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sábado, 21 de abril de 2018

FIGURAS NOTÁVEIS DA NOSSA MÚSICA POPULAR

Nelson, por João Bosco

Meu último artigo terminou com algumas palavras sobre o Nelson Cavaquinho, mas depois lembrei-me de outras histórias dele que não resisto a concluir antes de ir adiante com outros sambistas. Nelson era um cidadão livre, amante da vida, e como tal se preocupava muito com a morte. Certa vez, sonhou que morreria às três da manhã. Preocupado, acordou de súbito, nervoso, suado, e atrasou seu relógio em algumas horas.
Tereza Rachel à frente do seu Teatro
Conheci o Nelson na entrada do enorme prédio em Copacabana que abrigava os teatros Teresa Raquel e o histórico Opinião. Enquanto eu me apresentava no primeiro, em uma peça musical, Nelson fazia um show no segundo. Certa noite, enquanto os músicos bebericavam em um bar interno, após os espetáculos, dei de cara com o Nelson, já inteiramente bêbado, que me fitou e disse bem alto: “vozê deve zer Zesus Gristo. É bra vozê gui eu rezo dodas as noites”, o que me fez rir muito. Naquela época eu usava cabelos longos e barba, daí essa loucura do compositor. Respondi-lhe não era Cristo, e que nós sim, seus admiradores, é que rezávamos para ele (e tínhamos tantas razões...).
A violeira mato-grossense Helena Meirelles, falecida em 2005, cerra junto às fileiras da mais fuleira boemia. Autodidata, desbocada como ela só, foi considerada em 1993 a revelação do ano pela revista americana Guitar Player, uma espécie de “quem é quem” do violão e da guitarra no mundo. Nascida em uma sexta-feira 13 de agosto, Helena cedo entregou-se à gandaia levada por um tio, para desespero de seus pais. Passou a atuar em bordéis e bares Pantanal afora. Com seus dois ex-maridos e vários companheiros teve nada menos do que onze filhos, que se orgulhava de ter parido sozinha. Na farra, quando acabava a bebida mais forte – aguardente ou qualquer coisa “sem espuma”, como dizia – Helena tomava muita cerveja, mas como ‘bebida com espuma’ não a deixava alta, chegava a misturá-la com qualquer coisa, até perfume. Helena dedicou-se exclusivamente ao violão e à viola caipira, e depois de um salto mais ambicioso foi “empresária do amor”, gerenciando bordéis e o baixo meretrício, atividade que no Pantanal era privilégio da exploração masculina.
Moreira, malandro elegante
Já um consagrado malandro carioca, o ex-motorista de ambulância Moreira da Silva, apelidado Kid Morengueira, falecido em 2.000 aos 98 anos, costumava andar aprumado, elegante e de preferência com seu “liforme branco”, como diria Caimmy , chapéu de palha e, complementando, sapatos brancos quando podia. Mas Kid era malandro esperto: só tomava leite e não dormia tarde! E como era criativo: inventou um breque (do inglês, break”, quebra, freio) nas suas músicas para desfilar comentários ritmados cheios de humor e gírias de malandros.
Moreira da Silva, em seu "liforme"
Assim fez naquele samba Olha o Padilha [ouça logo abaixo], em que ele conta que o temido delegado, para pegar playboy vagabundo, enfiava um limão pela cintura da calça do suspeito, e se a fruta não descesse pela barra, calça justa! Entra no camburão, playboy! Conta o breque: “tu é salafra e acharcador / essa macaca a teu lado / é uma mina mais forte / que o Banco do Brasil “/ (...) “e jogou uma melancia pela minha calça (...)/ que engasgou no funil”. Continuando, disse o Padilha “raspe o cabelo desta fera!” / (...) “Eu, hein? Se eu não me desguio a tempo / ele me raspa até as axilas / o hômi é de morte!”  Tudo declamado à maneira de um rap – deixando claro, há bons raps, que não se pretende música, e sim o que diz sua origem, na tradição hip-hop (graffiti, b-boying, MCing e DJing). RAP é Rythym And Poetry, ritmo e poesia, e ponto. Foram tantos ’cantos falados’, na história, antes do rap, dos trovadores medievais aos recitativos das Paixões de Bach, ao Sprechstimme (do alemão, lit., ‘voz falada’), como no Pierrot Lunaire de Schönberg.

