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sábado, 30 de março de 2019

MEU TIO DA AMÉRICA


Mon oncle d’Amérique é um filme (1980) do francês Alain Resnais, autor também do amargo Hiroshima, mon amour. Na trama, um fazendeiro é diretor de uma empresa em fase de cortes de empregados. Convivem Janine Garnier, atriz de ambições e amante de um senhor casado, e Jean Le Gall, ativista político e escritor em crise existencial. Pano de fundo, as ideias do neurocientista Henri Laborit, também narrador do filme.
Henri Laborit
Segundo Laborit, há quatro elementos que regulam a conduta das pessoas: o consumo, a recompensa, a punição e a inação. Revolucionou a psiquiatria em 1952 ao introduzir novas drogas em alguns tratamentos e teve sua participação no filme duramente criticada pela comunidade científica. Era adepto do chamado behaviorismo, teoria que analisa indivíduos e animais pelo seu comportamento e associa as atitudes das pessoas às suas neuroses e doenças. É o retrato de uma intensa disputa no trabalho que leva a alucinações. Eis a América de Resnais.
As 13 colônias: o início de tudo
Em busca dessa competição, do ‘fazer a América’, fui para os EUA em 1977, com chances para estudar nos melhores lugares e sonhando com trabalho. Mas já saindo do aeroporto de Boston veio o primeiro choque: um enorme outdoor parece que alertava para o que eu iria encontrar: Competition. That’s what makes America great! (Competição. É o que a faz a América grande!). Uma nação erguida por 13 colônias de culturas e Igrejas diversas disputando terras, cultivo, gado e dinheiro. Competia-se dentro de cada uma e todas entre si. Mais tarde, ciência, esportes, jogatina, ascensão na vida, busca pela excelência em todas as atividades, ser a maior nação.
Sly & the Family Stone
Em 1974, eu já havia estado em NY. Resolvi ir a um show do grupo de funk (nada daquilo que se ouve por aqui) Sly & the Family Stone, ritmo e balanço evocando o lema de George Clinton, shake your ass and your mind will follow (o ‘sacuda seu traseiro e sua mente seguirá’). Era no famoso Radio City Music Hall, e fui sozinho.
Lá, grupinhos e gangues davam medo. Recém-chegado, vi que tinha apenas uma nota de US$ 100 – o equivalente a coisa de R$ 1.900, em valores atuais. No caixa não havia troco, e um monte de pivetes cercou-me para ‘ajudar’. Salvou-me um contrabaixista de apelido Yinka, do Harlem, que veio ao meu encontro e foi logo se apresentando. Fomos ao show, um deslumbre, mas declinei do convite para ir ao gueto nova-iorquino ouvi-lo tocar. Seria às 2h da manhã, loucura.
Essa experiência de 1974 ajudou-me a lidar com a vida nos EUA a partir de 77. Ainda não estava em condições de competir para os bons cachês de orquestras, então fiz como muitos brasileiros, usei minha alma latina para ganhar algum dinheiro com música enquanto estudava. Surgiu um convite para tocar salsa com um violinista cubano de alcunha William Fox.
Roxbury, Boston
Metrô para Roxbury, saindo perto do New England Conservatory e cruzando a chamada limit zone (zona do limite). Basicamente, um bairro-gueto enorme, brancos, negros e latinos, brigas e sensação de insegurança à flor da pele. Mas precisava daquilo para me preparar para o ingresso no curso superior dos meus sonhos. Em uma das viagens, um sujeito, de pé no vagão, calmamente enrolou seu baseado e começou a fuma-lo. Ninguém deu a mínima. Claro, fiquei preocupado, imaginei polícia invadindo, essas coisas. Fui discreto, perguntei se ele não tinha medo de ser preso. Pronto: abriu a torneira, dizendo-se herói da guerra do Vietnã, vítima de uma bomba, puxou a barra da calça mostrando a prótese de madeira. E gritava salvei a América, ninguém manda em mim, coisas do gênero.
Veteranos, os vets
Muito comum ver esses ex-veteranos de guerra – e ex-presidiários – de todas as origens pelas ruas, alguns dóceis e outros nada, praguejando em voz alta para si mesmos. Ou com camisetas de recordação: visit fascinating Vietnam. Quando quietos, e não surtados, não incomodavam, mas não se sabia no que poderiam se transformar de repente. Mas ou eu tocava o barco ou terminaria por desconfiar e ter medo de todo mundo. A América já não era tão ‘Disneyworld e Hollywood’ assim (conforme vou ilustrando neste espaço), mas o intento de estudar cada vez mais, seguindo os conselhos do professor, era ouro – nunca aceite menos do que primeiro, disse.
Consulado dos EUA em SP: fila para vistos
Nós aqui temos bandidos e psicóticos. Americanos também (e têm terroristas de sobra, brotam da noite para o dia). Aqui, por um visto de turista ou estudante nos EUA vive-se uma odisseia. Meu permanente obtive lá mesmo, depois de anos, e só após interrogado sob juramento, o passado remexido. Nas filas dos consulados no Brasil é frequente candidatos a turista nos EUA terem o visto negado de pronto, às vezes sem saberem o porquê.  Há muito tempo existe um rígido controle de entrada e o atual presidente americano ainda quer apertar mais e mais, vide o muro na fronteira com o México. Há um cuidado policialesco com quem quer entrar no país, mesmo que por via legal.
Pero Vaz de Caminha
O Brasil é terra onde se plantando tudo dá, disse Vaz de Caminha. Do bom e do ruim, ‘banana pra dar e vender’. É positivo turistas injetarem recursos aqui, mas não dá para ‘fazer o bem sem olhar a quem’. Enquanto isso, nossos marginais de estimação sequer viajam para os EUA. E não apenas os turistas americanos – jovens, casais de idosos, recém-casados e yuppies - terão aqui as portas abertas, o perigo também terá. A massa entrando livremente não terá rosto nem passado, e pode haver consequências. Enquanto isso, nossos pivetes, punguistas, organizações criminosas e 'arrastões' também estarão ávidos por fazer a festa que nos dá péssima fama. Haverá competição.


