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Não houve trânsito em julgado da condenação em sede de última instância recursal. Poderia ser chamado de “ex-preso”, mas ainda assim ironicamente, em um debate que deveria pretender-se uma disputa cordial entre senhoras e cavalheiros.

ofuxico.com

Fora intermitentes reprimendas do mediador William Bonner, houve desatinos e bravatas, com Simone Tebet chamando Soraya Thronicke de “Bolsonara”, pedindo logo depois perdão pelo ‘lapso’ – ora, ambas são colegas de anos de Senado e a segunda foi aluna da primeira... Soraya perguntou ao Padre Kelmon: “o senhor não tem medo de ir para o Inferno?” E eis uma dele: “Pessoas sem roupa, uma atrás da outra, com o dedo, né, você sabe aonde...” Soraya criou o mote para os memes mais populares: “porque o senhor é um padre de festa junina”.


Simone prometeu que os jovens que terminassem o ensino médio receberiam um prêmio de cinco mil reais, como se estudar fosse uma gincana premiada. Por sua vez, Lula, atabalhoado, deixou Kelmon invadir-lhe o tempo, e ainda o estimulou indiretamente, atiçando a discussão no seu turno. (Deveria ter deixado o púlpito, o Padre falando sozinho para microfones que seriam desligados).


Enfim, qual o papel que ‘Padre’ Kelmon estaria desempenhando no jogo (a serviço de quem?). Repetiu-se o questionamento sobre seu status clerical (negado em ofício público de 14/09 por Dom Tito Paulo George Hanna, arcebispo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia no Brasil). Bonner foi didático: “o senhor sabe que o debate tem regras e que o senhor concordou com elas?” Memes de todos os tipos e espécies tomaram as redes sociais por conta do ‘padre’. Desde vestimentas de festa junina, passando por montagens de Soraya ao lado de Kelmon junto a uma fogueira tendo como legenda a pergunta sobre o Inferno, um surto de criatividade. Se o debate perdeu em seriedade, a Internet ganhou em deboche e escárnio.

Sátira romana

Fico com a segunda definição do Deonísio da Silva: “tom satírico e alegórico, muito em voga na Idade Média”. A sátira seria, na literatura latina, uma espécie de poesia burlesca, cômica, contra instituições e costumes, um gênero que faz alusão à zombaria do coro satírico grego. A alegoria traduz ideias de maneira figurada, cada elemento disfarçando a realidade, mas representando-a. Quesito nos desfiles das escolas de samba, nas fantasias e carros alegóricos, também completa a ideia do termo.

Juan Muñoz: Conversation Piece

Kelmon foi a estrela da noite. Preparado nos bastidores pelo “filho 02”, tornou-se conversation piece: aquele objeto decorativo, geralmente um kitsch, que, colocado no centro da mesa, serve para puxar assunto quando chegam visitas do nada. Lula foi presidente duas vezes e era líder em todas as pesquisas (fora duas delas, fake, que invertiam os nomes na “pole”). Bolsonaro é o runner-up da corrida, Simone e Soraya são novamente senadoras e Ciro um experiente e eterno postulante que joga sozinho. Kelmon foi um outsider, e uma sátira de si mesmo. Presente o excesso de regras e candidatos, ausente a disciplina. Que tenha sido uma lição.


Terminado o 1º turno com grande abstenção (32 mi), Lula superou Bolsonaro em menos do que as pesquisas mostravam. Há um novo quadro, com expectativa de debates “olhos nos olhos” entre ambos: Ciro e Tebet tiveram juntos 8,5 mi votos (3,6 e 4,9 mi, respectivamente). Bolsonaro ficou em segundo, abaixo 6,18 mi votos de Lula, e precisa do equivalente a 72,6% dos 8,5 mi de Ciro e Simone (e ambos já declararam apoio a Lula!). Um novo debate promete ser acirrado, porém que seja mais sóbrio, como o momento exige.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

"DINHEIRO, PRA QUE DINHEIRO?"