Cemitério do Catumbi. Ao fundo, prédios e favela
O Escadinha (morto em 2004), que foi um grande traficante brasileiro, depois de preso surgiu na voz de Jorge Bem, na letra de W Brasil, e bem às claras: “tira essa escada daí / essa escada é pra ficar aqui fora”. O bandido, como não sabia cantar, lançou uma gravação de espécie de rap. Mas Fernanda Abreu apenas não conseguiu cantar o hino de seu time, o Vasco, vendeu como água suas músicas “da lata”, mas não fazia rap. A declamação ritmada de Moreira da Silva era espontânea, e aconteceu décadas antes disso. O sambista morava em um apartamento perto do Cemitério do Catumbi, na Zona Norte do Rio, vizinho da dona Maria de Lourdes, velha companheira de uma vida, cujo jazigo Silva visitava frequentemente.
Piratininga, barzinho da moda na Vila
Pra não dizer que só falei de cariocas, a noite paulistana foi berço de incontáveis acontecimentos e momentos inesquecíveis, alguns glamourosos. Basta lembrar que na boate Telecoteco, no Bixiga, surgiram artistas como Simone, Benito di Paula, Célia e muitos outros. Hoje, os barzinhos da Vila Madalena – o Greenwich Village paulistano - já abrem espaço para outras linguagens da classe média mais sofisticada. Não há como não curtir esse ‘charme discreto da burguesia’ – parafraseando o título de um filme (1972) do genial cineasta Luís Buñuel.
A divina Dalva e Herivelto
Finalizando, existe coisa mais romântica do que a apaixonada declaração de amor que Herivelto Martins, autor da célebre Praça Onze, fez para sua musa Dalva de Oliveira, em uma boate do Bixiga, ao beber de joelhos champanhe no sapatinho salto 6 dela? Esse contraste, esse quadro que alternei entre o Bixiga de ontem e a Vila Madalena de hoje e agora acabo de retomar do passado, traduz a riqueza de nossa MPB através dos tempos. Que, além, de rica, é multifacetada e cheia de histórias e estórias.

sábado, 14 de abril de 2018

A VOLTA DO BOÊMIO

Roda-viva

Lembro-me dos primeiros versos de uma música do Adelino Moreira cujo título acima tomei emprestado: “boemia, aqui me tens de regresso”. Ao assunto: quando famoso, o músico popular é vítima da sanha impiedosa de seus fãs, de que é exemplo aquela matilha ensandecida a devorá-lo, retratada por Chico Buarque na peça Roda Viva. A privacidade passa a ser mera figura de linguagem: artista famoso é patrimônio e objeto da volúpia coletiva. Sua saúde a todos pertence, suas preferências são divulgadas e imitadas – ou condenadas.
Como no Brasil ditaduras acontecem em períodos cíclicos, gente como Chico Buarque foi alvo de perseguição na última delas, o último regime de exceção, quando o cerco ao compositor era tão implacável que ele teve de gravar com o pseudônimo ‘Julinho da Adelaide’. O povo criava e inventava. Com Milton Nascimento, Chico compôs Cálice: “Pai, afasta de mim esse cálice” (‘cale-se’). Empregava sem parcimônia o duplo sentido e os jogos subliminares, a exemplo também do famoso Apesar de Você, samba que dava a impressão de ser dedicado a uma mulher. Vazou, ‘sem querer, querendo’, que era endereçado ao então todo-poderoso Médici. Censuraram no ato.
Amália, Geisel e Lucy