sábado, 23 de março de 2019

ALEXA NÃO É UMA MULHER DE VERDADE

Mário e Ataulfo

Era 1942. Ataulfo Alves e Mário Lago compuseram um samba-canção lamentoso, e como ninguém queria gravar fizeram-no eles mesmos, com enorme sucesso: Ai, que Saudade da Amélia, de letra (palavras do Mário Lago)  inspirada na lavadeira da cantora Aracy de Almeida. Surgiu então uma das joias eternas da música brasileira, o retrato da mulher submissa e perfeita, hoje coisa politicamente incorreta, dicionarizada no Houaiss como ‘mulher amorosa, passiva e serviçal’. “Você só pensa em luxo e riqueza / tudo o que você vê você quer / ai meu Deus, que saudade da Amélia / aquilo sim é que era mulher”.
Carmen e Aurora Miranda: sucesso com "Cantores de Rádio"
Alexa sim, é perfeita, mas não lava nem passa, sequer cozinha e tampouco limpa. Porém, é absolutamente fluente em inglês, seu idioma nativo, e corrige o patrão no mais exigente sotaque Britânico, of course. Só abre a boca quando perguntada ou a pedido. Ligar o som, alterar o volume, selecionar e trocar de música com rapidez, lembrar dos afazeres, ajudar na lista de compras, acender e apagar luzes, ligar e desligar aparelhos, cronometrar o tempo e acordar o patrão de manhãzinha, tal qual os Cantores do Rádio, da marcha de Lamartine Babo, João de Barro e Alberto Ribeiro: “Nós somos as cantoras do rádio / levamos a vida a cantar / de noite embalamos teu sono / de manhã nós vamos te acordar”.
Chegou a hora e a vez de Alexa! Não namora, não canta, mas coloca para tocar, a seu pedido, horas de Bach com Glenn Gould ou Swingle Singers, talvez Rolling Stones ou Carpenters. Você comanda, ela obedece (Alexa, abaixa o volume, aumenta, para (o telefone está tocando). Recomece ou continue de onde parou. Me acorde às 7h, mas antes de eu me deitar lembra do forno ligado, em exatos 15 minutos. Alexa nunca se cansa, até o último pedido, aliás, pode apagar as luzes? Que horas são, qual a previsão do tempo para hoje (ou o fim de semana), prepare a lista de compras da casa. Naquela noite de berço esplêndido, cansado, peça um romance ou poema de sua escolha, ela o lerá. Quais as notícias do dia? Alexa é perfeccionista incansável, por isso quando você der as ordens faça-o claramente, em inglês irrepreensível, ou ela não vai entender – ou vai corrigi-lo: Alexa, toque Joan Baez tem de soar algo como ‘play Djoán Baés’.