 

Adam Smith

O
Reino Unido divulgou, por meio de seu Banco Central (Bank of England), que as cédulas de dinheiro circulantes deverão ser trocadas por novas em agências bancárias: uma espécie de papel feito de um polímero do tipo que já foi adotado no Brasil. O prazo para troca é bastante curto, após o que cédulas de maior valor, de 20 e 50 libras, perderão a validade, somente podendo ser trocadas em bancos e agências de correios centrais. As de 20 libras trazem a efígie do ícone do liberalismo econômico, o escocês Adam Smith (1723-1790), enquanto as de 50 estampam outros grandes nomes do Reino, Boulton & Watt, dois engenheiros que criaram a firma de equipamentos para a Marinha e motores a vapor, ainda no séc. 18. O número de cédulas a serem substituídas ultrapassa 360 milhões, cujo valor total, hoje, é de seis dezenas de bilhões de Reais.


Como já era de se esperar, as cédulas com a efígie da rainha Elizabeth II também serão substituídas, mas em respeito ao luto oficial somente após certo período será feito o anúncio da data de troca da figura da monarca pela do rei Charles III, o que inclui selos para correspondências, estampas oficiais e afins. Atualmente, levam o rosto da rainha as notas de 5, 10, 20 e 50 libras, sendo que as de 20 e 50 existem tanto em papel quanto em polímero.


E
lizabeth II reinou por 7 décadas, daí seu rosto mostrar-se estampado em quase tudo. Há 4,5 bilhões de cédulas com seu perfil, significando 80 bilhões de libras esterlinas, que se espalham até países do Commonwealth britânico, como Nova Zelândia e Canadá. O perfil do rei Charles III estará no dinheiro em circulação, processo que demorará ao menos dois anos. O jornal Bloomberg News, da Nova Zelândia, azeda a afoiteza do reino, no que se refere ao seu país: “muitos anos se passarão até que precisemos introduzir moedas exibindo o rei Charles III, tempo suficiente para que as cédulas de 20 libras tenham se exaurido”. E há, por dizer assim, outros “britanicismos” exóticos: “enquanto o perfil da rainha vira para a direita nas moedas, o de Charles tornará para a esquerda”. E a razão é simples, continua o Bloomberg: diz a tradição que “retratos, quando um novo monarca assume o trono, terão sua direção alterada”.

Réis do Brasil Colônia de Portugal

T
rocar cédulas e moedas é cerimonial britânico, nação que o faz por motivos de sucessão no trono. O Brasil começou com o Real Português (R), conhecido como Réis, que vigorou por todo o período colonial, até 1833. Com o país independente, daí até 1842, com Pedro II, o Real Brasileiro (Rs), também Réis – a segunda mais longeva moeda brasileira, perdendo apenas para a cifra colonial, 303 anos – o Réis só deixou de existir após um século, em 1942, em pleno Estado Novo, dando lugar ao Cruzeiro (Cr$).  A sobrevida de notas e moedas passou a ficar cada vez mais curta. Veio o golpe militar, e pela mão de Castelo Branco, em 1964, o governo suprimiu os centavos, maneira de explorar o fator psicológico (mudança política, novo dinheiro, mais segurança, etc.), mas a experiência durou apenas dois anos. Em 1967, apenas três depois, ainda sob um inconstante Castelo Branco, uma suposta “salvação da Pátria”, o Cruzeiro Novo (NCr$). Com Garrastazu Médici, da linha mais dura, em 1970 ressurge um Cruzeiro diferente, com uma inflação já galopante: 110%. Em 1984, J. B. Figueiredo faz a sua experiência, retirando outra vez os centavos – jogada efêmera, murchou depois de um ano.


