LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

O CASO DO ESTRANHO ATENTADO A CRISTINA KIRCHNER

 


Segundo o The Guardian (2/09), filmes mostram um homem forçando passagem entre militantes e aproximando uma pistola contra o rosto de Cristina Fernández de Kirchner, vice e ex-presidente da Argentina. Jornalistas disseram que a arma apontada contra Kirchner não foi disparada, e ela teria se agachado. Por que este homem não a matou, tendo a posição, a arma com cinco balas no pente e a ocasião? Esta é a pergunta que intriga investigadores, alimenta especulações e controvérsias: ainda segundo o Guardian, o ministro da Segurança Aníbal Fernández disse que a pistola estava carregada, e “não disparou apesar de o gatilho ter sido puxado”. Há contradição entre testemunhas, jornalistas e o ministro, que tem fortes ligações com Kirchner.

Bersa .32/7,65 mm

A perícia dará a palavra final sobre controvérsias básicas, já que é estranho várias pessoas dizerem que a arma “sequer foi disparada”: resíduos de pólvora na mão do criminoso, na arma, marca na cápsula (ou não), munição tão velha que sequer machuca - o que definitivamente não foi o caso - ou que nem sai da cápsula, “bala podre”. As declarações do ministro Aníbal Fernández de que o gatilho chegou a ser puxado mas não houve disparo, e do presidente Alberto Fernández de que Kirchner sobreviveu “porque a pistola, carregada com cinco balas, não disparou” são plausíveis, mas há mais arestas e dissensões do que convergências.


(A esta altura, leitores aficionados de Sir Conan Doyle, autor de mais de 60 livros sobre Sherlock Holmes, e Agatha Christie, “A rainha do crime”, já estão elucubrando alguma charada macabra: Alberto, o presidente argentino, tem Fernández no sobrenome, assim como o ministro Aníbal e a própria Cristina Kirchner. Mas quem arriscaria um ‘elementar, meu caro Watson’, ou faria o jogo da culpa do  Assassinato no Expresso Oriente? Fernández é um sobrenome razoavelmente comum na Argentina, difícil extrair alguma coisa daí.)


Conforme o jornal El Clarín (2/09), o suspeito (N.: mais do que suspeito: foi preso em flagrante) se chama Fernando André Sabag Montiel, é brasileiro, tem 35 anos e uma passagem de pequena monta na Polícia; usa tatuagens com símbolos neonazistas, como o ‘sol negro’, e fazia referências a grupos extremistas nas redes sociais.

La Nación

Alguns militantes relataram ao jornal La Nación que “o gatilho não chegou a ser apertado, e nenhum tiro foi disparado”. Divergências cabais, já que outros disseram: “estávamos fazendo um cordão de isolamento, e de repente (...) o homem apertou o gatilho”. Logo surge a coloração política de filmes dos anos 1970: no dia 23 de agosto – pouco mais de uma semana antes -, a Promotoria argentina ingressou com um pedido de 12 anos de reclusão para a vice-presidente. Acusada de corrupção, Kirchner teria beneficiado empresários de Santa Cruz, seu reduto político, e interferido em contratações de altíssimos valores para grandes obras rodoviárias - segundo o Ministério Público, enquanto ela era presidente. Especulações passaram a se avolumar: logo depois do atentado, Kirchner, depondo à Justiça em seu apartamento, disse que não teria se agachado para esquivar-se de um possível tiro, mas para pegar um livro que estaria autografando e caíra, e que soube da pistola somente após ser escoltada para fora da confusão.

Naidenoff

A Folha deu espaço ao senador Luis Naidenoff, do partido de oposição de extrema-direita Unión Cívica Radical, que declarou que o assunto diz respeito apenas à Argentina, mas acrescentou que “o silêncio público de Bolsonaro é lamentável” (no dia seguinte, o presidente disse: “Mandei notinha. Lamento”). Naidenoff insistiu que o caso não tem nada a ver com o que ele chamou bolsonarismo. E mais: “Sabemos que Bolsonaro vem fazendo declarações contra o peronismo” (obs.: movimento do partido Justicialista, fundado por Juan Domingo Perón); “mas daí a associar as atitudes do agressor ao bolsonarismo é precipitado e raso”. Menos esclarecimentos, mais lenha na fogueira das especulações, porém dados novos poderão surgir. Naidenoff e outros dirigentes oposicionistas condenaram o atentado, e reprovaram o fato de o presidente Fernández decretar feriado na sexta, dia 2, convocando seus apoiadores para manifestações nas vias portenhas.


Brenda Uliarte

A luz sobre o crime tão somente no que tange ao atentado em si parece agora depender da perícia em dois pontos aparentemente simples, já que o criminoso recusou-se a depor à juíza corregedora de Comodoro Py, María Eugenia Capuchetti. Fatos nebulosos,  eventuais subterrâneos e possíveis ligações perigosas do rapaz e suas conexões neonazistas e afins, se não surgirem elos robustos, cairão na vala comum das teorias conspiratórias. Brenda, namorada do criminoso, garante que ambos não são nazistas - mas o romance tem apenas um mês! (Brenda foi presa em 4/07). É claro que, de uma forma ou de outra, sem ter havido motivação clara – o rapaz pode ser um psicótico -, surgem ilações políticas pelos motivos e repercussão, ambos terrenos férteis para explorações, em momento politicamente delicado.


