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sábado, 1 de junho de 2019

DAS MINAS GERAIS


“Sou do ouro, eu sou vocês / sou do mundo, sou Minas Gerais” (Para Lennon e Mc Cartney, de Brant, Márcio e Lô Borges) ecoou na voz do Milton Nascimento, em um dos pontos altos de sua carreira. Nascido em Três Pontas, sul de Minas, hoje com 57 mil habitantes, Milton ouviu da Elis Regina que o canto dele soava como a voz de Deus, de tão profunda. Um pouco mais para oeste daquela cidade, quase limite com a divisa de São Paulo, assenta-se Monte Santo de Minas, de onde à noite pode-se ver as luzinhas da paulista Mococa. Da zona cafeeira (do café ‘tipo A’, dizem), Monte Santo é uma aconchegante cidadezinha que em 2020 completa 200 anos. Terra do meu pai, o escritor Autran Dourado, diversos prêmios, entre eles Camões, Goethe e Grã-Cruz do Mérito Cultural, berço também de sua contemporânea Ruth Luz, musicista e autora dos hinos da cidade natal, e depois de Caconde e de Tatuí, de cujo Conservatório foi renomada professora. Monte Santo, terra também do ator Milton Gonçalves. Nomes bastante representativos para uma população atual de 21 mil.
Mestre Villani-Côrtes, cordial amigo
Entre outros cantores de Minas estão Ataulfo Alves, Altemar Dutra, Ana Carolina, Clara Nunes, João Bosco, Maria Alcina e Moacyr Franco. Instrumentistas, regentes, arranjadores e compositores não ficam a dever: meu amigo e baterista dos tempos de conjunto em Boston, o grande Pascoal Meirelles, Wagner Tiso, Geraldo Pereira, Carlos Prates, nosso querido amigo Villani-Côrtes, o imortal Lobo de Mesquita, puxando vai longe.
Pelé, um rei na corte tricordiana
Subindo no mapa, mais a leste, batem Três Corações, hoje com 78 mil habitantes. Entre seus ilustres cidadãos, uma lenda mundial chamada Pelé, o  escritor Godofredo Rangel (primeiro mentor do meu pai), o cineasta Braz Chediak e Carlos Luz, que,  por estar à frente da Câmara dos Deputados, em 1955 chegou à Presidência da República após um infarto de Café Filho, vice. Este havia assumido a vaga de Getúlio após o suicídio no Palácio do Catete, ocorrido no ano anterior. Luz ficou apenas 5 dias no cargo, logo derrubado pelo Marechal Henrique Lott, que conduziu a posse de Juscelino Kubitschek em 1956.
Juscelino viu a luz em Diamantina, “onde nasceu JK / que a princesa Leopoldina / arresolveu se casá” (Sergio Porto, 1968). A população atual da cidade é de 47 mil habitantes, e fica pouco ao norte de Belo Horizonte, capital (onde, sem maiores lustres, eu nasci). Somando Carlos Luz e JK, Minas produziu o maior número de presidentes da República: nove, ao todo, destacando-se também Afonso Pena, Artur Bernardes e Tancredo Neves.
Uma joia de beleza e cores, Ouro  Preto
Nas chamadas cidades históricas reside o coração do barroco e da música colonial brasileira: Sabará, a pouco mais de 15 minutos da capital, fundada em 1675 como Villa Allegre e Sorridente de Nossa Senhora do Ó de Sabarabuçu, e Villa Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, de 1652, ou simplesmente Ouro Preto, terra de enorme riqueza nos lendários tempos do garimpo do ouro e da arte, da música colonial, das esculturas do maior artista plástico de nosso barroco, juntamente com o pintor Mestre Ataíde, da vizinha Mariana: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Os profetas