Naquela época, o cineasta e poeta Ruy Guerra escreveu para o Milton uma letra que dizia “brota em guerra e maravilha”, que esmaecia no final - “na hora, dia e futuro da espera virar...” e os mais radicais da plateia completavam com “guerrilha!”, fazendo sua rima. Outro déspota, Geisel, detestava o Chico - foi a deixa para o compositor inventar um roquezinho bem brega, dois acordes e apenas dois versos: “você não gosta de mim / mas sua filha gosta”, já que Amália Geisel havia declarado que era fã das músicas dele. Assim eram os tempos em que se sobrevivia fazendo música. Sobrevivia: conjugação vestida como uma luva.
Chico costumava secar, com os amigos Vinicius e Jobim, pelo menos uma garrafa de uísque com facilidade. O Poetinha, apelido de Vinicius de Moraes, já devia estar meio alto, e em certa roda de amigos em um bar disse, “o uísque é o melhor amigo do homem”. Foi corrigido por um conviva provavelmente sóbrio: é o cão, Vinicius, o cão é que é o melhor amigo do homem! O Poetinha, certeiro, devolveu-lhe com sua aguçada ironia: então o uísque é o cão engarrafado - frase logo celebrizada.
Véspera da estreia da peça Gota D’Água, do Chico Buarque e Paulo Pontes. Ficou difícil para nós, artistas, vermos coerência entre o discurso e a prática do compositor. Os bailarinos ganhavam menos do que um salário mínimo por até, às vezes, doze horas de ensaios diários. Nós, instrumentistas, nos rebelamos contra o descumprimento de acertos verbais e o despotismo dos irmãos produtores. Uma breve paralisação dos músicos, que já haviam decorado e sumido com as partituras, recompôs acordos e acordes e reverteu minha demissão. E eu, na tentativa de dialogar com o Chico, havia exposto o caso e nossas exigências onde o encontrei: um bar logo ali fora do Teatro Teresa Raquel, a tomar seu uísque. Ele disse que aquilo era assunto da produção, ele era apenas o autor – o problema não é meu, ficou claro. Patético. Uma ducha de água fria.
Noel Rosa e Adoniran Barbosa
Bom de samba e de copo, inspirador do Chico, o Noel Rosa de Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Com Que Roupa, foi flagrado em um boteco da velha Lapa carioca tomando cerveja e conhaque. Alguém passou e o repreendeu, dizendo-o irresponsável, pois sabia que Noel convalescera de uma tuberculose. O compositor riu e respondeu que seu médico o proibira terminantemente de beber, mas caso a teimosia fosse tanta, que ao menos bebesse pouco e bem alimentado. Noel disse que saiu para tomar um conhaque, e “já que se sabe que cerveja alimenta...”
O sambista quase não tinha queixo – as más línguas diziam que era para os goles descerem mais rápido –, suposta manobra de um fórceps barbeiro durante o parto, e foi flagrado em um boteco logo após o enterro de sua mãe. À vontade, camisa colorida, dedicava-se ao seu esporte predileto, o halterocopismo, levantamento de copo. Alguém disse que aquilo era um absurdo, ele deveria estar recolhido em luto. O sambista improvisou: “luto preto é vaidade / neste turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”.
Madame Satã
Outro bom de samba, Geraldo Pereira, autor de Falsa Baiana e Acertei no Milhar, foi frequentador assíduo dos muquifos e bordéis da Lapa carioca e cercanias. Adepto da chamada “mardita”, brigava quase sempre depois de mamado - jargão da malandragem – e com quem estivesse na frente, fosse homem, mulher ou travesti. Em consequência de uma dessas querelas, Geraldo foi assassinado, em 1955, por um violento murro no fígado desferido pelo lendário Madame Satã, folclórico pederasta do bas-fond carioca. Com Satã ninguém mexia, ele devia ser o próprio demo encarnado.