Rua Tonelero, Copacabana, Rio, 5/08/1954: Carlos Lacerda, inimigo visceral de Getúlio Vargas, foi ferido em um atentado em que morreu o major Rubem Vaz. Foi incriminado o chefe da Segurança de Getúlio, Gregório Fortunato – uma deixa para Lacerda acusar o presidente de ter urdido a trama para matá-lo. O então presidente suicidou-se 19 dias depois. Como no caso Lacerda, o affaire Kirchner é embalado em névoas, suspeitas e contradições, entre ficto e fato. Resta esperar.

 

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

CONFORMISMO, ALIENAÇÃO, HAMLET E O DEBATE

 


Pode gostar de novelas da TV, filmes de caubói, de ação ou sci-fi, mas há horas em que o cidadão deve reservar seu tempo a um item de primeira necessidade. Não é luxo, um debate trata do espírito e da saúde dos necessitados (e dos que “têm fome e sede de justiça”: Mateus, 5, 6); vai de encontro à angústia da classe média, a se perguntar “vou ter emprego ano que vem?”, “vou conseguir honrar minhas dívidas?”, e ainda atiça a ansiedade dos poderosos quanto às suas ações na Bolsa, aplicações financeiras e assets, ativos de todos os gêneros. Claro que a vida é mais fácil para o conformista, outsider alienado, mas nem sempre a tanto: no filme Il Conformista (1970), de Bertolucci, sobre o livro de Alberto Moravia, o cidadão, enamorado de uma moça fascista, conforma-se com o regime de Mussolini, mas termina por aderir a ele, tendo como desafio ir para a França matar seu velho professor, militante antirregime.

Bertold Brecht

Entre exercer opção por alguma causa e alienar-se existe um abismo às profundezas. Alguns, talvez por figuras retóricas caducas, outros quem sabe por modismo ou fanatismo. O conformista do filme – Marcello, interpretado por Jean-Louis Trintignant -, era a persona do que o dramaturgo alemão Bertold Brecht descreveu como O Analfabeto Político: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, (...) do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. (...) É tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política”. Os que abraçam alguma causa que acham justa e os ‘analfabetos’ conformistas estão em extremos opostos, cabendo aos últimos abrir palácios aos poderosos com seu silêncio. Integram a vida na pólis, à imagem e semelhança das cidades-Estados gregas da antiguidade, chamadas poleis, onde, convivendo em sociedade, eram todos espécies de “animais políticos”.  


A vida em sociedade é permeada de política; aliás, alimenta-se dela, justificando sua existência (eis a pólis, de onde metrópole, política!) Os cidadãos, os vizinhos, a turma da sala de aulas, e, noutro microcosmo, a família, tudo são peças do jogo social. Alguém diria: “uns são mais iguais do que os outros”, coisa que sabemos, mas outra coisa é dividir nossa pólis entre dominadores e dominados, exploradores e explorados, uma dicotomia como querem filosofias mal compreendidas, reduzindo os demais estratos a pó. Há bem mais do que isso, e o cerne da política consiste justamente na diversidade - e por que não mesmo nos conflitos, pois é deles que emergem as soluções, diz uma velha e boa filosofia.

A Academia de Platão

A universidade – nossa academia! - não deve se propor a inocular conhecimento nos alunos de forma vertical, prática que os impede de abrir o leque dos questionamentos necessários, de fazer pensar e autocriticar-se. É preciso indagar, pensar em forma de perguntas, para que não se tenha ‘verdades absolutas’ em mãos sedutoras, porém inescrupulosas. A função do professor, mestre ou orientador, a partir de sua experiência e saber, é, ao contrário, provocar. Lembremos a Academia de Platão, criada c. 387 a.C. em Atenas, e a ideia de preparar os cidadãos desde crianças para a missão de serem filósofos-governantes que escolheriam seu próprio rei. (A Academia sobreviveu até o séc. 6, quando o imperador Justiniano, bizantino, a fechou, com o intuito de erradicar a cultura helênica pagã. E, claro, salvaguardar-se no poder).


Abre-se novo ato: em dia recentes, houve entrevistas no maior telejornal da TV. Primeiro, com o candidato Bolsonaro, em 22/08 – aos desavisados: não estava ali o presidente, mas o cidadão que também pleiteia a vaga; no dia 25/08, Lula, seu principal adversário. Não me proponho a analisa-las criticamente, não me lanço a isso mesmo porque quase todo jornalista especializado já o fez no dia seguinte, e com mais propriedade do que eu, mesmo observador atento, o faria. Apenas ressalto que os debates na TV como os que viriam, desde Kennedy x Nixon (1960), nos EUA, e em 1989, no Brasil – quase 30 anos depois -, entre Collor e Lula, na primeira eleição direta pós-ditadura, já são parte do calendário, ajudam o cidadão a equilibrar-se rumo à escolha que achar melhor. Óbvio é que a ausência de um dos dois líderes implicaria talvez na abstenção do outro, esquivando-se de se transformar na “berlinda” – ou “Judas”. E melaria o jogo democrático.