De Aleijadinho são também obras de São João del Rei, ‘Cidade dos Sinos’, e Congonhas, ‘dos Profetas’, feliz sede do conjunto de esculturas em pedra sabão da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, tombado pela UNESCO em 1985 como patrimônio cultural da humanidade. Ouro Preto, de 1711, tem atualmente 54 mil habitantes e um enorme volume flutuante de turistas. Da região do ciclo do ouro, onde viveram os idealistas revolucionários da abortada Inconfidência Mineira, a cidade é Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1980.
O protesto bem-humorado do Henfil
Além de Aleijadinho e Ataíde, artistas plásticos mineiros não faltam até hoje: Bruno Mitre, de BH, Carlos Bracher, Juiz de Fora, e um grande nome contemporâneo, Maria Helena Andrés, de Entre Rios, prima da minha mãe. Yara Tupinambá é de Montes Claros (de quem tenho uma linda gravura que faz parte de um díptico com o poema Sabará, de Carlos Drummond de Andrade, por ele autografado: “A dois passos da cidade importante / a cidadezinha está calada, entrevada / (Atrás daquele morro com vergonha do trem)”. Um gênio da caricatura, Henfil, é de Ribeirão das Neves, e além de grande artista, que com sua pena e seus pincéis  foi um prócer da luta contra a ditadura, trabalhando ao lado de seu colega  de O Pasquim, Ziraldo, nascido em Caratinga.
Simplesmente Drummond (Revista Bula)
Carlos Drummond, ‘nosso poeta maior’ (título que rejeitava), nasceu em uma cidade a que dedicou um lindo poema que termina com estes versos: “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!” Entre escritores e poetas, além dele, meu pai e o já citado Godofredo Rangel, também são mineiros Guimarães Rosa, de Cordisburgo, Murilo Rubião, de Carmo, Henriqueta Lisboa, de Lambari, e Cláudio Manuel da Costa, de Mariana, amigo do Aleijadinho e simpatizante fiel dos inconfidentes. 
Otto, acervo o Globo
Minas também nos trouxe Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Resende, da frase cáustica que lhe foi atribuída por Nelson Rodrigues, “O mineiro só é solidário no câncer”. Fernando, Paulo, Otto e Hélio Pellegrino (os dois últimos quase nossos vizinhos, no Rio) eram assíduos nos colóquios com meu pai. Affonso Romano de Santana, de BH, autografou e mandou-me seu magnífico livro de arte intitulado Barroco, Alma do Brasil, além do amigo mais frequente nos aniversários de meus pais e outras festas, Silviano Santiago, escritor e ensaísta nascido em Formiga, cidade a que minha tia Maria Ângela (mineira, claro) se referia com o cacófato “em formiga abunda a pita”. A pita é uma planta cheirosa que, parece, realmente grassava naquelas glebas.
Sófocles (497 a.C. - 406 a.C.)
Mineiridade é espírito universal, com pitada trágica de Sófocles e Eurípides herdada via alguma descendência misteriosa. É assobiar de boca fechada como o Otto Lara, contar causos, ‘sentar de cocra’, enrolar ‘pito de páia’, tirar cavaco de madeira (como Os Carapinas do Nada, título de um livro do meu pai). Universal, tímido, simples e brasileiríssimo. Se o sonho um tanto ingênuo da Inconfidência tivesse tido força e conseguido lograr êxito, O Brasil já teria 230 anos de Independência, próximo dos americanos e franceses: uma República madura, e não a que temos hoje, com um século de atraso: castigada, trôpega e vacilante.

