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sexta-feira, 16 de março de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS? FINAL



Heróis, críticos, intrigas e anedotas

Richard Strauss (1864-1949) ridicularizava os críticos, simbolizando-os em e arrastados naipes de trompas. Pensando neles, orquestrou esses instrumentos com malícia em Ein Heldenleben (Uma Vida de Herói), um poema sinfônico que é uma exaltação ao super-homem de Nietzsche, mostrando um violino-herói que, seguramente, era ele mesmo, Strauss. É preciso lembrar que Richard nutria indisfarçável ódio por papai Franz Strauss, trompista que por sua vez não escondia uma ojeriza mortal por maestros. Por causa disso, Franz nunca aceitou a carreira de regente do filho Richard.
Anedota: um sujeito entrou em uma loja de pássaros e ficou observando aquelas gaiolas com canários. Em uma delas, havia uma placa que informava: ‘canário cantor, R$ 10,00’, e cantava lindamente! Na gaiola vizinha havia outro canário e os dizeres: canário mudo, R$ 1.000,00. Inconformado, o freguês pergunta ao dono da loja o porquê de um canário de lindos gorjeios custar apenas R$ 10,00, ao que o outro, mudo, coitado, sem cantar nada, valia R$ 1.000,00. A explicação do lojista foi no ponto: é que este segundo não canta – mas rege.
Bernard Shaw
Raros foram os críticos que desfrutaram do paraíso do respeito geral dos músicos. Entre as exceções, destaca-se o dramaturgo e crítico musical irlandês Bernard Shaw (1856-1950), o qual, a respeito da 9ª Sinfonia de Beethoven (Ode à Alegria), escreveu que deveria ser proibido executar qualquer outra obra musical no mesmo programa, a “Nona” se bastava. E que o autor de tal crime deveria ser preso sem direito a fiança e condenado.
Max Reger
O alemão Max Reger (1873-1916), além de compositor, foi organista e pianista de grande virtuosidade, músico profundamente inspirado mesmo quando não bebia, costume razoavelmente comum entre os românticos daquela época. Por causa de seu costume, certo dia Reger leu uma crítica em que um articulista disse que ele não precisava beber para se inspirar. Reger, furioso, escreveu ao crítico dizendo que tinha acabado de ler tão maldoso artigo – naquele lugar recôndito para onde as pessoas se recolhem para resolver, digamos, assuntos... de foro íntimo. E que, em poucos minutos, aquela crítica teria o destino merecido, deixando à conclusão do jornalista o futuro da matéria dele. Um século antes de Reger nascer, Gluck já costumava ser visto ao cravo compondo em seu jardim, garrafas de champanhe ao redor. Talvez por causa desses excessos etílicos o compositor tivesse o hábito de bater na cabeça de seus músicos quando os repreendia.
Existem muitas histórias divertidas sobre críticos. Uma delas conta que, há muito tempo, um deles preparou um artigo sobre um recital de um pianista brasileiro que acontera em determinado auditório. Exaltou a destreza do pianista em ‘passagens em tercinas do segundo movimento’, vocabulário que os músicos evitam usar fora de aulas. Mas repreendeu certos andamentos e lamentou a interpretação de uma ou outra passagem. Ironicamente, o programa do recital havia sido mudado. A obra criticada simplesmente não fora executada. Culpa do despreparo do crítico, que escreveu o artigo sem ter ido ao evento.
Carlos Imperial, imbatível
Há aqueles que não dão a mínima para críticas sobre sua performance e pessoa; pelo contrário, delas até se aproveitam. O compositor, carnavalesco, político e auto-assumido cafajeste Carlos Imperial, acusado de plágio por sua marchinha A Praça, costumava dizer: falem mal, mas falem de mim. Também garboso ao ser mal-falado e suprassumo da cafonália mundial, o pianista norte-americano Liberace recebeu duros ataques em um órgão de imprensa, após uma apresentação espalhafatosa no Madison Square Garden, de NY. Telegrafou depois a cada um dos responsáveis do jornal e ao seu detrator informando que as críticas o deixaram tão deprimido que havia chorado copiosamente durante todo o longo caminho de limusine para o banco.
Peça rara: Massenet e Saint-Saëns no mesmo LP
O compositor Camille Saint-Saëns (1835-1921) havia perdido a eleição para o Instituto de França, em 1878, para Jules Massenet (1848-1912). Perguntado sobre o rival, Saint-Saëns, diplomática e educadamente, respondeu que Massenet era um músico genial. Quando foi informado de que este último o havia tachado de compositor medíocre, Saint-Saëns usou de pronto uma rasteira inteligente: disse ao jornalista que ele, assim como Massenet, nunca dizia a verdade ou o que realmente pensava.
Gary Karr e sua bike: campus de Hartford
Indiferentes à opinião alheia sobre suas performances e pessoas, certos músicos, mesmo que cobertos por nobres casacas e sóbrias vestes femininas, às vezes escapolem das regras e não hesitam em lançar mão de expedientes como usar um velho par de jeans tingido de preto, como fez um dia a já falecida Marylou Speaker, spalla dos segundos violinos da Sinfônica de Boston, que ao entrar no palco escondeu com seu instrumento a placa de metal do bolso traseiro direito de seus jeans Levis escurecidos. E passou o concerto inteiro puxando a blusa preta para tampar o adereço. E o célebre contrabaixista Gary Karr, da Universidade de Hartford, mandou às favas o perfil sisudo e mandou instalar um rack em sua bicicleta para levar seu enorme contrabaixo campus afora, sob os maus olhares dos acadêmicos mais empedernidos.
Aliás, sobre este instrumento existem algumas dezenas de anedotas. Uma delas conta que um contrabaixista, após o intervalo, reclamou ao maestro, alto e bom som, que alguém havia desafinado uma corda de seu instrumento. O maestro: pois afine-a! O músico respondeu que não disseram quem foi o autor da brincadeira e que não contaram qual a corda!