[Este segundo ato foi encerrado tendo nos imbróglios da cena final uma cavalgata. Se cada um tivesse dado a melhor contribuição para seus esclarecimentos – rebatendo com dignidade os ataques, atingindo pontos fracos com elegância, desvendando mentiras com verdades ou até exaltando virtudes alheias sobranceiras, teria sido admirável missão, embora quase impossível].


Contudo, também não baixou o espírito de Macbeth (c. 1603), tragédia do dramaturgo inglês William Shakespeare cujo papel-título é um general pronto para matar o rei da Escócia: “Porque o tempo se volta contra mim / devo apressar meus planos cruéis (...) / A todos, matarei pelo fio da espada”.  O suposto Macbeth desta trama não desembainhou sua adaga matando quem estivesse ao redor:   digladiaram-se vários, e o temor da degola não matou o rei Duncan, apenas o enervou. A pior tragédia possível desta encenação seria desaguar em um desastre para o país. O ato do debate é parte essencial de um drama moderno e grandioso, mesmo que por tortuosos caminhos: a democracia.

 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

LITERATURA, ENGENHARIA E MEDICINA

 

Autran Dourado

“Se todo mundo lesse Machado de Assis, menos viadutos cairiam e menos pacientes morreriam nas mesas de cirurgia”, disse meu pai em 1971, referindo-se à queda do viaduto Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, e às condições do atendimento médico de então no serviço público no país. O desabamento de 120 metros de construção que matou 48 pessoas deu-se tanto pelo despreparo de engenheiros “amigos” contratados sem licitação quanto porque faltava controle dos pregões e compras nos tempos da ditadura. Quanto às mortes nas mãos de cirurgiões, só posso tecer minhas conjecturas, mas ante a arquitetura cirúrgica da obra de Machado só devo anuir com a frase do meu pai - ele que era como uma generosa esfinge a ser interpretada -, e trazê-la comigo até hoje.

Lincoln, em Gettysburg

Fez questão de matricular-me em um colégio jesuíta de grande reputação no Rio, apesar de ele mesmo ser ateu. Até financiou na planta um apartamento bem perto, para facilitar idas e vindas. O sistema de ensino era rigoroso, exaustivo, mas devo-lhe muito, muito além do que me apetece imaginar. Tive ainda um pouco de latim, e os professores de português, francês e inglês eram para lá de exigentes. Frequentemente, tínhamos de subir no tablado um a um, e, na frente de todos, recitar “Última flor do Lácio, inculta e bela”, algum trecho de Du Contrat Social ou o Gettysburg Address do Lincoln. E ler Montesquieu, Byron, Mark Twain, tudo no original. E Machado.


Certo início de semestre levei à mesa de almoço a lista de leituras para o período. Vi meu pai enrubescer, dilatar as narinas, limpar a boca com o guardanapo, levantar-se, bater a porta da rua e sair. Foi ao colégio, e de lá voltou. Tinha dito que filho dele não leria uma determinada obra, “aquilo”, e ponto final. Coisa muito mal escrita, para fazer dinheiro.


Num apartamento em que do escritório à sala e até as partes de cima dos armários embutidos e paredes dos corredores eram cheias de livros, de tanto convívio aquele tornou-se o meu ambiente, e eu gostava, tinha orgulho. Lembro-me de uma gravura de Cervantes, livro na mão, desenhos oníricos ao redor, em cujo frontispício se lia: “Embebedou-se tanto na leitura que passava as noites em claro”. Lembrava-me a figura paterna, que não raro cochilava, cabeça e livro tombados para baixo, o corpo esparramado sobre a cadeira de balanço de palhinha. Naqueles devaneios, figuras imaginárias, pelas mãos de Machado, Shakespeare, Flaubert e Joyce faziam-lhe diatribes e diabruras na imaginação, fermentando suas criações literárias. Mas o trabalho do pai era todo elaborado com método, método rigoroso, a construção de livros e personagens era uma elaboração de engenharia, história e cirurgia precisas – tudo a ver com a frase que reproduzi para abrir este artigo. Um trabalho de formiguinha, referiu-se a ele o crítico Humberto Werneck, autor de O Desatino da Rapaziada.


Hoje, o desatino é que a escrita no dia a dia escorrega pelos degraus da miserabilidade, especialmente porque a prática está basicamente restrita à Internet e às redes sociais. O errar nem humano mais é, parece que o querem santo; tem seu charme, e o próprio conceito de erro vai sendo abolido. Verbos conjugados sem o “r”, concordância, acentos, pontuação - e o gênero assexuado, ou hermafrodita, que permite expor menos conhecimento para errar menos, achando que é, como se dizia, pour épater la bourgeoisie, para chocar a burguesia. Porém, a burguesia não mais se abala, ela mesma aderiu em massa à péssima escrita e linguajar que chegam aos mais altos escalões da Nação – em boa parte, por causa de uma educação deficiente, e me refiro aos estudos colegiais, à cultura familiar com frequência sem exemplos a servirem de paradigma, e às redes sociais e seus dialetos.