“Devolvida a rapadura” aos civis, como se dizia, quem segurou o abacaxi foi José Sarney, em 1986, com o Cruzado (Cz$), cortando os centavos montado em uma inflação a galope rápido. Dois anos depois, em 1989, em uma tentativa desesperada de segurar o foguetório dos preços, Sarney traz o Cruzado Novo (NCz$), de vida ainda mais efêmera, só um ano. Pouco mais de dois meses depois de assumir a Presidência, em 1990, Fernando Collor traz de volta o antigo Cruzeiro (Cr$), só que em paridade de valor com o Cruzado Novo. Mesmo com sua empáfia de falso “Caçador de Marajás”, a nova moeda do jovem presidente durou apenas três anos. Depois do tombo de Collor, Itamar Franco, em 1993, começou a preparar a grande revolução monetária, com o Cruzeiro Real (CR$), antecipando a mudança espetacular que aconteceria a seguir: em 1994, após a URV como transição – um  sistema híbrido variável -, em 1º de julho, por intermédio de dois diplomas legais (Leis 8.880 e 9.069) finalmente surge o Real (BRL), que há 28 anos, após treze vezes na história, é a moeda atual.


O economista canadense John Kenneth Galbraith (1908-2006) foi um grande estudioso do dinheiro, desde a origem ao capital até os tempos mais modernos. A moeda – em metal, papel ou outro – tem longa história, de quando se trocava cabras por um cavalo – a troca, base de tudo! -, passando pelo uso do ouro e da prata, metais raros e, claro, de valor proporcional à sua pureza e peso. O Brasil não chegou ao desespero da hiperinflação do período entreguerras da República de Weimar, na Alemanha, que aconteceu entre 1921 e 1923. No final de 1922, a taxa anual escalou um apavorante bilhão por cento, foram cunhadas moedas de 5 milhões de marcos e cédulas feitas papel de parede! Caricaturas da época mostravam carrinhos de mão com pilhas de dinheiro para poder comprar um maço de cigarros.

5 milhões de marcos


Papel de parede


A história do dinheiro e do capital de Galbraith está na série A Era da Incerteza (The Age of Uncertainty), uma produção fabulosa disponível na versão integral ou em capítulos no Youtube. Recomendo assistir, trata-se de diversão prazerosa e uma aula inesquecível.



 

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

CENTENÁRIOS

 


N
ossos antepassados marcavam, a cada nascer do sol, referência para contar os dias. Depois, o ano. Século e milênio passaram a ser parâmetros maiores a preservar a memória do tempo. A palavra “ephemerides” surgiu do latim c.1523, significando memorial dos dias, calendário. Em um conceito mais amplo e para efeito deste texto, refere-se a fatos marcantes, de cem anos atrás. Fazer um glossário de efemérides centenárias não é coisa fácil, especialmente quando envolve pessoas. Assim busquei, dentro do possível, afastando as datas de falecimento. Folheei o caudaloso A Vertigem das Listas, do escritor e estudioso italiano Umberto Eco, que analisou os inúmeros tipos de listas e catálogos de nossa cultura ocidental, elaborados desde a antiguidade.

A turma da Semana de 22

H
á cem anos, em 1922, aconteceram no Rio os “Jogos Olympicos da Independencia”, abertos na piscina do Fluminense F. C. pelas equipes do Brasil e da Argentina, seguindo-se o “primeiro jogo latino-americano de water-polo” (Estadão, 15/09/1922). Também foram oficializadas a letra do Hino Nacional e a bandeira, e dada a largada para o avanço do modernismo, na chamada Semana de 22: Tarsila, Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Villa-Lobos, Oswald de Andrade, Di Cavalcanti e outros. (Cem anos depois, neste bicentenário da Independência, em 7 de setembro, não houve celebração; apenas uma sessão solene do dia 8, no Congresso Nacional, com a presença de autoridades do legislativo e judiciário [grifo], representantes de 24 nações e o presidente de Portugal). É por esse marco histórico, 1922, que lembramos e saudamos, dentro do que a memória permite e a documentação oferece, fatos e personalidades. Entre fazê-lo por datas ou ordem alfabética, foi preferível agrupa-los por áreas, dando maior coerência à listagem.