sábado, 10 de março de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS? V


Morte matada ou morrida e Sinhá Demência
(Cont.) Paul McCartney se deliciava com tiradas e frases de efeito. Quando estava para ser lançado o álbum Sgt. Pepper’s, o chefão da gravadora EMI, pediu, diplomaticamente, que o busto do líder indiano Mahatma Ghandi fosse removido da arte da capa, com certeza pela militância política do homenageado. Paul mandou dizer que aceitava, mas que no lugar dele queria dois ‘Marlon Brandos’. Por outro lado, vítima de uma mente doentia, John Lennon foi assassinado na portaria do seu prédio em frente ao Central Park de NY, o Dakota, por um idiota que queria esse privilégio a todo custo.
O "Jungle Room"
Outro ícone, Elvis Presley, ao contrário de Lennon insiste em ficar vivo na cabeça maluca dos fãs. Jura seu séquito de fanáticos que Elvis ainda estaria vivo, escondido no bunker subterrâneo da mansão de Graceland, Memphis. Em seus últimos anos, já meio “xarope”, Presley se recusava a gravar em estúdios, para desespero dos produtores. Pois a equipe montou equipamentos e parafernália no Jungle Room (Salão da Selva), no primeiro andar do palacete do cantor. Revoltado, Elvis enxotou todos dali, consta que com um fuzil automático.
Concurso de sósias de Elvis nas Filipinas
Morreu, é fato, de ‘morte morrida’: um infarto fulminante, sentado em um de seus vasos sanitários estofados em couro legítimo. Para manter o finado ídolo na memória, milhares de fanáticos e curiosos ainda se revezam no famoso memorial do cantor. Concursos de look alike, sósias pouco ou nada perfeitos, são realizados todos os anos, dele participando até senhoras de idade bem avançada de quem, passadas tantas décadas, Elvis seria rodeado, caso estivesse vivo.
No Brasil, o roqueiro Arnaldo Baptista, nascido em 1949, um dos mais refinados que o país já teve, formou com Rita Lee e Sérgio Dias o grupo Os Mutantes. Irreverentes e divertidos, seguiam a linha de bom-gosto e arranjos vocais à Beatles. Quem viu o grupo no Festival Internacional da Canção no Rio cantando Ando Meio Desligado, mesmo que não fosse entusiasta do gênero descobriu música sofisticada e brincadeira sadia. Surgida em uma casa da Pompéia paulistana, a banda tomou seus rumos, gravando com Gil e Tropicália, e alcançou sucesso até finalmente implodir, após desentendimentos durante uma viagem a Paris.
Sérgio Dias arriscou uma retomada, mas foi tentar um lugar ao sol na Inglaterra. Rita virou show-woman com direito a gelo seco e mulher pelada no palco, como no Hollywood Rock versão 1994. Emagreceu muito e foi vítima de boatos maldosos de que estaria doente - então gravou Não, Titia, Eu não Tô com Leucemia. Outro bochicho disse que teria tentado o suicídio, por causa de uma internação no Hospital Santa Catarina, na Av. Paulista, mas era uma intoxicação alimentar. Arnaldo Baptista trocou criações inteligentes, como o sugestivo disco Lóki, por sérias complicações. Em 1981, após sucessivas crises e algumas internações, jogou-se da janela da seção psiquiátrica do Hospital São Paulo, no 4° andar do Hospital do Servidor Público. Ficou em coma algum tempo e passou a abraçar atividades artísticas sem se preocupar com o resto do mundo. Mora em um sítio em Juiz de Fora, MG, e só concede entrevistas ao telefone pelo viva-voz, a esposa sempre atenta ao lado.
Arnaldo reapareceu em 1995 com a trilha sonora do filme Sinhá Demência e Outras Histórias, do cineasta Christian Saghaard - filho do meu amigo e flautista Jean-Noël - em parceria com Carlos Botosso. A parceria tinha não apenas afinidade artística ou gosto musical dos autores, passava pela delicada limiaridade entre criação, terror e loucura. É o ponto em que alguns artistas apresentam dificuldade para distinguir uma coisa da outra.
Outro roqueiro, o enfant térrible Lobão, deixou suas habilidades de baterista e lançou-se em carreira solo na guitarra. Anos depois, alcançou as páginas dos jornais por ter sido enquadrado por porte de maconha, Art. 16 do Cód. Penal. Certo dia, aceitou dar uma entrevista para o programa de TV do polêmico estilista Clodovil, que lhe fez uma pergunta sutil como uma bala de revólver: “por que você gosta de usar maconha?”. Lobão respondeu ao tiro de Clodovil com um de fuzil de guerra: “por que é que você gosta de...?”
É frequente que deixe de existir, em dado momento, qualquer preocupação de se estar indo além do exotismo, inusitado e, às vezes, ridículo, não  raro escandaloso. Bianca Jagger não surtou ao flagrar seu marido Mick com companhia na cama, mesmo que o consorte fosse o cantor David Bowie. Mas ficou uma onça quando divulgado pelo mundo que ele seria pai de uma criança da modelo brasileira Luciana Gimenez, alvo de súbita e vertiginosa notoriedade. Perdendo-se em aventuras, talvez Jagger já tenha ‘mostrado a cara’ na letra de maior sucesso do grupo Rolling Stones: I can get no satisfaction, eu não posso me satisfazer.
Ora, quem expõe no cotidiano toda sua sensibilidade e vida íntima não pode se dar ao luxo de relevar comentários maldosos acerca de sua pessoa – importa-lhe mais saber se sua criação arrebata plateias. Daí ser natural a aversão de muitos artistas aos críticos, alguns dos quais se arvoram o poder de desnudar o artista em strip-tease estético, físico e mental. Esse tipo de crítica não é bem-vinda, salvo se oferecida pelo próprio artista, sejam os seios expostos da Gal Costa em show de 1994 dirigido por Gerald Thomas ou autobiografias do gênero ‘chuto o balde e conto tudo’. Nesses casos, vira-se a alma ao avesso para que o crítico julgue um circo vivo com as lentes de seus próprios conceitos ou preconceitos. (Cont.)