É claro que tudo isso resulta em prováveis maus governantes e eleitores cada vez mais vulneráveis a essa chaga conhecida por ignorância, salvo quando há uma luz sobre um ou outro graças a alguma inteligência pessoal. Faltam boas escolas, bibliotecas, preparação de professores; salvam-se apenas os que buscam preparar-se “motu proprio”, espontaneamente. Já abordei aqui a experiência de Sobral, Ceará, onde um projeto-modelo levou 95% dos alunos à competência na leitura e interpretação de textos, 38% acima da média nacional! A preparação de professores tem quatro escopos principais: formação, avaliação, meritocracia e seleção. Sobral mostrou-se um exemplo a ser seguido, o estudo orbitando ao redor dos livros, sem proibir os alunos de usar recursos midiáticos e de informática.


Comparativamente à experiência de Sobral, com 212 mil habitantes, seguem-na a boa distância outros treze municípios também do Ceará, dez de Minas e apenas sete dos 645 de São Paulo, população total de mais de 40 milhões. Não é à toa que de Sobral saem tantos primeiros lugares em competições e concursos de português e matemática no Brasil.

Groucho e Arthur, seu filho

A leitura está no centro do ensino sobralense, junto com a compreensão e interpretação de textos; há cuidado especial com as exatas, como matemática, área em que a cidade também é modelar. Leitura e redação são primordiais não apenas para formar bons cidadãos: é por intermédio do raciocínio e da compreensão de textos que lógica e percepção encontram campo fértil para o desenvolvimento do indivíduo. Talvez fosse o caso de refletirmos sobre o que disse o comediante, ator e escritor norte-americano Groucho Marx: “Eu acho televisão muito educativa: toda vez que alguém liga o aparelho vou para o quarto ler um livro”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

AS CARTAS NÃO MENTEM, JAMAIS

 

A carta de Caminha

Na história do Brasil
, cartas têm registrado momentos da maior importância. Desde a de Pero Vaz de Caminha, primeira delas e marco da chegada portuguesa com impressões que ele não sabia se de uma simples ilha. Gaspar de Lemos zarpou rumo a Portugal, no dia 1º de maio de 1500, para entrega-la ao rei D. Manuel I: “Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho (...) Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal”. 1º de maio de 1943: inspirado na Carta del Lavoro (1927) de Mussolini, Getúlio Vargas baixou o decreto-lei nº 5.452, da nova legislação trabalhista brasileira, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que após talhos e retalhos deu garantias básicas ao trabalhador - ou ao menos aos que lograrem ter seu registro efetuado.


Porém, outra carta
, de 23/08/1954, daqui a poucos dias, completará 68 anos, o marco histórico final do nome de Getúlio: sua Carta-testamento, que falava das “forças e interesses contra o povo”, encerrando-a com o histórico “dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. Matou-se logo depois com um tiro no peito. Foi uma carta sem destinatário outro que não os anais históricos, simbólica como a perfuração do projétil que manchou de sangue o bolso do paletó de listras de seu pijama. (Com seu estilo próprio, reservando-se uma vida de bon-vivant boêmio, Villa-Lobos, um dos maiores compositores de nossa história, vaidosamente declarou suas obras “cartas que escrevi para a posteridade, sem esperar resposta” – frase gravada na lápide da sepultura onde jaz, até hoje, no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. Buscou, com aquela frase, que sua obra o levasse à imortalidade. Triunfou, mas não como já é comum nos dias de hoje com artistas de teatro e músicos ingressando na Academia Brasileira de Letras, mas criando ele próprio a Academia Brasileira de Música – tendo como modelos a Academia Francesa, fundada em 1635, da qual ele próprio foi integrante, e a própria ABL, de 1896.)

Colonos alemães no Rio

Entre 1852 e 1853, foram publicadas no Günther Fröbel germânico cartas de alemães que vieram trabalhar nas fazendas de café do Rio de Janeiro, incentivando a emigração para a dura labuta na colheita em sistema de coparticipação, substituindo o trabalho escravo que já não rendia, ante sua inevitável abolição, em 1888. E o faziam liderados até por grandes latifundiários e políticos, como o Senador Vergueiro, da fazenda Ibicaba. Três décadas após a Independência e 35 antes da Lei Áurea, o sistema caiu no desagrado dos europeus. Cinco anos depois, a Prússia tornaria crime as publicações e a intermediação de emigrantes para o Brasil. Embora pouco divulgadas, as ações de colonos alemães e suíços no país mostravam a urgente necessidade de reorganização do Estado brasileiro.