Como Noel e Geraldo, Nelson Cavaquinho raramente se afastava de um copo. No final da gravação de Pranto de Poeta, do Cartola, autor dos lindos versos “em Mangueira quando morre / um poeta todos choram”, promoveu-se no final da música um afago entre os dois sambistas: Cartola disse obrigado, Nelson, ao que este respondeu “ovligado, Gardola”. Na segunda tentativa melhorou, mas ficou no disco, voz arrastada. Nascido muito pobre, Nelson construía toscos instrumentos com caixas de charutos, fazendo de arames as cordas. Mais tarde, quando teve seu primeiro violão ‘de loja’, usava afinação  mais baixa, não se conformava com a tensão das cordas e  sonoridade, estridente para ele. Afinal, estava acostumado à caixa de charutos e aquele som fanhoso dos arames frouxos, roucos como a voz dele!
Um instrumento de caixa de charutos, de três cordas, bem mais sofisticado, com os "cortes em 'F'" dos violinos 


sábado, 7 de abril de 2018

MÚSICA POPULAR OU DE CONCERTO?

MÚSICA!

Cena de ensaio de West Side Story
Alguns músicos transitam com versatilidade entre as áreas de concerto e popular. Foi o caso do Geshwin, de Porgy and Bess, do regente e compositor Leonard Bernstein, de West side story, do pianista Glenn Gould e do trompetista Winton Marsalis, dos contrabaixistas tchecos Jiri (George) Mraz, ex-Oscar Peterson Trio, e Miroslav Vitous, do grupo de jazz fusion Weather Report, ambos egressos do Conservatório de Praga.
Jaques Morelenbaum
No Brasil, o clarinetista e saxofonista Paulo Moura, o arranjador Rogério Duprat, parceiro da Tropicália, e, mais para cá, o violoncelista Jaques Morelenbaum, que trabalhou com Milton Nascimento e Tom Jobim. Isso, sem esquecer aquela turma de arranjadores de sólida formação teórica, formada por gente como Gaia, Arruda Paes, Cipó, Guerra Peixe, Simonetti, o amigo Villani-Côrtes, Peracchi, Panicalli e os mais novos, como Roberto Gnatalli, Roberto Farias, André Mehmari, João Victor Bota e outros.
O jovem Antonio Meneses
Jaques Morelenbaum foi para os EUA, e ingressou no New England Conservatory, onde eu estudava. Logo que chegou, pudemos conviver em algumas festinhas saudosistas típicas de casas de brasileiros. Jacques veio de experiências em música popular, desde antes de ingressar no Municipal do Rio; já tentava dividir assim sua participação na Orquestra Jovem, onde foi colega de naipe de um jovem chamado Antonio Meneses, ali descoberto pelo italiano Antonio Janigro, que o levou para a Europa. De lá, Meneses tornou-se um dos melhores cellistas da atualidade e, segundo consta, resolveu ser solista após ver Morelenbaum tocar um Vivaldi com a Sinfônica Municipal.
Poster: Allston
Voltando a Boston, Jaques passou a conviver com aquela ‘máfia brasileira’ de Allston-Brighton, na região da New England, onde passei um dos anos em que vivi em Massachussets. O gueto brazuca tinha o grande sax e amigo Leo Gandelman, Zé Nogueira, o baterista Pascoal Meireles, os guitarristas Ricardo Chaves, Ricardo Silveira e Victor Biglione, além do pianista Rique Pantoja. Clássicos ou populares, não fazia diferença (a maioria deles hoje no Rio, alguns nos EUA e outros na ponte-aérea).

The New England Conservatory 
Jaques, ao chegar, levou o mesmo choque musical que todos os brasileiros, ao ver o nível dos bambas de uma grande escola. Mas isso não lhe foi problema: com seu talento, filho de grande maestro brasileiro, estudou com Madeleine Foley, que foi assistente de Pau (Pablo, em catalão) Casals. Mas o destino de Jaques estava mesmo na música popular. Suas excelentes participações em discos do Milton e do Jobim denotam uma ótima formação e extremo bom gosto, e seus arranjos trazem a chancela dos bons.
Ernesto Nazareth
Um dos primeiros nomes de importância da nossa música mais eclética, cortejado tanto por populares quanto clássicos, foi o carioca Ernesto Nazareth (1863-1933), compositor de peças de uma graça e um gingado muito especiais: Odeon e Apanhei-te, Cavaquinho, por exemplo. Nazareth nasceu pobre, na Favela do Pinto, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, depois reduzida a um conjunto vertical espremido entre a Lagoa e o Leblon, a Cruzada São Sebastião, fundada por D. Helder Câmara (1955) e logo reduto do tráfico e da bandidagem. Voltando a Nazareth, o rapaz teve uma formação básica em composição e teoria, porém só o suficiente para ser ‘emancipado’ musicalmente por seus professores. Acharam que o pupilo, em pouco tempo, já sabia o bastante.
Uma pianista de cinema mudo
Tocou, ganha-pão comum na época, em cinemas-mudos e cafés. Em seu ofício, pôde conhecer e ser admirado por gente como Darius Milhaud, compositor e então adido cultural da França no Brasil, Francisco Mignone e, veja só, até outsiders como Ruy Barbosa. Assim, familiarizado com gente importante e conhecedora de arte, foi para São Paulo, em cujo conservador ‘Theatro Municipal’ logo se apresentou a convite de Mário de Andrade, o controverso Diretor de Cultura da Prefeitura. O Municipal fora o pináculo de uma glória musical que logo cederia lugar à decadência, para só depois reassumir sua plena importância. Andrade dizia que o Municipal era lugar frequentado por aquelas donas ‘que ficavam chacoalhando as joias’ para exibi-las, enquanto os maridos ‘fumavam charutos e falavam frivolidades nos corredores’.
O Hospício D Pedro II
Nervoso, temperamental e boêmio, Nazareth contraiu sífilis, doença que passou a atormentá-lo. Arrumava brigas e confusões, entrando em crises cada vez mais profundas. Não demorou, e trataram de leva-lo para o Rio, onde foi internado no Hospício Pedro II, na Urca, e de lá transferido para o de Jacarepaguá, mas fugiu após um ano. A escapada, porém, durou pouco: foi encontrado boiando em uma represa nas proximidades, dias depois da fuga.
Chiquinha Gonzaga (1847-1935) virou tema ‘global’, mas merece ser lembrada pelo enorme (quase 800!) e belo volume de obras . Marcou história com sua vida insólita, condenável para a época. Tanto que seu pai, José Basileu Gonzaga, chegou a considerá-la “morta” para a família. As três filhas da compositora passaram a ignorar a identidade da mãe. Forçada a se casar com um oficial escolhido pelo pai aos treze anos de idade, a autora de Lua Branca e da marchinha Ô Abre Alas largou três de seus quatro filhos aos dezoito anos para viver com um engenheiro ferroviário. Depois, nova união com um flautista. Foi seu passaporte para a boemia: conheceu os chorões, influência maior de sua música, emprestando-lhe sabor todo especial à mistura de ritmos europeus. Nasceram assim seus tangos, maxixes, lundus, mazurcas e valsas. Malvista pela fina sociedade, chegou a reger a Banda da Polícia Militar, proeza para uma mulher na época!   