Meu Echo Dot
Alexa trabalha 24h por dia, apesar de morar em uma nuvem, dessas dos novos tempos, lugar dos anjos onde milhões de informações são hospedadas em espaços virtuais. E mais, Alexa trabalha de graça, você só paga para adquirir, a preço bem módico, o aparelhinho para se comunicar com ela, o Echo Dot, que não ocupa espaço: tem apenas 8cm de diâmetro por 3,5cm de altura, cabe no bolso. Não precisa ligar na tomada, ele se alimenta por USB e funciona via Wi-Fi. Para um som de auditório sinfônico ou de um show de rock, plugue o cabo estéreo de seu equipamento no Echo Dot. Ah, Alexa pode ouvir seus comandos de qualquer canto, pois o aparelho tem oito microfones (sou toda ouvidos, diria ela).
Infelizmente, por enquanto Alexa só fala inglês, mas em pouco tempo deverá ser hábil no português e estará nas lojas. Meu Echo Dot ganhei de Natal, presente da minha filha que mora em Londres. Quando vi aquilo funcionando, fiquei meio bestificado, era algo com que não sonhava, a tecnologia anda na velocidade da luz e nossa cabeça na idade da pedra, imaginei. E meu netinho tranquilamente dando ordens e pedindo músicas para Alexa, parte do cotidiano dele. O fabricante do Echo Dot tem lojas no mundo inteiro, mas, pelo sotaque da Alexa, creio que a invenção deve ter nascido na Inglaterra. A empresa é uma grande distribuidora de todos os tipos de aparelhos, objetos, livros, roupas, móveis e parafernálias diversas, inclusive de outras lojas.
Supermercado virtual (criação FloorForce)
Há uns vinte anos, em São Paulo, ocorreu um episódio cômico com uma amiga, produtora artística, residente na Vila Mariana. Certo dia, ela fez um pedido de compras no site de um supermercado, via Internet. As gôndolas virtuais informavam na tela o estoque disponível do produto, preço, ao final pagava-se com cartão de crédito para receber em casa na hora marcada. Uma beleza para quem tem horror a supermercados, como eu. Logo chegaram as compras e a avó de Cecília, já bem avançada nos anos, atendeu a porta. Viemos entregar do supermercado tal, ela disse sim, e eles deixaram as caixas das compras. A velhinha gritou minha filha, as compras chegaram, mas onde está você? Aqui embaixo, vó. Mas não vi você entrar! disse a velhinha, perplexa. Não, vó, nem saí, fiz as compras pela Internet. Ao ouvi-la chorando, Cecília subiu preocupada, a avó entregue aos prantos. Onde vamos parar? Isso é troço ruim, coisa do capeta, só pode ser, resmungou inconformada. Depois de algum consolo, a velha senhora ficou mais calma. É que aquilo era demais para quem viveu a infância ouvindo rádio de ondas curtas e pulando amarelinha.

Ferro a brasa
Lembrava dos tempos sem geladeira, comida mais fresca dormia na janela, para pegar sereno. Carne, coisas assim, mergulhadas na banha. E o ferro de passar era um daqueles com chaminezinha, brasas de carvão lá dentro para esquentar. Claro que esse salto enorme no tempo deve ter sido um choque brutal. Eu pensei comigo que tudo aquilo que tem surgido, como agora a Alexa, é coisa do bem, para nos ajudar. Mas alguns desses avanços – Alexa nunca, aposto - podem ser usados para coisas ruins. Como sempre, há mal quando alguém utiliza essas traquitanas contra os outros, mas há bem pelo que elas podem trazer de qualidade de vida e conforto ao mundo.