Assinada pelos barões ingleses e o rei John
, a Carta Magna (do latim magna charta, Grande Carta), do princípio do século 13, estabelecia os pilares do constitucionalismo. A primeira versão em solo brasileiro veio apenas em 1548, pelo Governador-Geral, seguindo-se a Luso-Brasileira de 1822, que não vingou, a de 1824 e, finalmente, a de 1891, já na República. A de 1934 foi promulgada pelo Congresso a fim de acabar com o poder getulista de governar sozinho por decretos e decretos-leis. Vieram as de 1937 e 1946, até que, já dentro da ditadura de 64, com a oposição isolada pelo AI-4, um Congresso manietado pela ditadura elaborou a de 1967, que prenunciava o AI-5, para concentrar mais ainda o poder nas mãos dos ditadores, e cujos preceitos por eles ditos constitucionais duraram quase duas décadas (o texto foi revisado em 1969).

Celebração da Constituinte de 1988

Finalmente, após muita luta e encerrando o Estado de exceção, a chamada Constituição Cidadã de 1988 estabeleceu os reais princípios do Estado Democrático de Direito: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição” (Art. 1º, parágrafo único). Foi em defesa deste histórico documento que, no dia 11 de agosto de 2022, movimentos de professores, estudantes, empresários, trabalhadores, intelectuais e artistas em 25 universidades e 65 municípios, incluindo todas as capitais, aglutinaram milhares de pessoas nas ruas, reverberando as manifestações da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP, cuja Carta às Brasileiras e Brasileiros ainda naquele mesmo dia completou 1 milhão de assinaturas. Foi muito além da defesa intransigente das urnas eletrônicas, uma das grandes conquistas brasileiras!


(Em 1977, o ilustre professor Goffredo da Silva Telles, no “território livre” das arcadas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco - para acomodar toda aquela gente -, dirigiu-se ao púlpito para a leitura da Carta aos Brasileiros. Enquanto Goffredo subia à tribuna, conversas e burburinhos se calaram. As 14 páginas foram ouvidas sob tensão, pois ainda vivíamos sob um regime de força, enquanto o orador clamava “contra a opressão de todas as ditaduras”. Em nome dos juristas, advogados e estudantes presentes, exclamou “A consciência jurídica do Brasil quer uma cousa só: o Estado de Direito, já!”)

Defender a nossa Carta, com C maiúsculo, é dever de todos os brasileiros. Juntos, caberá repetirmos as palavras finais do documento da USP e torná-las nossa bandeira, junto ao auriverde pendão da esperança: “...em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona: Estado Democrático de Direito Sempre!!!!”



 

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

O PRIMEIRO VOTO

 

Médici

Em 7/7/77
(para os numerólogos ou adeptos da Cabala) fui morar nos EUA, mal havia terminado a Fefierj (hoje UniRio). De lá, cabia apenas observar, com medo, o Brasil em plena ditadura, e o que se passava em nossa República. Era presidente o general Ernesto Geisel, que sucedeu Emílio Garrastazu Médici. O sobrenome Médici remetia à poderosa financeira e politicamente Casa dos Medici, com Cosimo à frente da dinastia e da República de Florença, Itália, na primeira metade do século 15. “Nosso” Médici era duro na queda, inflexível. Quando descobriu que um samba do Chico Buarque de 1970 não se referia a uma mulher, mas a ele mesmo – “apesar de você / amanhã há de ser / outro dia” -, mandou censurá-lo aos berros. Clara Nunes regravou a música (1971), e, obrigada, cantou na abertura das Olimpíadas do Exército daquele ano.  Já a filha do Médici deixou escapar em uma entrevista que gostava do Chico. Pronto, bastou para que o compositor, em um show no Teatro Casa Grande, no Rio, tocasse um “roquinho” bem fuleiro, dois acordes e só dois versos, para deleite da plateia: “Você não gosta de mim / mas sua filha gosta”.


Geisel
, sucessor de Médici, era um sujeito carrancudo, com os traços germânicos de estilo. Nada com cultura, na verdade sequer gostava de arte, da música dos “3 Bs” germânicos, Bach, Beethoven e Brahms, e nem de Wagner, que seduziu até Hitler. Menos cruel do que Médici, mas um tanto fechado, foi presidente por seis anos (1974-79). Desses, os últimos dois passei em Boston, onde acompanhei os mandatos de Jimmy Carter e Ronald Reagan. Seguia as eleições com o sentimento de estar participando do futuro do país que eu havia adotado.


De volta ao Brasil
, aquela ópera bufa montada com a eleição indireta disputada por Maluf e Tancredo da qual nós, eleitores brasileiros, fomos simples espectadores. Maluf, colocado na disputa pelo regime militar, viu seu cacife ruir diante de Tancredo, mineiro astuto e perspicaz que tentara emplacar como vice Antonio Ermírio de Morais, poderoso empresário de família tradicional na política. A estratégia vazou, foi acolhido na vice José Sarney - homem que ainda tinha certa simpatia do regime, já agonizante. Acompanhei a eleição pela TV e refestelei-me na emoção de ter um candidato civil eleito, mesmo que indiretamente, para o cargo de mandatário do país. Porém, com a inesperada morte de Tancredo, logo antes da posse, assume Sarney, em meio a uma crise econômica sem precedentes.