sábado, 3 de março de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS? IV


Fraudes, drogas e rock’n’roll
Usa-se de quaisquer artifícios para se conquistar um lugar ao sol. Até mesmo fraudes. Há mais de uns 25 anos um obscuro violinista de São Paulo, cujo nome prefiro não mencionar, foi alvo de notícias em vários órgãos de imprensa quando se descobriu que ele recorrera a expedientes nada canônicos, como diria meu pai, para sua pré-classificação em concurso no exterior. Fez passar como gravação sua um disco antigo e raro de um velho mestre do instrumento. Em âmbito internacional, foi denunciado por algo como um ‘estelionato musical’. Mas o assunto morreu.
Infelizmente, para ele, existem pessoas tão expertas nesse tipo de gravações históricas que nem mesmo uma frase musical, que seja, lhes passa despercebida, quando se trata de um artista de primeira grandeza. Consta até que existia uma espécie de ‘clube’ em NY, em que alguém colocava um disco na vitrola e os contendores duelavam apostando qual regente conduzia a abertura de ópera ou sinfonia tocada. Sociedades de amantes inveterados da música. Falando de outro brasileiro, este para ingressar em uma grande universidade americana outro usou um instrumento um tom abaixo (tocando bem mais lento), mas com certa habilidade, “puxou” a velocidade da fita para a tonalidade correta, algo mais rápida, mostrando uma destreza que não tinha. A partir desse incidente, obviamente percebido, passaram a exigir que o candidato repetisse lá, ao vivo, o que havia gravado. E, com o advento da tecnologia, passaram a aceitar somente vídeos: imagens com sons não mentem, não há mímica a se fazer, nem dublagem que escape.
Existem inúmeros casos de expedientes escusos para conquistas e autopromoção. Um deles, certamente, é o de uma pianista brasileira que há muitos anos, anualmente, enviava seu currículo pedindo datas em concertos para solista com grandes orquestras. Os administradores usavam como polida desculpa, segundo suas normas, a temporada seguinte estava repleta, e que o candidato deveria aguardar outra oportunidade – 'quem sabe, dois anos depois’. De posse das cartas, o artista as incluía em seu currículo e portfolio, informando que havia sido convidado para ser solista com tal e tal orquestra no ano seguinte.
MET, o templo novaiorquino 
Houve também casos de recortes de críticas escritas para performances de grandes artistas no exterior, habilmente montadas como se fossem de uma caprichosa artista. Com rara virtuosidade em outros instrumentos – fotocópia, tesoura e cola -, juntava essas críticas às suas diminutas, como se os comentários tivessem realmente sido escritos para ela. E há o caso também de cantor lírico amador, um negociante, que em viagem comercial inscreveu-se em concurso de seleção para participar de grandes casas de óperas, como o famoso MET (Metropolitan Opera, de NY). Recebeu ofícios com as datas de suas provas – que, claro, nem chegava a realizar. Nos EUA, os testes de seleção para músicos são chamados auditions, mas em uma tradução ao pé da letra, no Brasil, a palavra significa 'audições', apresentações. Daí, não foi difícil para o esperto ‘artista’ incluir essas performances que nunca aconteceram em seu currículo, dizendo que havia sido convidado para apresentar-se nessas grandes casas de ópera.
Fora das fraudes, o exótico sempre foi uma vitoriosa estratégia, como faziam os ex-rebeldes, hoje arrumadinhos e para lá de setentões Paul e Ringo, que juntamente com George e Lennon formavam o maior conjunto de música pop de todos os tempos. Chegaram a ser malditos como os possíveis quatro cavaleiros do apocalipse, e souberam explorar todas as possibilidades que a ‘macaquice de auditório’ lhes poderia oferecer. Ficaram tão famosos que certo dia, talvez meio surtado, Lennon disse que eles eram mais populares do que Jesus Cristo, blasfêmia que causou o maior reboliço. Se, por um lado, contavam com essas habilidades e a inteligência de Lennon, por outro havia Ringo Starr. Saído da classe portuária de Liverpool, perguntado se gostava de Beethoven respondeu que... amava os poemas dele.
Após os Beatles receberem uma condecoração da rainha da Inglaterra, Lennon mais uma vez extrapolou, e disse que os quatro novos cavaleiros naquele dia fumaram maconha em um dos banheiros do palácio. Queimaram escondidos, claro, mas a revelação, anos depois, não abalaria o mundo e menos ainda a incólume rainha britânica – sua majestade já havia colhido os dividendos que o conjunto havia levado à Grã-Bretanha. Os fab four acenderam, com essa revelação, mais do que um mero baseado, um estopim para renovar seu conceito entre os jovens rebeldes de todo o mundo. É que os quatro rapazes já estavam sendo considerados um tanto quanto comportados para seus fãs, cujos olhos se dividiam com outros cabeludos da ilha, os Rolling Stones.
Dr. Timothy Leary, professor e guru
A quebra da imagem de ‘bonzinhos’ caiu muito bem aos Beatles naquela época. Mas, pecando pelo exagero, uma das tentativas de gravarem Getting Better, do álbum Sgt. Pepper’s, foi interrompida pelos ataques incontroláveis de riso e total impossibilidade de tocar de Lennon, que estaria ‘viajando’ de ácido lisérgico, o LSD, coisa em voga naquela época. Seduzidos pelas experiências do professor, psicanalista e guru californiano Thimothy Leary, que apelidou a droga com as iniciais de sua seita particular, League of Spiritual Discovery (Liga de Descoberta Espiritual), as mesmas iniciais, diga-se de passagem, do título Lucy in the Sky with Diamonds, de Lennon e McCartney, obra-prima que é uma apologia nada discreta sobre o alucinógeno. (Cont.)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS? III