"Liberdade, ainda que tarde, ouve-se em redor da mesa./ E a bandeira já está viva, e sobe, na noite imensa. / E os seus tristes inventores já são réus — pois se atreveram

a falar em Liberdade (que ninguém sabe o que seja)"

(Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência, Romance XXIV)



sábado, 25 de maio de 2019

TRADUZIR: UM DISCRETO CONVITE À TRAIÇÃO


Dei de presente para minha filha Marta, que mora em Londres, um exemplar da tradução para o inglês de Ópera dos Mortos, do meu pai. Há três edições pelo mesmo tradutor, John M. Parker, sendo uma após o Prêmio Goethe de 1982 e duas anteriores: Peter Owen (1980), Taplinger (1981) e Hamlyn (1983). Não compreendi o porquê da não tradução literal, Opera of the Dead. Parece não haver outro livro ou filme que impeça, mas o tradutor optou por The Voices of the Dead (As Vozes dos Mortos), que caberia melhor em um thriller de terror.
Uma das capas é sóbria, só traz o título. A que escolhi é uma vaga remissão ao casarão de Rosalina, personagem central do romance. A terceira mostra uma ilustração antiga que lembra o Pão de Açúcar carioca, abraçando uma baía (um Debret ou Rugendas, não fosse o barco a vapor cruzando ao fundo). Mas tudo se passa em uma fictícia cidadezinha do interior mineiro, tal como a Monte Santo em que o pai viveu! Obra do capista ou do editor?
O texto da tradução tem vários equívocos, a exemplo desta frase no original em português: “...a gente viu como foi. Como por que aqueles relógios começaram a parar”, traduzida assim: ...we saw the other times how it happened, how and why those clocks began to stop”, desse jeito, quebrando o sentido e o frasear característico do autor. Diz assim a tradução “...nós vimos das outras vezes como aconteceu, como e por que aqueles relógios começaram a parar”. Esse ‘como’, sem o ponto antes e na tradução, indica ‘de que maneira’, uma conjunção, e, no original, é ‘a exemplo de’, advérbio. 
Os títulos dos capítulos também dão suas escorregadelas: Rosalina’s Song, para Cantiga de Rosalina. Cantiga remete a um cântico monofônico (de uma voz apenas) que vem desde a Idade Média, e aqui intimista à mineira: cantarolando. Assim como a escrita do meu pai, a cantiga é introspectiva e não uma canção no sentido genérico de song, voz com acompanhamento, ou um Lied  romântico alemão. Mas não vou fixar-me apenas nesta tradução (e menos ainda fazer um elogio à traição, pensando no adágio italiano tradutore, traditore).
Meu pai, em trabalho de 1987 escrito a quatro mãos com minha mãe (professora de francês), traduziu La Légende de Saint Julien l’Hospitalier, de Gustave Flaubert (1821-1880). Em Notas à Margem de uma Tradução, ele cita o próprio autor, via Maxime Du Camps: “... o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua e que as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia”. Essas pequenas subversões, quando a bem da fluidez do texto, são benéficas. A escrita deve se submeter à harmonia, pensando em Flaubert, e não às impositivas regras gramaticais. Quando cabível, porém, a tradução exata é muito melhor, como nos outros casos que relatarei aqui.
O norte-americano Benjamin Moser escreveu, sobre Clarice Lispector, em 2009, Why this World (Por que Este Mundo). Uma pergunta sem interrogação, sem esperar resposta. Traduziu-o para o português em 2011 e, tal como aconteceu com Ópera dos Mortos, pecando já no título: Clarice, uma Biografia. Serviria para um jogador de futebol, cantor popular, algo assim. Mas não é Clarice. A capa do original, em inglês – a biografada com o rosto coberto pelas mãos, sob o título Why this World -, nessa tradução banaliza a personalidade complexa da escritora, mais chegada a Nietzsche, Schopenhauer e Kafka.
The Cloud of Unknowing, de um monge beneditino anônimo do séc. 13, eu traduziria para A Nuvem do Desconhecimento, de maneira fiel ao título. São textos e exercícios espirituais, um livro que me foi dado por um primo, frade dominicano. Li pausadamente no original, ensaiando exercitar-me como os monges beneditinos da época, em busca da contemplação, prática não muito diferente da de outros monges, como os do Tibet. Ou aquela que Cristo mencionou, segundo Lucas (10:38-40), “Maria escolheu a parte certa, que dela nunca será tirada”: a contemplação divina. Mas o título A Nuvem do Desconhecimento, em português, virou A Nuvem do Não Saber! (‘Desconhecimento’ e ‘não saber’ são coisas diferentes. ‘Unknown’ é exatamente desconhecido, diferente de ‘não sabido’, ‘not known’, mais afeito ao nosso jargão policial: ‘o suspeito está em Lins’ – Lugar Incerto e Não Sabido). Mera sutileza? Em português pode ser que sim.
Um amargo depoimento de William Styron (de A Escolha de Sofia), trata da depressão, passa pelo estágio da internação psiquiátrica e o ímpeto do suicídio. Mas Darkness Visible (Escuridão Visível) chegou a nós como Perto das Trevas, de sentido bastante diferente.
Muita gente compra livro pelo título, e em geral leva gato por lebre (raríssimas vezes lebre por gato). A capa, nos dias de hoje, tem importância enorme na venda, embora em algumas grandes publicações elas sejam sóbrias e não-ilustradas. A liberdade gramatical e das regras de que falou Flaubert se aplica ao escritor e, de carona, ao tradutor, quando o interpreta e revela a ideia original, sendo-lhe fiel. Contudo, não há que se fugir como regra do bom e velho literal, que às vezes pode ser a melhor fidelidade.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

FALSIDADE


Baiana, da poeta Cecília Meireles
O sambista Geraldo Pereira foi assassinado na boêmia Lapa carioca com um soco no fígado desferido pelo lendário Madame Satã, um travesti de shows da noite e de pouca e azeda conversa, bom de briga. Pereira foi o criador do chamado samba do telecoteco, letras cheias de sílabas às vezes difíceis de serem encaixadas no ritmo sincopado. Influência nordestina, coisa de embolada, embora tenha nascido em Minas. Mais comedido na prosódia é o samba Falsa Baiana (1944), brincadeira sobre a mulher de um amigo, para lá de desajeitada na fantasia de balangandãs, brincos de argola e turbante, em plena segunda de carnaval: “A falsa baiana quando entra no samba / ninguém se incomoda / ninguém bate palma / 

ninguém abre a roda / ninguém grita oba oba / salve a Bahia, senhor do Bonfim / (...) mas a gente sabe quando uma baiana samba direitinho / e mexe e remexe, revira os óinho / dizendo eu sou filha de São Salvador”. A falsa baiana do amigo inspirou esses versos que fizeram sucesso até décadas após, na crista a Gal Costa. Caetano aproveitou a deixa de Pereira e saiu-se com A Verdadeira Baiana: “sabe ser salsa / valsa e samba quando quer...”