Eu havia retornado
ao Brasil com a esperança de ver meu país em plena democracia, com estabilidade econômica e paz. Quando perguntei sobre o futuro ao maestro Eleazar de Carvalho, que tinha sido fuzileiro naval, educado desde cedo na Marinha, ele me respondeu daquele jeito sério e irônico que lhe era característico: “Nunca vi um país fechar, mas sempre pode haver uma primeira vez”. Pouco depois, ingressei como professor na USP, e o grito de ordem era “Diretas, urgente, reitor e presidente”.  Demorou: em 1989, após 26 anos de jejum eleitoral, foi eleito Collor de Mello, justo quando cravei meu primeiro voto para presidente! Concorreram, além de Collor, sagrado vencedor com o epíteto “O caçador de marajás”, Leonel Brizola, Paulo Maluf, Lula, Mário Covas e mais 18 candidatos. Após o impeachment de Collor assumiu Itamar Franco, seu vice, que governou de 1992 a 1995, ano em que, para tomar posse, concorreram em 1994 oito candidatos – na frente, Fernando Henrique Cardoso obteve 54,28% dos votos, e o segundo colocado, Lula, 27,05%.


Nos tempos do voto escrito
, o Brasil passava por experiências surreais. Bom exemplo foi o imaginário candidato Cacareco - homenagem ao então novo rinoceronte do Zoológico do Rio – que em 1954 obteve 100 mil votos na eleição municipal, contra os 95% do partido mais votado e foi manchete até no NY Times. Mais de trinta anos depois, em 1988, o fenômeno ali se repetiu nas eleições para prefeito: puro deboche de protesto, Macaco Tião obteve fantásticos 400 mil votos! Escrevia-se de tudo nas cédulas, de rasuras a ofensas à senhora progenitora de algum candidato, entre outros desaforos mal-educados, constrangendo ou, às vezes, divertindo os mesários.


Exatamente dois anos
depois da posse de Fernando Henrique foi implantada a urna eletrônica, que além de deixar de fora os adeptos do chamado voto zoológico, também impediu o antigo “voto carneirinho”, com olheiros contabilizando os nomes indicados pelo patrão - e a compra de votos pelos “coronés” que arrastavam eleitores atrás de algum trocado ou mesmo um prato de comida, sertões afora, na caçamba de caminhões. Pois a nova urna, empregada primeiramente em 57 cidades nas eleições municipais de 1996, revelou-se um sucesso, tornando-se exemplo para o mundo.

MM. Carlos Prudêncio

(Em 1932, em plena ditadura Vargas, o Código Eleitoral Brasileiro, em seu Art. 57, já fazia menção a “máquinas de votar”, mas as tentativas naquela época se mostraram efêmeras por absoluta falta de tecnologia. Houve outras experiências, em 1978 e 1980, mas foi só em 1988 que a máquina de votar criada pelo juiz Carlos Prudêncio e seu irmão Roberto foi colocada à prova na eleição municipal de Brusque, em Santa Catarina.)



A urna eletrônica que usamos, desenvolvida pela Microbras, Omnitech e Unysis, com apoio do CTA, do INPE e de outras organizações, revelou-se ágil, absolutamente segura, e a adulteração dos votos impossível. No próximo 2 de outubro, mais uma vez, será nela que depositaremos todas esperanças na candidatura do melhor presidente para o nosso país.



sexta-feira, 5 de agosto de 2022

BÁRBARA E A CARTA ÀS BRASILEIRAS E BRASILEIROS

 


Barbaridade
, de onde a interjeição gaúcha de espanto ou surpresa “bah!”, tem diversos significados. Segundo o Houaiss, pode ser um “ato próprio de bárbaro”, “crueldade, desumanidade”, ou “em extremo desacordo com a lógica, com as normas”, ou ainda “erro crasso de linguagem e escrita”. Remete também a barbárie, selvageria. Na gramática, consiste no “uso sistemático de formas vocabulares inexistentes (...) por parte de falantes que não a dominam” (N.: a norma padrão da língua). Em inglês, barbarism indica tanto a ‘palavra, expressão ou pronúncia não convencional quanto o período de migração europeu que viu a queda do Império Romano e a ocupação de vastos territórios por diversas tribos’ (alemães, hunos, búlgaros, húngaros e vândalos - germânicos do sul da Polônia, daí “vandalismo”). Trata-se de migrações e invasões em massa (HALSALL, Guy. “Barbarian Migrations and the Roman West”. Cambridge: CUP, 2007).


O sentido
dessas palavras no contexto atual refere-se a pessoas animalescas, sanguinárias, mesmo quando em sentido figurado, um cruzamento idiomático e histórico – crossover, lembrando o cartunista Laerte, que se veste como mulher, para usar uma palavra da moda. Expressões eivadas do horror de alguns dos períodos mais terríveis por que a humanidade passou - sangue derramado, atrocidades, barbaridade, barbarismo, bárbaros e ações bestiais de várias épocas.


Bárbara
, contudo, é também um lindo nome feminino que nada tem a ver com isso. Surge nas artes em diversos momentos, como no histórico musical de Chico Buarque e Ruy Guerra (1973) intitulado Calabar, o Elogio da Traição, que conta da vida de Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho de Pernambuco que se aliou aos holandeses traindo Portugal. Bárbara, esposa de Calabar, é quem conta a história, e dá título uma das canções da peça, “Cala a boca, Bárbara”: “Ele sabe dos caminhos dessa minha terra / no meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu / os meus rios, os meus braços (...) / Nas bandeiras, bons lençóis / nas trincheiras, quantos ais, ai”.