sábado, 2 de março de 2019

ADEUS ÀS ARMAS


Preta, brilhosa, pesada. Cabo de madeira de lei. Quando eu a limpava, assobiava a música do Moraes Moreira, preta, preta, pretinha, lubrifica-la era mais do que um passatempo, coisa de arte. Puxar o carro, ver se desliza bem, limpar o pente, verificar as balas (um projétil pode atravessar duas pessoas, mas se a pólvora é velha o tiro pode ser escudado por um RG no bolso, ou na palma da mão, deu no jornal uma vez).
Após o disparo de uma 765/PT 158, o gás ejeta a cápsula deflagrada e num átimo a mola do pente faz subir outra bala, daí não haver coice. Pode-se disparar de um a uma sequência de até doze tiros. Quando o modelo foi lançado no Brasil, delegados de São Paulo receberam algumas para teste. Uma delas mais tarde passou para o nome do filho de um deles, vizinho conhecido meu. Pendurado em dívidas, ofereceu-me para comprar. Levei, e com ela fui na chácara de um hoje muito saudoso aluno, lá poderíamos treinar com um primo dele, militar e aficionado. Cheguei a andar com ela, coldre no sovaco, alcance da mão, não dava para ver sob o paletó.
Pente carregador
Nos fins de semana, costumava às vezes tomar um lauto café da manhã na padaria de uma esquina da Vila Mariana com meus dois filhos mais novos, então com coisa de seis e oito anos. Voltamos para casa, abri o portão automático, entrei, mas antes que a traquitana fechasse de vez um sujeito jogou-se por baixo, e, armado, anunciou o ganho, hoje talvez dissesse perdeu, caubói. Abri a casa, obedeci à ordem de acionar o portão elétrico, entraram mais três deles. Todos de ninja, menos um. Estava armada a festa. E bem armada.
A bela e tradicional padaria
O líder do grupo, dopado até o cocuruto, queria dólar, ouro e arma. Eu não tinha valores, só a pistola. Está no arquivo, eu disse, um dos bandidos foi buscar e só faltou beijá-la, dizendo-lhe uma gracinha. Mas foi sob a mira dela que manteve meus dois filhos pequenos, bem ao meu lado. Desmancharam os guarda-roupas, deitaram todos os quadros da casa no chão, e nada. Um deles pegou meu cartão de banco e levou a senha. O primeiro caixa eletrônico filmou, soube depois, mas estava quebrado; o contrário aconteceu no caixa de uma agência, câmera inoperante, vi depois. O cartão tinha sido bloqueado, eta senha danada! Tenso que só eu, devo ter passado o código errado.
Não tinham jeito de levar mais, meu carro na garagem já havia sido carregado com o ganho do dia: roupas, eletrônicos, TV, computadores, relógio, carteira. O que não os saciava, eles queriam mais. O líder ameaçou levar minha filha como refém, aí me deu gosto de fel na boca, longos momentos de ódio e sangue frio. Mudou de ideia, acertou de nos encontrarmos na segunda-feira na estação Tatuapé do metrô, eu levaria uma maleta com 50 mil reais. Combinado, trancaram-nos na cozinha (uma, duas ou mais horas? O tempo da angústia retarda até ponteiro de relógio). Peguei um telefone velho no fundo do gaveteiro da pia, descasquei o fio e liguei no cabo que  passava no canto, uma gambiarra. Liguei. Em pouco tempo, um amigo abriu a porta e nos livrou. Ver a casa naquele estado de guerra, foi deprimente, mas não haveria de ser nada, estávamos todos ali, e vivos.