Bolero (Hipsonfire)
O falso, para Aldir Blanc, letrista de João Bosco, é o charme discreto do ‘brega-kitsch’ da moça que, tirada para dançar, fez o coração traiçoeiro do rapaz bater “mais que o bongô”, ela sussurrando-lhe ao pé do ouvido os passos da dança, “são dois pra lá, dois pra cá”. Um lindo bolerão, daqueles de maracas e tudo, gravado magistralmente em LP de Elis Regina, em 1974: “No dedo um falso brilhante / brincos iguais ao colar / e a ponta de um torturante / bandeide no calcanhar”. Com direito a observar o beberico ‘social’ da moça, que escondia o gosto amargo de   whisky no falso doce do guaraná. Décadas depois veio o roqueado Falso Samba, do grupo Cainã, que canta a moça de falseio sedutor: “já disse o seu nome e você nem percebeu / que a sua falsidade afeta tolos como eu”. Faz o trocadilho, “a sua falsa idade / pra mim já deu”, e se despede, “bye, bye”.
Os doutos homens da lei que me corrijam, mas o falso testemunho, no Brasil, é chamado perjúrio, coisa para lá de comum. O cidadão que se cala – ‘só falo em juízo’ – em um inquérito policial tem esse direito (faz eco à famosa 5ª emenda americana, o direito de permanecer calado até julgamento). Mas se o meliante falou, depois talvez de algum ‘telefone’ na frente de uma câmera de TV. Instruído, logo vai negar tudo perante a autoridade judiciária, dizendo que bateu com a língua nos dentes sob coação. Mais diretos, alguns países da tradição greco-romana, como Itália e França, proíbem suspeitos de serem ouvidos sob juramento. Assim não cometem perjúrio, independentemente do que venham a dizer durante o processo.
Entre nós também é criminalizada a falsidade ideológica, descrita no Art. 299 do Código Penal. Trata-se de quando o cidadão omite, “em documento público ou particular, declaração que dele deveria constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante”. E existe a ‘falsa carteirada’, o malandro que se apresenta como autoridade para tirar proveito, ou simplesmente faz-se passar por outra pessoa para obter vantagem. Se para isso empregar um documento falso, ai, ai, a casa cai mesmo.
Diferentemente do Brasil, nos países cujo direito é dito anglo-saxão, a exemplo dos EUA e Reino Unido, perjúrio seria a falsa declaração sob juramento, seja verbalmente ou por escrito. Não é crime de perjúrio mentir sobre a própria idade ou de terceiro, salvo se o ato influenciar um resultado legal, como antecipar uma aposentadoria, entre outros.
Eu mesmo senti na pele o rigor desse tipo de juramento. Quando recebi meu visto permanente nos EUA  passei pela experiência (era o chamado green card, hoje cinza mas ainda dito verde). Mão sobre a Bíblia, a outra erguida e espalmada, fui interrogado por uma oficial. Uma série de perguntas sobre se já tive qualquer ligação com o tráfico ou a guerrilha, várias coisas do tipo. Não sem antes ser avisado do rigor da pena caso mentisse sob juramento.
Já em locais e países de mais longa tradição, como Queensbury, o 2° maior estado da Austrália, federação criada 1901 mas ainda parte do Commonwealth ao Reino Unido, a lei é mais radical: o crime de perjúrio pode levar à pena máxima, reclusão perpétua.
É cada vez mais comum alguém ou a imprensa apontar dados falsos inseridos no currículo de um cidadão, títulos que o ilustre nunca teve, mestrados e doutorados que nunca fez, e, em alguns casos, até certificados nebulosos, como aqueles obtidos na Internet em sites que vendem todos os tipos de fake certificates de escolas e universidades, existentes ou não. Aí a coisa complica. O cidadão pouco conhecido no meio torna-se expert em assunto que mal conhece, mas a ‘falsa baiana’ acadêmica volta e meia acaba sendo descoberta, e se fizer o autor cair no ridículo já está muito bom, já que pode levá-lo à desgraça e execração em sua comunidade, virar notícia e meme de redes sociais, fazendo o autor da falseta carregar a tatuagem de vigarista o resto de sua vida.
[Disse Shakespeare, em All’s Well that Ends Well (Tudo vai bem quando termina bem): “Ele afirma não manter juramentos, para quebra-los é mais forte do que Hércules. (...) Tem tudo o que um homem honesto não deve ter, e nada do que um homem honesto deveria ter”. (Trad. Livre do A.)]