Santa Barbara

O nome
é originário do latim barbara, barbarus, significando estrangeiro, mulheres que não eram romanas, e vem do grego: ‘forasteiro’ (FERREIRA, Moacyr da Costa. “Dicionário poliglótico de nomes”. SP: Edicon, 1996). O dia 4 de dezembro é consagrado a Santa Bárbara, nascida em 280 d.C. na Turquia e convertida ao cristianismo. O pai dela, Dioscorus, seviciou-a, degolou-a e a entregou aos romanos. Diz a lenda que, ao cair sua cabeça, os céus trovejaram; por isso, é associada aos trovões, e protetora dos que lidam com fogo, como os bombeiros. Na Umbanda, parte que é do riquíssimo sincretismo religioso brasileiro, Santa Bárbara representa o orixá Iansã, mulher poderosa, deusa do fogo e dos trovões, vendavais e furacões. Como outros santos católicos, ela escondia da Casa Grande as práticas da cultura religiosa trazida pelos africanos escravizados, resguardando-se para não serem punidos.


Em Arrastão
(1965), Vinicius de Moraes, com música de Edu Lobo, evoca a santa em meio a outras entidades da Umbanda: “Olha o arrastão entrando no mar sem fim / É meu irmão me traz Iemanjá pra mim / Minha Santa Bárbara / me abençoai / Quero me casar com Janaína” Iemanjá costuma ser representada como Nossa Senhora, de azul e branco ou azul claro.

Barbara Hendricks

Muitos lugares
homenageiam a mártir turca: de Santa Bárbara do Leste, cidade mineira, à paulista Santa Bárbara d’Oeste e Santa Barbara, na Califórnia americana. Há as que fizeram parte de nossas juventudes, como Barbara Streisand, cantora e atriz, a soprano Barbara Hendricks, ambas americanas, sem esquecer Bárbara Heliodora, talvez a maior especialista em Shakespeare que o Brasil já teve (ouvi-la discorrer sobre o bardo inglês era como penetrar em um mundo de sonhos, amores, dramas, devaneios e poesia).

6 de janeiro de 2021: a invasão do Capitólio

Saindo da arte
, a pergunta: o que teria sido aquele bando que invadiu o Capitólio americano em 6 de janeiro de 2021, convulsionando o resultado das eleições dos EUA, tentando derrubar um pleito legítimo e uma democracia sólida, atrás de palavras de ordem do candidato preterido, Donald Trump? Na horda, muitos loucos trajados como vikings e hunos quebraram vidraças, portas e móveis gritando slogans...Ou seja, corja de bárbaros na acepção crossover da palavra. Um bando de alucinados, arriscando todos a um banho de sangue onde afundar a democracia mais sólida do planeta! Foi um ato de barbárie, insano e irresponsável. Felizmente, parece que o país superou o trauma, manteve intactas suas instituições e tem superado, até aqui, incursões pontuais de radicais fascistas e neonazistas.

Gofredo da Silva Telles, 1977

No próximo dia 11 de agosto
, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP, haverá um evento pacífico liderado por algumas das grandes cabeças pensantes do país, à frente de insuspeitas entidades suprapartidárias, empresários, líderes sindicais, estudantes, representantes da sociedade civil de todos os credos, raças e orientações políticas. A convocação foi feita por meio do manifesto intitulado “Carta às brasileiras e brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!”, relembrando 1977, quando o ilustre jurista e professor daquela Faculdade, Gofredo da Silva Telles, leu sua “Carta aos Brasileiros”. Nela, denunciava “a ilegitimidade do então governo militar e o estado de exceção em que vivíamos”, celebrando os 150 anos da criação dos primeiros cursos de Direito no Brasil.

A carta de 2022, mais uma vez, será contra a barbárie, pela democracia.

https://www.estadodedireitosempre.com/



sexta-feira, 29 de julho de 2022

NUM RABO DE FOGUETE

 

O viaduto caído (Gazetario)

E
ra o ano de 1979. O poeta Aldir Blanc fez de uma letra preciosista um libelo contra a ditadura, e é preciso entendê-la para que possamos nos situar no samba do João Bosco: um goulash de informações cifradas, figuras de linguagem e metáforas para falar de verdades proibidas, e ele o fez com mãos de ourives. Assim nasceu O Bêbado e a Equilibrista, sucesso até hoje na voz imortal da Elis Regina: “Caía a tarde feito um viaduto / e um bêbado trajando luto / me lembrou Carlitos”.  Em 1971, desabaram simplesmente 112 m de um trecho do viaduto Paulo de Frontin, no Rio, obra mal feita, com vícios, superfaturamento, estruturas de material barateado. Morreram 48 pessoas e houve um grande número de feridos. Eram tempos do general Médici, talvez o mais cruel daqueles anos, responsável por uma censura implacável: assunto proibido. Infelizmente, os censores sequer tinham lido ou compreendido um poema: a censura é um ato contra a inteligência.

