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sábado, 20 de julho de 2019

THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO - II


Panorama de uma arquitetura musical e política

Não demorou muito para o Theatro Municipal de São Paulo encontrar o prumo de sua veia artística. Companhias de ópera e solistas passavam por seu palco, tradição consoante aos mais finos costumes europeus. A partir de 1930, época de golpe de Estado e revolução, o TM chega à maioridade em meio a turbulências e assume vocação própria, ainda que sujeita à volátil política brasileira.
Camargo Guarnieri
Há que se ressaltar que, àquela altura, o Municipal não servia apenas a apresentações musicais, mas à política em seu aspecto mais saudável, pano de fundo que é deste meu tríptico de artigos. Além de manifestações estéticas como a de 1950 contra o modismo dodecafônico introduzido no país por Koellreutter, tendo o nacionalista Camargo Guarnieri (1907-1993) como bandeira, lá se exibiram bailarinos como Isadora Duncan, o lendário Nijinsky e Margot Fontein, fora vultos do teatro como Jean-Louis Barrault, Vivian Leigh, Cacilda Becker e Marcel Marceau, entre tantos. (Quando perguntei ao próprio Guarnieri sobre o polêmico evento da Carta Aberta lida no Municipal em 1950 contra a invasão do serialismo, o maestro confessou-me, com sua voz característica: “Eu não era contra o dodecafonismo. Como é que eu poderia ser contra algo que eu nem sabia do que se tratava? Eu era contra o Koellreutter!”).
Modernistas reunidos: no alto, à esquerda,
Mário de Andrade
Outros acontecimentos da máxima importância foram a histórica Semana de Arte Moderna de 1922, que chacoalhou o mundo artístico brasileiro, o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e o memorável 1º Congresso Brasileiro de Escritores, suspiro da classe intelectual contra o Estado Novo, além de inúmeros outros eventos. Foi também das escadarias do Theatro que o líder estudantil José Dirceu, em 1º de abril de 1968, à frente de uma aglomeração de manifestantes, conseguiu (a contragosto da cúpula da UNE) dispersar a concentração popular e contornar taticamente a palavra de ordem de outras lideranças, favoráveis a um confronto com a Polícia, um embate de resultados imprevisíveis (PONTES, J. Alfredo Vidigal. 1968, do Sonho ao Pesadelo. SP: OESP, 1998).
Jânio Quadros, prefeito (Estadão)
Incólume após várias administrações e durante quase nove décadas de mudanças políticas, o Theatro Municipal, orgulho paulistano de diversas gerações, passou por mais duas reformas físicas, preservando-lhe a aparência e funcionalidade. A primeira, em 1952, durou três anos, enquanto a segunda foi concluída em peno choque de gestões, iniciando-se com Jânio Quadros (PTB, 1985-1988) para finalmente ser entregue à cidade durante a transformadora administração de diretrizes ideológicas diametralmente opostas, a da prefeita Luíza Erundina (PT, 1989-1992).
Sociedade de Cultura Artística,com o belo afresco de Di Cavalcanti
Fundada em 1912, a Sociedade de Cultura Artística, entidade privada com 650 assinantes, apresentava solistas, orquestras e música de câmara. O Theatro Municipal passou a ampliar os horizontes artísticos da cidade, recebendo artistas nacionais e companhias líricas estrangeiras. O município passou, então, a fazer parte do roteiro das turnês como extensão natural do trajeto do Rio de Janeiro ao Teatro Colón, de Buenos Aires.
Mário de Andrade
Devido aos custos cada vez mais aviltantes de óperas estrangeiras completas, “prá economizar importação de gente”, como disse Mário de Andrade¹, e dada a necessidade de se ter um corpo estável próprio para a execução do amplo repertório operístico-sinfônico, criou-se um conjunto, mais adiante intitulado Orquestra da Cidade de São Paulo (¹DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por Ele Mesmo. SP: Hucitec, 1985). Na verdade, tratava-se de um grupo bastante heterogêneo, já que repleto de músicos de formação popular basicamente pertencentes às orquestras das rádios Gazeta e Piratininga. O conjunto passou a ter papel da maior relevância nas temporadas líricas paulistanas, e o Municipal a abrigar seus instrumentistas, em grande maioria de origem italiana, assim como acolher os alunos que esses professores haveriam de formar para sucedê-los nas estantes, além de oferecer espaço para que esses jovens músicos completassem sua formação com a necessária experiência prática.
Maestro Souza Lima
A Orquestra Sinfônica Municipal foi criada oficialmente apenas em 1949, à frente os maestros Souza Lima (1908-1982) e Armando Belardi (1898-1989), e com sua consolidação logo assumiu papel de destaque em São Paulo e no país. Além de Lima e Belardi, teve como regentes Edoardo Guarnieri, Simon Blech, Roberto Schnorremberg, Tulio Colacioppo, Eleazar de Carvalho (em acúmulo com a OSESP), David Machado, Júlio Medaglia, John Neschling, Isaac Karabtchevsky, Jamil Maluf, J. M. Florêncio, Rodrigo de Carvalho e Roberto Minczuk.
Poucos músicos investidos dos cargos efetivos criados para provimento via concursos públicos restavam até 1988, quando foi promulgada a nova Constituição Federal. Os artistas vinham sendo contratados não para cargos, mas para funções criadas pelas leis 9160 e 9168/80, ‘admitidos em função pública’, um artifício para contratar servidores sem concursá-los, tornando o funcionalismo público vulnerável a apadrinhamentos e interesses políticos. Para a OSM, no entanto, logrou-se manter o instituto da seleção pública, que em tudo se assemelhava à parte prática de um concurso público. Em 1992, Erundina sancionou a lei 11.231, criando novos cargos efetivos para a OSM, Corais Lírico e Paulistano, Balé da Cidade e as escolas de Música e Bailado. Dada a resiliência do poder público contra cargos efetivos para artistas nas gestões seguintes, as vagas abertas por lei nunca foram objeto de concurso. (Continua)