Estação Tatuapé
Dia seguinte, segunda-feira, lá fui eu com a mala 007 cheia. De jornal picado, como a polícia instruíra. Desci na estação, a área cercada de policiais à paisana. Polícia Civil, DOE, até o DAS (Divisão Anti-Sequestro), que geralmente só atende em casos consumados. 
Esperei em frente à tal carrocinha de doces, ninguém. Encostei a maleta no meio-fio como chamariz, nada. Veio um rapaz e comprou um doce, falou baixinho para mim não há nada aqui, era só para você ficar com medo. Outro passou sussurrando que foi só para ganhar tempo, e veio um outro, baixando a ordem: vamos embora, é blefe.
16 DP - Vila Clementino
Fiz o BO no 16° DP. Ante a pergunta da simpática delegada sobre se eu tinha uma arma, se fora levada, se era fria, eu disse que sim, sim e não. Era registrada e com porte. Pois tanto pior, disse ela. Mas não se lembra onde estão porte e o registro? Vou bloquear este computador e o Sr. vá em casa encontra-los. Se a arma for usada em algum crime, o Sr. estará dentro. Corri, logo abria gaveta por gaveta, pasta por pasta, papel por papel do meu arquivo, e finalmente achei os documentos. Voltei ao DP, a delegada deu baixa na numeração, eu estava livre. Meses depois, recebi ligação de uma outra delegada, dessa vez do 3° DP, de que a pistola fora usada em um 157 (par. 3°: latrocínio). Mas a Justiça já custodiava a arma, eu havia dado baixa e agradecia por ter sido salvo de mais essa encrenca. Foram dias indescritíveis.
Saguão com lojas e elevadores
Passou algum tempo e minha filha mais velha pediu-me para ir buscar o violoncelo dela, que estava em uma luteria de um prédio tradicional da Av. Paulista. Fui no horário marcado, mas precisava comer algo antes, enganar a fome em um café ali embaixo. O elevador chegou ao térreo, dane-se, vou depois, fome também mata! Entrou um senhor com uma maleta, já estava filmado, diz o jargão. Logo entra mais outro, e mais um. A porta do elevador se fecha. O resto, já que saí do prédio ao ouvir barulho e ver uma confusão, vim a saber pela TV à noite e jornais do dia seguinte. Um dos sujeitos anunciou o assalto, pegou a maleta e o terceiro sacou de sua arma contra o bandido. Mas levou um tiro na cabeça, morte na hora. Detalhe: o sujeito assassinado era delegado de polícia recém-aposentado, com 30 anos de carreira. Isso, com a experiência dele no uso de armas, com a vivências de situações semelhantes, o que faria eu no lugar dele?
No plebiscito de 2005, votei com os 63,94% pelo não, que derrubou os 36,06% a favor das armas. Motivos de sobra eu tinha e tenho: este breve relato poderia ser um capítulo entre tantos que dariam um romance. De suspense e terror.
(Adeus às Armas é o título um romance de Ernest Hemingway, publicado em 1929. O escritor suicidou-se aos 61, com um tiro de seu próprio rifle. Fica a homenagem. Abaixo, Ernest Hemingway e seu cano duplo)