(Cont.) Voltando ao Michael Jackson e sua Disney particular, o garoto Jordan Chandler, um dos vários menores que frequentaram aquele parque de diversões exclusivo, declarou que ele, Michael, “mais parecia uma vaca”, aludindo às manchas de vitiligo espalhadas pelas regiões íntimas do cantor. Isso tudo dito em juízo e publicado. Por outro lado, Jackson permitia e estimulava que a imprensa divulgasse, com sensacionalismo, sua obsessão por câmaras hiperbáricas, dento das quais costumava se fechar de corpo inteiro para absorção completa de oxigênio puro. Fora o uso de máscaras e luvas – que, segundo ele, teriam o condão de evitar contato com bactérias e vírus de todas as espécies, petrificando-o para a eternidade com aquela aparência de quando era o pequeno astro afro-light, o mais novinho do famoso conjunto Jackson Five. Sobre Michael, aliás, o sarcástico e irreverente jornalista Paulo Francis, de língua solta e ferina, disse que deveriam deixam o cantor em paz: “Michael não quer ser homem nem mulher, nem negro nem branco – ele só quer ser bonita”. Causou, como se diz na gíria de hoje.
Manuel de Falla
Em um golpe de mestre, Michael casou-se com Lisa, filha de Elvis e Priscilla Presley. Com suas núpcias, conseguiu abocanhar ainda maiores espaços na mídia, ao mesmo tempo em que tentava dissipar a imagem de sedutor de meninos vulneráveis, trazida à baila após sucessivas acusações de que ele foi réu na Justiça americana. Livrou-se, e seu LP Thriller acabou vendendo mais de 47 milhões de cópias, perto de quatro vezes a população de Cuba. O compositor espanhol Manuel de Falla (1876-1946), autor do balé O Amor Feiticeiro (El Amor Brujo), que viveu bem antes de Michael, só aceitava refeições em restaurantes se os pratos viessem cobertos com gaze para protege-lo dos germes, e andava pelas ruas com um lenço ou máscara cirúrgica cobrindo o nariz. E como existem anedotas sobre músicos! Seriam listas intermináveis! Parece que as escolhas dos piadistas – claro, os próprios músicos – recaem sobre todas as modalidades, sejam cantores, pianistas ou instrumentistas de orquestra, embora haja certa preferência pelo canto, violino, viola, trompa e contrabaixo, todos incansáveis trabalhadores da música.
[Uma loja de objetos antigos e exóticos havia exposto modelos dos mais variados tipos de cérebros em potes de formol, todos com as procedências devidamente certificadas. Em um deles, o rótulo dizia: cérebro do Einstein, U$ 5 mil. Um outro trazia a estampa: cérebro de cantor, U$ 50 mil. Espantado, o freguês chamou o atendente e perguntou  o porquê de um cérebro de ninguém menos do que Einstein, autor da Teoria da Relatividade, valer cinco mil dólares, enquanto o do cantor desconhecido absurdos 50 mil. Responde o lojista: é que o do cantor nunca foi usado. (Lembre-se leitor, que, assim como no filme Ensaio de Orquestra, do Felini, os músicos, irreverentes, fazem troças entre si, não existe o maldito “politicamente correto” na classe). Todos brincam, todos contam e repetem as piadas e todos riem. Eu sei a maioria sobre contrabaixos, minha especialidade nos tempos de orquestra. E aqui vai uma: um regente para o ensaio, assim sem mais, e grita para um dos contrabaixos: "o que acontece com você, senhor? Enquanto todos do seu naipe trabalham para cima e para baixo os dedos sobre as cordas, o senhor fica aí com a mão parada!" Responde o contrabaixista: "é que eu já achei a nota". São tantas anedotas, de tantas especialidades, que caberiam em enormes livros].
O cantor e pianista pop inglês Elton John, quando não é lembrado por um de seus inúmeros sucessos, é imediatamente associado à sua monumental coleção de óculos: enormes, minúsculos, em forma de pera, coração, TV, tesoura, amarelos, azuis, ao lado de seus sapatos plataforma, à maneira das drag queens, ou com balangandãs que remetem à nossa Carmen Miranda. Todos os objetos do Elton John são disputadíssimos em leilões, a maioria deles surrupiados por serviçais de hotéis, em busca de um troco a mais e tomados por certa cleptomania fetichista de fã.
Em outro leilão, o conde Spencer, irmão da Lady Di, arrematou por 24 mil libras, para lá de R$ 100 mil, o manuscrito da partitura de Candle in the Wind”, de Elton John, canção escrita originalmente para Marilyn Monroe, depois dedicada à sua amiga Lady Di, entoada como uma espécie de réquiem na cerimônia funeral da princesa. 
Agora, vamos e venhamos, não é só na chamada música pop que a necessidade de aparecer ou promover a própria imagem que o artista, às vezes, lança mão dos expedientes mais esdrúxulos: a violoncelista norte-americana Charlotte Moorman tirou a parte de cima de sua veste de gala no palco, e executou alguma suíte para violoncelo solo de Bach daquele jeito mesmo, topless. Com seu happening, virou capa de revista e tema de livro, conquistando um extensa agenda em teatros menores de costa a costa dos EUA – mas depois, devidamente trajada, comme il faut, ‘feita a fama e deitada na cama’, diz o vulgo. Claro que não chegou a escalar mais do que os primeiros degraus da imensa escadaria das estrelas, mas logrou cavar seu lugar ao sol.
Jordi Savall
Há momentos em que excentricidade se confunde com superstição. E vice-versa. É o caso do Roberto Carlos, que proíbe o marrom em tudo, exigindo as cores azul ou rosa. O especialista em música antiga Jordi Savall obriga sua produção a reservar quartos no andar térreo dos hotéis, sabe-se lá se por medo de cair ou fidelidade estética - já que seu conjunto, o Hespérion XX, dedica-se à música de séculos passados em instrumentos originais – da época em que ainda não se sonhava, claro, com a invenção do elevador. (Continua).