                                             ***
[Se você quiser ler a primeira parte, que antecede o presente artigo, o link é: http://blogdohenriqueautran.blogspot.com/2019/07/theatro-municipal-de-sao-paulo-i.html]




sexta-feira, 15 de julho de 2016

A HORA E A VEZ DE NAOMI MUNAKATA

(Divulgação)
IN MEMORIAM

Conheci Naomi em 1985, quando ingressei como professor na Escola Municipal de Música, do Teatro Municipal de São Paulo. Naquela casa antiga, encontrei-me com colegas, alguns conhecidos, e outros menos, de quem sabia só de nome. Naomi era um deles. Passei a conhece-la melhor em 1989, quando, por indicação consensual dos professores à administração, tornei-me diretor da unidade. Daí, claro, meu contato com todos os professores passou a ser mais próximo, pois que diários, e Naomi tornou-se conversa constante e amiga. Era, a um só tempo, professora de teoria e aluna de harpa, uma combinação que eu não compreendia muito, mas que apenas aguçava minha ideia de que ela era uma pessoa ávida por aprender e se expandir.

Naomi nasceu em Hiroshima (pausa fora do assunto, pois nunca me conformei: hecatombe absurda a que se seguiu Nagasaki, dois dias depois da primeira bomba, quando o Eixo já se desmontara, deixando o Japão indefeso). Os pais de Naomi decidiram para lá ir assim que os efeitos da radiação daquele holocausto cessaram. E foi ali mesmo, anos depois, no meio daquele pedaço de chão que é um passado vergonhoso da história, que nasceu nossa amiga. Bons papos, eu a convidava, uma vez ou outra, para minha casa em Jabaquara, e, com um fusquinha simpático, levava seu wok (fritadeira) e os apetrechos para fazer uma de suas especialidades: um maravilhoso sukiyaky, que sabia elaborar com toque de maestrina.

Saboreávamos a iguaria e, já mais tarde, à noite, meu segundo filho, Lucas, ainda quase bebê e difícil de fazer dormir, começava a ficar impaciente e irritado. Mas era batata: bastava Naomi pegar o menino, colocar no banco de trás do fusca velho de guerra, e dar umas voltinhas no quarteirão. Tiro e queda, lá vinha ele embalado e dormindo. (Em uma viagem, achei uma bonequinha de pano de feições orientais cuja face era bem parecida com a da amiga: chamei-a Naominha, e dei-a de presente ao meu filho).