sábado, 18 de maio de 2019

A CULTURA, A CIVILIZAÇÃO, ELAS QUE SE DANEM OU NÃO

Gil (Varela Noticias)

Com essa provocação musical logo nos primeiros versos, Gilberto Gil compôs Cultura e Civilização com fina ironia: “somente me interessam / contanto que me deixem / meu licor de jenipapo / o papo / das nites de São João”. Orgulhoso de sua terra, a Bahia, das coisas mundanas e simples, traz a reflexão conceitual típica de suas músicas. Em frente, torna ainda mais clara sua ótica: “somente me interessam (...) / contanto que me deixem / ficar com a minha vida na mão”. O poeta afirma necessitar de pouco, seu jenipapo, seu coentro, viver a vida lhe bastam.
Pensemos a Cultura tomando, por um lado, a definição clara e simples da ASA (Associação Sociológica Americana): “linguagens, costumes, crenças, regras, arte, conhecimento, identidades coletivas e memórias desenvolvidas por membros de todos os grupos sociais que fazem seus ambientes em sociedade terem um significado. Narrativas sociais, ideologias, práticas, gostos, valores e normas” (Trad.do A.) Por outro, o teórico, esteta e filósofo marxista húngaro Gyorgy Lukács (1885-1971), em sua ponta – saudável ver duas abordagens -, agregava Cultura a valores essenciais para sua filosofia, a par da luta de classes e, consequentemente, rumo ao socialismo revolucionário. Seja qual for a abordagem do assunto, no caso um técnico e outro impregnado de ideologia, percebe-se a real dimensão da Cultura entre nós.
Woodstock: 50 anos
Convido o leitor a uma breve digressão. A Cultura é de tamanha importância que podemos entendê-la como algo imenso, que engloba a Educação, entre outros pilares de uma sociedade. Razão para discordar do mote ora em voga “Cultura é Educação”, para, ao contrário, compreender Educação como fazendo parte do conceito mais amplo de Cultura. Percebemos isso em poucos períodos, talvez com Pedro II, os projetos de Villa-Lobos e um pouco com JK. Fora tentativas espontâneas isoladas, como a eclosão da revolução cultural do Ocidente, a partir de 1968, um caldo universalista que durou quase duas décadas, apesar da violenta censura no Brasil e outros países da América Latina na época - caldo universal este fervilhante em criação, crítica e renovação, que transformou os rumos e costumes de uma juventude mundialmente decepcionada com o seu presente.
O binômio Cultura e Civilização traz certa sinonímia entre uma e outra palavra, entrelaçam-se de modo a nunca terem seus pontos desfeitos, estão enraizadas de modo tão profundo que nem o mais potente dos tratores que devastam florestas pode arrancá-las. O leitor deve ter se perguntado sobre a música do Gil como introdução a este artigo. Bom, não sei se o tema lembrou-me da poesia ou se foi a letra que me trouxe a ideia, possivelmente  uma e outra tenham emergido do meu subconsciente devido ao estímulo de fatos noticiados recentemente, o que não raro acontece.
UFRJ: colapso (Hora do Povo)
Especialistas observam essas questões via óticas as mais diversas, como as sociológicas, antropológicas, estéticas, históricas, artísticas, psicanalíticas ou pedagógicas. Todas na alça de mira do obscurantismo que corre solto. E é exatamente disso que falo: quando a Cultura é relegada a um plano inferior e praticamente esquecida, arrasta para baixo o fio da história, a linha evolutiva da Civilização e, em particular no Brasil, soterra na vala comum uma de suas musas prediletas, a Educação. De forma direta, cortes na Cultura e na Educação têm sido a tendência nos países onde elas se tornam débeis por indesejáveis, e, de forma mais acentuada, no Brasil, em todas as esferas e instâncias. Se a pesquisa de qualidade da Capes foi inviabilizada, algumas universidades podem ser a bola da vez, a exemplo do corte profundo na modelar UFRJ, que viu seu orçamento cair, em valores atualizados, de 582 milhões, em 2014, para 361 milhões, em 2019 – quase 38% de perda!
Hospital Universitário  da USP  (Correio Popular)
Além da missão precípua das universidades públicas atingidas, perde também a insubstituível pesquisa criadora de novas vacinas, novas drogas e métodos de cura, descobertas na aplicação de novos materiais, energia, meio ambiente e preservação das riquezas naturais, além de nossa própria história em si. Do lado prático, afetam igualmente ou sustam atendimentos hospitalares, de urgência, psicológicos, odontológicos, veterinários, bibliotecas, museus, e, claro, as artes e a produção de Cultura, em geral. Pior ainda, puxam consigo as escolas de primeiro e segundo graus, tornando inevitável o surgimento de gerações condenadas à fraqueza de conhecimento, forçada a se compromissar com o analfabetismo político. Dane-se a polis, o país.
Bertold Brecht
Cito, e é mais do que oportuno, o dramaturgo Bertold Brecht (1898-1956), em seu lapidar O Analfabeto Político: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. (...) Da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, o político vigarista, pilantra, corrupto”.
Educação e a Cultura sufocadas e sem perspectivas lobotomizam cérebros pensantes. O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que viveu no Brasil por três anos, observou, a partir das culturas indígenas, o sentido de progresso e Civilização modernos (Tristes Trópicos, 1955). Pelo andar da carruagem, prezado Gil, ficaremos no coentro, no jenipapo, levando a vida e dizendo ‘a Cultura, a Civilização, elas que se danem’! Ou nãoʔ
O milagroso e adorado jenipapo