sábado, 17 de fevereiro de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS? II


O músico é um dos raros empregados que adquire e mantém seu próprio uniforme de gala (o de orquestra e similares) e sua ferramenta de trabalho. Investe no instrumento todas as suas economias, às vezes a poupança de uma vida. Tudo isso, diga-se de passagem, por salários geralmente medíocres e poucas vezes compensadores. Somente uns raros chegam ao topo fazendo fortuna, ao contrário do que levam a pensar os frequentadores dessa praia tão pequena e restrita do chamado sucesso. Na música popular, a piada é um certo “kit fama”: corrente de ouro, carro importado e loira na cama. São aqueles convidados da Ilha de Caras e dos programas de auditório, que adotam o chamado “jabaculê”, espécie de “pixuleco” para que suas músicas sejam executadas.
|O  'Ensaio', segundo Felini
Prosseguindo, a descrição deste personagem, seja ele regente, instrumentista, cantor ou compositor medíocre ou de reconhecidos méritos ou ainda, quem sabe, genial, só poderia ser complementada pelo pitoresco, o exótico, o absurdo ou o simplesmente ridículo. Existe retrato mais cruel de uma categoria profissional do que o burlesco e surreal que o do cineasta Federico Felini, por ele criado em seu filme Ensaio de Orquestra? Nele, cada instrumentista, exaltando suas próprias qualidades e a superioridade de seu instrumento, desnuda suas neuroses mais íntimas. No final das contas, como resultado de um embate que vem de séculos, no filme os músicos da orquestra acharam por bem substituir o maestro por um enorme metrônomo para marcar o tempo.
Qualquer um que tenha trabalhado em uma orquestra ou conheça bem a área deve saber que quem inventou de colocar dezenas de músicos juntos, além de inovador, perpetrou uma absoluta loucura. É muito artista junto! É tão estressante, nas grandes orquestras, viver aquilo diariamente! Bem brasileiramente, alguém defenderia uma espécie de aposentadoria especial para a categoria.
O psiquiatra britânico Oliver James empreendeu uma pesquisa que sustenta a tese de que toda obra de arte resulta de algum tipo de instabilidade mental. Os resultados do trabalho foram exibidos pela BBC de Londres em um especial que versava sobre o tipo de pessoa que se dedica à criação artística – o indivíduo exótico, desajustado, melancólico e não raro depressivo. Retrato mais contundente dessa faceta do artista está no livro Darkness Visible (no Brasil, Perto das Trevas), do estadunidense William Styron, autor também de A Escolha de Sofia.
Styron expõe ali sua própria experiência, uma relação promíscua na linha tênue entre a criação e a psicopatia. Não surpreende ver que os artistas mais propensos ao desequilíbrio são – talvez mais do que outros – pintores, compositores, músicos e escritores, sendo os últimos, à sua imagem e semelhança, o objeto maior do livro, relato de seu calvário pessoal. Já o músico que o público vê encarna-se de corpo e alma em uma performance que começa e termina a cada momento, a cada fração de segundo. É um trabalho, em grupo ou não, solitário, suado, frequentemente neurotizante e muito pouco compreendido. É uma missão e uma espécie de doença.
Um psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo, Táki Cordás, concorda em parte com as conclusões de Oliver James. Ele observa, indo além, que, ultrapassados certos limites para a melancolia que antes fertilizava, ela passa a comprometer o processo criativo. Infelizmente, a divulgação pública desse perfil contribui para o charme gauche que costuma envolver certos desvios dos padrões sociais - às vezes, apenas oscilações de comportamento bem da natureza do artista. Cordás observa que, apesar de alguns serem recorrentemente melancólicos, isolados e mesmo depressivos, artistas produzem melhor quando libertos de suas crises, o que leva a crer que aqueles estados anteriores são meros acidentes de percurso – mas também contribuem, contraditoriamente, como férteis à gestação criativa.
Com essas teorias, é natural rever incontáveis causos sobre músicos. Qualquer um que tenha convivido com um deles pode, com certeza, lembrar-se de inúmeras estórias, seja sobre os músicos mais simples, daqueles que animam as modestas churrascarias da Zona Leste paulistana ou dos subúrbios cariocas. Exceções são os “megastars” da música pop internacional - os que pedem suíte presidencial pintada de azul, caixas de água Pérrier e belos champanhes Moet & Chandon de série especial. Fora aqueles que, como Michael Jackson, tinham entre suas exigências trenzinhos de ferro e jogos de Pinball, fora hospedagem para seus cães Rottweiler nas acomodações hoteleiras das suas excursões.
Liberace, deslumbrante
É característica frequente no músico o exotismo. O troféu do suprassumo do gênero, superando em muito qualquer limite do kitsch, do ridículo e da cafonália, vai para o pianista norte-americano Liberace, conhecido pelo seu toque inconfundível, rebuscado de rococós de mau gosto e pleno de floreios inúteis, entre o pinguim de geladeira e o candelabro de plástico no piano. Liberace tornou-se famoso por suas excentricidades: piano de acrílico transparente, lustres de ouro, blusas de seda com mangas bufantes, perucas, um monte de pulseiras, colares, anéis e muita maquiagem. Poderosa.
Jackson em sua Disney particular
Na esteira do pianista Liberace, seu conterrâneo Michael Jackson (1958-2009), sempre foi um tanto apegado ao exótico. Eram públicos os esforços do cantor para adquirir tez branca, nariz de manequim e voz andrógina. Sua Disneyland particular era frequentada por nove entre dez estrelas do show bizz. (Continua)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS?