Ela também dominava técnicas das tradições orientais com habilidade: certa vez, eu estava com a coluna literalmente travada, muita dor nas costas, e ela pediu-me que deitasse de bruços no chão de minha sala. Dito e feito, tirou os sapatos, passou a caminhar sobre minha coluna, vértebra por vértebra, usando seus calcanhares com precisão cirúrgica. Ao final, minutos depois, levantei-me, e onde estavam a dor e a coluna engripada? Mágica da Naomi: levantei-me aliviado e agradecido.

Eric Ericson
O destino de Naomi era mesmo o pódio, a regência coral. Com um ouvido impecável, aguda sensibilidade, começou a embrenhar-se nessa missão e devotar-se a ela com grande paixão. Tendo iniciado seus estudos musicais ao piano, aos tenros quatro anos de idade, mais tarde acabou, durante anos, privilegiada pelas lições de mestres como Eleazar de Carvalho, Hugh Ross e Sergio Magnani, entre outros. Obteve uma bolsa de estudos da Fundação Vitae para estudar com o ‘papa’ da regência coral Eric Ericson, na Suécia.

Porém, havia um pequeno problema: para viajar, Naomi, funcionária admitida, não possuía o privilégio dos servidores estatutários de poder afastar-se com prejuízo de vencimentos. Porém, com a ajuda de pessoas de bom trânsito nos meandros da Prefeitura – e entre elas cito minha ex-assistente e ex-diretora administrativa do Centro Cultural SP, Maraíza Nascimento -, por uma espécie de “ressonância” legal, lá foi Naomi, dispensada, para a Suécia, de onde voltou preparada para trilhar nova gloriosa carreira.

(Divulgação)
Tornou-se regente do Coral do Estado, que lapidou com mãos de artesã. Mais tarde, transformou-o em Coral do Estado e, em um salto, ergueu o Coro Sinfônico da OSESP, na belíssima Sala São Paulo, criando não um coral, mas um verdadeiro grupo vocal dedicado ao repertório sinfônico, que seria sua atribuição profissional, e o dirigia com todas as sutilezas e nuances que esse tipo de formação merece. Naomi tinha o dom da simplicidade dos gestos, uma suavidade com as mãos que dialogavam em sintonia com a voz, o controle sem a rigidez mecânica do tempo, algo com que eu, com certa liberdade, posso parafrasear o liberalista econômico francês Gournay, transportando-o para o contexto musical: laissez faire, laissez chanter (deixe fazer, deixe cantar). Nascia, assim, o grande coro talhado para o repertório sinfônico - modelar, exemplar, um paradigma para o Brasil. Lembrava-me do Coro de Tanglewood, um belíssimo grupo de grandes cantores que se apresentava com a excelente Boston Symphony Orchestra, em concertos e gravações.


Em 2014, Naomi tornou-se “regente honorária” – segundo o Houaiss, ‘honorário -  “que, após ter deixado de exercer função, cargo, emprego, conserva o título e as prerrogativas” - da Osesp, o que parecia uma honra especial, mas que desde já deixava transparecer o desfecho da ópera: no final de 2015, Naomi era demitida da Osesp, por motivos que não se sabe, que agora menos ainda cabe discutir. Recolheu-se, pois, como dizia o mestre Eleazar de Carvalho, quem é bom já nasce feito, não precisa de estripulias para se afirmar. Recentemente, em 2016, Naomi, quieta como se já aguardasse algo novo surgir, foi convidada e assumiu o posto de regente titular do Coral Paulistano do Teatro Municipal, fundado pelo grande Mário de Andrade. O que desejo para Naomi Munakata, agora, talvez não devesse ser dito, mas cantado  por todos os anjos: uma frase do famoso coro do terceiro ato da Ópera Nabucco, de Verdi, resumiria tudo: “segue, pensamento, sobre asas douradas” (va, pensiero, sull’ali dorate), pois seu voo é para sempre, ad lib, menina. 

NUNCA PARE DE VOAR, NAOMI!