sábado, 31 de março de 2018

MÚSICOS: CONVIVENDO COM AS DIFERENÇAS

Músicos da Orquestra de Minnesopolis em discussão salarial

A convivência diária entre os integrantes de uma orquestra, apesar de frequentemente permeada de neuroses, é social e musicalmente muito sadia. Pouco importam as intrigas de fundo de seção, discussões sobre salários, quem senta na frente ou atrás, as escorregadas do regente, o vestido da violoncelista e outros assuntos que sempre surgem, de uma ponta à outra do grupo. Tudo é parte do cotidiano, e justificável porque durante horas músicos trabalham, como outros poucos profissionais, em silêncio. Mas a própria natureza acústica dos instrumentos, a origem, a sonoridade e a aparência física estimulam certa natural competição, entre os mais diversos deles.
Trompa de caça (corno da caccia)
As origens de cada um são diferentes, como vimos em artigo anterior. Discorri sobre as origens dos oboés, dos trombones e dos trompetes, em suas tarefas sociais. Mas a percussão teve origem nos tempos mais longínquos, e somente começou a ver o mundo das classes mais bem aquinhoadas por intermédio dos trovadores, entre outros, acompanhando grupos populares para deleite dos mais ricos. A trompa teve origem em um instrumento empregado na caça, com seu tubo enrolado em uma única longa volta, sendo levada no cavalo a 'tiracolo', para que o trompista pudesse executá-la com o sopro, ao tempo em que uma das mãos (não havia válvulas, como hoje) segurava o instrumento e a outra manobrava as rédeas do animal (Raynor, Henry: A Social History of Music).
Ravanastron
Entre os instrumentos de cordas que antecederam os nobres violinos de hoje, muito antes de aportarem na Europa Ocidental, havia antecedentes mouriscos, além de  ancestrais indianos e em culturas do Oriente Médio e Extremo Oriente. Naquelas plagas, cordas e arco ajudavam, entre outras coisas a meditar ao som das ragas, como fazia o ravanastron, tocado com arco, e o sitar (dedilhado),  indianos, elevando a alma e obedecendo a sistemas musicais e princípios espirituais próprios.
Um rebab mourisco
O rebab, de onde a nossa rabeca, não aportou no Ocidente, como pensam muitos, pelas mãos poderosas do mercador veneziano Marco Polo (1252-1324), a quem se atribui a introdução na Europa da pasta, ou seja, o macarrão, espaguete e suas variações. E nem foi o instrumento entregue de mãos beijadas aos italianos, como muitas das boas invenções da vida foram. O primeiro destino foi a Península Ibérica, de onde, em sua longa ocupação pelos mouros (711-1492), foi enfim aproveitado pelos italianos, que no início do século 16 criaram instrumentos como o violino e sua família, e logo aperfeiçoando-o nos limites que o conhecemos hoje - pouquíssimo, além do material das cordas, foi alterado e tudo indica que assim permanecerá, sem maiores novidades. Uma arte de meio milênio que pouco ou nada mudará.
Felini em ação
Quem observou com argúcia as diferenças e particularidades entre os músicos foi o cineasta Federico Felini 'da Rimini', cidade de Francesca (por isso mesmo), a jovem imortalizada pela ópera homônima de Tchaikovsky, escrita sobre um dos cantos da Divina Comédia, de Dante. A visão do cineasta está no filme Ensaio de Orquestra, que recomendo (ver link abaixo), e nele fica evidente que cada músico considera seu instrumento o mais importante, de som mais lindo: o contrabaixo teria a voz dos deuses, a flauta o som mais puro, o piano seria o mais completo, o violoncelo, ah, o da voz humana, cada músico enaltecendo as qualidades e virtudes de sua escolha, frequentemente ironizando a dos colegas. Mas tudo isso, acredite, com amizade, coleguismo e, sempre, muito humor.
(Link para o filme: https://www.youtube.com/watch?v=wBX1NQYRwhU)