Betinho, Chico e Henfil

“(Brasil) que sonha / com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu / num rabo de foguete”. Henrique de Souza Filho, o Henfil (1944-1988), era cartunista do semanário O Pasquim. Dono um traço inconfundível e pai de figuras como a Graúna, o Fradim, o Bode Orelana e outros, e de cujo irmão Betinho fala a música, era hemofílico como ele e o irmão Chico Mário, músico (os três morreram de AIDS após transfusões para o tratamento de hemofilia congênita). Betinho (Herbert José de Souza) foi um brilhante sociólogo que terminou exilado depois de ser preso por, digamos, pensar. Essa “volta do irmão do Henfil” simboliza, além de um enorme bom-retorno, braços abertos para receber de volta os asilados, exilados ou que tiveram de buscar proteger-se no exterior.


R
abo de foguete, com ou sem os hifens, pode ter diversos significados: uma grande encrenca, uma queimadura por fogos de artifício; segundo o etimólogo Deonísio da Silva, “empreender tarefa difícil”. Refere-se igualmente a uma planta conhecida também como ‘arnica de Minas’ e mais uma dezena de nomes: é coberta de espinhos que grudam na roupa e na pele e podem ferir, enroscando-se na vítima. Todas versões convergem. Como grande parte das expressões populares, ‘rabo de foguete’ é moldado pelo tempo e cultura de onde se vive, enriquecendo-se. Mas há uma sensação intangível: é ‘coisa ruim’, que por sua vez quer dizer ‘coisa do diabo’ - ou o próprio. Mas quem sabe, ao invés de seguir destrinchando a etimologia seja melhor sentir, tal qual o povo faz sabiamente?


S
egundo o Memorial da Democracia, de 5 a 10 mil pessoas foram expulsas, deportadas, exiladas ou asiladas. Da primeira leva, em 1964, fizeram parte políticos como JK, Jango, FHC, Arraes, Brizola e Darcy Ribeiro; da segunda, estudantes, artistas como Caetano, Gil, Vandré, Chico e Glauber Rocha, professores, militantes e mais de 130 presos políticos trocados por embaixadores reféns na luta armada. Foram em boa parte refugiados na França, no México, no Chile e Uruguai.

Vlado e Clarice

E
ssa gente, o filé da nossa chamada intelligentsia nacional, foi a que “partiu no rabo de foguete”, na poesia de Blanc. A censura acompanhava essa viagem, e pior: as viúvas dos presos políticos. A letra diz “choram Marias e Clarices”, referindo-se essas últimas à viúva de Vladimir Herzog, jornalista preso e morto em uma cela do DOI-CODI em 1975. As Marias simbolizam a viúva do operário Manuel Fiel Filho e todas as mulheres de mortos e presos no Brasil - e tantas Marias há, como bem disse João Cabral em seu candente Morte e Vida Severina: “...deram então de me chamar Severino de Maria / Como há muitos Severinos com mães chamadas Maria / (...) fiquei sendo o Severino da Maria do Finado Zacarias”. Quando a razão se esgota na missão de compreender alguma coisa, a poesia ocupa o espaço e se faz presente em outro universo: o da sensibilidade, dos sentimentos mais profundos, da arte como expressão humana maior: dores e alegrias, figuras e fundos, sofrimentos e vazios, devaneios e angústias que a mente não consegue explicar.

(Veja)

“Mas sei / que uma dor assim pungente / não há de ser inutilmente / a esperança / Dança na corda bamba de sombrinha / e em cada passo dessa linha / pode se machucar”. Vivemos esta vida como a equilibrista na corda bamba, com sombrinha para não cair, passo a passo, correndo riscos, sabendo que a qualquer momento um aventureiro pode nos fechar na encruzilhada. Vivemos parte de nossa República sob regimes de força, exílios, desde os constitucionalistas de 1932 - entre os quais meu avô - aos de que tanto lembramos no pós-64 – todos num rabo de foguete, “que ninguém sabe o que seja”; só que foi ruim, muito ruim (que o diga minha mãe, outra Maria, que na mais tenra infância teve o pai tirado do convívio do lar, e suas irmãs, também Marias). Há o retorno, diz a história que sempre retorna, mas o importante é não partir, salvo se para conhecer lugares lindos, nunca para se entocar.


S
e a poesia do Aldir Blanc, que nos deixou sem avisar no dia 4 de maio de 2020, é uma ode à anistia, em 1968 Chico escreveu para Jobim a letra de Sabiá, de uma leveza enorme, um canto do exílio que teria sido dedicado a JK: “Vou voltar / sei que ainda vou voltar / para o meu lugar / Foi lá e é ainda lá / que eu hei de ouvir / uma sabiá”.

Uma parte risível mas incendiária dos brasileiros faz coro ao modismo radical dos piores momentos da história – por não a conhecerem, não a terem vivido ou por ligações com o instinto dos próprios repressores. Citando o grande Mário de Andrade, “reverendíssimas bestas”.