domingo, 24 de fevereiro de 2019

UM FURACÃO CHAMADO BIBI


Chegamos os seis quase juntos naquele teatro enorme, vazio, eu já havia tocado bastante ali. Fomos para o nosso lugar, afinamos, arrumamos as estantes, preludiamos, papeamos como em qualquer conjunto. Logo chegou o Dori Caymmi, proseamos um tanto, ele pegou umas partituras novas e, naquela bagunça, passou a escrever arranjos sem usar o piano, transpondo de cabeça as partes, uma a uma, até as de sax alto e tenor, sem uma partitura geral! (Aí o porquê do Grammy Latino e da indicação ao Grammy Internacional). Ao piano, Luizão Paiva, sax, Zé Nogueira (do segundo não me lembro), violão, Vital Farias, bateria, Joca Moraes, eu no contrabaixo. Pronto, hora de ensaiar a vera, Dori com a palavra. Assim nasceram os arranjos das músicas do Chico para a Gota D’Água, peça de 1975. Sob o medo (não, já não cabia temer) de um possível veto da censura logo na estreia (no ano anterior, o gen. Bandeira havia mandado a PF impedir Calabar, de Chico e Ruy Guerra, 'subversiva ode à traição').
Eurípides: 480-406 a.C. 
A peça era baseada na tragédia grega Medeia, de Eurípides (480-106 a.C.), ambientada em um conjunto habitacional pobre do Rio. Creonte, papel de Osvaldo Loureiro, era o todo-poderoso da comunidade, e sua filha Alma, a jovem e linda Bete Mendes, seduzia Jasão, marido de Joana, a Medeia. Na batuta da cena, o milanês Gianni Rato, gênio da cenografia, da coreografia e tudo o que se desenrola sobre um palco. Em sua bagagem, a Meca da ópera, o La Scalla de Milão, Maria Callas. Atores no palco, bailarinos, músicos a postos, ensaios, tudo sob os olhos críticos do Chico Buarque e Paulo Pontes, autores da peça, e os argutos Dori e Rato. As cenas, o clima, os movimentos, tudo ia tomando forma e espaço em um emaranhado orquestral.
(Folha PE)
Um dia percebi que observava tudo a Sra. Abigail Izquierdo Ferreira (a mãe dela, Aída, era argentina, e tinha esse sugestivo prenome operístico). Meio franzina, baixinha, mal saída dos 50 anos. Modesta, simpática, logo fez amizades, armada apenas com seu carisma. Bibi Ferreira, atriz com formação em Londres, cantora, diretora, artista vinte vezes premiada, musicista e dona de uma simpatia que conspirava com sua luz natural e estelar. Dia daqueles, sentou-se ao piano, nem tinha tempo de estudar mas sabia muito bem do teclado. Cabelos escorridos, braços magros, um corpo que não escondia a idade (nem se incomodava com isso, haveria de colecionar tantas décadas de vida). O palco luzindo à presença dela.
Chico e Paulo
Chico e Paulo Pontes, marido de Bibi na época, escreveram o texto como se ela fosse a única. Cantava muito bem, exprimia na face e no corpo um drama para lá de intenso. As juras de vingar Jasão, marido e traíra, traidor com o beneplácito do chefão canalha, Creonte: “pra mim / basta um dia / não mais que um dia / um meio dia”. A plateia seria conduzida à tragédia, um crescendo enorme, como em uma sinfonia do romantismo tardio. Medeia envenena os filhos e se mata. No longo monólogo final, apenas um canhão, aquele pequeno foco redondo e intenso de luz circundando Bibi, já atirada no chão, o resto era breu, silêncio. Logo nas primeiras récitas não resisti, fui fazendo um coração da corda mais grave abafada, tum-tum, tum-tum. Daí esmorecendo, como se a vida fosse desvanecer na pulsação audível, logo suave até sumir, logo estancada em silêncio. Havia sido a gota d’água.
Momentos divertidos, papos de bastidor, molecagens de músicos. Certa vez, com apenas uma longa camisa social masculina, Bibi chegou para nós músicos com a delicadeza de sempre. Vim lhes pedir um favor (diabo, o que seria? Tocar mais baixo?). Disse que estava meio afônica, não conseguiria chegar aos agudos com a garganta ruim, se a gente poderia baixar em um semitom a tonalidade da música. Pânico. Era impossível, havia 2 saxes, instrumentos transpositores, baixar todos um meio tom de lá menor, loucura tentar, estava tudo escrito, ia desarranjar os arranjos do Caymmi, tudo escritinho com esmero.
Resolvemos encarar a fera, enganar a Bibi. E haveria de ser só entre nós e na cara de pau. Vamos tocar a música como está, decidimos. Hora da cena, canta a Bibi “...se tritura, se atura e se cura a dor / na orgia”. Uma voz gutural, uterina, em desespero, sangue nos olhos, cravou todos os agudos. Na hora dos aplausos, ao final, do proscênio Bibi fez um gesto elegante para nós seis, talvez já sete, talvez já fôssemos sete, talvez Bibi tivesse percebido e nos fosse cúmplice. Guardando os instrumentos, a peça havia terminado outra vez, o Teatro Tereza Rachel apinhado, já íamos saindo, chega a Bibi, o que ela ia fazer, ralhar conosco, dar um pito de mãe, xingar? Não, ela veio agradecer e me lembro bem das palavras, obrigada, meninos, vocês são uns amores, disse. Assoprou um beijo sem batom de rosto lavado, sem maquiagem, linda.
Tum-tum, tum-tum do coração, e sai da cena Bibi, sem termos tido a chance de explicar o ocorrido, nossa consciência já pesava como um tijolo. Mas estrela é estrela, estava acima disso, receberia tudo de coração, com um sorriso, pensamos. Se um dia nos encontrarmos, Bibi, ou seja, a Medeia, Joana, com que roupa for (a vida de todos os papeis era dela mesma), My Fair Lady, se nos encontrarmos eu conto, se é que você não sabe. Você, que além de todo o já dito e redito é e sempre será magnânima, nos perdoará (mas será que percebera  a travessura?).
Nesses últimos dias publicaram tantas biografias, reportagens, não me caberia acrescentar nada. Só este depoimento e a prazenteira confissão póstuma da traquinagem.  