O estigma de artista de vida romântica, no amplo sentido, sempre perseguiu o músico, independentemente da época em que tenha vivido. A imagem estereotipada do compositor ou instrumentista solitário, maluco e quase tísico povoa a imaginação geral. Talvez por causa da loucura do alemão Robert Schumann (séc. 19), da surdez, boemia e demência final de Beethoven (1770-1827), a morte precoce e abandonada do gênio Mozart (séc. 18) ou a cólera de Tchaikovsky (séc. 19), que para completar a sina era gay, e no regime da Rússia czarista! Tristes finais também tiveram Bach, Händel e Schütz, que morreram cegos, Chopin e Paganini, tuberculosos, e Mussorgsky, que “nadava de braçadas” na bebida.
Paganini, aliás, além de bêbado contumaz era um jogador compulsivo. No começo da carreira chegou a deixar seu violino em uma casa de penhores para alugar um fraque, mas foi jogar e, claro, perdeu tudo o que pegara emprestado. Pediu a um amigo um violino e um traje de gala, mas com o dinheiro do cachê do recital voltou à jogatina e perdeu tudo.
Essas imagens não diferem muito daquelas do nosso Noel Rosa (1910-1937), 350 músicas, morto de tuberculose aos 26 anos. Protagonista, aliás, além de extenso anedotário, de um riquíssimo embate musical com o sambista Geraldo Pereira, assassinado com um soco na barriga em um bar. Passam, também, pela imortal Billie Holiday, rainha do blues viciada em heroína, bem como Janis Joplin, e Jimi Hendrix, o guitarrista-mito do rock que solava seu instrumento até com a língua e volta e meia ateava fogo na guitarra, sobre o palco, sem falar na recente Amy Winehouse. Todos vítimas, de um jeito ou de outro, de overdose de entorpecentes (ou sufocado pelo próprio vômito, como Hendrix, após os homéricos excessos).
Somem-se ainda o saxofonista John Coltrane, os nossos “maluco beleza”, Raul Seixas, e a divina “Pimentinha”, Elis Regina. Steve Tyler, da banda Aerosmith, contou que a droga era estimulada pelos próprios empresários, em busca de maior impacto de seus artistas em cena. Disse também que, enquanto os músicos ficavam na cama, entorpecidos pelos excessos, eram roubados pelos próprios agentes. Sem falar na praga dos novos tempos, a Aids, que levou Freddie Mercury, Cazuza e Renato Russo, do grupo Legião Urbana.
O baixista Sid Vicious, do grupo inglês de “punk-rock” Sex Pistols, morreu quase adolescente, aos 21 anos. Provocador, volta e meia apanhava de alguém mais exaltado, como aconteceu nos EUA, quando teve a cara quebrada por uma mulher ensandecida – mas prosseguiu o show com sangue escorrendo pelo nariz. Seu vocalista bradava ao microfone “é um circo vivo!” Certo dia, ao acordar e sem se lembrar da noite anterior, Sid deparou-se com o corpo de sua companheira Nancy coberto de sangue. Como se não bastasse, ele foi encontrado morto por overdose.
Aeroporto de Heathrow