sábado, 11 de maio de 2019

"ACERTEI NO MILHAR!"


(Ou A Teoria da Probabilidade e a Reforma da Previdência)

Geraldo Pereira e Wilson Batista
Samba de Wilson Batista e Geraldo Pereira (1940), narra o sonho de um acertador do prêmio maior do ‘bicho’, e tudo o que poderia comprar como milionário. Eu, raro jogar qualquer coisa, nem rifa de quermesse ganhei, mas a Mega Sena acumulou 170 milhões... Não desejei essa quantia absurda, talvez só uma pequena fatia nesses bolões feitos por computador. Apostei pela Internet em um site confiável  recomendado. Perdi. Também é um 'jogo de azar'.
Loteria Esportiva: "teste" nº 254
Desde a primeira loteria esportiva avisam: teste número ‘n’. Claro, o jogo no Brasil é ilegal. Seria, mas aposta-se de tudo, além das loterias e mega senas: time, eleição, e, até ouvi dizer, quem do grupo vai morrer primeiro (o infeliz perde a vida e o dinheiro). Cassinos ocultam-se em bairros nobres como o Morumbi paulistano. Joga-se bingo, pôquer e bridge a dinheiro em muitos clubes, nas elegantes casas de bingo, e porrinha nas ruas. Nas praças e ruas, há os prestidigitadores de moedas com forminhas de empada sobre caixotes arrancando dinheiro de curiosos.
A  alucinante Las Vegas
Pela Internet, joga-se em cassinos como os de Las Vegas, é só ter ‘estofo’ lá fora e um belo cartão de crédito. Já na Austrália, 80% da população adulta é jogadora, número preocupante. Uma operadora de certa linha aérea australiana contou-me de voos fretados por brasileiros riquíssimos para apostar em cassinos daquele país. Nos EUA, é enorme a jogatina, de caça-níqueis a bacará, um jogo de cartas controlado por um crupiê esperto e ligeiro. Sem falar na roleta, atração maior até para quem nunca jogou na vida. Basta apostar, pagar, e, quase sempre, perder tudo.
"Em outras palavras, quando você joga um dado  o número que provavelmente virá  depende daquele que você acaba de jogar. Não será completamente ao acaso" (trad. livre do A.)
Há grupos como o MIT Blackjack (‘vinte e um’) Team, do Massachusetts Institute of Technology. Alguns especialistas têm a matemática como parceira, como  dois professores de uma universidade americana que começaram a fazer dinheiro nas roletas, baseando-se na teoria da probabilidade, que vem sendo amadurecida desde Blaise Pascal (séc. 17). Na roleta há diversos tipos de apostas, e as preferidas pelos matemáticos são as mais simples, chance de 50% na primeira jogada: preto ou vermelho, maior ou menor, par ou ímpar.
Se ao apostar em uma dessas opções na primeira vez der azar, a chance de perder novamente já é um pouco menor. Na terceira vez, é ainda mais fácil vingar a mesma escolha. Quatro derrotas seguidas indicam que é hora de jogar pesado. Mas se perder uma quinta vez, multiplica-se a aposta para, quase fatalmente, cacifarem altas somas, ante o desespero dos cassinos. Claro, há teorias com variações diversas sobre o assunto. Segundo estudiosos, elas seriam a Bayesana, mais 'científica' (penso que meio positivista), e a clássica - é claro, rivais.
Há muito anos, resolvi testar a coisa. Perto de casa, em São Paulo, conheci o Mané, ‘corretor zoológico’ (ironia para ‘apontador de jogo’). Simpático, sempre de terno e uma bíblia na mão, emprestou-me seu caderno de resultados. Resolvi jogar nos grupos, que vão de 1 a 25 e levam nomes de animais: do 1, avestruz (grupo 1, 2, 3 e 4), ao 25, vaca (97, 98, 99 e 00). Copiadas as páginas do caderno, escolhi o macaco, que não ganhava há 17 dias. Jogava sempre no mesmo horário, mesma central, e aposta gorda; se falhasse, dobrava a mesma aposta e ainda adicionaria um ‘plus’ pela perda anterior. Falhando, repetiria uma, duas, três vezes, e logo dava.