domingo, 17 de fevereiro de 2019

VIOLA, MINHAS VIOLAS


Meia volta e volta e meia, instrumentos musicais surgem com nomes diversos, a depender da origem, do lugar onde vivem e até de seus formatos e construção, como fossem pessoas. Daí vários nomes para cada um, como um sujeito com vários apelidos. (E há também instrumentos com o mesmo nome, como Joões ou Marias musicais). Na bem desenhada ascendência dos instrumentos, eles adquirem personalidades, vozes e roupagens nos conformes da época ou região em que foram adotados (ou são dados por nascidos).  
Andrea Amati, professor de Stradivari
Às clássicas, tocadas com arco: a viola das orquestras e quartetos de cordas é um instrumento semelhado a um violino, pouco maior. No séc. 16 o luthier Andrea Amati organizou a família dos então recentes instrumentos, a viola ocupando o lugar que seria o da voz contralto (por isso, ‘alto’ em algumas partituras), segunda voz feminina no coral - soprano, contralto, tenor e baixo. O som flui doce como voz de mulher, só que grave e encorpado como a aparência do instrumento, é mais voix de poitrine (voz de peito) do que o violino, primeira voz e geralmente a estrela condutora da melodia-rainha.
Viola Bastarda
A antiga viola que deu origem a essa família é um instrumento com finos trastes de tripa animal espaçados ao longo do braço, e teria se espalhado pela Europa via Espanha, durante o Renascimento, ao final da ocupação mourisca na Península. A viola da braccio (braço) e a da gamba (perna) trazem suas variantes, como a viola d’amore, a arciviola e o violone, de voz mais grave e quase um contrabaixo, o popular rabecão, grande rabeca. Mas pobre da viola bastarda, surgida na Itália barroca, ainda nascitura já sofria com esse nome, embora de belo e virtuoso som!
Viola d'amore: por baixo das cordas dedilhadas, as cordas simpáticas
A viola d’amore era uma prima da viola da braccio. Tinha seis cordas dedilhadas à esquerda e até sete de simpatia, ou seja, vibravam soltas ao som das primeiras. Daí o som cheio, harmonioso, simpatias tornando-se quase amor, o d’amore já diz. A viola da spalla (ombro, em italiano), do tamanho de um pequeno violoncelo, era tocada com apoio no ombro do executante, e não raro amarrada ao cinturão do músico, para que pudesse participar de marcha, desfile ou honra pública. A viola di fagotto foi uma das inúmeras invenções dos artesãos da época. Algumas de suas cordas de tripa eram recobertas por metal, daí um som mais rasgado, que achavam assemelhar-se ao do fagote da época, que lhe deu o nome de pia.
Haydn, por J. F. Rigaud
A viola pomposa, final do período barroco, possuía cinco cordas e também era prima da viola da braccio, mas mesmo com alcunha de pompa não deu de vingar. A viola paradone italiana (séc. 17-18) tinha um irmão, baryton, tocado como a viola da gamba entre as pernas do músico. Eram seis ou sete cordas arqueadas e doze a vinte que oscilavam por simpatia, soltas, ao ressoar das que eram tocadas pelos dedos da mão esquerda e arco do músico. Haydn escreveu mais de 150 trios com o instrumento, dever de ofício de servo da arte da corte: o mecenas do compositor, o príncipe Esterhàzy, tinha no baryton/paradone seu instrumento favorito, e por missão de apadrinhado o próprio Haydn tocava junto com ele, trazendo o tcheco Antonín Kraft ao violoncelo - por prazer, um pouco de ouro ou puxassaquismo. Já havia tantas novidades a escolher, algumas invencionices duravam mais e outras, mais doidivanas, não.
Arpeggione (Strings Magazine)
Com o classicismo, essas invenções ameaçavam a escassear, mas no romantismo decolou o arpeggione, parecido com o violoncelo mas com seis cordas e trastes ao longo do braço. Schubert dedicou-lhe uma brilhante sonata que leva o nome do instrumento, peça hoje tocada por dez entre dez bons violoncelistas e os melhores contrabaixos e violas.
Viola de arame (Escola M-Arte)
Saltando no tempo e no mundo, interessa de coração a nossa riquíssima viola de arame ou caipira, tão popular no Brasil, às vezes também dita bandurra ou machete, ou ainda viola brasileira, buriti, cabocla, cantadeira, de bambu, de cabaça, de cacho, chorona, de dez cordas, ligina, de feira, de Queluz (proximidades de Lisboa!), nordestina ou sertaneja.  
Braga, Portugal, linda.
Em cada lugar há variantes de cinco ou seis ordens duplas de cordas, filhotes locais gestados ao longo de tantas jornadas, as origens convergindo à viola braguesa (de Braga, norte lusitano). Essa viola chegou, ainda rudimentar, à terra de Camões, na enorme bagagem cultural dos invasores mouros, cresceu e tomou corpo durante os 711 anos de ocupação da Península Ibérica.  Por aqui, a descendente dessa braguesa pé-vermeio é a estrela da moda de viola, do cururu, da música caipira, do sertanejo real e de um mundaréu de outros gêneros. 
Grupo Violas de Arame
Dita em geral viola de arame pelos diferentes rincões do país com todos esses nomes e apelidos, ela se utiliza, a depender do lugar e do estilo, de afinações diferentes, ao sabor do executante - dono da viola em cada região é como fosse dono da bola. Sempre com o número possível de cordas soltas e a sensibilidade e parcimônia dos dedos da mão esquerda, seduz pelo prazer de sua ressonância especial, as cordas duplas quase como dois instrumentos soando perfeitamente juntos. Algumas dessas afinações são chamadas cebolinha, cebolão, guitarra, natural, boiadeira, rio-abaixo e maxabomba, podendo ser alteradas ao prazer do bem tocar, do jeito almejado e do cantar ao calor ou ao frio de onde fez sua morada.
[Viola Minha Viola é um programa já de uns 40 anos da TV Cultura, e foi comandado pela insubstituível Inezita Barroso (1925-2015), caipira com os dois pés fincados no chão. Todos os nomes da música de raiz brasileira por lá passaram uma, duas ou dez vezes. Com a viola e os caipiras, o programa é patrimônio de nossa cultura mais verdadeira.]