A mãe de Sid mandou cremar-lhe o corpo, mas escorregou e caiu com a caixa em que levava as cinzas num dos saguões do aeroporto de Heathrow, em Londres, deixando escorrer parte dos restos mortais pelas frestas do sistema de calefação. Sid foi “colega de escola” de Kurt Cobain, do grupo Nirvana – que tinha mais de calvário do que da libertação budista do título do conjunto: suicidou-se com um tiro na cabeça aos 27 anos.
Jacqueline Du Pré
Ilustrando o retrato do músico sofrido, a violoncelista Jacqueline Du Pré foi acometida de esclerose múltipla, doença degenerativa que a levou à morte em 1987, no esplendor de uma carreira sem precedentes. O célebre violinista israelense Itzhak Perlman, quando criança, queria ser jogador de futebol. Mas o destino o fez vítima da poliomielite, teve de passar às muletas e cadeira de rodas, decidindo-se pelo violino, do qual é um dos gigantes vivos. O guapo cantor Julio Iglesias queria ser goleiro do Real Madrid, até que aos vinte anos sofreu um acidente de automóvel e quase perdeu os movimentos. Pois foi no hospital que ele começou a cantar para outros doentes e enfermeiras, acompanhado de seu violão. Já deve ter batido a casa dos 250 milhões de discos.
Nasceram cegos Stevie Wonder, Ray Charles e Andrea Bocelli. Um inovador da harmonia jazzística, Django Reinhardt, com defeitos congênitos na mão, criou seu sistema pessoal nos acordes da guitarra. (Todos esses, ressalto, souberam explorar suas virtudes e até mesmo seus defeitos pela melhor música).
Uma vez popularizada essa pecha de loucos e judiados dos músicos, pesquisadores passaram olhá-la com atenção. No 1° Encontro Latino-americano de Trombones, em 1999, alguns deses schollars estiveram presentes, e ao menos duas palestras versaram sobre o tema: O Trombone e suas Conexões com a Psiquiatria, com o Dr. Sérgio F. Rocha, e As Síndromes do Trombone, pela Dra. Dorotéa Malheiros.
Aliada a essa fama de boêmios, doentes e marginalizados frequentemente emprestada aos músicos de forma genérica (são poucos entre incontáveis), existe uma outra faceta do carma, que é ter de passar inúmeras horas do dia sozinho, praticando ou escrevendo, dedicando-se com afinco ao aperfeiçoamento técnico, praticando exaustivamente para que as notas que escrever ou extrair de seus instrumentos afaguem o coração de seus ouvintes. À parte um tipo menos louvável de estrela sem maiores méritos que, frustrado, vê as pessoas na plateia mais interessadas no ‘mauricinho’ ou ‘patricinha’ ao lado nos shows. 
[Alerta: este é um retrato de tristes exceções, em meio a incontáveis músicos, 'modelos' que não devem ser seguidos: a demência é triste, e álcool e drogas atrapalham os estudos sérios e a execução. Exemplos mesmo, neste texto, são os que servem de estímulo aos que possuem defeitos físicos ou se veem privados de algum sentido ou movimentos para se realizarem como músicos na vida!]
(Continua)