Uma trompa (shofar) vai ao Paraíso
O que é que o dedo do violista tem em comum com um raio? É que nenhum deles cai duas vezes em um mesmo lugar. E há a charada: jogado do 20º andar de um prédio, qual chegaria primeiro, o violista ou a viola? A resposta maldosa é ‘quem se importa?’ Democratizando, há a do trompista que, chegado à porta do Céu, aguardava seu julgamento. Junto a ele, estavam um agiota e um gigolô. Ao agiota, foi dito que praticou a usura, explorou, deixou famílias na pendura, sem carro e telefone. Inferno! Ao gigolô, que havia destruído famílias, levado boas meninas ao mau caminho, trazido doenças. Inferno! Na vez do trompista, sem pestanejar, o encarregado da triagem disse: passa, você vai para o Céu! O gigolô e o agiota, inconformados, foram tomar satisfação. Ouviram que, se um estragou vidas e famílias, o outro as deixou na miséria. Mas aquele feliz trompista, que já longe subia, fora agraciado com o Paraíso porque, muito antes de morrer, havia cem músicos rezando por ele.
E as diferenças entre o músico chamado erudito – expressão que não existe em outro lugar no mundo, e no Brasil não vou perder tempo em longas explicações sobre o porquê – e o chamado popular não fogem à regra, apesar de que há clássicos tão populares... (lembro logo três, a Carmina Burana, de Orff, o Bolero, de Ravel, e a 5ª Sinfonia de Beethoven!). Talvez o tipo de músico que vivia pelos cabarés da Lapa, o Beco das Garrafas de Copacabana, berço da bossa-nova ao vivo, não se preocupa em tocar de sandálias havaianas, se inglês meias brancas sem sapatos, como o baterista Charlie Watts, dos Rolling Stones, smoking cor de rosa ou furta-cor, camisa social ou de meia já rota, se americano. Transita pela boemia e gandaia com a mesma tranquilidade que, entrando pela porta dos fundos, convive com as castas mais abastadas – como os trovadores, de quem falei no início do artigo. O chamado “erudito”, ou melhor, clássico, padece das agruras da vida, assim como seu irmão das noites e shows. E divide com ele um bocado de preconceito e necessidades. Mas no palco, ah, na hora da estrela, abre-se em um rosário de felicidades!


sábado, 24 de março de 2018

MÚSICOS: ‘O QUE DÁ PRA RIR, DÁ PRA CHORAR’


Tomando este título emprestado em parte de um lindo sambinha do Billy Blanco, continuo com as anedotas sobre músicos. Se dá pra chorar, como na música do John Lennon Woman is the Nigger of the World - A Mulher é o Negro do Mundo -, dá para rir de contrabaixos, violas e trompas, os que mais sofrem, como espécies de niggers da orquestra. Quando se pergunta ‘qual a diferença entre o primeiro e o último contrabaixo da seção’, vem a anedota: ‘um tom e meio’, quando, claro, todos deveriam estar tocando a mesma nota, o que sugere desafinação surreal do naipe.