domingo, 10 de fevereiro de 2019

UNIVERSIDADE OU FACULDADE?

A Academia de Platão (Rafael Sanzio, 1.510)

Para não nos alongarmos voltando a Platão (387 a.C.) e todo o longo caminho percorrido até hoje, vale recorrer ao Houaiss, muito confiável para breves consultas. Diz o verbete universidade: “Instituição de ensino e pesquisa constituída por um conjunto de faculdades”. E sobre faculdade, esclarece: “Instituição de ensino superior (isolada ou integrante de uma universidade”). A exemplo, na USP há quase trinta Faculdades, Escolas e Institutos, cada um com número considerável de cursos.
Mais de uma vez ouvi referências a alguma ‘universidade de música’. Trata-se de algo inexistente, pois por definição vimos que uma universidade engloba diversas áreas do conhecimento. Faculdades às vezes agrupam mais de uma área, e parecem sonhar a ampliação rumo a um patamar maior, a universidade. Exemplo é um curso de música que criei e dirigi em SP, trabalho extenuante iniciado em 2005, hoje referência entre as particulares. Essa faculdade também congrega cursos de agronomia, direito e administração.
exame.abril.com
Criar um curso com o aval do MEC é como um trabalho de Hércules. Mínimo de doutores, mestres e, enfim, bacharéis, as classes seguindo um modelo padrão para todas as áreas e a pouca compreensão do ministério sobre a especificidade musical. Há entraves como aulas individuais de instrumento em um quadro de classes e horários a ser preenchido dentro de certas regras fixas; faz-se de conta que todos os alunos do curso terão aulas sozinhos na mesma hora. Após a formatura da 1ª turma, outra visita do MEC autorizará ou não o curso – no caso mencionado, foi nota máxima.
Universidade de São Paulo (Jorge Maruta/USP imagens)
Na esfera pública, conheço os meandros da USP, da qual me aposento em breve,  onde há uma ligeiramente maior autonomia. Mas a Fuvest... Bom, a adequação da Música às regras da Fuvest teve, na medida do possível, algumas poucas melhoras, mas é nonsense pensar a música inserida em um universo tão multifacetado e hermético. O problema maior hoje ainda não é só o do ingresso de alunos, mas o de professores. Eu havia chegado com um diploma de peso dos EUA, mas após poucos tempo houve uma publicação da reitoria no Diário Oficial, em nome do ‘interesse acadêmico’, dando-me prazo para fazer o mestrado.
Prof. Emérito Sábato Magaldi (arquivo pessoal)
Mas qual mestrado? Não havia tal curso em música! Como alguns colegas, pensei, escolhi e fui aceito em Artes Plásticas. Confesso que aproveitei, mas quando o Departamento de Música emplacou seus três doutores e abriu o curso de mestrado foi lá que eu concluí o título. O mesmo se deu com o doutorado: não havia ainda tal curso em música. Lá fui eu me preparar, recuperar o francês (o inglês já tinha sido o idioma no mestrado), e a sorte de ter como orientador o saudoso e imortal da ABL Sábato Magaldi. Quando chegou a vez do doutorado, foi como a forma musical ‘variações sobre um tema’: repeti a dose do mestrado, e quando o curso foi estabelecido no Departamento de Música mudei-me outra vez para lá.
(Fondazione Stauffer)
Hoje, o título de doutor é pré-requisito para ingresso nas públicas. Isso traz maior peso aos Departamentos, mas tolhe o ingresso de alguns dos melhores profissionais das Artes: sequer poderiam se inscrever estrelas internacionais como Nelson Freire e Antonio Meneses, só para citar dois nomes reverenciados internacionalmente, sem falar em tantos excelentes músicos brasileiros ou estrangeiros que residem aqui. Um hipotético aluno, ‘encadeando’ diplomas, mesmo sem ter feito apresentações de porte ou tocado em orquestra de primeira no currículo, logo se torna apto a disputar uma vaga. Essa rotina de títulos é desconhecida no exterior: meu professor de instrumento mal se formou bacharel e já era o orientador mais procurado, como solista do naipe na Sinfônica de Boston. Isso, aos 23 anos de idade.
Eleazar de Carvalho com Marguerite Long: Légion d'Honneur
Eleazar de Carvalho, nosso maestro maior, foi titular da famosa Yale University tendo apenas um bacharelado. Recebido com todas as honras e a presença do presidente brasileiro, chegou agraciado com sua cátedra e o título de doutor honoris causa da própria Yale.  

Harvard University
O renomado educador Caio Moura Castro publicou na Veja (fev. 2005) “Harvard, quem diria, Acabou no Irajá”, parodiando a peça “Greta Garbo, quem diria...”, de Fernando Melo. Disse ele que certo dia Larry Summers, presidente de Harvard University, teria assistido a um desfile da Beija-Flor e se apaixonado. Logo trouxe mala e cuia, comprou casa em Nilópolis, convidou os melhores professores, criou ali uma Harvard tropical. Mas o MEC, ao inspecionar, acabou com o curso por estar em desacordo com as ‘regras’. Essa alegoria de Moura Castro não é cômica, é trágica.

Prova escrita da Fuvest
Agora, o pior de tudo: nas escolas superiores dos EUA - conheço mais de 30 delas -, a prova maior, decisiva, não é uma Fuvest, e sim tocar para uma banca. No Brasil, ao equiparar um vestibular de Música ao de Engenharia, perde a primeira: ao contrário dos candidatos aos outros cursos, que quase nada sabem de suas profissões almejadas, alunos de música devem chegar prontos, ou seja, tocando bem. Não se faz um violinista ou um pianista em quatro anos, a universidade apenas lapida o aluno que já tem bom desempenho. Daí a necessidade dos bons conservatórios, escolas de música ou ótimas escolas preparatórias, como as de algumas instituições americanas.
Jordan Hall, New England Conservatory
As melhores escolas superiores de música dos EUA têm 250 (Curtis), 800 (New England) ou 1.000 alunos, às vezes um pouco mais. E cômputo geral são muitas, de todos os níveis. A diferença se sente na hora da duríssima competição, que tem princípio com o ingresso no curso até uma boa colocação como músico profissional. Aos jovens músicos brasileiros, digo sempre que devem escolher bem seu professor, e uma boa universidade ou faculdade. Diploma só pelo diploma serve para começar a galgar etapas para um dia chegar a doutor e prestar concurso para lecionar em uma boa universidade. Ou para ter direito a prisão especial.