Bibi Ferreira

1922
foi um ano pródigo no nascimento de artistas de teatro e cinema, como Bibi Ferreira, de 1º de junho: uma atriz completa, além de cantora e diretora de teatro. Não me esqueço dela na Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, peça da qual participei como músico: Bibi estrelou com brilho máximo. Pouco depois, em 23 de agosto, Tônia Carrero, outra atriz fenomenal, sedutora, voz encorpada e par frequente de Paulo Autran (meu primo de segundo grau), de 7 de setembro, mestre das peças de Molière, como O Avarento - cuja última encenação foi interrompida por motivos de saúde e encerrou sua carreira em 2006. Em 19 de outubro vinha ao mundo Dias Gomes (de O Pagador de Promessas), teatrólogo, também autor de telenovelas. No dia 3 de abril, Doris Day, atriz e cantora norte-americana, estrela de O Homem que Sabia Demais, de Hitchcock; em 24 de dezembro, nascia a também norte-americana Ava Gardner, parte da história do cinema. Por fora dessa raia, dia 8 de novembro, surge Aldemir Martins, artista plástico de quem tenho uma gravura que se encontra na casa onde meus pais moravam, no Rio: um rapaz na janela tocando violão cercado por notas musicais sem linhas de pauta.

Pasolini

F
oi um ano bastante generoso para o cinema de arte, com o cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini, de 5 de março, autor de Teorema e O Evangelho Segundo Mateus - apesar de ser comunista e engajado politicamente; em 3 de junho vinha ao mundo o também cineasta francês Alain Resnais, mestre da Nouvelle Vague, de obras-primas como O Ano Passado em Marienbad e o histórico Hiroshima, Meu Amor. Fora desta raia, o jurista brasileiro Hélio Bicudo, de 5 de julho, figura de proa na luta pelos direitos humanos e prócer dos movimentos pela democracia no Brasil.

Jack Kerouac

A
literatura nos trouxe o poeta e romancista americano Jack Kerouac (Anjos da Desolação), de 12 de março, revolucionário da ‘geração beat’, cult de uma juventude rebelde. No dia 1º de maio, nascia aqui o romancista e jornalista mineiro Otto Lara Resende, dono de um assobio de ventríloquo e quase vizinho de meus pais, com cujos filhos André e Bruno volta e meia brincávamos. Logo a seguir, em 19 de junho, o mundo conheceria o também mineiro Paulo Mendes Campos, poeta, escritor e jornalista belo-horizontino e amigo de meu pai e do Otto. Em 18 de novembro nascia José Saramago, festejado escritor português, Nobel de 1998, de cuja obra destaco Ensaio Sobre a Cegueira.

Gilberto Mendes

N
o canto lírico, em 1º de fevereiro, a soprano italiana Renata Tebaldi, arquirrival de Maria Callas; cantores da MPB: dia 20 de março, Nora Ney, também compositora, em 7 de abril Dircinha Batista e no dia 13 Dona Ivone Lara, figura de proa e primeira mulher autora de um samba de enredo (Império Serrano, 2012); em 17 de outubro, Luiz Bonfá, cantor e compositor da bossa-nova (musicou a peça Orfeu da Conceição, de Vinicius). Do jazz, em 22 de abril, nasceu Charles Mingus, contrabaixista, compositor e ativista norte-americano, e no dia 29 o belga Toots Thielemans, virtuoso gaitista. Em um 13 de outubro, na música de concerto, o docente e meu colega da USP Gilberto Mendes, ícone da composição de vanguarda (música concreta e aleatória) e criador do Festival de Música Nova. No dia 16 de dezembro, o húngaro Zoltán Kodály (Suíte Hári Ianos), compositor, pedagogo musical e etnomusicólogo. Na política, é de de 22 de janeiro Leonel Brizola, líder inconteste, duas vezes governador do RJ e RS, e em 26 de outubro Darcy Ribeiro, antropólogo, educador, escritor e político.


E
m 1922 nascia também o jornal O Progresso de Tatuhy (grafia original), marco da política, da cultura da vida na cidade de Tatuí, do Médio Tietê paulista. A ele, seu editor Ivan Camargo, aos fundadores (in memoriam), os mais efusivos parabéns!