O cantinho do apontador,  bem à vista
O ‘xerife’ geral da região pediu ao Mané que lhe telefonasse sempre, logo após eu jogar, para que ele pudesse repetir a minha aposta, ‘descarregando’ o prêmio. Na ganância, acrescentei um segundo bicho azarão, depois um terceiro, e com três passei a ganhar com muita frequência. O ‘banqueiro’, para dificultar, resolveu não aceitar mais meus cheques e passei a apostar em dinheiro. Apesar do lucro enorme, aquilo já se tornava um vício, e para não perder o dinheiro empatado passei a não escolher novo bicho a cada acerto até zerar tudo, no lucro.
Há jogo do bicho em todo o país, provavelmente em todas as cidades. Bares, lojas de fachada, ou abertamente nas calçadas, como no Rio, de resultados pendurados, o “deu no poste”. É hipocrisia pura fingir que não existe o que todo mundo vê, sabe-se até onde se faz aposta.  Por isso mesmo, há um projeto para liberação do jogo tramitando no Senado desde 2014.
O Barão de Drummond
O Jogo do Bicho foi criado em 1892 pelo Barão de Drummond, hoje nome de praça na Vila Isabel carioca. Seu zoológico estava deficitário, daí ele ter inventado uma roleta com as figuras dos 25 bichos, para ajudar no sustento da ‘prole’. A prática desse jogo sempre foi muito popular, pois o sujeito que faz sua ‘fezinha’, em geral humilde, aposta o trocado que puder, e ainda escolhe os números de sua preferência. (Costumam apostar em sonhos, há até livros sobre as relações entre devaneios e os bichos!) Em 1946, o presidente Dutra proibiu todos os jogos de azar no país. Diziam que a esposa dele era jogadora compulsiva, apostava e perdia muito. Mais uma vez, o país dobrou-se diante dos problemas familiares de um governante. 
O imponente Teatro do Cassino da Urca
Cassinos da Urca, Copacabana Palace, Quitandinha de Petrópolis e tantos outros foram lacrados, forçando uma bruta queda no ingresso de recursos no comércio e no Tesouro. Foram 55 mil desempregados (seriam 270 mil, com a população de hoje), entre eles mais de 2.000 artistas (hoje 10 mil, o país em 1946 tinha só 41 milhões de habitantes!). Pixinguinha, Carmen Miranda, orquestras como a do Severino Araújo, legiões deles se projetaram nos cassinos.
Prisão da "casta" do jogo do bicho no Rio, em 1993:
Juíza Denise Frossard. 
Não jogo, talvez uma Mega Sena bissexta, no bicho nunca. Mas que imensidão de impostos seriam recolhidos com a legalização do que existe de fato (e hoje engorda os cofres dos chefões do crime)! Bicho, jogos e cassinos salvariam o povo da ‘derrama’ cada vez maior de impostos e ‘contribuições’, fora um número fabuloso de empregos diretos e indiretos! Nos EUA, em 2012, o jogo (sem contar a arrecadação também bilionária das loterias) proporciona emprego direto a 120.000 pessoas, sem contar empregos e benefícios indiretos, como turismo e serviços. Chegou a pagar ao Tesouro, naquele ano, US$ 574 bilhões (atualizados), ou R$ 2 trilhões, 267 bilhões em impostos. Em um ano, mais do que o dobro do que se pretende obter aqui com a reforma da Previdência em dez anos!

Arrecadação do jogo nos EUA (fora as milionárias loterias): US$ 564 bilhões, ou R$ 2.216.520.000:


sábado, 27 de abril de 2019

A MÚSICA DOS MEUS PRIMITIVOS MODERNISTAS

O  jardim "do seo Francisco"