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

TRAPALHADAS POLÍTICAS NA MÚSICA BRASILEIRA – FINAL

Comício Diretas Já
Entre os músicos, a coerência política é qualidade nem sempre presente em suas relações com o Poder Público (mais precisamente, os nobres ou governantes de plantão). Nisso alguns de nós são favorecidos, é claro, pela reconhecida tendência do povo brasileiro à rápida perda de memória - e não é preciso cairmos em tentação ou conclusões radicais e de gosto duvidoso, como professava o imortal teatrólogo Nélson Rodrigues, que dizia que a massa é ‘ignara’, é burra. Exemplo desse tipo de camaleão político é certo regente mediano que conseguia se locomover como papagaio dos piratas entre as multidões que se comprimiam nos comícios das Diretas Já (movimento que, em tempos recentes mas também já um pouco esquecidos, brigava-se pela volta do sufrágio direto para presidente, acreditem os jovens se quiserem). Também havia colocado sua arte nas mani­festações pela legalização dos partidos de esquerda, até o PCdoB, então proscritos, com a mesma desenvoltura com que, em passado nem tão remoto, animava com seus corais as festas comemorativas do golpe de 64 (daqueles mes­mos militares responsáveis pela extinção do direito de voto e de organizações e partidos de esquerda que ele depois defenderia com pátrio fervor). Gênero volátil, que sabe reger conforme a música.
O grande Lamartine Babo (radiobatuta)
Há casos de espertos apolíticos, distantes de rixas, como o composi­tor de marchas carnavalescas Lamartine Babo (1904­-1963), torcedor do América Futebol Clube do Rio de Janeiro, time para o qual compôs o hino oficial ("pois a torcida americana é assim..."). Sob pressão dos rivais, para que não o acusassem de proteger o próprio time com seu farto talento musical, Lamartine escreveu, entre outros, o hino do Flamengo ("Flamengo, Flamengo, sua glória é lutar..."), do Botafogo ("Botafogo, Botafogo, campeão de 1910...") e do Fluminense ("Sou tricolor de coração..."). Detalhe históri­co: a letra de Lamartine para o hino do Botafogo teve de ser mudada para "campeão de mil novecentos e sete", em virtude de descoberta arqueológica que bons tempos depois apontou aquele ano como o do primeiro campeonato. Não é gozação, mas soou esquisito.
Cidade de Deus, em Osasco, SP. Vista aérea ainda em fase de construção
Por fim, não se pode confundir ecletismo com interesse: lá pelos idos de 1982/83, a cúpula do Bradesco mantinha, na Cidade de Deus, uma espécie de laboratório para lavagem cerebral de famílias de bancários em Osasco, um gueto pródigo em colaboração com organizações pararreligiosas e de laços estreitos com o regime militar. Certa vez, aconteceu ali um concerto fa­buloso. Revezavam-se como narradores o comediante Lúcio Mauro e a atriz Elizabeth Savalla, malvistos pelos artistas que não comungavam do regime de exceção, sobre um palanque erguido em um parque tomado por um oceano de crianças ‘espontaneamente’ arrastadas para aquela grande jornada cívica. A profusão de bandeirinhas do Brasil dificultava enxergar até mesmo o pouco que ainda havia de grama sobre o chão. Parecia coisa do Estado Novo, ou de algum daqueles famosos regimes europeus da primeira metade do século 20.
Entre arroubos cívicos, apologias ao poder instituído (e não constituído) e outras manifestações, uma sinfônica do interior apresentou-se sob a batuta de seu incansável regente, em uma de suas intermináveis exibições, tão longas que quase wagnerianas. Depois daquele inusitado espetáculo cívico, como peixes fora d'água, os músicos da orquestra saborearam o tradicional lanche de água mineral com tangerina, sem saber o que foram fazer ali mas engolindo com apatia o azedume da fruta e o amargor da festa. Obrigações de funcionário público.
Sid Vicious em show
Assim como houve regentes de canhestras ligações políticas no passado, houve quem conseguisse apaga-las em prol de um futuro mais próspero e menos comprometedor. Da mesma forma, tanto quanto o punk Sic Vicious, que se automutilava nos palcos para deleite da plateia, há os que sensibilizam fãs exibindo sua "mutilação" (verdadeira ou não) via crucis, exposição pessoal em prol de dividendos. Mas já o auto-flagelo do punk Sid Vicious foi real e um outro viés, uma nova abordagem da compaixão alheia. 


A qualidade musical passa a não render tanto, mas assume contornos de uma espécie de São Sebastião, mártir francês do terceiro século  perseguido por Diocleciano, imperador de Roma. Amarrado a um tronco, Sebastião foi flechado várias vezes, tendo seu rosto sido retratado com expressões entre fé e sofrimento, nas antigas ilustrações. Entre essas figuras do punk-rock e as dos clássicos que expõem sua dor há quase que um reverso do espelho, ou seja, o espectador vê o que deseja ver, seja o sofrimento real ou o virtual.
André Rieu
Regente é quem está regendo, lembro pela enésima vez, e maestro é o mestre. Um que faz sucesso com suas habilidades de showman sem se meter em política e pouco sabendo reger é o holandês André Rieu. Adepto da chamada easy listening, só rege valsas de Strauss como O Danúbio Azul e música popular romântica e melosa. Como violinista, não passaria em uma prova para a OSESP. No entanto, respeitando o gosto de cada um, tem grande espaço na mídia e atrai multidões mesmo cobrando ingressos caríssimos. Seu passado parece ser limpo, sem ligações políticas duvidosas, a não ser as naturais de quando precisa “vender seu peixe”, parece que dentro da legalidade.

Narciso. Uma obra-prima de Caravaggio
Creio apenas que ele se excede ao apresentar crianças-prodígio, ‘candidatas a Mozart’, o que também arrebata plateias – muito embora os infantes sejam comparáveis, para dizer o máximo, a pencas de crianças talentosas de nossas escolas de música do Brasil. Com esses passes, emoldura seu espelho. Pois Narciso, como se sabe, acha feio o que não é espelho.