 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

A PÁTRIA, A RAINHA E A INDEPENDÊNCIA

 


Pátria
, substantivo singular feminino, é terra, porém bem mais do que o lugar onde se nasceu ou se adotou. Não há palavra que melhor contemple o que ela define: não é um objeto, nem o chão - é um conjunto abstrato de significados e sentidos, de enlevação pessoal junto à nação e, em conjunto, de um povo. Tal sentido também é plenamente claro em outras línguas latinas, como a nossa: patrie, em francês, e patria, em italiano assim como em espanhol. Em inglês, temos land e home, que podem se alternar, como acontece no próprio hino americano: The land of the free / and the home of the brave (A terra dos livres / e o lar dos bravos). Isso se reflete no Hino Nacional Brasileiro, que ganhou letra de Osório Duque Estrada em 1922, quase um século após Francisco Manuel da Silva tê-lo composto como Marcha Triunfal, para depois tornar-se Hino da Abdicação (1831). Recebeu a letra de Duque Estrada só em 1922, quando fervia Cultura na Semana de Arte Moderna: hoje, cem anos, duzentos da Independência. Ambos marcos em nossa história, como este 2022.


Cantar o Hino Nacional
deve ser um ato simples e puro, de profundo respeito. Sendo um Símbolo Nacional, está na lei 5.700, que os regulamenta: na versão instrumental, em Si bemol (Bb), sem a segunda parte (onde se cantaria “Deitado eternamente”, que, definitivamente, não se canta!) Se cantado, o Hino deve ser em Fá maior (F), e necessariamente apresentar as duas partes. O andamento, pulsação do ritmo, é fixado em 120 batidas por minuto. Há protocolos sobre dobra e hasteamento da bandeira, quem deve bater continência ou não, e até para onde se olhar durante a execução! (Militares devem voltar-se para de onde vem a música, a não ser que a cerimônia seja consagrada à bandeira ou ao presidente, devendo dirigir-se a uma ou outro). Os protocolos visam a manter o caráter cívico dos eventos, com o que se pode chamar de postura sóbria.

Fafá de Belém 1984

Liberalidades
são meras transgressões, como a versão de Jimi Hendrix na guitarra, no Festival de Woodstock, em 1969, ou por apelo popular em ocasião oficial, como a intepretação de Lady Gaga na posse de Joe Biden, nos EUA. No Brasil, a memorável chamada de Fafá de Belém, a capella (sem acompanhamento), no comício das Diretas Já, em 1984. Na música clássica, há a Grande Fantasia Triunfal de L. M. Gottschalk sobre o Hino Nacional Brasileiro e, com Tchaikovsky, citações da Marseillaise em sua Abertura 1812.

Dr. Huw Thomas e a rainha

Mudando
de rumo e prumo, não há como não falar sobre a quinta-feira, dia 8 de setembro. A Rainha Elizabeth II havia pedido que a levassem para sua propriedade em Balmoral. Lá, uma equipe chefiada pelo seu médico particular, Sir Huw Thomas, acompanhou o retiro, preparou o aparato médico e mandou chamar os familiares. Lembrava o ano de 1936, quando o Rei George VI, pai de Elizabeth, foi cuidado pelo então médico real, Lord Dawson of Penn, que seguiu a fórmula do Dr. F. G. Chandler publicada na prestigiosa revista científica Lancet doze anos antes: às 23h10 do dia 20 de janeiro daquele ano, Dawson aplicou 750 mg de morfina e 1 g de cocaína na jugular do rei George, o suficiente para matá-lo duas vezes (fonte: American Society of Anesthesiologists Library-Museum).