Francisco de Souza mora em Petrópolis. Negro, magro, idade não sabida, jardineiro por profissão. Caprichoso, cuidava do jardim da casa dos meus pais e de outras no entorno do bairro. Perfeccionista, apegava-se ao trabalho com carinho, mas talvez antes de jardineiro fosse verdadeiro artista. Depois que meus pais se foram, a casa foi vendida e Francisco não quis saber de continuar, desistiu. Talvez até da pintura, sua vocação nas horas de descanso.
Uma de suas telas, de 60 x 40cm em tinta acrílica, adorna a entrada da minha casa. É um assombro. Primitivista? Talvez, mas certo surrealismo não é estudado, saía de dentro dele naturalmente. No quadro, descrevia o jardim do jeito que o via: plantas e flores enormes, maiores algumas vezes do que as pessoas (insignificantes diante do poder da natureza que ele conhecia). No canto esquerdo, a pequena figura de um clarinetista sentado sobre uma raiz. Ainda menor, perto dele, um violinista que lembra um duende sentado dentro de uma vagem seca de fava. Ao centro, diminuta, uma flautista, e à direita dela, um homem toca um enorme violão na vertical exatamente como eu segurava o contrabaixo. Surrealista? Mas com certeza nunca ouviu de Salvador Dali, Max Ernst ou Joan Miró. Surreais em Francisco eram os olhos com que ele via a natureza, imponente, poderosa e plena de mistérios e fantasias.
Eu lecionava na ECA/USP quando conheci Jonas, um porteiro do prédio central. Certo dia, descobri que ele também cultivava o hábito de pintar. Encomendei-lhe uma tela que retratasse um violoncelista. Quando a vi, fiquei fascinado com a paisagem campestre, um céu bem azul encimando o verde, pinceladas de certo sotaque francês. Mais à frente, uma cerca baixa a separar essa visão pastoral de um estranho violoncelista e seu instrumento, meio que se apoiando sobre o joelho direito. Pernas e braços avantajados e algo distorcidos, de longe me remete ao magnífico Abaporu, da Tarsila do Amaral, mas não imagino que Jonas tenha visto alguma reprodução da obra-prima modernista em algum lugar. O braço direito e o arco descrevem uma curva, quase um grande finale à maneira do virtuose Mstislav Rostropovich (este tenho certeza de que ele não conhecia. Ou penso eu que não). No canto, assinou ADJonas, sem data, presumo que por volta de 1996.
Tanto gostei que lhe pedi outra obra, sugeri que fosse mais uma vez sobre um violoncelo. Prazo falado, prazo cumprido, e lá estava meu outro instrumentista, de incrível semelhança com o primeiro, até na cabeça, abaixada e em proporção menor em relação ao resto do corpo, parece que em súplica e submissão (à natureza, tal como Francisco). Só que agora essa versão basicamente transforma a paisagem campestre em ondas do mar que, músico ao centro, se derrama sobre um piso quadriculado, azulejos cor de tijolo e azul. À direita do violoncelista, as ondas avançavam mais do que as do lado esquerdo, num deslocamento curioso sobre onde que deveria ser areia, uma espécie de tabuleiro bem à maneira da op-art (Arte Óptica), lembrando o húngaro Victor Vasarelli. A água do mar tem o músico como seu Moisés, divide-se e faz dele seu costado para rebentação. Essas obras preciosas de Jonas merecem estar vizinhas, e o lugar ideal, pensei, seria a escada de madeira que leva ao mezanino. A subida é uma promenade, um passeio como o de Viktor Hatmann em Quadros em uma Exposição, descrito musicalmente por Mussorgsky.

Henrique Boliani, figura querida, também era porteiro, mas na Escola Municipal de Música do Theatro Municipal de São Paulo (fundada em 1969), onde fui diretor. Apesar de às vezes resmungão e ranheta, escusável por difíceis problemas familiares, era sempre amigo, era o meu faz-tudo em casa, nas horas vagas. Descobri que também tinha um grande talento como artista plástico: sobre um antigo LP, bolachão de baquelita de 78 rpm, pintou-me tocando um violino que eu não tocava, baseou-se em uma foto de uma matéria do Estadão em que posei a pedido do repórter, instrumento ao ombro.
Boliani pintou para mim a obra-prima que terminou virando capa do meu livro O Arco (Ed. Vitale), escrito a partir de minha tese de doutorado na USP. Toque cubista, cores fortes, expressava talvez músicos que costumava ver pela escola. Uma obra tão bela que o profissional que fotografou a capa do livro teve medo de leva-la para o estúdio, poderia até ser roubado, disse. As cores fortes em manchas no violoncelo se repetem no fundo, projetando-o para a frente em plano. Assina HBoliani, data pouco clara.
Henri Rousseau
Ora, falei de um jardineiro e dois porteiros fazendo o que se chama arte naïve, embora de ingênuo neles eu não veja nada. Nem primitivistas, coisa mais para os flamengos, os italianos do século 15, ou o autodidata Henri Rousseau, do séc. 19. Ou espontâneos como Van Gogh. Mas quando a pintura tem uma história por trás, como as minhas, há um valor intrínseco, inestimável por quem a possui.