A viola também não escapa. ‘Se você se perder em uma floresta, a quem pediria auxílio? Um coelhinho, um péssimo violinista ou um violista excelente?’ A resposta seria ‘o péssimo violinista, pois coelho não fala e violista excelente não existe’. Por fim, ‘a razão de existirem tantos violistas à noite às portas de residências, tocando a esmo, é que eles certamente perderam a key (a piada original é em inglês, key tanto serve para a chave da porta quanto para a tonalidade da música. O anedotário é internacional). E, pior, não sabem quando entrar’, que no jargão da orquestra quer dizer começar a tocar cada parte.
Municipal de SP, há décadas
Verdadeiro: no Teatro Municipal de São Paulo havia um contrabaixista russo, ótimo professor, Nicolau Svetschenko, que tinha suas dificuldades com o português. Certa vez, a orquestra ensaiava o Tenente Kije, de Prokofiev. O regente convidado, não ouvindo direito o famoso solo de contrabaixo, parou e exclamou: contrabasso, tu sei protagonista (você é protagonista)! Pediu mais volume, já que naquela hora o músico seria o solista. Inocentemente, mas furioso, Nicolau abandonou o instrumento no chão e por pouco não subiu ao pódio, exclamando, dedo em riste: ‘protogônio é a mãe!’ (a palavra deve ter soado como alguma coisa feia em russo). O naipe daquela época tinha figuras folclóricas que marcaram época, além do Nicolau, como Corazza, Bianchi e Sandor.
Jacques Thibaud
[Nas anedotas entram também instrumentos, digamos, mais ‘castos’, como os violinos: ‘quantos são necessários para se trocar uma lâmpada?’ A resposta é para fazer chacota com esses instrumentos na hierarquia do poder da orquestra: ‘quarenta. Um para segurar a lâmpada e 39 para discutir o melhor jeito de fazê-lo’]. Contrapondo, outra historieta verídica. O famoso violinista Jacques Thibaud acabara de dar um recital e recebia para cumprimentos e autógrafos. Uma mocinha lhe trouxe um caderno de assinaturas tão apinhado de dedicatórias que não havia espaço para Thibaud autografar. Perguntou ele à mocinha: ‘mas onde eu escrevo, minha filha? Não há espaço para escrever nada aqui’. Um colega, violinista famoso, ouvindo o diálogo por cima do ombro de Thibaud, disse, maldosamente: ‘seu repertório’.
Violinista e violista
Mas violistas são campeões em piadas, e elas ‘são geralmente curtas, para eles entenderem’, dizem os colegas, com certo veneno. Coisa do gênero ‘qual a diferença entre o violino e a viola’? (A viola tem dimensões maiores). ‘Nenhuma, é que a cabeça dos violinistas é maior’. Há os que retrucam com uma piada sobre o instrumento do colega, mas os mais espertos lembram, eles mesmos, alguma sobre seu próprio instrumento, deixando o parceiro sem graça. Essas brincadeiras são coisas de músico, e sempre levadas com bom-humor, não há jeito. Mesmo porque depois daquele exaustivo concerto de sábado todos se sentam para um chopinho, instrumentista ao lado de outro – ou em grupos, naipes ou seções, mas todos ali. E na hora da música de câmara extra-horário acabam-se quaisquer diferenças - menos as brincadeiras.
A maior parte das boutades recai sobre afinação,  palavra cruel. No passado, trompas e trompetes não possuíam válvulas, ou pistões, tal como os dos automóveis. Elas fazem o tubo onde o ar se desloca mais longo ou mais curto, levando a coluna de vento passar por voltas mais longas, simples ou combinadas. Essas peças possibilitam a execução de todas as notas. Os oboés, clarinetes, flautas e fagotes tinham um mecanismo primitivo de chaves até Theobald  Boëhm criar seu sistema de chaves, no séc. 19.  
Trompete e shawm
A própria função de cada instrumento em nossa música já mostrava algumas diferenças, talvez daí as rivalidades: ao oboé, quando era o primitivo shawm, cabia ficar em lugares estratégicos, como em cima das torres, e seu agudo cortante anunciava a chegada de visitantes. Os trombones, vindos do ‘saquebute’, tinham função eclesiástica: quando em grupos, soam como belo e poderoso órgão. Aos trompetes eram dadas funções palacianas, como saudar a entrada de nobres ou pessoas de grande investidura nos precintos. Já as cordas, com seu som característico e muito pouco volume no passado, usando cordas de tripa animal (hoje são metálicas) eram perfeitas para grupos de igrejas ou pequenos recintos (in Raynor, Henry). Mas aí veio Monteverdi, no período barroco, e deu de juntar todo mundo em um grupo maior. E mais problemas.
Domenico Scarlatti
Scarlatti (1685-1757) reclamava que os sopros não afinavam (ainda não havia o sistema Boëhm, do séc. 19). E que o som das trompas chegava sempre atrasado – as campanas, aquelas peças em forma de sino por onde o som é projetado, são voltadas para trás. Estudava-se uma compensação. Ele também reclamava das passagens dos baixos que não ouvia direito, porque em um conjunto maior é claro que há certos limites. Finalizando, mais uma sobre os contrabaixos: ‘quantos contrabaixistas são necessários para se trocar uma lâmpada? Nenhum, pois um pianista pode fazê-lo com sua mão esquerda’ (da linha grave do piano).


sexta-feira, 16 de março de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS? FINAL