The London Bridge

Não há explicação
oficial até agora sobre a causa mortis e o momento da passagem da rainha; sabe-se apenas do retiro no Castelo de Balmoral e o acompanhamento médico. Sem dúvida, o sentimento patriótico da dinastia dos Windsor (críticas históricas e à monarquia à parte!) é incrivelmente robusto, desde os velhos tempos em que um trono vazio era objeto de cobiça por aventureiros. Mas tanto nos dias das mortes de George VI quanto Elizabeth II, o Reino Unido esteve protegido, mesmo que isso tivesse de lhes custar um final diferente. Assim a história diz, e assim foi cumprido: o Príncipe Charles de Edimburgo tornou-se rei logo a seguir ao último suspiro de sua mãe, Elizabeth II, passando a ser, aos 73 anos, monarca de uma nação poderosa, culta e organizada ao extremo, e de um passado conquistador – e dominador. Chegara o momento do sinal livre para a senha: The London Bridge is Down (A Ponte de Londres Ruiu). A Operação The Bridge is Down é um enorme complexo de medidas de segurança e informação que também sinaliza, codificada, a morte do soberano. Foi este o recado entregue à primeira-ministra Liz Truss e aos responsáveis pela segurança do Império. Até que ponto o Reino Unido resistirá com Charles III, da dinastia Windsor, diante dos focos de descontentamento reaquecidos a partir da Austrália, nações da África e outros países do Commonwealth, não se sabe. O reinado de Elizabeth foi um conto de fadas que perdurou muitas décadas com seu charme; agora, durante um bom tempo, com Charles e depois William e seu filho George, a coroa do Reino Unido restará sobre a cabeça de homens, salvo alguma improvável abdicação - ou morte.

Bicentenário: sessão solene no Congresso

Para registro
: no dia 8 de setembro, o Senado brasileiro reverenciou os 200 anos de Independência Nacional, com cerimônia aberta pelo presidente da casa e a presença do presidente de Portugal, do presidente da Câmara, representantes de 24 países, os presidentes do STF e TSE, ministros das cortes superiores. O Hino Nacional cantado por Fafá de Belém, 38 anos depois, coloriu um evento cívico pleno de sobriedade e espírito democrático. Há 200 anos, o Brasil se tornava uma nação independente, data que mereceu de todos efusiva celebração.

[O chefe da Nação brasileira esteve ausente para cuidar de assuntos particulares]

 

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

O CASO DO ESTRANHO ATENTADO A CRISTINA KIRCHNER

 


Segundo o The Guardian (2/09), filmes mostram um homem forçando passagem entre militantes e aproximando uma pistola contra o rosto de Cristina Fernández de Kirchner, vice e ex-presidente da Argentina. Jornalistas disseram que a arma apontada contra Kirchner não foi disparada, e ela teria se agachado. Por que este homem não a matou, tendo a posição, a arma com cinco balas no pente e a ocasião? Esta é a pergunta que intriga investigadores, alimenta especulações e controvérsias: ainda segundo o Guardian, o ministro da Segurança Aníbal Fernández disse que a pistola estava carregada, e “não disparou apesar de o gatilho ter sido puxado”. Há contradição entre testemunhas, jornalistas e o ministro, que tem fortes ligações com Kirchner.

Bersa .32/7,65 mm

A perícia dará a palavra final sobre controvérsias básicas, já que é estranho várias pessoas dizerem que a arma “sequer foi disparada”: resíduos de pólvora na mão do criminoso, na arma, marca na cápsula (ou não), munição tão velha que sequer machuca - o que definitivamente não foi o caso - ou que nem sai da cápsula, “bala podre”. As declarações do ministro Aníbal Fernández de que o gatilho chegou a ser puxado mas não houve disparo, e do presidente Alberto Fernández de que Kirchner sobreviveu “porque a pistola, carregada com cinco balas, não disparou” são plausíveis, mas há mais arestas e dissensões do que convergências.


(A esta altura, leitores aficionados de Sir Conan Doyle, autor de mais de 60 livros sobre Sherlock Holmes, e Agatha Christie, “A rainha do crime”, já estão elucubrando alguma charada macabra: Alberto, o presidente argentino, tem Fernández no sobrenome, assim como o ministro Aníbal e a própria Cristina Kirchner. Mas quem arriscaria um ‘elementar, meu caro Watson’, ou faria o jogo da culpa do  Assassinato no Expresso Oriente? Fernández é um sobrenome razoavelmente comum na Argentina, difícil extrair alguma coisa daí.)