Heróis, críticos, intrigas e anedotas

Richard Strauss (1864-1949) ridicularizava os críticos, simbolizando-os em e arrastados naipes de trompas. Pensando neles, orquestrou esses instrumentos com malícia em Ein Heldenleben (Uma Vida de Herói), um poema sinfônico que é uma exaltação ao super-homem de Nietzsche, mostrando um violino-herói que, seguramente, era ele mesmo, Strauss. É preciso lembrar que Richard nutria indisfarçável ódio por papai Franz Strauss, trompista que por sua vez não escondia uma ojeriza mortal por maestros. Por causa disso, Franz nunca aceitou a carreira de regente do filho Richard.
Anedota: um sujeito entrou em uma loja de pássaros e ficou observando aquelas gaiolas com canários. Em uma delas, havia uma placa que informava: ‘canário cantor, R$ 10,00’, e cantava lindamente! Na gaiola vizinha havia outro canário e os dizeres: canário mudo, R$ 1.000,00. Inconformado, o freguês pergunta ao dono da loja o porquê de um canário de lindos gorjeios custar apenas R$ 10,00, ao que o outro, mudo, coitado, sem cantar nada, valia R$ 1.000,00. A explicação do lojista foi no ponto: é que este segundo não canta – mas rege.
Bernard Shaw
Raros foram os críticos que desfrutaram do paraíso do respeito geral dos músicos. Entre as exceções, destaca-se o dramaturgo e crítico musical irlandês Bernard Shaw (1856-1950), o qual, a respeito da 9ª Sinfonia de Beethoven (Ode à Alegria), escreveu que deveria ser proibido executar qualquer outra obra musical no mesmo programa, a “Nona” se bastava. E que o autor de tal crime deveria ser preso sem direito a fiança e condenado.
Max Reger
O alemão Max Reger (1873-1916), além de compositor, foi organista e pianista de grande virtuosidade, músico profundamente inspirado mesmo quando não bebia, costume razoavelmente comum entre os românticos daquela época. Por causa de seu costume, certo dia Reger leu uma crítica em que um articulista disse que ele não precisava beber para se inspirar. Reger, furioso, escreveu ao crítico dizendo que tinha acabado de ler tão maldoso artigo – naquele lugar recôndito para onde as pessoas se recolhem para resolver, digamos, assuntos... de foro íntimo. E que, em poucos minutos, aquela crítica teria o destino merecido, deixando à conclusão do jornalista o futuro da matéria dele. Um século antes de Reger nascer, Gluck já costumava ser visto ao cravo compondo em seu jardim, garrafas de champanhe ao redor. Talvez por causa desses excessos etílicos o compositor tivesse o hábito de bater na cabeça de seus músicos quando os repreendia.
Existem muitas histórias divertidas sobre críticos. Uma delas conta que, há muito tempo, um deles preparou um artigo sobre um recital de um pianista brasileiro que acontera em determinado auditório. Exaltou a destreza do pianista em ‘passagens em tercinas do segundo movimento’, vocabulário que os músicos evitam usar fora de aulas. Mas repreendeu certos andamentos e lamentou a interpretação de uma ou outra passagem. Ironicamente, o programa do recital havia sido mudado. A obra criticada simplesmente não fora executada. Culpa do despreparo do crítico, que escreveu o artigo sem ter ido ao evento.
Carlos Imperial, imbatível
Há aqueles que não dão a mínima para críticas sobre sua performance e pessoa; pelo contrário, delas até se aproveitam. O compositor, carnavalesco, político e auto-assumido cafajeste Carlos Imperial, acusado de plágio por sua marchinha A Praça, costumava dizer: falem mal, mas falem de mim. Também garboso ao ser mal-falado e suprassumo da cafonália mundial, o pianista norte-americano Liberace recebeu duros ataques em um órgão de imprensa, após uma apresentação espalhafatosa no Madison Square Garden, de NY. Telegrafou depois a cada um dos responsáveis do jornal e ao seu detrator informando que as críticas o deixaram tão deprimido que havia chorado copiosamente durante todo o longo caminho de limusine para o banco.
Peça rara: Massenet e Saint-Saëns no mesmo LP
O compositor Camille Saint-Saëns (1835-1921) havia perdido a eleição para o Instituto de França, em 1878, para Jules Massenet (1848-1912). Perguntado sobre o rival, Saint-Saëns, diplomática e educadamente, respondeu que Massenet era um músico genial. Quando foi informado de que este último o havia tachado de compositor medíocre, Saint-Saëns usou de pronto uma rasteira inteligente: disse ao jornalista que ele, assim como Massenet, nunca dizia a verdade ou o que realmente pensava.
Gary Karr e sua bike: campus de Hartford
Indiferentes à opinião alheia sobre suas performances e pessoas, certos músicos, mesmo que cobertos por nobres casacas e sóbrias vestes femininas, às vezes escapolem das regras e não hesitam em lançar mão de expedientes como usar um velho par de jeans tingido de preto, como fez um dia a já falecida Marylou Speaker, spalla dos segundos violinos da Sinfônica de Boston, que ao entrar no palco escondeu com seu instrumento a placa de metal do bolso traseiro direito de seus jeans Levis escurecidos. E passou o concerto inteiro puxando a blusa preta para tampar o adereço. E o célebre contrabaixista Gary Karr, da Universidade de Hartford, mandou às favas o perfil sisudo e mandou instalar um rack em sua bicicleta para levar seu enorme contrabaixo campus afora, sob os maus olhares dos acadêmicos mais empedernidos.
Aliás, sobre este instrumento existem algumas dezenas de anedotas. Uma delas conta que um contrabaixista, após o intervalo, reclamou ao maestro, alto e bom som, que alguém havia desafinado uma corda de seu instrumento. O maestro: pois afine-a! O músico respondeu que não disseram quem foi o autor da brincadeira e que não contaram qual a corda!