Conforme o jornal El Clarín (2/09), o suspeito (N.: mais do que suspeito: foi preso em flagrante) se chama Fernando André Sabag Montiel, é brasileiro, tem 35 anos e uma passagem de pequena monta na Polícia; usa tatuagens com símbolos neonazistas, como o ‘sol negro’, e fazia referências a grupos extremistas nas redes sociais.

La Nación

Alguns militantes relataram ao jornal La Nación que “o gatilho não chegou a ser apertado, e nenhum tiro foi disparado”. Divergências cabais, já que outros disseram: “estávamos fazendo um cordão de isolamento, e de repente (...) o homem apertou o gatilho”. Logo surge a coloração política de filmes dos anos 1970: no dia 23 de agosto – pouco mais de uma semana antes -, a Promotoria argentina ingressou com um pedido de 12 anos de reclusão para a vice-presidente. Acusada de corrupção, Kirchner teria beneficiado empresários de Santa Cruz, seu reduto político, e interferido em contratações de altíssimos valores para grandes obras rodoviárias - segundo o Ministério Público, enquanto ela era presidente. Especulações passaram a se avolumar: logo depois do atentado, Kirchner, depondo à Justiça em seu apartamento, disse que não teria se agachado para esquivar-se de um possível tiro, mas para pegar um livro que estaria autografando e caíra, e que soube da pistola somente após ser escoltada para fora da confusão.

Naidenoff

A Folha deu espaço ao senador Luis Naidenoff, do partido de oposição de extrema-direita Unión Cívica Radical, que declarou que o assunto diz respeito apenas à Argentina, mas acrescentou que “o silêncio público de Bolsonaro é lamentável” (no dia seguinte, o presidente disse: “Mandei notinha. Lamento”). Naidenoff insistiu que o caso não tem nada a ver com o que ele chamou bolsonarismo. E mais: “Sabemos que Bolsonaro vem fazendo declarações contra o peronismo” (obs.: movimento do partido Justicialista, fundado por Juan Domingo Perón); “mas daí a associar as atitudes do agressor ao bolsonarismo é precipitado e raso”. Menos esclarecimentos, mais lenha na fogueira das especulações, porém dados novos poderão surgir. Naidenoff e outros dirigentes oposicionistas condenaram o atentado, e reprovaram o fato de o presidente Fernández decretar feriado na sexta, dia 2, convocando seus apoiadores para manifestações nas vias portenhas.


Brenda Uliarte

A luz sobre o crime tão somente no que tange ao atentado em si parece agora depender da perícia em dois pontos aparentemente simples, já que o criminoso recusou-se a depor à juíza corregedora de Comodoro Py, María Eugenia Capuchetti. Fatos nebulosos,  eventuais subterrâneos e possíveis ligações perigosas do rapaz e suas conexões neonazistas e afins, se não surgirem elos robustos, cairão na vala comum das teorias conspiratórias. Brenda, namorada do criminoso, garante que ambos não são nazistas - mas o romance tem apenas um mês! (Brenda foi presa em 4/07). É claro que, de uma forma ou de outra, sem ter havido motivação clara – o rapaz pode ser um psicótico -, surgem ilações políticas pelos motivos e repercussão, ambos terrenos férteis para explorações, em momento politicamente delicado.


Rua Tonelero, Copacabana, Rio, 5/08/1954: Carlos Lacerda, inimigo visceral de Getúlio Vargas, foi ferido em um atentado em que morreu o major Rubem Vaz. Foi incriminado o chefe da Segurança de Getúlio, Gregório Fortunato – uma deixa para Lacerda acusar o presidente de ter urdido a trama para matá-lo. O então presidente suicidou-se 19 dias depois. Como no caso Lacerda, o affaire Kirchner é embalado em névoas, suspeitas e contradições, entre ficto e fato. Resta esperar.